quinta-feira, 12 de março de 2026

Mauricio Alfredo: O Irã na reconfiguração estratégica do Oriente Médio

Os ataques recentes conduzidos por Israel e pelos Estados Unidos contra o Irã são geralmente apresentados sob dois argumentos centrais: impedir o avanço do programa nuclear iraniano e conter a chamada “ameaça existencial” representada por Teerã. A mudança de regime surge como horizonte discursivo mobilizador, mas raramente corresponde ao objetivo operacional imediato. O que está em jogo é mais amplo: a configuração do equilíbrio regional e a limitação das margens de projeção estratégica iraniana em um sistema internacional em reacomodação. 

<><> Geografia e poder: o Irã como nó estratégico 

A centralidade iraniana começa pela geografia. Seu território ocupa uma posição de confluência entre o Oriente Médio árabe, a Ásia Central pós-soviética e o Cáucaso. Trata-se de um espaço de transição entre mundos históricos distintos: o árabe, o turco e o persa, além de conectar bacias energéticas estratégicas, tornando o país em corredor natural de fluxos: mercadorias, gasodutos, oleodutos, rotas terrestres e conexões marítimas. 

Ao Sul, domina a margem norte do Estreito de Ormuz, por onde circula parcela decisiva do petróleo comercializado globalmente. O simples poder de ameaça sobre essa rota já constitui instrumento geopolítico de alto impacto. Ao Norte, projeta-se sobre o Mar Cáspio, articulando-se com a Rússia e a Ásia Central. A Leste, conecta-se ao Afeganistão e ao Paquistão; a Oeste, influencia diretamente o Iraque e se aproxima do Levante, região que compreende países como Síria, Líbano, Israel e Jordânia, tradicional ponto de encontro e tensão entre Ásia, África e Europa. Poucos Estados concentram tal densidade de interfaces estratégicas. 

Influenciar o território iraniano significa ampliar acesso a rotas comerciais, energéticas e militares que conectam o Golfo Pérsico à Ásia Central e ao Sul da Ásia. Para a Índia, o porto de Chabahar permite alcançar mercados centro-asiáticos contornando o Paquistão. Para a China, o Irã oferece elo terrestre capaz de reduzir vulnerabilidades marítimas sob vigilância dos Estados Unidos. Para Washington, preservar uma arquitetura de segurança favorável no Golfo sempre foi condição para manter estabilidade energética e primazia regional. Um Irã autônomo e capaz de projetar poder desafia esse arranjo. 

Em outras palavras, o território iraniano não é apenas relevante por seus recursos, mas por sua capacidade de conectar espaços vitais da economia e da segurança internacionais. Há ainda uma dimensão histórica que amplia essa relevância: o Irã não é um Estado recente moldado por fronteiras coloniais, mas um Estado-civilização com continuidade persa milenar, identidade consolidada e estrutura institucional relativamente coesa. Essa profundidade histórica reforça sua capacidade de projetar influência além das fronteiras formais. 

Controlar, conter ou integrar esse espaço significa influenciar o equilíbrio de forças do Oriente Médio como um todo. É nesse terreno geopolítico que os ataques recentes devem ser situados. 

<><> A disputa pela hegemonia regional 

Nas últimas décadas, o Oriente Médio estruturou-se em torno de uma rivalidade triangular entre Arábia Saudita, Irã e Israel. 

A Arábia Saudita, monarquia sunita e aliada histórica dos Estados Unidos, disputa a liderança política do mundo árabe e a influência sobre os rumos estratégicos do Golfo. Sua força deriva menos da capacidade militar autônoma e mais de três pilares: a centralidade no mercado global de petróleo, a capacidade financeira acumulada ao longo de décadas de exportações energéticas e a estreita integração com a arquitetura de segurança ocidental. Seu poder dissuasório deriva menos de autonomia militar e mais da conversão da riqueza energética em capacidade de compra estratégica e alinhamento geopolítico, consolidando-a como o principal contrapeso sunita às ambições regionais do Irã. 

O Irã, principal potência não árabe do Golfo Pérsico, posiciona-se como antagonista do arranjo regional apoiado por Washington e pelas monarquias do Golfo. Sob regime de sanções severas, desenvolveu uma estratégia que combina dissuasão geográfica, resiliência econômica e projeção indireta de poder. Embora petróleo e gás permaneçam pilares estruturais, o país desenvolveu base industrial diversificada maior do que seus vizinhos regionais e investiu em complexo militar-industrial voltado a mísseis balísticos e drones de baixo custo. 

Essa estrutura sustenta o chamado “Eixo da Resistência”: rede de aliados e milícias no Líbano, Iraque, Síria e Iêmen que amplia sua profundidade estratégica. São redes de influência assimétrica capazes de transferir o confronto para periferias estratégicas e elevar o custo de ataques diretos ao território iraniano. O apoio político-militar da Rússia reforça essa inserção em uma dinâmica mais ampla de contestação à ordem regional moldada pelos Estados Unidos. 

Israel completa o triângulo como ator militarmente mais sofisticado da região. Sustentado por cooperação estratégica com Washington e por complexo tecnológico-militar avançado, opera sob a doutrina da superioridade qualitativa: preservar vantagem tecnológica e estratégica suficiente para impedir a emergência de qualquer rival capaz de alterar o equilíbrio de dissuasão regional. Essa lógica sustenta operações de contenção militar direta contra a infraestrutura vinculada ao eixo iraniano e frente a alvos considerados existenciais. 

Esse triângulo configura a espinha dorsal da geopolítica regional. Cada movimento de um desses atores altera o cálculo dos demais, produzindo um equilíbrio instável baseado em dissuasão, contenção e confrontos indiretos. Contudo, esse tabuleiro regional não opera isoladamente: ele está inserido em uma disputa mais ampla entre grandes potências, que redefine alianças, pressões e margens de autonomia. É nesse entrelaçamento entre rivalidade regional e competição sistêmica que os ataques recentes se revelam como capítulos indissociáveis de uma disputa estrutural pela definição da ordem regional. 

<><> Multipolaridade e contenção: a disputa estrutural por hegemonia no Oriente Médio 

A tensão em torno do Irã não pode ser compreendida como evento isolado. Ela integra uma competição sistêmica mais ampla pela definição de quem exercerá influência predominante no Oriente Médio nas próximas décadas. A entrada assertiva da China alterou o equilíbrio historicamente marcado pela primazia estadunidense, introduzindo uma variável estrutural que reconfigura a correlação de forças regionais. 

O acordo estratégico sino-iraniano estabelece uma troca pragmática: investimentos chineses em infraestrutura, energia e logística em contrapartida a um fluxo estável de petróleo iraniano com condições preferenciais. Essa parceria atenua os efeitos do regime de sanções ocidentais e integra o Irã à Nova Rota da Seda, consolidando seu território como eixo geográfico fundamental para a articulação euroasiática promovida por Pequim. 

Para além da dimensão econômica, a China ampliou seu papel diplomático ao mediar a reaproximação entre Irã e Arábia Saudita, sinalizando a redução da exclusividade norte-americana como árbitro regional. A entrada iraniana no BRICS reforça esse movimento, pois visa buscar alternativas ao sistema financeiro ancorado no dólar, além de ampliar margens de autonomia estratégica diante da pressão ocidental. A Rússia, por sua vez, mantém cooperação estratégica com Teerã nos campos militar e energético, consolidando uma convergência tática que opera como contrapeso à influência dos Estados Unidos e de Israel. 

Incapaz de competir simetricamente com a superioridade convencional norte-americana e a supremacia tecnológica israelense, o Irã estruturou modelo de dissuasão assimétrica baseado em três pilares: mísseis e drones de saturação; redes indiretas no Levante e no Golfo; e capacidade de pressionar gargalos estratégicos como Ormuz. A assimetria, nesse contexto, funciona como mecanismo de equalização em um sistema internacional em transição. 

Enquanto a China amplia sua presença econômico-diplomática e a Rússia oferece respaldo político-militar, o Irã preserva capacidade autônoma de perturbação regional. Essa combinação o transforma não apenas em ator regional relevante, mas em peça estratégica no tabuleiro da competição entre potências. O conflito que o envolve, portanto, deve ser compreendido como expressão de uma disputa estrutural mais ampla: a definição de quem moldará o equilíbrio do Oriente Médio em uma ordem internacional cada vez menos unipolar e progressivamente tensionada por dinâmicas multipolares. 

Nesse cenário, enfraquecer os instrumentos assimétricos iranianos significa reduzir sua utilidade geopolítica como polo de contestação e limitar sua capacidade de articulação com projetos alternativos de poder. 

<><> O desmantelamento do Eixo 

O desmantelamento do Eixo da Resistência não implica necessariamente a queda formal de seus integrantes, mas na corrosão gradual da profundidade estratégica construída por Teerã. Trata-se de processo cumulativo de desgaste das camadas periféricas antes de qualquer confronto direto com o núcleo decisório, uma estratégica voltada à neutralização dos instrumentos de dissuasão indireta iranianos. 

A partir de 2003, o Irã consolidou sua influência regional ao explorar o vácuo de poder no Iraque deixado pela derrubada de Saddam Hussein. Teerã estreitou laços com a Síria e institucionalizou o apoio ao Hezbollah no Líbano, ao Hamas na Palestina e aos insurgentes Houthis no Iêmen. Esse arranjo não apenas ampliou a projeção estratégica iraniana, mas converteu tais aliados em extensões operacionais de um sofisticado modelo de guerra por procuração. Essa profundidade estratégica era, portanto, o núcleo da arquitetura de dissuasão de Teerã. 

Os ataques recentes conduzidos por Israel e pelos Estados Unidos podem ser interpretados como parte de uma estratégia gradual de redução dessa arquitetura. Em vez de um confronto frontal imediato com o centro decisório iraniano, consolida-se uma lógica de enfraquecimento progressivo das camadas externas que sustentam sua capacidade de coerção regional. 

A Guerra Civil Síria marcou o ponto de inflexão ao comprometer a ponte logística entre Teerã e o Hezbollah, rompendo o corredor terrestre vital para a coerência do sistema assimétrico. Esse desgaste foi aprofundado por ofensivas simultâneas em Gaza, no Sul do Líbano e no Mar Vermelho, que, embora não aniquilem os atores, degradam severamente sua infraestrutura e capacidade de coordenação. 

O objetivo central dessa dinâmica é neutralizar a atuação em múltiplas frentespilar da dissuasão iraniana, forçando o recuo da sua profundidade estratégica. Ao reduzir a conectividade desse ecossistema, os EUA e Israel buscam não apenas conter o Irã, mas reafirmar a primazia regional frente ao avanço da influência chinesa e russa nos corredores do Golfo. Para Israel, o desmonte dessa periferia é o passo imperativo para impedir que um rival com potencial nuclear altere definitivamente o equilíbrio de poder no Oriente Médio. 

<><> Conclusão: o eixo na era da multipolaridade tensa 

O desmantelamento do Eixo da Resistência expressa, em escala regional, a transição de uma ordem internacional em transformação. A erosão da rede construída pelo Irã não representa apenas um reequilíbrio local de forças, mas integra uma engrenagem mais ampla de contenção geopolítica voltada à limitação de polos autônomos emergentes.  

O que está em disputa não é apenas o futuro de alianças periféricas, mas a definição de quais atores moldarão o equilíbrio estratégico do Oriente Médio em um contexto de redistribuição global de poder. Ao enfraquecer os instrumentos assimétricos iranianos, os Estados Unidos reduzem a margem de manobra de Teerã como ator capaz de articular-se simultaneamente com a Rússia e a China. O objetivo não é apenas conter um rival regional, mas limitar sua utilidade estratégica dentro de um arranjo internacional que desafia a primazia norte-americana. 

Para Israel, a equação é ainda mais direta: preservar superioridade tecnológica e liberdade de ação militar suficientes para impedir a consolidação de qualquer equilíbrio de dissuasão que restrinja sua capacidade operacional. O enfraquecimento das camadas periféricas do eixo é, nesse sentido, condição para preservar vantagem estratégica estrutural. 

Longe de constituir periferia do sistema internacional, o Oriente Médio reafirma-se como epicentro, onde energia, rotas comerciais e arquitetura de segurança convergem e que se testam, de forma concreta, os limites e as possibilidades da ordem internacional em transição. 

¨       Paulo Nogueira Batista Jr: Irã, onde a dupla de diabos calculou errado

Os colunistas de jornal, revista e internet costumam se queixar de falta de assunto ou da dificuldade de dizer coisas novas sobre temas candentes. Dostoiévski e Nelson Rodrigues, dois dos maiores colunistas de todos os tempos, volta e meia reclamavam disso. Dostoiévski em especial expressou, com humor e verve, a banalidade do que se publicava e o enorme esforço requerido para dizer o que ele chamava de “uma palavra nova”. E transformava isso mesmo em tema de crônicas e colunas.

Com a eclosão da guerra criminosa contra o Irã, movida pela superpotência delinquente, os Estados Unidos, e pelo estado genocida de Israel, não sofremos de falta de assunto, ao contrário. May you live in interesting times (que você viva em tempos interessantes), antiga maldição que continua verdadeira (ainda que desgastada por excesso de uso). Persiste, entretanto, a dificuldade de acrescentar algo original. Se o gênio russo enfrentava esse drama, imagine o que acontece com colunistas modestos como eu.

Mas vamos lá.  Começo com as crianças, lembrando o bombardeio estarrecedor de uma escola de meninas no Irã, que matou mais de 160 pessoas. Do sofrimento das crianças, escreveu Dostoievsky,  pode-se derivar o absurdo de toda a realidade histórica. Apesar de tudo, ele acreditava em Deus. No meu livro mais recente, Estilhaços, fui mais longe, dizendo que “o sofrimento das crianças não só desmente a existência de Deus, como prova a do Diabo.”

Nos dias de hoje, o Diabo toma a forma de Donald Trump e Benjamim Netanyahu. O tempo dirá, mas parece que a dupla diabólica cometeu um gigantesco erro de cálculo. Ou seria melhor inverter a ordem e escrever Netanyahu e Trump? Já que no comando dessa agressão estão Israel e o poderoso lobby sionista em Washington e Nova Iorque, como revelou, de maneira simplória, o ministro das relações exteriores dos EUA, Marco Rubio. Veja, leitor ou leitora, o que disse esse mentecapto para justificar a agressão ao Irã. “Havia uma ameaça iminente aos EUA”, sustentou. “Sabíamos que se o Irã fosse atacado por Israel, eles imediatamente nos atacariam”. Segundo ele, o governo Trump agiu “proativamente” e  “de forma defensiva”, ao agredir o Irã. Parece claro que Israel é quem dá as cartas, definindo o momento do ataque.  

Talvez eu esteja exagerando um pouco. Os Estados Unidos têm seus próprios objetivos de dominação no Oriente Médio. Seja como for, uma coisa ficou evidente. O Irã é um osso duro de roer. Não é a Palestina indefesa, submetida a destruição e massacre pela covardia israelense. Não é o Líbano, também indefeso e sob ataque de Israel. Não é a Síria, despedaçada por uma agressão dos EUA, de Israel e da Turquia. Nem é uma Líbia. Nem um Iraque. E não é uma Venezuela, que foi subjugada com facilidade por uma intervenção relâmpago dos Estados Unidos.

O Irã é uma potência militar que vem conseguindo impor pesadas perdas aos agressores, inclusive aos aliados ou satélites árabes dos Estados Unidos e Israel no Golfo Pérsico. Esses países árabes (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar e Bahrein) abrigam bases militares americanas em seu território. Dessas bases, ataques são feitos ao Irã, o que converte o território desses países em alvo legítimo para os iranianos. 

Eles dependem, ademais, da passagem pelo Estreito de Ormuz para escoar as suas exportações de petróleo e gás natural (dos cinco mencionados, só a Arábia Saudita conta com outros canais). O Irã fechou esse estreito cirurgicamente, excetuando apenas os navios dos seus aliados estratégicos – Rússia e, sobretudo, China. Os outros navios que tentam passar estão sendo bombardeados.

Como envelheceu mal, diga-se de passagem, a recente declaração do presidente Lula, poucos dias antes do início da guerra, quando estava a caminho de Abu Dhabi: “Não estou preocupado com o que os Estados Unidos vai fazer com o Irã” (!), mas sim, disse, com o comércio e as relações entre os Emirados Árabes Unidos e o Brasil! Uma de muitas declarações infelizes que o presidente brasileiro vem dando desde o ataque à Venezuela. Vejam bem: o presidente de um país que se declara pacifista “não se preocupa” com uma agressão militar iminente. Além disso, ironicamente, o nosso comércio com os Emirados, a prioridade definida por ele, ficará reduzido a zero ou quase zero com a eclosão da guerra. Contudo, depois do início da guerra, essa derrapada foi corrigida por manifestações oficiais brasileiras condenando o ataque ao Irã.

<><> Uma civilização milenar e pacífica, um grande país

O Irã  é uma civilização milenar. Trata-se de um país orgulhoso de suas tradições. Nunca foi uma colônia, embora tenha sido submetido a uma relação semicolonial em certos períodos por potências estrangeiras, principalmente Inglaterra e Estados Unidos. A última invasão do Irã a algum país remonta ao século 18.

Agora, os iranianos não estavam atacando ninguém e nem se preparavam para fazê-lo. Ao contrário, tentavam uma solução negociada com os Estados Unidos, quando foram apunhalados pelas costas.

Não se deve perder de vista a dimensão do Irã. São mais de 90 milhões de iranianos, vivendo num território maior do que a soma dos territórios da França, Espanha, Alemanha e Itália. Comparem com a pequena Palestina, com população inferior a 6 milhões, vítima do genocídio e limpeza étnica praticados por Israel. O Irã não será varrido do mapa.

Os iranianos vem-se preparando há décadas para esse enfrentamento. Apesar das sanções aplicadas pelos Estados Unidos durante mais de 40 anos, com a colaboração de outras nações do Ocidente coletivo, o Irã acumulou grande capacidade de retaliação, como estamos vendo agora. A consciência iraniana de que essa preparação era necessária remonta a 1980, quando o Irã foi atacado pelo Iraque de Sadam Hussein (sim, ele mesmo!), armado e incentivado pelos Estados Unidos e por Israel. O Irã foi pego de surpresa e se deu conta das suas vulnerabilidades militares. E tirou a lição correta, transformando-se numa potência militar.

A resistência do Irã e a coesão interna do país só aumentaram com a decisão realmente estúpida, tomada por Estados Unidos e Israel, de assassinar o aiatolá Khamenei. Uma liderança extraordinária, um homem fora do comum foi transformado em mártir e símbolo da resistência iraniana à ameaça existencial que o país enfrenta. Portou-se como um herói. Nunca será esquecido.

A verdade é que os Estados Unidos e Israel são sociedades profundamente doentes. Trump e Netanyahu expressam essa doença. E esses dois países converteram-se em ameaça para os demais.

O que pretende a dupla diabólica? Os Estados Unidos buscam escapar do declínio e naufrágio civilizacional do Ocidente. E estão dispostos a tudo. Querem retomar à força a sua hegemonia mundial, crescentemente contestada. O alvo último é a China, “o país mais poderoso relativamente a nós desde o século 19”, como destacou o documento de estratégia de defesa nacional dos EUA, divulgado agora em janeiro.

Israel, por seu turno, quer levar adiante o projeto de domínio do Oriente Médio. Apenas dois países de peso se opõem a esse projeto – Irã e Turquia. Se o Irã sucumbir, a Turquia será provavelmente a próxima vítima.

<><> E o Brasil?

Somos um país vulnerável. Há muito tempo. Durante a década de 1980, quando passamos por uma redemocratização pacifista e antimilitar, o problema se agravou. Basta lembrar, leitor ou leitora, que os constituintes introduziram na Constituição de 1988 um dispositivo que renuncia à energia nuclear como instrumento de defesa – como se tivéssemos sido derrotados em uma guerra! Depois veio o entreguista-mor, Fernando Henrique Cardoso, um mero procônsul do Império, e aderiu vergonhosamente ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Em oito anos na Presidência (1995 a 2022), o que fez FHC para fortalecer a defesa nacional? Para fortalecer as escolas militares? Nada. Isso não fazia parte do projeto político implementado pela corja tucana.

Depois vieram Lula 1 (2003 a 2006), Lula 2 (2007 a 2010), Dilma 1 (2011 a 2014), Dilma 2 (2015 e parte de 2016) e Lula 3 (2023 até hoje). O que fizeram os governos comandados pelo PT para fortalecer a defesa nacional em mais de 16 anos? O que fizeram os ministros da Defesa desses governos? Tomaram, ou tentaram tomar, iniciativas importantes no campo da defesa nacional. Mas não nos retiraram da condição de vulnerabilidade militar.

Com Temer e depois Bolsonaro, meros fantoches do Império, a nossa situação piorou. Bolsonaro, em especial, um imitador servil e ignorante de Donald Trump, só fez agravar a fragilidade militar nacional, intensificando a cooperação em matéria de defesa com os Estados Unidos e chegando a ponto de inscrever o Brasil como “importante aliado extra OTAN”, designação adotada por Washington para aliados militares não membros da organização.  

Por essas e várias outras razões, é que devemos considerar a eleição de 2026 como a mais importante da nossa História. Lula, com todas as suas limitações, ainda mantém certa resistência ao projeto colonial e assassino comandado por Trump e Netanyahu. O governo brasileiro condenou o genocídio em Gaza, recusou-se a aderir às sanções contra a Rússia, manteve relações estratégicas com a China e acabou condenando também o ataque ao Irã.

Se cairmos nos braços de Flávio Bolsonaro, o Brasil ficará reduzido à posição subordinada da Argentina de Milei. No atual ambiente internacional, isso significará a destruição da soberania brasileira.

 

Fonte: Outras Palavras/Le Monde

 

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