A
EXTREMA DIREITA CONSTRÓI HÁ ANOS A SUA CAPILARIDADE NACIONAL
Muita
gente nem sequer estava sabendo que a extrema direita voltaria às ruas em 1º de
março. Eu mesmo descobri bastante em cima da hora. Esta circulação menos
intensa da convocatória talvez se explique pelo afastamento de Silas Malafaia
da organização. No período entre fim de 2023 e fim de 2025, o pastor se
especializou na organização de “showmícios” profissionais. O objetivo da
campanha que ele armou era pressionar o Congresso pela “anistia” a Jair
Bolsonaro, aos generais envolvidos na tentativa de golpe militar de 2022 e aos
presos do 8 de janeiro de 2023. Mas o “amanhã vai ser maior” não se confirmou.
Com a prisão do ex-presidente em novembro do ano passado, este ciclo se
encerrou e qualquer forma de resistência mais intensa ou disruptiva saiu de
cena, pelo menos por hora. O que restou é a aposta de que o perdão aos
golpistas – de alto escalão e/ou de baixo calão – virá não por meio do
Legislativo (anistia), e sim do Executivo, em 2027 (indulto), algo com o que
todos os pré-candidatos do clã Bolsonaro e da direita, sem medo de se aliar à
extrema direita, já se comprometeram como sua primeira ação no poder.
No chão
do ato, a manifestação não parecia muito grande. Andei tranquilamente na
Avenida Paulista até a Rua Peixoto Gomide. Muitos buracos entre as pessoas, um
deles preenchido por um enorme bandeirão trazido de Poços de Caldas. Quando o
protesto bolsonarista está muito denso, várias vezes nem arrisco contornar o
carro de som para chegar do lado oposto. Considerei que valia a pena a
tentativa. Ao chegar no quarteirão do MASP, consegui com facilidade me
aproximar do carro de som, mas descobri que a organização do ato montou uma
“área VIP”, que impedia que manifestantes comuns circulassem livremente;
aparentemente, apenas ativistas escolhidos poderiam acessar a área protegida
por grades de contenção.
Em
termos puramente quantitativos, o ato “Acorda Brasil” não foi um fracasso.
Antes da prisão de seu maior líder, a média de manifestantes estava em torno de
40 mil (como nos atos de 07/09/24, 04/08/25, 07/09/25). Já depois do seu
encarceramento, os atos de Brasília em novembro (100 pessoas) e de São Paulo em
dezembro (1,4 mil) demonstraram o que realmente é um protesto bolsonarista
pequeno. Ao final do último domingo, me surpreendi quando saiu a contagem do
Monitor do Debate Político da USP e do Cebrap, com 20,4 mil manifestantes, um número
próximo ao reunido em 25 de janeiro deste ano em Brasília (18 mil). Parece-me
que este é o “novo normal” da capacidade de mobilização bolsonarista.
Não
acompanhei o adensamento da manifestação, pois parei de circular para me
posicionar em um canteiro elevado, do lado do Parque Trianon. Ali, a vista era
relativamente privilegiada, mas alcançava apenas o telão no carro de som, não
os oradores em carne e osso, bloqueados por uma banca de jornal. Desde 2015,
quando comecei a observar protestos das direitas, é muito nítido como a unidade
central de mobilização é a família, em especial, casais. Desta vez, eu estava
rodeado apenas por mulheres mais velhas – as poucas exceções foram dois homens
que ficaram pouco tempo por ali e uma jovem que se embrenhou entre nós para
poder tirar fotos e fazer vídeos; ao começar a se afastar, ela foi muito
elogiada pelas senhoras, como se fosse raro que a juventude se mobilizasse
pelas pautas e bandeiras consideradas corretas.
Em seu
discurso, Nikolas Ferreira se referiu a esta parcela de sua audiência como “as
tias do zap”. O jovem deputado federal disse: “Palmas pras tias do zap. O
Brasil te ama”. As senhoras ao meu redor foram à loucura. Não apenas durante o
discurso do orador mais carismático do dia. Eu até diria que, com a ausência de
Jair e Michelle, o carisma estava relativamente bem distribuído entre os que
falaram no microfone naquele domingo. Quase todos os deputados estaduais e
federais, governadores e senadores foram aclamados.
Alguns
minutos antes, a chegada de Flávio Bolsonaro junto com o pastor e Nikolas foi
projetada no telão do carro de som e a animação foi generalizada – difícil
precisar para qual alvo a energia das pessoas foi proporcionalmente mais
canalizada. Em uma conversa informal entre duas amigas, o deputado federal
Capitão Derrite foi chamado de “um homem bonito”. Pelas palmas e gritos, a
libido das senhoras se orienta para a legitimação de quase todos os
políticos-celebridades do campo conservador-reacionário, o que não é pouca
coisa em um cenário de enorme descrença e desconfiança na política
institucional, considerando tanto o Brasil quanto o mundo.
Não foi
um ato gigante, mas foi um ato emocionalmente intenso. Nas observações de
protesto, também é significativo prestar atenção nos discursos e nos símbolos
que ali circulam. Praticamente todos os oradores no carro de som se basearam
discursivamente em um antagonismo entre a “ditadura de toga” e o que eles
chamam de “verdadeira democracia”. Mesmo caminhando para uma campanha eleitoral
no 2º semestre em que poderão concorrer livremente, o diagnóstico do campo
conservador-reacionário é de “injustiça”, medo, “perseguição”, prisões,
“sequestros” e “exílios”. Tanto Eduardo Bolsonaro (residindo nos EUA) quanto
Carla Zambelli (presa na Itália) foram mencionados inúmeras vezes.
Em
termos simbólicos, para além da já consagrada tríplice aliança das bandeiras
brasileira, estadunidense e israelense, me chamou a atenção de uma bandeira
gaúcha no chão do ato e uma bandeira do estado de Pernambuco pendurada no carro
de som. Camisetas, cartazes e conversas informais revelam que o ato não é
composto apenas por paulistanos: São José, Araçatuba e Campinas (cidades do
interior de São Paulo), Tubarão (Santa Catarina) e a já mencionada Poços de
Caldas (Minas Gerais). A extrema direita constrói há anos a sua capilaridade
nacional.
Tenho
me interessado também na descrição do que pode ser chamado de tecnologias
sociais nos protestos. O carro de som unificado foi uma inovação de Malafaia
que, em novembro de 2023, possibilitou centralizar o ato e reprimir
dissidências. Desde setembro de 2024, eu passei a chamar a atenção à dinâmica
de tapete vermelho que permite os políticos-celebridades entrarem e saírem do
carro de som, com os manifestantes-fãs gritando e tirando fotos. Mesmo em um
contexto de retumbante fracasso quantitativo, no final de 2025, as
subcelebridades que substituíram Malafaia criaram duas inteligentes gambiarras
para contornar a ausência de Jair e também das massas, o que eu nomeei de
líder-de-papelão e povo-de-LED.
Desta
vez, graças à minha vista privilegiada no canteiro do Trianon, fiquei
observando a lógica profissional da edição do que se passava ao vivo no telão
do carro de som. Em vez de um mambembe Jair de papelão, o ex-presidente
compareceu em um vídeo muito bem editado. Projetados no telão, os manifestantes
contemplaram: o ex-presidente em lágrimas, a facada e o sofrimento no hospital.
Contudo, o fim da narrativa audiovisual é épica: Jair aparece jovem como
capitão e, em seguida, recebendo a faixa em 2019 como presidente eleito da
república – uma promessa ou expectativa de que o passado possa se repetir no
futuro? Enquanto os oradores ali presentes faziam seus discursos eletrificados,
o telão alternava entre um zoom no carro de som, a multidão enquadrada habilmente
para parecer muito maior do que de fato era e, por fim, um zoom em algum
manifestante individual. Em ambos os casos das inteligentes edições, o que se
busca é uma fusão ou identificação entre lideranças e povo.
A
percepção subjetiva de sucesso quantitativo era tamanha, que uma manifestante
ao meu lado se espantou com o telão e disse para a amiga “é que nem na época da
Dilma!”, o que evidencia a confusão de escalas: no domingo eram duas dezenas de
milhares, enquanto nos momentos de auge da campanha pró-impeachment eram mais
de duas centenas de milhares.
O uso
do telão também inovou ao incorporar o “exilado” e ex-deputado federal Eduardo
Bolsonaro, falando diretamente de um celular de dentro de seu carro. Sua fala
foi breve, mas incisiva: a eleição não é a única forma de transformar a
sociedade brasileira, mas é o instrumento mais rápido e eficiente que a extrema
direita tem à sua disposição. Com Flávio Bolsonaro eleito em outubro de 2026, a
certeza de que virá a libertação de seu pai.
A
conexão ao vivo com Eduardo correu surpreendentemente bem, sem nenhuma falha
técnica. Não se pode dizer o mesmo do microfone, que falhou algumas vezes e
simplesmente parou de funcionar na vez de um empresário discursar. E o próprio
telão, tão bem utilizado na maior parte do ato, também teve seus momentos de
piscar e falhar. Na gestão de Malafaia (2023-25), os showmícios sempre correram
de forma profissional e impecável. Talvez estas falhas possam ser lidas
metaforicamente como as dificuldades de o campo conservador-reacionário
efetivar seu maior objetivo ali propalado: uma unidade que parecia estar
funcionando a pleno vapor, mas que abaixo da superfície se revela mais frágil
ou mais desafiadora do que querem conceder suas lideranças.
Todo
protesto é produzido por uma pluralidade de atores e de agendas que estão em
conflito e são hierarquizados, mesmo que tal assimetria mude com o decorrer do
tempo. A tarefa de quem o etnografa é organizar em uma narrativa estas
divergências cambiantes que são internas a um mesmo campo politico.
Se
formos nos ater ao curto prazo, a discordância mais fácil de se identificar é a
existência ou mesmo concorrência entre dois pré-candidatos à presidência para
2026: Flávio Bolsonaro (PL) e o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (ex-União
Brasil e recém-filiado ao PSD). Por um lado, ambos se apresentaram com a mesma
promessa: o compromisso com o indulto a Bolsonaro logo em 1º de janeiro. Logo,
ambos se equivalem como risco à democracia brasileira, que precisa urgentemente
se manter firme na responsabilização de todos os criminosos que atentaram
contra ela em 2022.
Por
outro lado, pela lógica tanto da política das ruas quanto da política
institucional, Caiado está necessariamente em desvantagem. Gilberto Kassab
utiliza com habilidade o PSD para se situar simultaneamente como interlocutor
tanto de Lula quanto de Tarcísio, o que torna mais difícil (ou mesmo
impossível) que Caiado possa se viabilizar como candidato e, ainda por cima,
encarnar uma candidatura que represente a extrema direita.
Além
disso, Flávio foi ungido pelo pai. E isto foi lembrado em vários dos discursos
eletrificados. Por vezes, a ênfase foi na continuidade do sangue; outras vezes
a escolha paterna era relida como escolha divina; por fim, uma remissão à
pátria. De qualquer forma, operações simbólicas consistentes no sentido de
legitimá-lo como herdeiro para quem seria transmitida a liderança de todo um
campo político. Tudo no protesto de domingo caminhava para ser o lançamento
oficial da candidatura presidencial de 01. Mas, no meio do caminho, havia uma
pedra, chamada Nikolas.
É na
tensão entre Nikolas e Flávio que se desenha não apenas o horizonte de disputa
em um prazo mais largo, como a discordância mais profunda que o protesto de
1º de março revelou. Foi Nikolas quem realizou a convocatória original do
ato. Em seu discurso, ele foi fiel ao enquadramento que ele propôs
inicialmente: “Fora Lula, Fora Moraes, Fora Toffoli”. Quase nada de “Flávio
2026”.
As
menções a Lula acabaram sendo mais breves e menos agressivas do que aquelas a
Alexandre de Moraes. O deputado federal pelo PL de Minas Gerais convidou os
manifestantes a se imaginarem voltando à Paulista em um futuro breve para
comemorar o impeachment do ministro do STF, decretando que “o seu destino é a
cadeia”. Embora a reação generalizada tenha sido efusiva, uma senhora do meu
lado comentou com a amiga “Será que a gente vai ver isso?”. Conforme a amiga
não reagiu verbalmente, ela própria respondeu: “Eu acho difícil”.
As
menções finais a Toffoli também foram breves, mas Nikolas afirmou que “Se cair
um, caem todos”. Os discursos de Nikolas sempre são precisos, inspirados e
inspiradores. Ele já teve de discursar em situações mais adversas – atos muito
pequenos que desafiavam a sua tarefa de instilar esperança de que o presente de
sofrimentos e derrotas pudesse ser substituído por um futuro de superação e
vitória. Mas desta vez, ele falou de modo a espraiar confiança: “Essa avalanche
verde e amarela não termina aqui”.
Nikolas
foi o penúltimo a falar e, pela primeira vez desde que observo protestos
bolsonaristas, Flávio ficou com o peso e a responsabilidade de fazer o discurso
de finalização do ato. Iniciou com uma reverência monumental a Nikolas,
creditando à sua “Caminhada Pela Liberdade”, que foi de Paracatu (no noroeste
de Minas Gerais e na divisa com Goiás) até Brasília em janeiro deste ano, a
responsabilidade por ter acordado o Brasil. Interpreto esta como uma tentativa
de decretar sumariamente a superação dos atos minúsculos (e decepcionantes para
a base bolsonarista), que ocorreram logo após a prisão de Jair, na virada de
novembro para dezembro de 2025. Se não bastasse este crédito, Flávio agradeceu
Nikolas “por existir”. Apenas. Não só em contraste com as reclamações
agressivas de Eduardo de que Nikolas estaria com “amnésia”, como também um
reconhecimento de que o jovem deputado se tornou gigante e incontornável para o
partido digital bolsonarista.
Flávio
seguiu em seu discurso de maneira protocolar e, como bom político profissional,
pagando pedágio para todos os presentes: acenou para Ronaldo Caiado, esvaziando
a fricção entre suas pré-candidaturas, e agradeceu Malafaia pelos serviços
prestados. Introduziu o Banco Master afirmando que “agora o Brasil conhece as
entranhas do jogo do poder de Brasília”. Reivindicou o acesso direito e
privilegiado ao pai: teria falado com ele na quarta-feira da semana anterior,
para lhe garantir que, em janeiro de 2027, ele subiria “a rampa”. E buscou
terminar, de forma triunfante, dizendo que eles estão em uma travessia e que
chegarão do outro lado para cantar o hino da vitória.
Não foi
nem o discurso nem a personalidade mais carismática que eu presenciei em atos
da extrema direita, mas Flávio cumpriu seu papel de forma relativamente
competente. Conduziu os manifestantes em um crescente de energia e confiança e
o timing da trilha sonora foi milimetricamente calculado para
coincidir com as palmas ao final de sua fala. Só que o roteirista do protesto
não contava com a atrevida intervenção juvenil de Nikolas. Dez segundos depois
de finalizada a fala de Flávio, o deputado atravancou de forma brusca e ousada
a apoteose orquestrada por Flávio, palmas e música. O ato parecia ter acabado,
mas ele tomou o microfone para dizer que, antes da manifestação ser finalizada,
ele queria puxar uma salva de palmas e homenagear Michelle Bolsonaro – uma
agente política que havia sido muito menos mencionada no carro de som do que
Jair, Eduardo ou Zambelli.
Além
disso, Nikolas convocou todos a orar um Pai Nosso, justificando que “nada do
que a gente fizer vai prosperar se nós não consagrarmos isso daqui ao nosso
Deus”. Assim, acabou usurpando o protagonismo de Flávio 2026 no gran
finale do evento. Em seguida, o ato foi efetivamente encerrado e a
trilha sonora pôde seguir sem interrupções. É verdade que, para as eleições de
outubro, a candidatura de Flávio vai se tornando inevitável por ser a mais
bem-posicionada para ser encampada pelas direitas descomprometidas com a
democracia. É a trinca sangue, pátria e Deus legitimando-o como único herdeiro
de Jair Messias Bolsonaro. E é verdade que Nikolas não é um concorrente para o
curto prazo; pelo limite constitucional, ele só se tornará presidenciável nas
eleições de 2034. Hoje, ele tem apenas 29 anos. Contudo, pelo seu tamanho
digital e pelo seu carisma nas ruas, me parece que a grande divergência,
conflito ou competição no interior do campo conservador-reacionário passará a
se dar entre ele e o clã Bolsonaro. E, no médio prazo, o “em nome do pai” de
Flávio me parece menos poderoso do que o “em nome do Pai” de Nikolas Ferreira.
Fonte:
Por Jonas Medeiros, para Le Monde

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