O
que aconteceu nos países em que os EUA intervieram militarmente no Oriente
Médio e na África nas últimas décadas
Os Estados Unidos voltaram à guerra no
Oriente Médio,
uma região com longo histórico de intervenções militares dos EUA, muitas delas
com resultados questionáveis.
O
ataque lançado em 28 de fevereiro contra o Irã matou o líder supremo do país, o
aiatolá Ali Khamenei,
um dos alvos do presidente americano, Donald Trump, que pretende acabar com
o programa nuclear iraniano e provocar uma
mudança de regime na República Islâmica.
Trump
não é o primeiro presidente americano a intervir na região.
Seus
antecessores, George Bush (pai e filho) e Barack Obama (2009-2017), já haviam
intervido na região, derrubando Saddam Hussein no Iraque ou Muamar Gaddafi na Líbia, autocratas cuja
queda não trouxe democracia ou liberdade a seus países, mas um período de
guerra civil e instabilidade que dura até hoje.
Na
Síria, os EUA ajudaram a derrotar o autodenominado Estado Islâmico, mas, após a
queda de Bashar al-Assad em 2024, outros
grupos islamistas tomaram o poder sem participação direta americana.
Enquanto
isso, no Afeganistão, o regime do Talebã voltou ao poder em
2021, após quase duas décadas de intervenção americana no país.
Em um
artigo famoso de 2015, Philip Gordon, diplomata e assessor de segurança durante
o governo Obama, resumiu assim as intervenções dos EUA na região:
"No
Iraque, os EUA intervieram e ocuparam o país, e o resultado foi um desastre
muito caro. Na Líbia, os EUA intervieram, mas não ocuparam o país, e o
resultado foi um desastre muito caro. Na Síria, os EUA não intervieram nem
ocuparam o país, e o resultado é um desastre muito caro."
Caro
não apenas para os próprios EUA, mas para toda a região, afirmam os
especialistas.
"A
instabilidade na região se deve em grande parte às intervenções externas",
explicou Ibrahim Awad, professor de Assuntos Globais da Universidade Americana
do Cairo, no Egito, à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.
Embora
Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria e Iêmen fossem países
com graves problemas de governança ou regimes autoritários, esses não eram
problemas que, na opinião de Awad, "pudessem ser resolvidos por uma
intervenção estrangeira".
Nas
últimas décadas, os EUA intervieram militarmente em vários países do Oriente
Médio e do norte da África, às vezes como principal ator e outras com um papel
mais limitado ou como parte de uma coalizão mais ampla.
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Relembramos aqui as principais.
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Iraque (1991 e 2003–2011)
Nas
últimas décadas, os EUA realizaram várias intervenções militares no Iraque.
Quando
o país, liderado por Saddam Hussein (1937-2006), invadiu o Kuwait em 1990 para
assumir o controle de seus recursos petrolíferos e fortalecer sua posição
regional, uma coalizão militar liderada pelos EUA e apoiada pela Organização
das Nações Unidas (ONU) mobilizou sua enorme superioridade militar na chamada
Operação Tempestade no Deserto.
Com uma
intensa campanha aérea e uma rápida intervenção terrestre, a coalizão conseguiu
libertar o Kuwait e expulsar os iraquianos em poucas semanas.
Hussein
permaneceu no poder, mas o país passou a enfrentar sanções e um período de
instabilidade interna que aumentou tensões sectárias.
A
operação foi considerada um sucesso militar que restabeleceu o direito
internacional.
Por ter
sido a primeira após a queda do Muro de Berlim (1989) e o fim da Guerra Fria
(1991), a Guerra do Golfo (1990-1991) também inaugurou uma nova era de
intervenções militares dos EUA, estabelecendo uma ordem mundial em que os EUA
não tinham rival.
Em
2003, outra coalizão liderada pelos EUA e pelo Reino Unido invadiu o Iraque
alegando que o regime possuía armas de destruição em massa e tinha vínculos com
o terrorismo internacional. Essas armas nunca foram encontradas.
A
coalizão chegou a Bagdá, capital do Iraque, em poucas semanas, e Saddam Hussein foi capturado e executado.
No
entanto, o país mergulhou em uma profunda crise de violência, alimentada pela
insurgência, pela disputa sectária entre sunitas, xiitas e curdos e pelo
surgimento de grupos extremistas que levaram à criação do autoproclamado Estado
Islâmico,
que entre 2014 e 2015 chegou a controlar um terço do território do Iraque e
metade do da Síria.
A falta
de um plano sólido para o período após a invasão, somado a erros estratégicos
como o desmantelamento do Exército e das forças de segurança iraquianas, que
deixou milhares de homens armados desempregados, muitos dos quais se juntaram à
insurgência, contribuiu para a instabilidade que ainda afeta o país.
Segundo
o projeto Iraq Body Count, que registra as mortes no país desde 2003, pelo
menos 300 mil pessoas morreram, entre civis e combatentes, como consequência
direta da violência. Outras organizações consideram que o número é ainda maior.
A
intervenção dos EUA "resultou em uma fragmentação do Iraque em linhas
comunitárias, que negam um sistema político democrático, moderno e laico, e em
uma guerra civil na qual centenas de milhares perderam a vida e na qual
surgiram organizações como o ISIS (Estado Islâmico)", resume Awad, da
Universidade Americana do Cairo.
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Afeganistão
Em
2001, os EUA lançaram no Afeganistão, em coalizão com outros países membros da
Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a Operação Liberdade
Duradoura contra o regime do Talebã.
Os EUA
decidiram invadir depois que esse movimento fundamentalista islâmico, que havia
assumido o controle do país em 1996, se recusou a entregar Osama bin Laden,
líder do grupo Al Qaeda responsável pelos ataques de 11 de Setembro contra as
torres gêmeas de Nova York e o Pentágono.
A
intervenção derrubou o regime comandado pelo Talebã em poucas semanas e
instalou um novo governo apoiado pela comunidade internacional, mas isso não
pôs fim à guerra.
O
conflito se prolongou por mais de duas décadas porque membros do Talebã, longe
de desaparecer, conseguiram se reorganizar e continuar combatendo as tropas dos
EUA e da Otan.
Em
2020, com muito território já perdido, os EUA negociaram com lideranças do
Talebã sua retirada do país, iniciada em maio do ano seguinte e acelerada após
a tomada de Cabul, capital do
Afeganistão, pelos islamistas em agosto de 2021.
A
guerra no Iraque, iniciada em 2003, desviou muita atenção e recursos militares
americanos do Afeganistão.
Além
disso, o objetivo principal passou de combater a Al Qaeda para um projeto de
"construção nacional", para o qual, como também ocorreu no Iraque, a
intervenção não tinha uma estratégia clara nem consenso sobre como realizá-lo.
O novo
exército e a força policial criados após a queda do regime então comandado pelo
Talebã eram muito frágeis e dependiam do financiamento e do apoio das forças
ocidentais. Por isso, colapsaram rapidamente quando essas forças se retiraram e
não conseguiram conter o avanço dos fundamentalistas, que voltaram o poder.
Mais de
176 mil pessoas morreram (entre civis, militares afegãos, combatentes do Talebã
e tropas ocidentais) como resultado direto dos 20 anos de intervenção americana
e da violência ligada a esse conflito, segundo o projeto Costs of War, da
Universidade Brown, dos EUA.
Esse
cálculo não inclui mortes por doenças ou fome relacionadas à instabilidade,
que, segundo outras estimativas, seriam ainda maiores.
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Líbia
O então
líder da Líbia Muamar Gaddafi foi outro ditador derrubado após uma intervenção
militar da qual os EUA participaram em 2011.
Sua
queda ocorreu no contexto da Primavera Árabe, quando protestos
populares contra o regime que Gaddafi liderava com mão de ferro desde 1969
foram reprimidos com violência.
Isso
desencadeou um conflito entre as forças do regime e grupos rebeldes, que se
espalhou por todo o país.
Em
resposta, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma zona de exclusão aérea e
os EUA se uniram a uma coalizão, que também incluía aliados da Otan como Reino
Unido e França, para ajudar os rebeldes, proteger a população civil e
bombardear tropas do regime.
Os
rebeldes conseguiram tomar Trípoli, capital da Líbia, e capturar e depois matar
Gaddafi em outubro de 2011. Mas, como ocorreu no Afeganistão e no Iraque, o
conflito não terminou ali.
A queda
de Gaddafi deixou um vazio de poder para o qual a coalizão não tinha uma
solução. Também facilitou o surgimento de vários grupos armados e milícias,
incluindo grupos extremistas como o Estado Islâmico.
As
tropas internacionais, que não queriam uma nova intervenção longa e custosa,
encerraram as operações de combate após a morte do ditador e passaram apenas a
oferecer apoio e treinamento, com ataques aéreos pontuais contra extremistas.
Para
Awad, da Universidade Americana do Cairo, a intervenção na Líbia foi feita
"sem qualquer plano para governar o país, o que também resultou em
conflito interno", e com sérias repercussões econômicas, porque a Líbia
era um país exportador de petróleo e receptor de migrantes.
Hoje, o
país segue dividido e instável, com um Governo de Unidade Nacional em Trípoli,
reconhecido internacionalmente, mas sem controle total do território,
fragmentado entre diferentes estruturas de poder.
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Síria
A Síria
também foi sacudida pela Primavera Árabe, a onda de protestos populares que
buscava democracia e o fim de regimes autoritários em vários países árabes em
2011.
O
regime de Bashar al-Assad reprimiu protestos pacíficos com violência,
desencadeando uma guerra civil que durou mais
de 15 anos e que, apesar da queda do regime, ainda não terminou.
O
conflito se transformou em uma guerra complexa com atores internos e externos.
Uma
constelação de grupos distintos, como milícias aliadas do regime, rebeldes
moderados, forças curdas e grupos fundamentalistas islâmicos como a Al Qaeda e
o Estado Islâmico, disputaram o território, mudando constantemente o mapa de
poder do país.
Mas
eles não estavam sozinhos: Rússia e Irã apoiaram militarmente o regime de
Assad, enquanto a Turquia armou e treinou grupos rebeldes sunitas em sua luta
contra as forças governamentais.
Em
2014, os EUA também entraram no conflito com o objetivo principal de combater o
Estado Islâmico, que chegou a controlar metade da Síria e um terço do Iraque,
onde treinava terroristas que depois cometeram atentados na Europa e em outros
lugares.
Os
bombardeios americanos enfraqueceram os extremistas, que perderam o controle
territorial da Síria e cujas forças, embora não tenham desaparecido
completamente, ficaram muito debilitadas.
Os EUA
também prestaram apoio a grupos rebeldes, principalmente às Forças Democráticas
Sírias, no Curdistão.
Durante
o primeiro mandato de Donald Trump, inclusive, foram realizados ataques
pontuais em 2017 com mísseis Tomahawk para punir o governo de Bashar al-Assad
por supostos ataques químicos contra a
população civil, embora não tenham buscado diretamente derrubar o regime.
Em
contraste, anos antes, Obama foi criticado por não agir com mais firmeza quando
o regime sírio ultrapassou as "linhas vermelhas" estabelecidas pelos
EUA e usou armas químicas contra sua própria população em 2013.
Obama
também foi criticado por não ter sido mais duro com o líder sírio, que, graças
ao apoio da Rússia, conseguiu permanecer no poder até que, no fim de 2024, o
grupo rebelde Hayat Tahrir
al-Sham, liderado por Ahmed Sharaa, chegasse a Damasco,
capital da Síria, e o regime colapsasse como um castelo de cartas.
Os EUA
estabeleceram relações com o novo governo interino liderado por Sharaa, um
ex-líder da Frente Nusra (ou Jabhat al-Nusra), antiga filial da Al Qaeda, da
qual depois se separou, e por quem os EUA chegaram a oferecer uma recompensa de
US$ 10 milhões (cerca de R$ 50 milhões).
Apesar
da redução da violência, o país permanece profundamente dividido e em um
equilíbrio muito frágil.
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Iêmen
Os EUA
também intervieram várias vezes no Iêmen com operações antiterrorismo contra Al
Qaeda na Península Arábica desde os ataques de 11 de setembro.
O país
mergulhou em guerra civil em 2014, quando os rebeldes houthis, apoiados pelo Irã,
tomaram a capital, Sanaa.
Em
2015, uma coalizão de países árabes liderada pela Arábia Saudita interveio
contra os rebeldes. Os EUA venderam armas e forneceram apoio logístico e de
inteligência, embora não tenham enviado tropas.
O
movimento xiita houthis controla hoje cerca de 30% do território do país, onde
impuseram um regime fundamentalista acusado de violações de direitos humanos.
No
contexto da guerra em Gaza, o grupo lançou ataques contra navios no Mar
Vermelho. Em resposta, os EUA, em coordenação com aliados como o Reino Unido,
bombardearam posições e infraestruturas militares houthis para proteger o
transporte marítimo.
O Iêmen
é o país mais pobre do Oriente Médio e enfrenta uma grave crise humanitária
agravada por anos de instabilidade.
Até
2023, mais de 377 mil pessoas haviam morrido, segundo a organização Campaign
Against Arms Trade, a maioria por causas indiretas da guerra, como fome,
doenças e falta de acesso a serviços básicos.
Quase
80% da população depende de ajuda humanitária para sobreviver, e mais de 4
milhões de crianças estão fora da escola, segundo dados da ONU.
Fonte:
BBC News Mundo

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