Desastres
climáticos no verão não são mais surpresa: são o resultado da negligência
política
Chuvas
torrenciais, alagamentos, deslizamentos, ondas de calor, escassez hídrica,
escolas fechadas, cidades isoladas. Esse deixou de ser um retrato de exceção
para se tornar parte do cotidiano brasileiro – especialmente durante o verão,
estação historicamente marcada por maior variabilidade climática e que, sob o
aquecimento global, passou a concentrar riscos cada vez mais intensos.
Um
longínquo símbolo da crise climática, o urso polar, agora é cotidiano,
simbolizado no cavalo caramelo, ilhado pelas enchentes do Rio Grande do Sul, em
2024, em cima da casa de uma família brasileira. O distante receio do
aquecimento global rapidamente se transformou em medo das mudanças climáticas,
com perda de bens, sonhos e da própria vida.
Pancadas
de chuva e períodos de calor sempre fizeram parte do clima tropical. O que vem
mudando é a frequência, a duração e a intensidade desses eventos, transformando
variações sazonais em tragédias recorrentes, como as registradas em Petrópolis
(2022), São Sebastião (2023), em várias cidades do Rio Grande do Sul (2024) e
em outros tantos municípios amazônidas, entre 2023 e 2024.
Dados
recentes do Climate Central reforçam a dimensão do problema. Mais de 127
milhões de pessoas no Brasil enfrentaram ao menos um dia de calor extremo nível
5 (quando a sensação térmica ultrapassa 44 °C) entre 14 e 20 de fevereiro de
2025. A ciência climática já demonstrou que eventos desse tipo se tornaram pelo
menos cinco vezes mais prováveis devido às mudanças climáticas causadas pela
ação humana.
Mas as
consequências da crise climática não são iguais para todo mundo. São as
populações de baixa renda, moradores de periferias urbanas, comunidades
ribeirinhas e trabalhadores expostos ao ar livre que enfrentam primeiro e com
mais intensidade os efeitos do calor extremo, das enchentes e das secas. A
Estratégia Internacional das Nações Unidas para a Redução de Desastres (UNISDR)
identificou que mulheres e crianças são 14 vezes mais propensas que homens a
morrerem durante um desastre. É preciso, então, dar maior atenção a estas
populações.
Na
Amazônia, a estiagem histórica dos últimos anos interrompeu a pesca, isolou
comunidades e comprometeu o acesso a alimentos, transporte e direitos, como à
educação. Avançando para o verão de 2026, bairros periféricos do Rio de Janeiro
registraram sensação térmica próxima de 50 °C – um cenário que combina
vulnerabilidade urbana com risco iminente de tempestades e deslizamentos.
Ou
seja, temos dados e notícias suficientes para sustentar a necessidade de uma
ação política antecipada. Porém, enquanto centenas de famílias são impactadas
todo início de ano com os eventos climáticos extremos, os representantes
políticos insistem em chamar o cenário de “desastre natural” ou mesmo
“acidente”. Essa é uma conhecida tática, com objetivo de normalizar a situação
e se eximirem da responsabilidade perante a prevenção do problema e das
consequências.
Quando
os impactos são previsíveis, a tragédia não decorre da natureza, mas da
ausência de prevenção, planejamento territorial, infraestrutura adaptada e
redução de emissões. Não é acidente, se é evitável. Trata-se, portanto, de um
problema de gestão e governança.
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O descompasso entre os compromissos climáticos internacionais e a política
local
Relatórios
internacionais já alertam que eventos climáticos extremos estão entre os
maiores riscos econômicos e sociais das próximas décadas, agravados justamente
pela insuficiência das políticas de mitigação e adaptação implementadas até
agora. Essa lacuna revela um descompasso crescente entre os compromissos
climáticos assumidos pelos países e sua tradução em políticas nacionais.
O
Acordo de Paris, assinado por cerca de 196 países, foi formulado para mobilizar
esforços internacionais para não ultrapassarmos o limite de 1,5ºC de aumento de
temperatura até 2100, de modo a manter as condições de vida favoráveis na
Terra. Mas, por três anos consecutivos (2023-2025), o planeta já atingiu a
média de 1,5ºC de aquecimento, e 2024 foi o primeiro ano em que todos os meses
registraram médias globais acima de 1,5ºC. Ou seja, o principal acordo que veio
para mobilizar esforços internacionais, de modo a conter a crise climática, vem
falhando na sua missão.
Nesse
contexto, o Brasil ocupa uma posição paradoxal: é altamente vulnerável aos
impactos climáticos e, ao mesmo tempo, figura entre os maiores emissores de
gases de efeito estufa no período recente, sobretudo devido à dependência de
combustíveis fósseis, ao desmatamento, às mudanças no uso do solo e exportação
de commodities, decorrentes de um extrativismo altamente exploratório – da
terra e das pessoas. Ou seja, falhamos simultaneamente em dois eixos
essenciais:
“Não
mitigamos o suficiente as nossas emissões e não nos adaptamos com a velocidade
e antecipação necessária.”
Já não
há dúvidas de que os eventos extremos continuarão acontecendo, mas se vamos
continuar reagindo a eles como emergências isoladas depois que os desastres
passarem, ou enfrentá-los como parte de uma transformação estrutural que exige
decisão política.
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O federalismo climático como indutor de políticas municipais
Um
levantamento da Confederação Nacional dos Municípios mostrou que o custo da
inação política climática é altíssimo no Brasil. Foram R$ 732,2 bilhões de
prejuízos em todo o país, em apenas 10 anos. A título de comparação, esse valor
é o equivalente a quase 30 vezes o orçamento anual de uma cidade como Belo
Horizonte ou a mais de quatro anos de pagamento do Bolsa Família, programa que
atende mensalmente cerca de 21 milhões de famílias. Ainda a título de
comparação, as bilionárias emendas parlamentares, que têm sido alvo de – justas
e concretas – críticas da sociedade, ao todo, no período entre 2014 a 2025,
somaram R$ 301,7 bilhões em valores orçados, totalizando menos da metade do
prejuízo causado ao país por conta das mudanças climáticas no mesmo período.
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Apesar da realidade bater à porta, há ainda quem insista no negacionismo
climático
Alguns
dos principais responsáveis pela ação climática negam que estamos passando por
uma crise. Outros até compreendem a dimensão do problema, mas optam por não
agir. Entre estes, não há diferença. Em um contexto em que a quase totalidade
(97%) da população brasileira afirma perceber os impactos da crise climática em
seus cotidianos, não agir é uma escolha política, enquanto a ação climática é
um imperativo moral.
Tendo
em mente de que não temos tempo para a inação, e considerando a elevada
vulnerabilidade da população brasileira, que está majoritariamente nas cidades
(87%), se faz urgente criar mecanismos para o planejamento e gestão
territorial, compatíveis com instrumentos de gestão urbana, capazes de
endereçar as mudanças climáticas e salvaguardar a vida do povo brasileiro, a
partir de arranjos entre a União, os Estados e os Municípios.
Atualmente,
a falta de coordenação entre os três níveis de governo resulta em ineficiências
na alocação de recursos e responsabilidades sobrepostas. Foi essa uma das
conclusões do Acórdão 1914 de 2025 do Tribunal de Contas da União, ao
identificar que, embora exista um arcabouço jurídico compatível e complementar,
a integração operacional entre a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil
(PNPDEC) e a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC) é incipiente. Os
processos de trabalho e os atores ainda não estão bem articulados, o que limita
a identificação e avaliação de ameaças e vulnerabilidades, bem como as
respostas a elas, em todos os entes federados.
A falta
de clareza na distribuição de papéis em relação à ação climática agrava essa
fragmentação, dificultando o desenvolvimento de estratégias coesas alinhadas
com as metas climáticas nacionais, sobretudo nos municípios.
Por
outro lado, a adaptação municipal à nova realidade climática não pode depender
de medidas improvisadas a cada temporada de chuvas torrenciais ou calor
extremo. Para reverter esse quadro, é urgente implementar o chamado Federalismo
Climático, instituído pela Resolução nº 3 de 3 de julho de 2024, do Conselho da
Federação. Ele é uma comunhão de esforços para responder às consequências da
crise climática, em busca da integração entre Municípios, Estados e a União no
planejamento, execução, monitoramento e revisão da agenda climática, promovendo
ações coordenadas que atendam às realidades locais e os compromissos
internacionais do país.
Em
contexto de crise climática global, agir localmente é um imperativo moral.
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Possibilidades para superação dos desafios de implementação
Parte
do desafio para muitos municípios brasileiros é a qualificação institucional
para projetar, implementar e gerenciar projetos de financiamento climático. Os
municípios menores, em particular, enfrentam restrições significativas devido à
falta de conhecimento técnico e recursos humanos insuficientes. Outra barreira
crítica é a escassez de dados locais de alta qualidade sobre riscos e
vulnerabilidades climáticas – que pode ser superada, em alguma medida, com o
uso dos dados das plataformas AdaptaBrasil e SEEG.
Em
âmbito federal, o PAC tem sido a principal fonte de financiamento para projetos
urbanos e climáticos, àqueles municípios com baixa Capacidade de Pagamento
(CAPAG), embora ele não contemple as despesas operacionais para realização dos
projetos, antes da apresentação de propostas de financiamento. Uma ferramenta
usada por alguns municípios para superar os desafios de desenvolvimento das
capacidades institucionais – ou estatais – tem sido a parceria com
Universidades Federais (FAU, 2025) para, por exemplo, a elaboração dos Planos
Locais de Ação Climática.
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Caminhos possíveis para políticas de adaptação municipais
No que
diz respeito às medidas de adaptação, um primeiro passo a ser dado pelos
municípios é a compreensão de quais são os problemas a serem resolvidos. A
existência de dados confiáveis é essencial para a construção de respostas. Uma
fonte possível de dados municipais é Sistema AdaptaBrasil, que reúne dados de
todos os 5.570 municípios brasileiros, permitindo a realização de cruzamentos
de indicadores e índices, permitindo aos técnicos e gestores fazerem análises
sobre a real capacidade estatal dos seus municípios – e de outros.
Falando
em dados, uma pesquisa do Banco Mundial apontou que a cada 10 eventos
climáticos, nove estão relacionados à escassez ou excesso de água. Sendo assim,
garantir um acesso seguro à água, além de ser um direito constitucional, é
condição básica para a saúde pública.
Outro
grande risco para a saúde pública nas cidades são as ondas de calor. A
Organização Mundial da Saúde alerta que o aumento das temperaturas está
intimamente ligado ao aumento da mortalidade: as altas temperaturas respondem
por 7% das internações do Sistema Único de Saúde (SUS).
Neste
sentido, a elaboração de políticas municipais de adaptação, como a segurança
hídrica e de enfrentamento às secas e ondas de calor, é fundamental. Alguns
exemplos de ações concretas são os reservatórios de retenção, jardins
filtrantes, ampliação de áreas verdes, arborização urbana, cinturões ecológicos
e telhados verdes.
A
infraestrutura também é parte da solução. prefeitos, governadores e presidentes
adoram obras, e elas de fato importam – e muito – para nos adaptarmos. Obras de
contenção de encostas, macrodrenagem, microdrenagem e controle de cheias
contribuem para prevenirmos desastres relacionados às chuvas intensas.
Todavia,
essas intervenções devem ser planejadas com lógica de “ganho duplo”: além de
atender às necessidades urbanas imediatas – como moradia segura e mobilidade –,
precisam ser projetadas para aumentar a resiliência climática no longo prazo,
critério já exigido por muitos mecanismos internacionais de financiamento.
Uma
medida que tem sido adotada são as estações – ou pontos – de resfriamento, na
qual cria-se espaços públicos que oferecem alívio à população durante ondas de
calor, unificando medidas como pequenas florestas urbanas, acesso à água
potável para consumo humano e animal. Não é preciso inventar a roda. Os pontos
de ônibus, por exemplo, podem servir como tal, oferecendo um agradável espaço,
enquanto as pessoas esperam o transporte coletivo.
De uma
perspectiva interna, as gestões podem oferecer equipamentos aos seus
trabalhadores, especialmente os que estão na rua, como os catadores e garis,
tal como roupas claras e respiráveis e garantir o acesso fácil à água fresca.
Outra medida possível é o treinamento de servidores para reconhecer e tratar
precocemente os sintomas de doenças relacionadas ao calor, além de instituir
vigilância médica em períodos em que há maior pretensão a ocorrência destes
eventos, como no verão e nos períodos de seca intensa. Essa ação pode ser
ampliada para toda a sociedade, por meio de campanhas de conscientização e
alerta sobre a importância de se compreender os sintomas iniciais dos problemas
relacionados ao calor extremo.
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Cenários piores podem ser evitados através da mitigação climática
Olhar
para a mitigação climática – ou a redução das suas emissões – também é
imprescindível, se quisermos agir na raíz da crise climática e transitar para
uma organização socioeconômica de baixo carbono. O primeiro passo para um município é saber de
onde vêm suas emissões (diagnóstico), para saber quais políticas devem ser
tomadas para reduzi-las (prognóstico). Neste sentido, uma importante ferramenta
é o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa
(SEEG). Ela conta com o inédito levantamento das emissões de todos os
municípios do país, contribuindo para aumentar o conhecimento de atores locais
sobre as emissões e dando insumos ao desenvolvimento de políticas de mitigação.
Os
municípios possuem o poder de regular vários elementos que afetam diretamente
as emissões de gases de efeito estufa. De modo geral para a agenda de
mitigação, é essencial a reorientação do orçamento público, de práticas
altamente emissoras de gases de efeito estufa para outras práticas
sustentáveis. Por exemplo, ampliando a coleta seletiva com catadores, ao invés
de enviar os resíduos urbanos para aterros sanitários, ou substituindo a frota
de ônibus por veículos com tecnologias mais avançadas e menos poluentes. A
melhoria da iluminação pública, a redução da frota de veículos automotores
individuais da Prefeitura e o incentivo ao uso do transporte público por
gestores é uma forma de liderar a ação climática pelo exemplo.
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A governança climática municipal como instrumento democrático
A
governança climática é o conjunto de mecanismos e articulações entre diferentes
níveis de governo e setores da sociedade civil, como empresas, universidades e
movimentos sociais, para planejar, implementar e monitorar ações frente à crise
climática. Ela pode ser planejada e gerida em comitês e conselhos sobre
mudanças climáticas, com participação de integrantes de áreas da Prefeitura
como saúde, meio ambiente, infraestrutura, energia e planejamento urbano,
evitando a fragmentação das ações, bem como de pessoas da sociedade civil e
movimentos sociais, universidades, empresas e outros tantos.
É
importante reforçar que medidas eficazes de prevenção aos eventos climáticos
extremos não podem ser improvisadas. A proteção da população exige planejamento
preventivo, cronogramas definidos de diálogo e decisões políticas tomadas com
antecedência. Em um contexto de eventos extremos cada vez mais previsíveis,
antecipar-se deixou de ser uma escolha, é uma responsabilidade pública.
Institucionalizar essas ações, articulando-as a planos permanentes para
períodos críticos, é essencial para garantir respostas coordenadas e baseadas
em evidências. Esse planejamento precisa ser orientado por dados e pela
realidade dos territórios. O cruzamento de informações climáticas, sociais e
orçamentárias – provenientes de plataformas públicas e pesquisas nacionais –
permite mapear riscos e vulnerabilidades com precisão, identificar populações
mais expostas e priorizar investimentos onde eles são mais necessários, como em
áreas sujeitas a deslizamentos ou com forte efeito de ilhas de calor urbanas.
Em
cidades que integram metrópoles, é fundamental que o debate inclua outros
municípios. Nestes espaços, pode-se debater frentes de trabalho, tal como o
enfrentamento à desinformação climático, a comunicação e mobilização, a
realização de eventos sobre o assunto, como Conferências Municipais sobre
Mudanças Climáticas, a seleção de indicadores a serem (criados e) acompanhados
por estes atores.
A
transição para cidades adaptadas ao clima, com capacidade de reduzir suas
emissões de gases de efeito estufa, também requer soluções institucionais e
financeiras inovadoras que possam endereçar os desafios locais, alinhando-se às
diretrizes nacionais e internacionais, com planejamento contínuo e
antecipatório. Por fim, o conhecimento dos riscos climáticos de cada localidade
e a avaliação da capacidade adaptativa dos municípios torna-se fundamental para
orientar políticas públicas, priorizar investimentos em infraestrutura e
fortalecer a resiliência das populações mais vulneráveis. É tempo de agir de
maneira mais antecipada com relação a adaptação às mudanças climáticas nas
cidades e de modo mais ambicioso em termos de mitigação de gases de efeito
estufa. O clima já mudou e é preciso que a nossa forma de fazer política e
gerir a política climática também mude na mesma velocidade.
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Sobre o Clima de Política
O Clima
de Política é uma organização da sociedade civil independente e apartidária,
criada para acelerar a transição climática justa no Brasil. Em março de 2025,
lançou o Programa de Diplomacia Parlamentar, uma formação voltada a preparar
parlamentares brasileiros interessados na agenda climática para atuarem
estrategicamente durante a COP30 e traduzir os compromissos internacionais da
Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês) em políticas
nacionais.
Fonte:
Guilherme Tampieri e Samantha Costa, para Le Monde

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