quinta-feira, 12 de março de 2026

A divisão entre os iranianos sobre o futuro do país com novo líder supremo

A Assembleia de Peritos do Irã anunciou a nomeação de Mojtaba Khamenei como o novo líder supremo do país e sucessor do seu pai, o aiatolá Ali Khamenei, morto no primeiro dia da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, 28 de fevereiro.

Multidões favoráveis ao governo tomaram as ruas para comemorar a indicação de um líder linha-dura, próximo ao poderoso Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI).

Mas outros iranianos manifestaram à BBC que eles não acreditam que haverá mudanças.

"Mesmo as menores chances de mudança não estão mais no sistema", disse um homem na casa dos 30 anos na capital iraniana, Teerã.

Ele afirmou que a Assembleia de Peritos — um corpo clerical de 88 membros que escolhe o líder supremo do Irã — não poderia ter selecionado alguém mais próximo de Ali Khamenei.

"Por isso, tudo ficará mais ou menos igual", acrescentou ele. "Eles não precisam nem substituir os cânticos para apoiar o novo líder."

Existem rumores há anos de que Mojtaba Khamenei mantinha influência considerável nos bastidores do país. E muitos esperam que ele dê continuidade às políticas linha-dura do seu pai.

Uma mulher na casa dos 20 anos de idade em Teerã declarou acreditar que Mojtaba Khamenei será "ainda mais opressor do que o pai".

Ela disse à BBC que espera "realmente que a vida das suas [principais autoridades] termine na guerra porque, se ficarmos sob seu governo, todos iremos morrer".

Outro morador de Teerã, na casa dos 30 anos, declarou que "ele é vingativo. Eles mataram seu pai. e ele não irá perdoar."

"Se ele não conseguir vingança contra os Estados Unidos, ele irá conseguir conosco, pessoas comuns. Espero que Israel e os EUA o ataquem."

Desde a noite de domingo (8/3), o canal de TV estatal iraniano IRINN vem mostrando manifestações pró-governo em favor de Mojtaba Khamenei em diversas cidades do país. Elas incluem Teerã, a cidade sagrada de Qom e o seu local de nascimento, Mashhad, no nordeste do país.

As multidões são mostradas nas filmagens acenando com a bandeira da República Islâmica. Mas Mojtaba Khamenei ainda não fez nenhum discurso nem apareceu ao público.

"Estamos muito felizes. Graças à Assembleia de Peritos", disse uma mulher ao canal iraniano.

"A mão de Deus está nos protegendo. Khamenei ainda é o nosso líder."

Outra mulher declarou: "Não poderia ser melhor. Nossos corações estão entusiasmados."

A BBC News Persa e a BBC Verify (o serviço de verificação de dados e imagens da BBC) também confirmaram vídeos postados nas redes sociais na noite de domingo.

Eles incluem tanto cânticos de "morte a Mojtaba" e "morte ao lacaio", em oposição a Mojtaba Khamenei, quanto vídeos com a frase Allahu Akbar ("Deus é o maior"), em apoio ao novo líder.

O clérigo de 56 anos costumava manter perfil reservado durante o governo do pai. Mas havia rumores, há muito tempo, sobre sua influência como guardião do antigo líder supremo.

Telegramas diplomáticos americanos, publicados pelo WikiLeaks no final dos anos 2000, o descreveram como "o poder por trás dos mantos" no regime. Ele era geralmente considerado um "líder forte e capaz".

Além de ser próximo do CGRI, Mojtaba Khamenei foi acusado de interferir nas eleições presidenciais e comandar a força paramilitar voluntária Basij. Seus cerca de 450 mil membros têm reputação de lealdade ao regime e de brutalidade.

Uma mulher de Teerã na casa dos 40 anos afirmou acreditar que Mojtaba Khamenei seria "pior que seu pai".

"Se ele estiver vivo, acho que os Estados Unidos e Israel irão atacá-lo."

Antes da sua escolha como líder no domingo (8/3), "todos entoavam cânticos contra Mojtaba", segundo ela.

"Ninguém o aceita, exceto os apoiadores deste regime."

Nesta segunda-feira (9/3), manifestantes favoráveis ao governo iraniano se reuniram na praça Enghelab, em Teerã, para homenagear seu novo líder.

E a TV estatal do país exibiu grandes multidões que se reuniram para demonstrar sua fidelidade no domingo.

As pessoas mostravam fotografias de Mojtaba Khamenei e seu pai e acenavam com bandeiras, enquanto os carros soavam suas buzinas.

"Agora estamos certos de que o caminho irá prosseguir com sua liderança", declarou um homem à agência de notícias Reuters.

Uma mulher descreveu sua "profunda alegria", dizendo que Mojtaba Khamenei é "muito parecido com seu pai".

"De todos os possíveis candidatos, ele era o mais merecedor e o mais parecido" com o antigo líder, segundo ela.

Na cidade de Karaj, perto de Teerã, um morador contou que não sabia muito sobre Mojtaba Khamenei antes da nomeação.

"Agora, ficará claro se Trump tem um acordo com eles ou não. Eles precisam atacá-lo", disse ele, que está na casa dos 20 anos de idade.

Outro homem disse acreditar que "isso significa que nada irá mudar".

Para ele, "é o mesmo caminho, talvez até pior. Não acho que ele irá durar."

No início da semana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que deseja participar da seleção do novo líder supremo do Irã e que Mojtaba Khamenei seria "inaceitável".

Poucas horas antes do anúncio da indicação, Trump declarou que, sem sua aprovação, quem quer que assumir "não irá durar muito".

Israel também alertou, antes da confirmação do filho de Ali Khamenei como o novo líder, que iria "continuar a buscar qualquer sucessor".

¨      Quem é Mojtaba Khamenei, o novo líder supremo do Irã já na mira de Trump

Mojtaba Khamenei foi escolhido sucessor do aiatolá Ali Khamenei, assassinado no primeiro dia do conflito que envolve os Estados Unidos, Israel e o Irã.

Ao contrário de seu pai, Mojtaba, de 56 anos, é discreto. Ele nunca ocupou um cargo no governo, nem fez discursos ou concedeu entrevistas públicas, e apenas um número limitado de fotos e vídeos dele foi publicado.

No entanto, há rumores antigos sobre sua influência sobre o pai. Documentos diplomáticos dos EUA, publicados pelo WikiLeaks no final da década de 2000, o descreviam como "o poder por trás das vestes", e amplamente considerado um "líder capaz e enérgico" dentro do regime, segundo a agência de notícias AP.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não deve aceitar a escolha. Embora tenha sinalizado que estaria aberto à possibilidade de alguém ligado à antiga liderança assumir o poder, Trump deixou clara sua oposição a Mojtaba Khamenei.

"O filho de Khamenei é inaceitável para mim", disse Trump no início desta semana.

A escolha de Mojtaba Khamenei pode se provar controversa dentro do próprio Irã. A República Islâmica foi fundada em 1979, após a queda da monarquia, e sua ideologia se baseia no princípio de que o líder supremo deve ser escolhido por sua posição religiosa e liderança comprovada, e não por sucessão hereditária.

Ali Khamenei falou apenas em termos gerais sobre a futura liderança da República Islâmica.

Ele se opôs à ideia de Mojtaba ser um candidato à futura liderança, disse um membro da Assembleia de Peritos há dois anos. Mas ele nunca havia abordado publicamente tais especulações.

Então, quem é Mojtaba Khamenei?

Nascido em 8 de setembro de 1969 na cidade de Mashhad, no nordeste do país, Mojtaba é o segundo dos seis filhos de Khamenei. Ele recebeu sua educação secundária na escola religiosa Alavi, em Teerã.

Aos 17 anos, Mojtaba serviu no exército por curtos períodos durante a Guerra Irã-Iraque, de acordo com a mídia iraniana. O conflito sangrento de oito anos tornou o regime ainda mais desconfiado dos EUA e do Ocidente, que apoiavam o Iraque.

Em 1999, Mojtaba foi para Qom, uma cidade sagrada considerada um importante centro da teologia xiita, para continuar seus estudos religiosos. É notável que ele não tenha usado vestes clericais até então, e não está claro por que decidiu frequentar um seminário aos 30 anos, já que é algo que se costuma fazer quando mais novo.

Mojtaba permanece um clérigo de posição intermediária, o que pode representar um obstáculo à sua ascensão como líder supremo.

Nos últimos dias, alguns meios de comunicação e autoridades próximas aos centros de poder no Irã começaram a se referir a Mojtaba Khamenei como "Aiatolá", um título clerical de alto escalão. Essa mudança parece, para alguns observadores, uma tentativa de elevar seu status religioso e apresentá-lo como um líder confiável.

No sistema de seminários, ostentar o título de "Aiatolá" e lecionar em classes avançadas são considerados indicadores do nível acadêmico e do conhecimento de uma pessoa, sendo vistos como um dos requisitos para a seleção de um futuro líder.

Mas já existe um precedente. Ali Khamenei foi rapidamente promovido a "Aiatolá" após se tornar o segundo líder supremo em 1989.

<><> Acusações de interferência política

O nome de Mojtaba entrou pela primeira vez em evidência durante a eleição presidencial de 2005, que resultou na vitória de Mahmoud Ahmadinejad, um populista linha-dura.

Em uma carta aberta a Khamenei, o candidato reformista Mehdi Karroubi acusou Mojtaba de interferir na votação por meio de elementos da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e da milícia Basij, que distribuíram dinheiro para grupos religiosos a fim de ajudar Ahmadinejad a vencer.

Quatro anos depois, Mojtaba enfrentou a mesma acusação. A reeleição de Ahmadinejad desencadeou protestos em massa em todo o país, no que ficou conhecido como Movimento Verde. Alguns manifestantes entoavam cantos se opondo à ideia de que Mojtaba pudesse suceder seu pai como líder supremo do Irã.

Mostafa Tajzadeh, então vice-ministro do Interior, descreveu o resultado como um "golpe eleitoral". Ele foi preso por sete anos, o que atribuiu ao "desejo direto de Mojtaba Khamenei".

Dois candidatos reformistas, Mir-Hossein Mousavi e Mehdi Karoubi, foram colocados em prisão domiciliar após a eleição de 2009. Em fevereiro de 2012, Mojtaba se encontrou com Mousavi e tentou convencê-lo a desistir de seu protesto, disseram fontes iranianas à BBC News Persa.

Muitos esperam que Mojtaba continue as políticas linha-dura de seu pai como líder supremo.

Alguns também acreditam que um homem que perdeu o pai, a mãe e a esposa em ataques dos Estados Unidos e de Israel dificilmente cederá à pressão ocidental.

Mas ele também enfrenta a difícil tarefa de garantir a sobrevivência da República Islâmica e convencer o público de que é a pessoa certa para liderar o país para fora da devastação política e econômica.

Seu histórico de liderança permanece em grande parte inexplorado, e a percepção de que a república está se transformando em um sistema hereditário pode aprofundar ainda mais o descontentamento público.

Mojtaba agora se tornou um alvo marcado — como afirmou o ministro da Defesa de Israel, o próximo líder supremo será "um alvo inequívoco para eliminação".

¨      Indícios sugerem culpa dos EUA em ataque a escola no Irã

Os ataques lançados pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã já causaram ao menos 1.230 mortos, de acordo com dados divulgados na manhã desta terça-feira (10/03), baseados em informações do grupo humanitário Sociedade do Crescente Vermelho Iraniano. 

Um dos mais devastadores bombardeios teria matado 165 alunas e funcionários de escola primária feminina na cidade de Minab, no sul do país, logo no primeiro dia da guerra. A maioria das vítimas seria de meninas de 7 a 12 anos de idade, segundo fontes iranianas. O incidente foi condenado pela Unesco, agência da ONU para a cultura e a educação, e pela ativista da educação vencedora do Prêmio Nobel da PazMalala Yousafzai.

Dias após o ocorrido, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, assegurou que as forças americanas "não atacariam deliberadamente uma escola" e disse que Washington iria investigar o caso.

No sábado, o presidente dos EUA, Donald Trump, havia culpado o próprio Irã pelo ataque. "Pelo que vi, isso foi feito pelo Irã", disse a repórteres a bordo do Air Force One. 

Questionado nesta segunda-feira sobre o porquê de ele ser a única pessoa em seu governo a fazer tal acusação, Trump disse: "Porque simplesmente não sei o suficiente sobre isso" e acrescentou, em relação à investigação que estaria sendo feita pelo governo americano sobre o incidente, que "seja lá o que o relatório mostrar, estou disposto a conviver com ele".

<><> Análises de imagens 

Na sexta-feira, o jornal americano The New York Times noticiou que os EUA provavelmente foram responsáveis ​​pelo ataque, com base em uma análise de imagens de satélite, vídeos e reportagens online.

O jornal e outros veículos de comunicação dos EUA também noticiaram no fim de semana, citando imagens de vídeo da agência de notícias iraniana Mehr News, que a escola foi atingida enquanto um míssil Tomahawk americano aparentemente atingiu uma base naval vizinha da Guarda Revolucionária Iraniana. Segundo o New York Times, os EUA são o único país envolvido neste conflito que possui esse tipo de armamento.

Trump, no entanto, afirmou, falsamente, na segunda-feira que o Irã também teria "alguns" mísseis Tomahawk. Embora a empresa venda o míssil para países aliados como Japão e Austrália, não há evidências que sugiram que o Irã o tenha adquirido.

A sugestão de que um míssil Tomahawk poderia ter sido usado é, segundo o republicano, vaga demais para ser considerada como prova. 

Nesta segunda-feira, a senadora americana Jeanne Shaheen e outros representantes do Partido Democrata pediram ao chefe do Pentágono, Pete Hegseth, que conduzisse uma investigação "completa e imparcial" sobre o incidente. "Análises independentes indicam de forma crível que o ataque pode ter sido realizado por forças americanas", dizia o comunicado. Se confirmado, seria um dos "incidentes mais graves com vítimas civis" em décadas de operações militares dos EUA no Oriente Médio.

<><> "Ataque foi provavelmente americano"

Novas imagens mostram o que um grupo de investigação especializado afirma ser provavelmente um míssil Tomahawk americano atingindo um complexo no sul do Irã, a poucos metros da escola.

Especialistas entrevistados pela agência de notícias Associated Press (AP), citando análises de imagens de satélite, dizem que a escola, localizada ao lado de uma base da Guarda Revolucionária, provavelmente foi atingida em meio a uma rápida sucessão de bombas lançadas sobre o complexo.

Um oficial americano familiarizado com as deliberações internas sobre o assunto disse à AP que o ataque foi provavelmente americano. O oficial falou em condição de anonimato porque não estava autorizado a comentar publicamente sobre o assunto delicado.

As novas imagens, analisadas inicialmente pelo grupo de investigação Bellingcat, foram feitas no dia em que a escola foi atingida, mas divulgadas no domingo pela agência de notícias semioficial iraniana Mehr. O vídeo mostra um míssil atingindo um prédio, lançando uma densa coluna de fumaça escura no ar.

A AP conseguiu geolocalizar o vídeo e determinar que ele foi gravado de um local adjacente à escola, enquanto a fumaça já subia das proximidades. Imagens de satélite do complexo são consistentes com os identificadores visuais encontrados no vídeo, incluindo um prédio com telhado plano, redes de energia e veículos.

Trevor Ball, pesquisador da Bellingcat, identificou a munição como um míssil de cruzeiro Tomahawk. Esta é a primeira evidência de uma munição usada no ataque.

O Comando Central dos EUA reconheceu o uso de mísseis Tomahawk nesta guerra e até divulgou uma foto do USS Spruance, que faz parte do grupo encabeçado pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln, localizado dentro do alcance da escola, disparando um míssil Tomahawk em 28 de fevereiro.

<><> Outros indícios

Outros indícios também apontam para um ataque realizado pelos Estados Unidos. Um deles é o início de uma avaliação do incidente pelas Forças Armadas dos EUA. De acordo com as instruções do Pentágono sobre os processos para mitigar danos a civis, uma avaliação é iniciada depois que um grupo de investigadores determina inicialmente que as Forças Armadas dos EUA podem ser culpadas.

Outro fator é a localização da escola – bem ao lado da base da Guarda Revolucionária e perto do quartel de uma unidade naval. As Forças Armadas dos EUA têm se concentrado em alvos navais e reconheceram ataques na região, inclusive um nas proximidades da escola.

Já Israel, que negou ter realizado o ataque, tem se concentrado em áreas mais a oeste do Irã, mais próximas de Israel, e não relatou nenhum ataque ao sul de Isfahan, que é localizada cerca de 800 quilômetros ao norte de Minab.

A falta de imagens dos fragmentos da bomba resultantes da explosão complica qualquer avaliação do incidente. Nenhuma agência independente chegou ao local durante a guerra para investigar.

Janina Dill, especialista em direito internacional da Universidade de Oxford, escreveu no X que, mesmo que o ataque tenha sido um erro de identificação – e o atacante acreditasse que a escola fazia parte da base vizinha da Guarda Revolucionária  –, ainda assim seria "uma violação muito grave do direito internacional. Quem ataca tem a obrigação de fazer tudo o que for possível para verificar o status do alvo", escreveu.

O governo Trump, no entanto, adota um tom diferente em relação ao direito internacional humanitário. Falando sobre a operação dos EUA em uma coletiva de imprensa em 2 de março, Hegseth disse: "Os Estados Unidos, independentemente do que digam as chamadas instituições internacionais, estão desencadeando a campanha de poder aéreo mais letal e precisa da história".

"Nada de estúpidas regras de engajamento", disse ele. "Nada de politicamente correto", acrescentou.

 

Fonte: BBC News Persa/DW Brasil

 

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