quinta-feira, 12 de março de 2026

João Filho: Bolsonarismo atuou como braço político do ‘banco da máfia’ de Vorcaro

“Esse negócio de banco, sempre falei, é igual máfia” — parece uma frase de senso comum dita por um tiozão do churrasco justamente incomodado com os bancos. Mas não. É de Daniel Vorcaro em conversa com sua namorada no WhatsApp. O  banqueiro não recorreu a uma hipérbole: estava sendo literal.

Além de ter uma teia de relacionamentos extensa, que chega em todos os poderes da República, Vorcaro mantinha uma milícia particular para fazer serviço sujo, como, por exemplo, intimidar funcionários; monitorar autoridades e empresários concorrentes; invadir sistemas do Ministério Público Federal, o MPF, para obter dados sigilosos das investigações contra ele; organizar festas com prostitutas; comprar jornalistas; e bater em outros jornalistas.

Em conversa com seus capangas, falou em forjar uma tentativa de assalto contra um jornalista para poder “quebrar todos os seus dentes”. Um dos integrantes dessa milícia tem um vasto currículo na bandidagem, tendo sido indiciado por roubo de veículos, estelionato, crimes cibernéticos e clonagem de cartões de crédito. É tudo tão mafioso que chega a ser caricato.

<><> Falsa equivalência

A prisão do banqueiro e dos seus capangas, junto com o submundo do poder revelado pelas mensagens do seu celular, deixou muita gente preocupada em Brasília. É fato que Vorcaro buscava manter uma rede de relações com figurões de todos os poderes e de vários partidos. Mas, ao contrário da tese que tem se propagado na grande imprensa, o Banco Master está longe de ser um escândalo suprapartidário.

Diante de tudo o que se sabe até agora sobre a investigação da Polícia Federal, a PF, dá para dizer com tranquilidade que o braço político de Vorcaro é o consórcio das direitas, leia-se bolsonarismo e Centrão. Isso não é uma novidade, mas é preciso relembrar, porque há muita gente interessada em inflar a ideia de que tanto a direita quanto a esquerda estão igualmente envolvidos nessa lama.

No final de 2024, antes de o escândalo estourar, Vorcaro conseguiu uma conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que chamou dois ministros do governo e Gabriel Galípolo, que era diretor de política monetária do Banco Central à época. Em janeiro deste ano, vários veículos noticiaram que o banqueiro teria reclamado com o presidente sobre a concentração do mercado bancário no Brasil. Lula teria respondido que o tema não era da competência do governo e que deveria ser tratado de forma técnica pelo Banco Central. No celular de Vorcaro, a única menção ao encontro teria sido uma mensagem para a namorada em que ele fala que o encontro com o presidente “foi ótimo”. Isso foi o suficiente para o nome de Lula aparecer nas manchetes do escândalo do Banco Master, sugerindo uma relação espúria com o mafioso. Até o momento, absolutamente nada indica que o governo favoreceu Vorcaro. Menos de um ano depois da reunião com o presidente, o Banco Master foi liquidado pelo Banco Central e, agora, Vorcaro foi preso a pedido da Polícia Federal.

O berço do Master

Se o presidente do Banco Central indicado por Lula liquidou o banco da máfia, o presidente indicado por Bolsonaro estendeu o tapete vermelho. O Banco Master nasceu sob uma estranha benção do Banco Central durante o governo Bolsonaro. A autorização da compra do banco por Vorcaro foi assinada pelo então diretor de fiscalização do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza, que depois passou a trabalhar clandestinamente para o banqueiro dentro da autarquia. Segundo a PF, ele e outro funcionário do Banco Central trabalhavam para influenciar as decisões do órgão em favor do Master. Esse homem, que viraria “capanga” de Vorcaro dentro do Banco Central, foi nomeado ao cargo pelo então presidente Jair Bolsonaro.

As campanhas eleitorais de Bolsonaro e de Tarcísio de Freitas foram irrigadas com dinheiro proveniente da rede de contatos de Vorcaro. Seu cunhado, Fabiano Zettel, que também foi preso nesta semana, era o operador financeiro da quadrilha. Ele foi o maior doador individual das campanhas do governador paulista (R$ 3 milhões) e do ex-presidente e atual presidiário Jair Bolsonaro (R$ 2 milhões) em 2022. Além disso, o presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, revelou no início de março que Vorcaro depositou outros R$ 3 milhões direto na conta particular de Bolsonaro, o que é um evidente crime eleitoral.

Zettel é também pastor da Igreja Batista da Lagoinha, cuja cúpula é fervorosa apoiadora do bolsonarismo. O deputado Nikolas Ferreira é frequentador de uma igreja Lagoinha em Belo Horizonte, assim como a irmã de Daniel Vorcaro, que também é pastora da igreja na capital mineira. Durante a campanha presidencial de 2022, Nikolas e um pastor da Lagoinha percorreram 9 estados em 10 dias para promover a candidatura de Bolsonaro. Todo o trajeto foi feito graças a um avião pertencente a Vorcaro. O deputado, coitado, disse que não sabia quem era o dono da aeronave. Talvez ele tenha imaginado que o avião foi fruto de um milagre operado pelos pastores da Lagoinha.

<><> ‘Grande amigo da vida’

A proximidade da máfia do banqueiro com parlamentares bolsonaristas é um dado inegável. Grandes figurões do bolsonarismo, como o presidente do PP, Ciro Nogueira, aparecem nas mensagens de celular de Vorcaro. Nogueira surge como um dos seus “grandes amigos de vida”. Não é crime ter amizade com um gângster, claro, mas fazer lobby dentro do Congresso para favorecê-lo com emendas parlamentares, é, no mínimo, suspeito. Quando Ciro Nogueira propôs uma emenda que favoreceria o Banco Master, a chamada “Emenda Master”, Vorcaro comemorou em mensagem de texto enviada à namorada. Ela pergunta: “Como está tudo?”. O mafioso responde emocionado com o trabalho que o seu “grande amigo da vida” fez no Congresso: “Demais! Emocionante! kkkk. Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro! Ajuda os bancos médios e diminui o poder dos grandes! Está todo mundo louco!”.

Além desses, há uma cacetada de outros nomes bolsonaristas que estão de alguma maneira na teia de relacionamentos. Tem Cláudio Castro, Ibaneis Rocha e mais um monte de bolsonaristas com relações suspeitas com a máfia de Vorcaro.

E os políticos de esquerda? Bom, o que sabemos até aqui é a existência de uma reunião republicana de Vorcaro com o presidente da República. Depois do encontro, o banco foi liquidado pelo Banco Central e o banqueiro foi preso pela Polícia Federal. Outro ponto que pode gerar suspeita seria a proximidade de Vorcaro com o petista Jacques Wagner, que sugeriu a indicação de Ricardo Lewandowski, que tinha acabado de sair do Supremo Tribunal Federal, o STF, para prestar consultoria jurídica para o Banco Master. Não há crime nisso e, até o momento, nada sugere que isso tenha favorecido Vorcaro.

<><> Conectado à extrema direita

Diante desse quadro, como é possível decretar que este é um escândalo “suprapartidário”?  O Banco Master nasceu e cresceu no governo Bolsonaro. Seus sócios irrigaram a campanha eleitoral de Bolsonaro. Bolsonaristas trabalharam no Congresso para favorecer o banco. 

Se Bolsonaro tivesse sido reeleito em 2022, hoje teríamos o maior doador financeiro da campanha do presidente envolvido no maior escândalo da República. Ou, pior que isso, o escândalo talvez nem existiria, porque a Polícia Federal estaria impedida de investigar o caso. Essa falsa equivalência tem ficado popularizada na grande imprensa e será usada pelo bolsonarismo para blindar os verdadeiros operadores do lobby pró Banco Master. Parece inacreditável, mas o fato é que, apesar do DNA bolsonarista, o escândalo tem arranhado mais a imagem da candidatura do Lula do que a de Flávio Bolsonaro. Percebam que o filho de Bolsonaro está caladinho sobre o caso. Ele tem desfrutado dessa falsa equivalência, subindo nas pesquisas e sem precisar explicar o envolvimento pornográfico do seu grupo político com os gângsters do Master.

•        Master: contrato de R$ 38 milhões entre escritório de Ibaneis e fundo ligado à Reag amplia pressão sobre o governador

Um contrato de R$ 38 milhões firmado entre o escritório de advocacia associado ao governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), e um fundo ligado à Reag, gestora investigada pela Polícia Federal no escândalo do Banco Master, ampliou a pressão política e jurídica sobre o chefe do Executivo distrital. A informação foi revelada em reportagem do jornal O Globo, que detalhou a operação celebrada em maio de 2024, num momento em que o BRB já vinha adquirindo carteiras da instituição controlada por Daniel Vorcaro.

Segundo a reportagem, o escritório Ibaneis Advocacia e Consultoria vendeu ao fundo então chamado Reag Legal Claims os direitos creditórios sobre honorários advocatícios no valor nominal de R$ 38 milhões, com data-base de dezembro de 2021. Atualmente, o fundo se chama Pedra Azul. O caso chama atenção porque a Reag é apontada pela PF e pelo Ministério Público Federal como uma estrutura central na engrenagem financeira investigada no esquema de fraudes do Master.

O negócio envolve a cessão de honorários de precatórios, mecanismo pelo qual o comprador adquire o direito de receber valores decorrentes de ações judiciais. Como precatórios dependem de pagamento pelo poder público após condenações definitivas e frequentemente levam anos para serem quitados, esse tipo de ativo costuma circular com deságio e alto risco. No caso citado pela reportagem, a dívida total vinculada ao fundo Pedra Azul era de R$ 381,2 milhões, sem registro, até agora, de recebimento dos honorários relacionados à operação.

A coluna teve acesso ao termo de cessão assinado por Luzineide Getro de Carvalho, gerente administrativa do escritório de Ibaneis, e por Ramon Pessoa Dantas, diretor da Reag. Também participou da operação o escritório Engels Augusto Muniz Sociedade Individual de Advocacia, apontado como próximo do grupo político do governador do Distrito Federal.

<><> Reag no centro do caso Master

O ponto mais sensível do episódio está na posição ocupada pela Reag dentro das investigações sobre o colapso do Banco Master. Conforme já apontado por investigadores, a gestora integrava uma rede complexa de fundos por onde passavam recursos captados em transações consideradas irregulares, o que teria servido para dificultar a rastreabilidade do dinheiro e a identificação de seus destinatários finais.

A conexão não se resume ao contrato firmado com o escritório ligado a Ibaneis. O diretor do fundo que fechou o acordo, Marcos Ferreira Costa, é o mesmo representante do grupo que participou e votou em assembleias de acionistas do BRB em nome do fundo Borneo, outro veículo investigado pela PF. Segundo as apurações, o Borneo teria sido usado numa operação conduzida por Master e Reag para comprar 25% do controle do BRB abaixo do preço de mercado, enquanto carteiras fraudulentas do Master eram negociadas.

De acordo com a Polícia Federal, o Borneo chegou a alcançar, em junho, participação de 4,5% do capital total do BRB e mais de 12% das ações preferenciais do banco. Esses papéis acabaram bloqueados por decisão judicial. Costa também aparece na Comissão de Valores Mobiliários como responsável pela Reag DTVM, posteriormente liquidada pelo Banco Central.

A própria Reag foi liquidada pelo BC em janeiro, dois meses depois de o regulador tomar a mesma medida em relação ao Banco Master. Segundo o Banco Central, a decisão ocorreu “por graves violações às normas que regem as atividades das instituições integrantes” do sistema financeiro nacional. Além disso, a gestora também é alvo de outra frente investigativa da PF, a Operação Carbono Oculto, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro de facções criminosas no mercado de combustíveis e em instituições financeiras.

<><> Contrato amplia desgaste de Ibaneis

Embora a defesa do governador afirme que Ibaneis está afastado do escritório desde 2018, a revelação do contrato elevou a temperatura política em torno do caso. O motivo é que o negócio foi formalizado justamente quando o Master já orbitava o BRB e pouco antes da aquisição de 25% do banco público distrital pelas instituições que se tornaram alvo central das investigações.

A situação se torna ainda mais delicada porque Ibaneis exerce autoridade política sobre o BRB e indicou Paulo Henrique Costa para a presidência do banco. Costa foi afastado pela Justiça em novembro, no contexto das apurações sobre o escândalo. O caso também alimenta pedidos de impeachment apresentados na Câmara Legislativa do Distrito Federal e lança novas dúvidas sobre a viabilidade de sua pré-candidatura ao Senado.

Ibaneis já havia defendido publicamente a compra do Banco Master pelo BRB. Em agosto de 2025, ao sancionar a aprovação da Câmara Distrital para a operação, declarou: “O BRB passará a estar, a partir desta fusão, entre os grandes bancos do país”. Na época, o governador tratava o negócio como uma oportunidade estratégica e afirmava que a transação poderia render dividendos bilionários e “nacionalizar” o banco regional.

Depois da deflagração da Operação Compliance Zero e da liquidação do Master, contudo, a narrativa mudou. Ibaneis passou a sustentar que eventuais problemas nas negociações decorreram de um “excesso de confiança” em Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB e responsável direto pelas tratativas.

<><> Defesa diz que governador não participou de negociações

Em nota assinada por seis advogados, a defesa de Ibaneis Rocha procurou afastar o governador de qualquer envolvimento com a operação. O texto afirma: “A defesa do Governador Ibaneis Rocha esclarece que ele está afastado do escritório de advocacia desde 2018, de modo que não possui informações sobre negociações realizadas quase seis anos após seu afastamento”.

Na sequência, a defesa acrescenta: “Esclarece-se, ainda, que o Governador Ibaneis nunca participou de quaisquer negociações com o Sr. Marcos Ferreira Costa, tampouco com outros representantes dessa empresa. Todas as informações que detém sobre o grupo foram adquiridas a partir de matérias de jornais, já no presente ano”.

A reportagem informa ainda que a Reag não se manifestou sobre o caso. Já o BRB não respondeu ao contato da equipe até o fechamento da publicação.

<><> Elo entre Reag, Vorcaro e fundos sob investigação

Outro aspecto ressaltado na apuração é a relação estreita entre o controlador da Reag, João Carlos Mansur, e Daniel Vorcaro, dono do Master. No mercado, Mansur é tratado como parceiro de negócios de Vorcaro, vínculo que teria se manifestado em diferentes empreendimentos conjuntos.

Um desses movimentos foi a compra do Will Bank, em 2024. No mesmo período, Reag e Master também atuaram, ao lado de Nelson Tanure, na aquisição de papéis do GPA, controlador da rede Pão de Açúcar, diante da perspectiva de venda das operações brasileiras pelo grupo Casino. Tanure é apontado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal como sócio oculto do Master, algo que ele nega.

A PF também identificou outra conexão explosiva entre Reag e o colapso do Master. Após a liquidação extrajudicial do banco, Vorcaro teria escondido R$ 2,2 bilhões que deveriam ser preservados para pagamento de credores em uma conta em nome de seu pai, Henrique Vorcaro, na própria gestora.

<><> BRB tenta estancar rombo bilionário

O pano de fundo do escândalo é a crise de liquidez e solvência que atingiu o BRB após a revelação da carteira de crédito fraudada de R$ 12,2 bilhões vinculada ao Master. Sob pressão do Banco Central para recompor patrimônio e liquidez, o banco público passou a operar uma força-tarefa para vender ativos próprios e também papéis herdados da operação com o Master.

Até aqui, segundo a reportagem, o BRB conseguiu arrecadar R$ 5 bilhões com a venda de parte de suas carteiras de crédito. Ainda assim, o mercado recebeu essas ofertas com forte desconfiança, sobretudo em relação à precificação dos ativos colocados à venda.

Na semana passada, a Câmara Legislativa do Distrito Federal aprovou um projeto para capitalizar o BRB e evitar a quebra da instituição. A operação prevê, além de um empréstimo de R$ 6,6 bilhões bancado pelo Fundo Garantidor de Créditos, a cessão de nove imóveis públicos. A proposta foi aprovada por 14 votos a 10, mas ainda dependia de sanção do governador.

<><> Pressão política cresce no DF

A crise do BRB e os desdobramentos do caso Master colocaram Ibaneis em uma zona de forte desgaste. Segundo a reportagem, o governador tentava empurrar uma decisão definitiva sobre a capitalização do banco para a vice-governadora Celina Leão, num movimento interpretado como tentativa de evitar uma admissão política de erro por ter avalizado a compra do Master.

O problema, porém, deixou de ser apenas narrativo. Com o temor de uma eventual intervenção do Banco Central ou até de uma federalização do BRB para impedir a falência, cresce a cobrança para que Ibaneis assuma a responsabilidade política pelos prejuízos e pelos riscos impostos ao banco público de Brasília.

Nesse contexto, o contrato de R$ 38 milhões entre o escritório do qual o governador se afastou formalmente e um fundo ligado à Reag acrescenta mais um elemento de gravidade a um escândalo que já ameaça o futuro político do emedebista. Ainda que a defesa sustente total distanciamento de Ibaneis em relação ao negócio, a revelação reforça a necessidade de explicações públicas detalhadas sobre as conexões entre seu entorno, a Reag, o Master e a crise que hoje corrói o BRB.

 

Fonte: The Intercept/Brasil 247

 

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