O
temor de jogadoras da seleção do Irã de voltar ao país após se recusarem a
cantar o hino em torneio na Austrália
Cinco
integrantes da seleção feminina de futebol do Irã receberam vistos humanitários
na Austrália após a eliminação da equipe na Copa da Ásia, segundo o governo
australiano.
O
ministro da Imigração da Austrália, Tony Burke, disse que as jogadoras
"foram levadas para um local seguro" pela polícia australiana.
Segundo Burke, outras integrantes da equipe foram informadas de que são
bem-vindas para permanecer na Austrália.
As
atletas deveriam embarcar de volta ao Irã, mas torcedores manifestaram
preocupação com a segurança delas depois que a equipe se recusou a cantar o
hino nacional antes da partida contra a Coreia do Sul na semana passada durante
a Copa da Ásia.
O
episódio gerou críticas no Irã, com um comentarista conservador acusando a
equipe de ser formada por "traidoras em tempo de guerra" e
pressionando por punições severas.
O
programa de vistos humanitários da Austrália concede proteção permanente a
refugiados e pessoas em situação de necessidade humanitária. Os portadores
desses vistos podem viver, trabalhar e estudar no país.
O
restante da equipe foi levado ao Aeroporto de Gold Coast, no Estado de
Queensland, de onde voou ontem (9/3) para Sydney, maior cidade da Austrália.
A
técnica da seleção iraniana, Marziyeh Jafari, foi brevemente parada por dezenas
de ativistas que tentaram convencer as outras jogadoras a permanecer na
Austrália. Alguns manifestantes se deitaram no chão na tentativa de impedir que
o ônibus seguisse viagem. As jogadoras permaneceram dentro do veículo enquanto
assistiam à cena.
Falando
na manhã de terça-feira (10/3), Burke disse que as cinco jogadoras autorizaram
a divulgação de seus nomes: Fatemeh Pasandideh, Zahra Ghanbari, Zahra Sarbali,
Atefeh Ramazanzadeh e Mona Hamoudi.
"Elas
querem deixar claro que não são ativistas políticas. São atletas que querem
estar seguras", disse Burke, acrescentando que as negociações vinham
ocorrendo havia vários dias.
Segundo
ele, na segunda-feira (9/3) "ficou claro que havia cinco mulheres que
queriam poder permanecer na Austrália".
O grupo
deixou o hotel no mesmo dia e foi levado para um local seguro pela polícia.
Pouco depois da saída, a BBC testemunhou alguns dos supervisores das jogadoras
correndo pelo hotel para tentar encontrá-las, mas elas já haviam partido.
Burke
disse que se encontrou com as atletas no local seguro e, em seguida, aprovou as
suas solicitações para concessão de vistos humanitários — um processo concluído
na madrugada de terça-feira (10/3).
Não
está claro quais repercussões isso pode ter para as famílias das jogadoras.
"Eu
disse às outras integrantes da equipe que a mesma oportunidade existe. A
Austrália acolheu a seleção feminina de futebol do Irã em nossos corações.
Essas mulheres são extremamente populares na Austrália."
"Mas
sabemos que elas estão em uma situação extremamente difícil com as decisões que
estão tomando", disse Burke.
O
primeiro-ministro da Austrália, Anthony Albanese, confirmou posteriormente que
as cinco jogadoras haviam recebido vistos humanitários.
Na
noite de domingo, centenas de torcedores cercaram o ônibus das jogadoras quando
ele deixou o estádio em Gold Coast, entoando gritos de "save our
girls" ("salvem nossas garotas", em tradução livre).
No dia
seguinte, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, exigiu uma ação em
relação às jogadoras.
A
Austrália deveria "conceder asilo" às mulheres, escreveu Trump na
plataforma Truth Social. "Os EUA as receberão se vocês não o
fizerem", acrescentou.
Cerca
de uma hora depois, Trump publicou novamente dizendo que havia falado com o
primeiro-ministro australiano, e que "cinco já foram resolvidas, e as
demais estão a caminho".
A
publicação de Trump também pareceu sugerir que algumas integrantes da equipe
temiam pela segurança de suas famílias no Irã e, por isso, sentiam que
precisavam "voltar".
"De
qualquer forma, o primeiro-ministro está fazendo um trabalho muito bom ao lidar
com essa situação bastante delicada. Que Deus abençoe a Austrália!", disse
Trump.
O
governo Trump suspendeu todas as decisões sobre asilo no fim do ano passado e
deixou de emitir vistos de imigração para cidadãos de dezenas de países,
incluindo o Irã. Segundo o governo Trump, a medida busca pôr "fim a
abusos" do sistema.
No ano
passado, dois grupos de iranianos, incluindo pessoas cujos pedidos de asilo
haviam sido negados, foram deportados dos EUA de volta ao Irã. Segundo relatos,
os grupos incluíam integrantes da comunidade LGBT, que enfrentam severas
consequências legais e sociais no Irã.
<><>
'Elas não podem falar livremente'
Mais
cedo, Craig Foster, ex-capitão da seleção masculina de futebol da Austrália e
proeminente defensor dos direitos humanos, disse que os ativistas têm
"preocupações muito razoáveis e sérias com a segurança delas
[jogadoras]".
"Quando
qualquer equipe participa de um torneio regulado pela Fifa [Federação
Internacional de Futebol], seja da Confederação Asiática de Futebol ou de
qualquer outra confederação, deve ter o direito à segurança e ao apoio externo
para expressar quaisquer preocupações que tenha sobre sua segurança agora ou no
futuro", disse Foster à BBC.
Na
segunda partida contra a Austrália e novamente no jogo final de domingo (8/3)
contra as Filipinas, a equipe iraniana cantou e saudou durante o hino nacional,
levando críticos a acreditar que teriam sido obrigadas a participar por
autoridades do governo que as acompanhavam como parte da delegação.
Deniz
Toupchi, que viajou para apoiar a equipe em sua partida final, disse sobre a
decisão inicial de permanecer em silêncio: "Não esperávamos isso, para ser
sincera, porque sabemos que é [algo] realmente muito grande de se fazer."
Ela
acrescentou: "Estamos apenas orgulhosos delas."
Toupchi
foi uma das centenas de integrantes da comunidade iraniana na Austrália
presentes nas arquibancadas no domingo. Durante o hino, que eles não
reconhecem, vaiaram e fizeram provocações.
No meio
do primeiro tempo, muitos também ergueram a bandeira com o símbolo de um leão e
do Sol, que foi a bandeira oficial do Estado antes da Revolução Islâmica no Irã
em 1979.
Essas
bandeiras haviam sido levadas clandestinamente para dentro do estádio
desafiando avisos do lado de fora que informavam que apenas a atual bandeira
oficial do Irã poderia ser exibida.
Mas,
embora os torcedores apoiassem as jogadoras com entusiasmo, houve muito pouca
interação entre eles e a equipe durante a partida.
Em uma
exceção específica, uma jogadora que recebia atendimento médico à beira do
campo mandou um beijo para as arquibancadas, recebendo uma grande ovação.
E,
enquanto a equipe das Filipinas se alinhou para agradecer aos seus torcedores
ao final da partida, as iranianas deixaram o campo prontamente.
"Elas
não podem falar livremente porque estão sob ameaça", disse Naz Safavi, que
assistiu às três partidas disputadas pela equipe. "Nós estamos aqui para
mostrar que as apoiamos totalmente."
Com a
crescente preocupação sobre o tratamento que as jogadoras podem enfrentar
quando voltarem para casa, surgiu um movimento para apoiá-las caso desejassem
pedir asilo na Austrália.
"Algumas
podem ter preocupações, outras podem não ter, mas o que sabemos é que a maioria
delas tem famílias em seu país de origem, algumas têm filhos no Irã, e mesmo
que recebam o direito de permanecer na Austrália, se se sentirem inseguras,
muitas podem não aceitar essa oportunidade", disse Foster, da seleção
masculina de futebol da Austrália, que desempenhou um papel central ao ajudar a
seleção feminina do Afeganistão a fugir do Talebã em 2021.
"O
mais importante é que essa oferta seja feita", disse Foster.
Na
coletiva de imprensa após a partida de domingo, Jafari, técnica da equipe
iraniana disse: "Estamos ansiosas para voltar [para o Irã]. Pessoalmente,
gostaria de retornar ao meu país o mais rápido possível e estar com meus
compatriotas e minha família."
"O
governo australiano deveria exercer um [papel] de liderança moral aqui",
disse Zaki Haidari, defensor dos direitos dos refugiados na Anistia
Internacional Austrália.
"Este
também é um momento muito crítico enquanto celebramos o Dia Internacional da
Mulher [8/3] e falamos sobre liberdade, igualdade, perseguição de gênero e
igualdade de gênero."
Esse
sentimento também foi compartilhado pelos torcedores no estádio na noite de
domingo.
"Estamos
às encorajando, esperando que fiquem aqui, mas ao mesmo tempo sabemos que a
vida das famílias delas está em perigo", disse Melika Jahanian.
"Qualquer
decisão que tomarem será terrível, por isso elas precisam do apoio do governo
australiano."
Fonte:
BBC News

Nenhum comentário:
Postar um comentário