Mauricio
Alfredo: O Irã na reconfiguração estratégica
do Oriente Médio
Os ataques recentes conduzidos
por Israel e pelos Estados Unidos contra o Irã são geralmente
apresentados sob dois argumentos centrais: impedir o avanço do programa nuclear
iraniano e conter a chamada “ameaça existencial” representada por Teerã. A
mudança de regime surge como horizonte discursivo mobilizador, mas raramente corresponde
ao objetivo operacional imediato. O que está em jogo é mais amplo: a
configuração do equilíbrio regional e a limitação das margens de projeção
estratégica iraniana em um sistema internacional em reacomodação.
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Geografia e poder: o Irã como nó estratégico
A
centralidade iraniana começa pela geografia. Seu território
ocupa uma posição de confluência entre o Oriente Médio
árabe, a Ásia Central pós-soviética e o Cáucaso. Trata-se de um espaço de
transição entre mundos históricos distintos: o árabe, o turco e o persa,
além de conectar bacias energéticas estratégicas, tornando o país em
corredor natural de fluxos: mercadorias, gasodutos, oleodutos, rotas terrestres
e conexões marítimas.
Ao Sul,
domina a margem norte do Estreito de Ormuz, por onde circula parcela decisiva
do petróleo comercializado globalmente. O simples poder de ameaça sobre essa
rota já constitui instrumento geopolítico de alto impacto. Ao Norte,
projeta-se sobre o Mar Cáspio, articulando-se com a Rússia e a Ásia
Central. A Leste, conecta-se ao Afeganistão e ao Paquistão; a Oeste,
influencia diretamente o Iraque e se aproxima do Levante, região que
compreende países como Síria, Líbano, Israel e Jordânia,
tradicional ponto de encontro e tensão entre Ásia, África e Europa. Poucos
Estados concentram tal densidade de interfaces estratégicas.
Influenciar
o território iraniano significa ampliar acesso a rotas comerciais, energéticas
e militares que conectam o Golfo Pérsico à Ásia Central e ao Sul
da Ásia. Para a Índia, o porto de Chabahar permite alcançar mercados
centro-asiáticos contornando o Paquistão. Para a China, o Irã oferece elo
terrestre capaz de reduzir vulnerabilidades marítimas sob vigilância
dos Estados Unidos. Para Washington, preservar uma arquitetura de
segurança favorável no Golfo sempre foi condição para manter estabilidade energética
e primazia regional. Um Irã autônomo e capaz de projetar poder desafia
esse arranjo.
Em
outras palavras, o território iraniano não é apenas relevante por seus
recursos, mas por sua capacidade de conectar espaços vitais da economia e da
segurança internacionais. Há ainda uma dimensão histórica que amplia essa
relevância: o Irã não é um Estado recente moldado por fronteiras coloniais, mas
um Estado-civilização com continuidade persa milenar, identidade consolidada e
estrutura institucional relativamente coesa. Essa profundidade histórica
reforça sua capacidade de projetar influência além das fronteiras
formais.
Controlar,
conter ou integrar esse espaço significa influenciar o equilíbrio de forças do
Oriente Médio como um todo. É nesse terreno geopolítico que os ataques recentes
devem ser situados.
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A disputa pela hegemonia regional
Nas
últimas décadas, o Oriente Médio estruturou-se em torno de uma rivalidade
triangular entre Arábia Saudita, Irã e Israel.
A
Arábia Saudita, monarquia sunita e aliada histórica dos Estados
Unidos, disputa a liderança política do mundo árabe e a influência sobre
os rumos estratégicos do Golfo. Sua força deriva menos da capacidade militar
autônoma e mais de três pilares: a centralidade no mercado global de petróleo,
a capacidade financeira acumulada ao longo de décadas de exportações
energéticas e a estreita integração com a arquitetura de segurança
ocidental. Seu poder dissuasório deriva menos de autonomia militar e mais
da conversão da riqueza energética em capacidade de compra estratégica e
alinhamento geopolítico, consolidando-a como o principal contrapeso sunita
às ambições regionais do Irã.
O Irã,
principal potência não árabe do Golfo Pérsico, posiciona-se como antagonista do
arranjo regional apoiado por Washington e pelas monarquias do Golfo. Sob regime
de sanções severas, desenvolveu uma estratégia que combina dissuasão
geográfica, resiliência econômica e projeção indireta de poder. Embora petróleo
e gás permaneçam pilares estruturais, o país desenvolveu base
industrial diversificada maior do que seus vizinhos regionais
e investiu em complexo militar-industrial voltado a mísseis balísticos e
drones de baixo custo.
Essa
estrutura sustenta o chamado “Eixo da Resistência”: rede de aliados e
milícias no Líbano, Iraque, Síria e Iêmen que amplia sua profundidade
estratégica. São redes de influência assimétrica capazes de transferir o
confronto para periferias estratégicas e elevar o custo de ataques diretos ao
território iraniano. O apoio político-militar da Rússia reforça essa
inserção em uma dinâmica mais ampla de contestação à ordem regional moldada
pelos Estados Unidos.
Israel
completa o triângulo como ator militarmente mais sofisticado da região.
Sustentado por cooperação estratégica com Washington e por complexo
tecnológico-militar avançado, opera sob a doutrina da superioridade
qualitativa: preservar vantagem tecnológica e estratégica suficiente para
impedir a emergência de qualquer rival capaz de alterar o equilíbrio de
dissuasão regional. Essa lógica sustenta operações de contenção militar
direta contra a infraestrutura vinculada ao eixo iraniano e frente
a alvos considerados existenciais.
Esse
triângulo configura a espinha dorsal da geopolítica regional. Cada
movimento de um desses atores altera o cálculo dos demais, produzindo um
equilíbrio instável baseado em dissuasão, contenção e confrontos indiretos.
Contudo, esse tabuleiro regional não opera isoladamente: ele está inserido em
uma disputa mais ampla entre grandes potências, que redefine alianças, pressões
e margens de autonomia. É nesse entrelaçamento entre rivalidade regional e
competição sistêmica que os ataques recentes se revelam como capítulos
indissociáveis de uma disputa estrutural pela definição da ordem
regional.
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Multipolaridade e contenção: a disputa estrutural por hegemonia no Oriente
Médio
A
tensão em torno do Irã não pode ser compreendida como evento isolado. Ela
integra uma competição sistêmica mais ampla pela definição de quem exercerá
influência predominante no Oriente Médio nas próximas décadas. A entrada
assertiva da China alterou o equilíbrio historicamente marcado pela primazia
estadunidense, introduzindo uma variável estrutural que reconfigura a
correlação de forças regionais.
O
acordo estratégico sino-iraniano estabelece uma troca pragmática: investimentos
chineses em infraestrutura, energia e logística em contrapartida a um fluxo
estável de petróleo iraniano com condições preferenciais. Essa parceria atenua
os efeitos do regime de sanções ocidentais e integra o Irã à Nova Rota da Seda,
consolidando seu território como eixo geográfico fundamental para a articulação
euroasiática promovida por Pequim.
Para
além da dimensão econômica, a China ampliou seu papel diplomático ao mediar a
reaproximação entre Irã e Arábia Saudita, sinalizando a redução da
exclusividade norte-americana como árbitro regional. A entrada iraniana no
BRICS reforça esse movimento, pois visa buscar alternativas ao sistema
financeiro ancorado no dólar, além de ampliar margens de autonomia estratégica
diante da pressão ocidental. A Rússia, por sua vez, mantém
cooperação estratégica com Teerã nos campos militar e energético,
consolidando uma convergência tática que opera como contrapeso à influência dos
Estados Unidos e de Israel.
Incapaz
de competir simetricamente com a superioridade convencional norte-americana e a
supremacia tecnológica israelense, o Irã estruturou modelo de dissuasão
assimétrica baseado em três pilares: mísseis e drones de saturação; redes
indiretas no Levante e no Golfo; e capacidade de pressionar gargalos
estratégicos como Ormuz. A assimetria, nesse contexto, funciona como mecanismo
de equalização em um sistema internacional em transição.
Enquanto
a China amplia sua presença econômico-diplomática e a Rússia oferece respaldo
político-militar, o Irã preserva capacidade autônoma de perturbação regional.
Essa combinação o transforma não apenas em ator regional relevante, mas em peça
estratégica no tabuleiro da competição entre potências. O conflito que o
envolve, portanto, deve ser compreendido como expressão de uma disputa
estrutural mais ampla: a definição de quem moldará o equilíbrio do Oriente
Médio em uma ordem internacional cada vez menos unipolar e progressivamente
tensionada por dinâmicas multipolares.
Nesse
cenário, enfraquecer os instrumentos assimétricos iranianos significa
reduzir sua utilidade geopolítica como polo de contestação e limitar sua
capacidade de articulação com projetos alternativos de poder.
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O desmantelamento do Eixo
O
desmantelamento do Eixo da Resistência não implica necessariamente a queda
formal de seus integrantes, mas na corrosão gradual da profundidade
estratégica construída por Teerã. Trata-se de processo cumulativo de desgaste
das camadas periféricas antes de qualquer confronto direto com o núcleo
decisório, uma estratégica voltada à neutralização dos instrumentos
de dissuasão indireta iranianos.
A
partir de 2003, o Irã consolidou sua influência regional ao explorar o vácuo de
poder no Iraque deixado pela derrubada de Saddam Hussein. Teerã
estreitou laços com a Síria e institucionalizou o apoio ao Hezbollah no Líbano,
ao Hamas na Palestina e aos insurgentes Houthis no Iêmen. Esse arranjo não
apenas ampliou a projeção estratégica iraniana, mas converteu tais aliados em
extensões operacionais de um sofisticado modelo de guerra por
procuração. Essa profundidade estratégica era, portanto, o núcleo da arquitetura
de dissuasão de Teerã.
Os
ataques recentes conduzidos por Israel e pelos Estados Unidos podem ser
interpretados como parte de uma estratégia gradual de redução dessa
arquitetura. Em vez de um confronto frontal imediato com o centro decisório
iraniano, consolida-se uma lógica de enfraquecimento progressivo das camadas
externas que sustentam sua capacidade de coerção regional.
A
Guerra Civil Síria marcou o ponto de inflexão ao comprometer a ponte logística
entre Teerã e o Hezbollah, rompendo o corredor terrestre vital para a coerência
do sistema assimétrico. Esse desgaste foi aprofundado por ofensivas simultâneas
em Gaza, no Sul do Líbano e no Mar Vermelho, que, embora não aniquilem os
atores, degradam severamente sua infraestrutura e capacidade de
coordenação.
O
objetivo central dessa dinâmica é neutralizar a atuação em múltiplas
frentes, pilar da dissuasão iraniana, forçando o recuo da sua
profundidade estratégica. Ao reduzir a conectividade desse ecossistema, os EUA
e Israel buscam não apenas conter o Irã, mas reafirmar a primazia regional
frente ao avanço da influência chinesa e russa nos corredores do Golfo.
Para Israel, o desmonte dessa periferia é o passo imperativo para impedir que
um rival com potencial nuclear altere definitivamente o equilíbrio de poder no
Oriente Médio.
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Conclusão: o eixo na era da multipolaridade tensa
O
desmantelamento do Eixo da Resistência expressa, em escala regional, a
transição de uma ordem internacional em transformação. A erosão da rede
construída pelo Irã não representa apenas um reequilíbrio local de
forças, mas integra uma engrenagem mais ampla de contenção geopolítica voltada
à limitação de polos autônomos emergentes.
O que
está em disputa não é apenas o futuro de alianças periféricas, mas a definição
de quais atores moldarão o equilíbrio estratégico do Oriente Médio em um
contexto de redistribuição global de poder. Ao enfraquecer os instrumentos
assimétricos iranianos, os Estados Unidos reduzem a margem de manobra
de Teerã como ator capaz de articular-se simultaneamente
com a Rússia e a China. O objetivo não é apenas conter
um rival regional, mas limitar sua utilidade estratégica dentro de um arranjo
internacional que desafia a primazia norte-americana.
Para Israel,
a equação é ainda mais direta: preservar superioridade tecnológica e liberdade
de ação militar suficientes para impedir a consolidação de qualquer equilíbrio
de dissuasão que restrinja sua capacidade operacional. O enfraquecimento das camadas
periféricas do eixo é, nesse sentido, condição para preservar vantagem
estratégica estrutural.
Longe
de constituir periferia do sistema internacional, o Oriente Médio reafirma-se
como epicentro, onde energia, rotas comerciais e arquitetura de
segurança convergem e que se testam, de forma concreta, os limites e as
possibilidades da ordem internacional em transição.
¨
Paulo
Nogueira Batista Jr: Irã, onde a dupla de diabos calculou errado
Os
colunistas de jornal, revista e internet costumam se queixar de falta de
assunto ou da dificuldade de dizer coisas novas sobre temas candentes.
Dostoiévski e Nelson Rodrigues, dois dos maiores colunistas de todos os tempos,
volta e meia reclamavam disso. Dostoiévski em especial expressou, com humor e
verve, a banalidade do que se publicava e o enorme esforço requerido para dizer
o que ele chamava de “uma palavra nova”. E transformava isso mesmo em tema de
crônicas e colunas.
Com a
eclosão da guerra criminosa contra o Irã, movida pela superpotência
delinquente, os Estados Unidos, e pelo estado genocida de Israel, não sofremos
de falta de assunto, ao contrário. May you live in interesting times (que
você viva em tempos interessantes), antiga maldição que continua verdadeira
(ainda que desgastada por excesso de uso). Persiste, entretanto, a dificuldade
de acrescentar algo original. Se o gênio russo enfrentava esse drama, imagine o
que acontece com colunistas modestos como eu.
Mas
vamos lá. Começo com as crianças, lembrando o bombardeio estarrecedor de
uma escola de meninas no Irã, que matou mais de 160 pessoas. Do sofrimento das
crianças, escreveu Dostoievsky, pode-se derivar o absurdo de toda a
realidade histórica. Apesar de tudo, ele acreditava em Deus. No meu livro mais
recente, Estilhaços, fui mais longe, dizendo que “o sofrimento das
crianças não só desmente a existência de Deus, como prova a do Diabo.”
Nos
dias de hoje, o Diabo toma a forma de Donald Trump e Benjamim Netanyahu. O
tempo dirá, mas parece que a dupla diabólica cometeu um gigantesco erro de
cálculo. Ou seria melhor inverter a ordem e escrever Netanyahu e Trump? Já que
no comando dessa agressão estão Israel e o poderoso lobby sionista em
Washington e Nova Iorque, como revelou, de maneira simplória, o ministro das
relações exteriores dos EUA, Marco Rubio. Veja, leitor ou leitora, o que disse
esse mentecapto para justificar a agressão ao Irã. “Havia uma ameaça iminente
aos EUA”, sustentou. “Sabíamos que se o Irã fosse atacado por Israel, eles
imediatamente nos atacariam”. Segundo ele, o governo Trump agiu “proativamente”
e “de forma defensiva”, ao agredir o Irã. Parece claro que Israel é quem
dá as cartas, definindo o momento do ataque.
Talvez
eu esteja exagerando um pouco. Os Estados Unidos têm seus próprios objetivos de
dominação no Oriente Médio. Seja como for, uma coisa ficou evidente. O Irã é um
osso duro de roer. Não é a Palestina indefesa, submetida a destruição e
massacre pela covardia israelense. Não é o Líbano, também indefeso e sob ataque
de Israel. Não é a Síria, despedaçada por uma agressão dos EUA, de Israel e da
Turquia. Nem é uma Líbia. Nem um Iraque. E não é uma Venezuela, que foi
subjugada com facilidade por uma intervenção relâmpago dos Estados Unidos.
O Irã é
uma potência militar que vem conseguindo impor pesadas perdas aos agressores,
inclusive aos aliados ou satélites árabes dos Estados Unidos e Israel no Golfo
Pérsico. Esses países árabes (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait,
Catar e Bahrein) abrigam bases militares americanas em seu território. Dessas
bases, ataques são feitos ao Irã, o que converte o território desses países em
alvo legítimo para os iranianos.
Eles
dependem, ademais, da passagem pelo Estreito de Ormuz para escoar as suas
exportações de petróleo e gás natural (dos cinco mencionados, só a Arábia
Saudita conta com outros canais). O Irã fechou esse estreito cirurgicamente,
excetuando apenas os navios dos seus aliados estratégicos – Rússia e,
sobretudo, China. Os outros navios que tentam passar estão sendo bombardeados.
Como
envelheceu mal, diga-se de passagem, a recente declaração do presidente Lula,
poucos dias antes do início da guerra, quando estava a caminho de Abu Dhabi:
“Não estou preocupado com o que os Estados Unidos vai fazer com o Irã” (!), mas
sim, disse, com o comércio e as relações entre os Emirados Árabes Unidos e o
Brasil! Uma de muitas declarações infelizes que o presidente brasileiro vem
dando desde o ataque à Venezuela. Vejam bem: o presidente de um país que se
declara pacifista “não se preocupa” com uma agressão militar iminente. Além
disso, ironicamente, o nosso comércio com os Emirados, a prioridade definida
por ele, ficará reduzido a zero ou quase zero com a eclosão da guerra. Contudo,
depois do início da guerra, essa derrapada foi corrigida por manifestações
oficiais brasileiras condenando o ataque ao Irã.
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Uma civilização milenar e pacífica, um grande país
O
Irã é uma civilização milenar. Trata-se de um país orgulhoso de suas
tradições. Nunca foi uma colônia, embora tenha sido submetido a uma relação
semicolonial em certos períodos por potências estrangeiras, principalmente
Inglaterra e Estados Unidos. A última invasão do Irã a algum país remonta ao
século 18.
Agora,
os iranianos não estavam atacando ninguém e nem se preparavam para fazê-lo. Ao
contrário, tentavam uma solução negociada com os Estados Unidos, quando foram
apunhalados pelas costas.
Não se
deve perder de vista a dimensão do Irã. São mais de 90 milhões de iranianos,
vivendo num território maior do que a soma dos territórios da França, Espanha,
Alemanha e Itália. Comparem com a pequena Palestina, com população inferior a 6
milhões, vítima do genocídio e limpeza étnica praticados por Israel. O Irã não
será varrido do mapa.
Os
iranianos vem-se preparando há décadas para esse enfrentamento. Apesar das
sanções aplicadas pelos Estados Unidos durante mais de 40 anos, com a
colaboração de outras nações do Ocidente coletivo, o Irã acumulou grande
capacidade de retaliação, como estamos vendo agora. A consciência iraniana de
que essa preparação era necessária remonta a 1980, quando o Irã foi atacado
pelo Iraque de Sadam Hussein (sim, ele mesmo!), armado e incentivado pelos
Estados Unidos e por Israel. O Irã foi pego de surpresa e se deu conta das suas
vulnerabilidades militares. E tirou a lição correta, transformando-se numa
potência militar.
A
resistência do Irã e a coesão interna do país só aumentaram com a decisão
realmente estúpida, tomada por Estados Unidos e Israel, de assassinar o aiatolá
Khamenei. Uma liderança extraordinária, um homem fora do comum foi transformado
em mártir e símbolo da resistência iraniana à ameaça existencial que o país
enfrenta. Portou-se como um herói. Nunca será esquecido.
A
verdade é que os Estados Unidos e Israel são sociedades profundamente doentes.
Trump e Netanyahu expressam essa doença. E esses dois países converteram-se em
ameaça para os demais.
O que
pretende a dupla diabólica? Os Estados Unidos buscam escapar do declínio e
naufrágio civilizacional do Ocidente. E estão dispostos a tudo. Querem retomar
à força a sua hegemonia mundial, crescentemente contestada. O alvo último é a
China, “o país mais poderoso relativamente a nós desde o século 19”, como
destacou o documento de estratégia de defesa nacional dos EUA, divulgado agora
em janeiro.
Israel,
por seu turno, quer levar adiante o projeto de domínio do Oriente Médio. Apenas
dois países de peso se opõem a esse projeto – Irã e Turquia. Se o Irã sucumbir,
a Turquia será provavelmente a próxima vítima.
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E o Brasil?
Somos
um país vulnerável. Há muito tempo. Durante a década de 1980, quando passamos
por uma redemocratização pacifista e antimilitar, o problema se agravou. Basta
lembrar, leitor ou leitora, que os constituintes introduziram na Constituição
de 1988 um dispositivo que renuncia à energia nuclear como instrumento de
defesa – como se tivéssemos sido derrotados em uma guerra! Depois veio o
entreguista-mor, Fernando Henrique Cardoso, um mero procônsul do Império, e
aderiu vergonhosamente ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Em oito anos na
Presidência (1995 a 2022), o que fez FHC para fortalecer a defesa nacional?
Para fortalecer as escolas militares? Nada. Isso não fazia parte do projeto
político implementado pela corja tucana.
Depois
vieram Lula 1 (2003 a 2006), Lula 2 (2007 a 2010), Dilma 1 (2011 a 2014), Dilma
2 (2015 e parte de 2016) e Lula 3 (2023 até hoje). O que fizeram os governos
comandados pelo PT para fortalecer a defesa nacional em mais de 16 anos? O que
fizeram os ministros da Defesa desses governos? Tomaram, ou tentaram tomar,
iniciativas importantes no campo da defesa nacional. Mas não nos retiraram da
condição de vulnerabilidade militar.
Com
Temer e depois Bolsonaro, meros fantoches do Império, a nossa situação piorou.
Bolsonaro, em especial, um imitador servil e ignorante de Donald Trump, só fez
agravar a fragilidade militar nacional, intensificando a cooperação em matéria
de defesa com os Estados Unidos e chegando a ponto de inscrever o Brasil como
“importante aliado extra OTAN”, designação adotada por Washington para aliados
militares não membros da organização.
Por
essas e várias outras razões, é que devemos considerar a eleição de 2026 como a
mais importante da nossa História. Lula, com todas as suas limitações, ainda
mantém certa resistência ao projeto colonial e assassino comandado por Trump e
Netanyahu. O governo brasileiro condenou o genocídio em Gaza, recusou-se a
aderir às sanções contra a Rússia, manteve relações estratégicas com a China e
acabou condenando também o ataque ao Irã.
Se
cairmos nos braços de Flávio Bolsonaro, o Brasil ficará reduzido à posição
subordinada da Argentina de Milei. No atual ambiente internacional, isso
significará a destruição da soberania brasileira.
Fonte:
Outras Palavras/Le Monde

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