A
nova declaração do governo Trump sobre PCC e CV que preocupa o governo Lula:
'Ameaças à segurança regional'
O
Departamento de Estado dos Estados Unidos disse nesta terça-feira (10/3) que o
governo americano vê as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e
Comando Vermelho (CV) como ameaças de alcance regional.
A
informação consta de uma nota publicada inicialmente pelo jornal O Globo e
confirmada pela BBC News Brasil.
A
declaração acontece após o portal UOL ter publicado reportagem no domingo (8/3)
sobre a intenção do governo de Donald Trump de classificar as duas facções
brasileiras como organizações terroristas.
"Os
Estados Unidos veem as organizações criminosas brasileiras, inclusive o PCC e o
CV, como ameaças significativas à segurança regional em função do seu
envolvimento com o tráfico de drogas, violência e crime transnacional",
diz um trecho da nota.
Sobre a
possibilidade de classificá-las como organizações terroristas, a nota diz que o
governo americano não faz previsões sobre "potenciais designações
terroristas ou deliberações relativas a designações terroristas" e que o
país estaria "totalmente empenhado em tomar medidas adequadas contra
grupos estrangeiros envolvidos em atividades terroristas".
Diplomatas
e integrantes do governo Lula ouvidos reservadamente pela BBC News Brasil
avaliam que uma medida desse tipo não seria tecnicamente correta, uma vez que
não haveria indícios de que as duas facções pratiquem terrorismo sob a lei
brasileira.
Nos
bastidores, o temor é que a classificação das facções como organizações
terroristas seja usada para justificar ações, inclusive militares, na região, a
exemplo dos bombardeios a barcos na Costa de países como Colômbia e Venezuela
sob o pretexto de combater o narcotráfico.
Uma
fonte ouvida pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmou que, no domingo,
o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, conversou com o secretário de
Estado dos EUA, Marco Rubio, sobre o tema.
Procurado,
o Ministério das Relações Exteriores do Brasil não comentou o assunto.
O
episódio ocorre em um momento delicado da relação bilateral.
Brasil
e Estados Unidos vêm negociando, há pelo menos dois meses, a realização de um
encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump.
Lula
chegou a dizer que a reunião poderia acontecer no dia 16 de março, mas a data
não foi confirmada.
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Por que governo não considera que facções sejam grupos 'terroristas'
A
discussão sobre a designação de facções brasileiras como entidades terroristas
vem sendo tratada pelos dois governos há pelo menos um ano.
Em maio
de 2025, o então secretário nacional de Justiça, Mário Sarrubo, disse à agência
Reuters que o governo brasileiro havia rejeitado um pedido sobre o assunto
feito por David Gamble, um oficial do Departamento de Estado americano
responsável pela estratégia do país em relação a sanções.
Na
época, Sarrubo descartou a tese de que as facções brasileiras atuem como
organizações terroristas.
"Nós
não temos organizações terroristas aqui. Nós temos organizações criminosas que
se infiltraram na sociedade", disse Sarrubo à época.
A Lei
Antiterrorismo (Lei 13.260/2016) brasileira classifica como terrorismo os atos
"cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado,
expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade
pública".
A lei
diz ainda que esses atos devem ter "razões de xenofobia, discriminação ou
preconceito de raça, cor, etnia e religião".
Por
isso, argumenta o governo, não seria correto classificar o PCC e o CV como
organizações terroristas.
De
acordo com o governo, a atuação das facções é movida por interesses econômicos
e não políticos.
Nessa
interpretação, sua finalidade seria econômica — não política ou ideológica.
Parlamentares
de direita, no entanto, especialmente os mais alinhados ao ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL) defendem que PCC e CV sejam enquadrados como organizações
terroristas.
Parte
da base bolsonarista apoia um projeto de lei que tramita no Congresso Nacional
que equipara os crimes praticados por facções criminosas a atos de terrorismo.
O
projeto chegou a ser aprovado pela Comissão de Segurança Pública da Câmara dos
Deputados e ainda precisa ser aprovado pelo Plenário da Câmara e do Senado
antes de ser enviado à sanção do presidente Lula.
• Trump vê América Latina como espaço
vital para manter hegemonia dos EUA; Brasil precisa se defender, avalia
historiador
Enquanto
o governo Lula se prepara para um encontro com Donald Trump repleto de “cascas
de banana” em ano eleitoral, o Brasil enfrenta uma possível ameaça à soberania:
a possibilidade de organizações criminosas brasileiras serem classificadas como
terroristas pelos Estados Unidos. Isso abriria precedente para intervenções
militares em solo brasileiro e o avanço de bases estadunidenses em países
vizinhos, como o Paraguai, na tríplice fronteira.
Luís
Eduardo Fernandes, historiador e professor da Escola de Serviço Social da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), contextualiza a política externa
de Trump dentro do que chama de “direção neofascista no sistema imperialista”.
“Nesse caso específico da guerra às drogas e a possibilidade de intervenções
diretas e indiretas dos Estados Unidos na América Latina, essa possibilidade
não é nova, mas é potencializada no governo Trump, que potencializa uma série
de legislações e doutrinas jurídicas e políticas extraterritoriais”, pontua no
Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
O
professor alerta para o conceito de “espaço vital” adotado pela administração
Trump. “A América Latina, mais do que uma doutrina Monroe, é vista como um
espaço vital, um território fundamental para o crescimento e garantia de
hegemonia dos Estados Unidos. Isso é mais do que um precedente, já é uma
intervenção indireta e direta nas soberanias nacionais, inclusive no Brasil.”
Fernandes
destaca que, pela primeira vez, o presidente Lula afirmou que “o Brasil precisa
se defender”, após um discurso inicial focado na paz e no combate à fome. “Essa
fala está presente nas reuniões com a África do Sul e com a Índia, que é uma
potência militar. É uma questão fundamental para debatermos a defesa militar
face ao mundo cada vez mais conflituoso e ao imperialismo estadunidense cada
vez mais agressivo.”
O
professor aponta a necessidade de modernização da defesa brasileira, que passa
pela superação da dependência tecnológica dos EUA e de outros países. “Cada vez
mais os complexos militares industriais são também complexos tecnológicos
datificados. Um dos desafios do Brasil é modernizar sua defesa, reforçando uma
tendência de superar os processos de desnacionalização da nossa indústria de
defesa.”
Fernandes
aborda um ponto sensível: o alinhamento das Forças Armadas brasileiras com os
Estados Unidos. “Isso se dá pela própria formação dos militares, pelas formas
de treinamento. Esse alinhamento quase completo com os Estados Unidos se remete
ao golpe de 1964, que teve como principal faceta o combate e os expurgos no
interior das Forças Armadas da ala nacionalista e democrática.”
O
professor defende a necessidade de participação social nas questões de defesa.
“Praticamente todos os ministérios do governo Lula têm assessoramento com
relação à participação social. A defesa é o único setor que não tem. A defesa
ainda é vista com pouca penetração e participação social.”
Fernandes
alerta para o avanço do cerco estadunidense na região. “Se a gente for olhar o
mapa, nós estamos cada vez mais cercados de bases militares dos Estados
Unidos.” A recente autorização do Paraguai para instalação de bases
estadunidenses em seu território, inclusive na tríplice fronteira, é um exemplo
preocupante.
Por
outro lado, o professor vê possibilidades de resistência. “Nós temos uma
possibilidade de um novo ciclo de resistência a esse neofascismo no continente,
que se materializa com o México, com a Colômbia e com o Brasil.” Ele cita o
exemplo colombiano, onde o governo de Gustavo Petro conseguiu aliar a pauta da
“paz total” com medidas populares como reforma agrária e trabalhista.
“A
Colômbia tem um governo que se propõe a realizar mobilizações em torno dessas
pautas, com uma governança mais atuante, mais participativa, com todos os
limites. É a primeira grande experiência de governo progressista por lá.”
Sobre
as eleições brasileiras de 2026, Fernandes alerta para possíveis interferências
externas. “Tivemos nesta semana a primeira forma indireta de pautar as nossas
eleições: a questão de colocar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da
Capital (PCC) como organizações terroristas, abrindo brecha para ações
militares dos Estados Unidos aqui no Brasil.”
O
professor contextualiza essa ameaça dentro da estratégia mais ampla de Trump.
“A América Latina para Trump é um espaço vital para defesa da hegemonia
estadunidense. A defesa é que você tenha um continente totalmente alinhado a
ser base material, base política, base biológica para os enfrentamentos que os
Estados Unidos têm que fazer, principalmente contra a Rússia e contra a China.”
• Governo Milei concede refúgio político
pela 1ª vez a condenado pelo 8 de janeiro que fugiu para Argentina
A
Comissão Nacional para Refugiados (Conare) da Argentina concedeu, nesta
terça-feira (10/3), pedido de refúgio político para o brasileiro Joel Borges
Corrêa, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por participar dos atos
antidemocráticos em 8 de janeiro de 2023, em Brasília.
Corrêa
foi condenado a mais de 13 anos de prisão e fugiu para a Argentina em 2024,
passando a ser considerado foragido no Brasil.
A BBC
News Brasil teve acesso aos documentos do Conare que decidem pelo refúgio a
Corrêa.
Em
entrevistas ao órgão, o brasileiro afirmou "ser perseguido por meio do
aparato judicial brasileiro por suas opiniões políticas" e que foi
protestar contra o governo de Lula em Brasília, mas que não cometeu nenhum dos
crimes pelos quais foi condenado.
Caminhoneiro
e morador da cidade de Tubarão, em Santa Catarina, Corrêa disse que soube dos
protestos por sua filha e que saiu para se manifestar após a vitória de Lula
porque "não concordava com suas políticas".
Ele
afirmou ainda que não teve participação ativa em atos de vandalismo ou em
planos de golpe de Estado, e que sua condenação foi baseada apenas em sua
presença física no local.
O
brasileiro também disse que, enquanto esteve preso no Brasil, enfrentou
condições degradantes, como celas superlotadas e comida precária.
Este
foi o primeiro pedido de refúgio de um condenado pelo 8 de janeiro concedido
pela Argentina.
Em
junho do ano passado, o governo da Argentina havia enviado ao Ministério das
Relações Exteriores do Brasil uma lista de brasileiros que haviam pedido
refúgio no país vizinho após serem condenados pelo STF.
Em
outubro, o ministro Alexandre de Moraes, responsável por supervisionar o
inquérito, pediu a extradição dos brasileiros foragidos na Argentina.
Já em
dezembro, um tribunal na Argentina decidiu pela extradição de Corrêa e outros
quatro brasileiros na mesma situação: Joelton Gusmão de Oliveira, Rodrigo de
Freitas Moro, Wellington Firmino e Ana Paula de Souza.
De
acordo com o advogado de Corrêa, Pedro Gradin, o refúgio concedido pela Conare
suspende o processo de extradição.
"Após
o cumprimento das formalidades necessárias, a justiça deverá ordenar a
libertação de Borges", afirmou Gradin.
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Foragidos da Justiça
Borges
foi preso em novembro, na província de San Luis, em um controle de trânsito.
Segundo o jornal Folha de S. Paulo, ele estava a caminho da Cordilheira dos
Andes, para fugir em direção ao Chile.
Ele
havia sido condenado pelo STF a mais de 13 anos de reclusão, mas cruzou a
fronteira em 2024 pela cidade fronteiriça de Dionisio Cerqueira, em Santa
Catarina.
Segundo
disse ao Conare argentino, ele tomou a decisão de fugir "após a divulgação
de sua sentença condenatória, cortando sua tornozeleira eletrônica por medo de
ser preso novamente".
Já
Rodrigo de Freitas Moro era considerado foragido pela Justiça brasileira desde
abril de 2024, quando a polícia perdeu o sinal de sua tornozeleira eletrônica.
Em novembro, ele foi detido na Argentina.
Preso
em flagrante em 8 de janeiro, ele estava em liberdade provisória em sua cidade
natal de Marília, no interior de São Paulo, cumprindo medidas cautelares como o
uso da tornozeleira e proibição de deixar a cidade.
Ele foi
condenado em 2024 a mais de 14 anos de prisão por abolição violenta do estado
democrático de direito, tentativa de golpe de Estado, dano qualificado de
deterioração de patrimônio tombado.
Joelton
Gusmão de Oliveira também foi condenado em 2024 a 17 anos de prisão por
abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano
qualificado, deterioração do patrimônio e associação criminosa armada.
Ele foi
preso em 2025 na cidade de La Plata, a cerca de 60 km de Buenos Aires.
Morador
de Vitória da Conquista, no interior da Bahia, ele tinha sido preso em Brasília
em 8 de janeiro, mas liberado da prisão para cumprir medidas cautelares em
novembro de 2023.
Wellington
Luiz Firmino foi condenado a 17 anos de prisão. Em sua conta no Instagram, ele
se apresenta como "refugiado político vivendo na Argentina."
Em
novembro, quando foi detido no país vizinho, ele publicou um vídeo falando
sobre seu caso. "Estou aqui. Triste, tomando mate junto com a polícia. E
que deus me proteja e me dê sabedoria e força para passar por mais essa."
Já Ana
Paula de Souza, condenada a 14 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado,
em entrevista à CNN Brasil em agosto, disse que ela e outros brasileiros na
mesma situação estavam "jogados às traças" e mencionou a falta de
apoio de parlamentares.
Em
entrevista concedida ao canal de TV por telefone, ela contou que antes estava
em um lugar pior do complexo penitenciário. "Estava num pavilhão com onze
pessoas. Sem banho de sol. Sem porcaria nenhuma."
Segundo
o canal, ela pediu refúgio para a Conare, a Comissão Nacional para os
Refugiados da Argentina, e acreditava estar protegida. Ela contou à CNN Brasil
que fugiu do Brasil em um ônibus e entrou na Argentina por uma fronteira seca
regular.
Fonte:
BBC News Brasil

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