A
identidade política de direita ainda está em construção, afirma pesquisadora
Os
posicionamentos políticos, sociais, culturais e religiosos
das mulheres são multifacetados, complexos e difíceis de serem
reduzidos a um único conjunto articulado de ideias e valores que moldam a
compreensão delas da realidade. Essa complexidade, especialmente na
inter-relação de gênero, religião e política, está sendo mapeada por diferentes
pesquisas contemporâneas que buscam identificar semelhanças e assimetrias no
modo como as mulheres se posicionam no campo político e religioso..
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Confira a entrevista.
·
IHU – Você pesquisa as relações entre gênero, religião e
política. Muitos estereótipos são formulados a partir dessa conexão. Que
complexidades evidencia nessa tríade e o que elas revelam sobre as mulheres do
Brasil profundo, particularmente as evangélicas, que são objeto da sua
investigação? É possível traçar um perfil de quem são essas mulheres e como
elas pensam a partir das suas pesquisas?
Jacqueline
Moraes Teixeira – Sim.
Quando falamos das mulheres evangélicas e,
consequentemente, das decisões e escolhas em relação ao cenário político mais
geral, ainda precisamos desconstruir vários estereótipos que circundam o
imaginário sobre como é esse grupo, como ele pensa, quais as suas questões
fundamentais e quais seriam as principais pautas que geram engajamento. O
primeiro imaginário é essa ideia de uma mulher mais velha, com uma
vestimenta que remete a um imaginário muito comum sobre as mulheres
evangélicas, que é aquele de uma senhora mais idosa, de coque. Ou seja, uma
imagem que empurra para uma chave de leitura mais conservadora. Na verdade, o que
as pesquisas sempre mostraram – e os dados do Censo 2022 corroboram –
é que quando estamos falando desse público, de forma geral, estamos falando de
um grupo que reúne, majoritariamente, mulheres entre 14 e 45 anos. Ou seja, um
público muito jovem e muito produtivo. É um público que está presente no
mercado de trabalho, vivendo um momento de muitas decisões, disputando questões
fundamentais, como acesso a políticas públicas de saúde, educação e
desenvolvimento social. É um grupo atravessado por crises e situações
econômicas, para quem a família é muito importante – não apenas pensando a
família como uma categoria de conservação da crença, mas como um lugar que
precisa oferecer, minimamente, uma proteção e um senso de reconhecimento. Este
também é um público majoritariamente negro, ou seja, mulheres pardas e
pretas, que vivem nos grandes centros do país, mas que têm uma concentração
significativa na região Norte, onde há uma desigualdade acerca
da configuração das cidades, que as afeta. Seja pela questão geracional, seja
pela questão étnico-racial, de gênero ou territorial, essas mulheres têm noções
como mobilidade social e estratégia de vida geracional como algo
superimportante. Outro dado sobre o qual muito pouco se fala é o perfil de
consumo deste público, que é muito disputado. Algumas pesquisas mostram como
esse grupo é estratégico e fundamental para a circulação de marcas de
determinados produtos em espaços com menos estruturas de equipamento urbano,
como é o caso das favelas. Ao contrário do que se espera, quando se pensa de
forma mais macro a população evangélica e sua tendência
a apoiar uma agenda neoliberal, esse público espera muito do Estado.
Considerando que nesse grupo tem um perfil significativo de mulheres que são
responsáveis pela manutenção da própria família, espera-se que o Estado,
marcado pela corruptibilidade, seja capaz de responder com a produção e a
manutenção de políticas públicas. Temas sensíveis são a educação, a saúde
pública, a saúde da mulher e a saúde do idoso. Portanto, é um público que não
adere com facilidade à ideia do Estado mínimo ou de um Estado que não esteja
preocupado com o bem-estar social ou mesmo com questões relacionadas à
subsistência de forma geral. É um público que depende muito do Bolsa
Família. Nesse sentido, o grupo tem uma certa abertura para pensar temáticas
específicas, voltadas para uma pauta mais geral dos direitos humanos e para uma
agenda histórica do feminismo, que, para este público, não aparece como uma
agenda feminista, mas é vista como fundamental. Entre as pautas, destacam-se
o combate à violência
de gênero,
especialmente contra à mulher, a equiparação salarial, os direitos iguais entre
homens e mulheres e questões relacionadas à necessidade de uma construção de
políticas públicas às mulheres.
·
A partir desse quadro que você descreve, diria que as
mulheres evangélicas se identificam mais com agendas da esquerda ou cresceu
entre elas um apoio à direita ou extrema-direita?
Jacqueline
Moraes Teixeira – O
que estou vendo é a direita caminhando no sentido de visibilizar e se
conectar com as necessidades apresentadas por este grupo. Tenho pensado cada
vez mais como o centro político precisa aprender a ler essa margem e, ao tentar
produzir uma estrutura e uma tecnologia de leitura dessa margem, tentar
construir uma linguagem de conexão, que produza minimamente uma conexão com
essa margem. Estamos falando de uma configuração de direita no contexto
nacional que não consegue prescindir do debate sobre gênero e raça. Isso porque
esse debate, embora não esteja necessariamente vinculado a um repertório
feminista, reelabora esse repertório, entendendo que as mulheres precisam de
apoio e que existe uma dimensão desigual entre homens e mulheres. Isso tem
empurrado a direita para uma aposta específica de candidaturas de
mulheres, como também para a construção de um repertório que, no contexto desta
aposta, dê conta da expectativa de produção de um Estado que dispute e que dê
conta da produção de algumas políticas públicas. O que estou afirmando é que
existe, sim, uma identificação cada vez mais crescente desse público feminino
relacionado a candidaturas de direita. Essa identidade política de direita não está
pronta. As pessoas, de alguma maneira, ainda estão transitando e definindo os
contextos das suas apostas políticas. Mas vejo uma direita muito interessada em
engajar esse público, elaborando um conjunto de agendas que consegue responder
aos anseios dele e construir um espaço de confiabilidade política.
·
A que se deve essa dificuldade de estabelecimento de
confiança com a esquerda?
Jacqueline
Moraes Teixeira – Essa
dificuldade está alicerçada em alguns fatores. Em primeiro lugar, porque, de
alguma maneira, as pessoas entendem que as candidaturas da
esquerda vêm
de pessoas de fora, que não entendem o público evangélico, ou que são tão
refratárias à fé que colocam a fé em risco. Além disso, existem várias
dimensões históricas que dificultam a confiabilidade em candidaturas de
esquerda, mesmo havendo uma tradição consolidada de militância e configuração
de governos de esquerda que apostam em políticas públicas, e na tentativa de produção
de uma igualdade de bem-estar social. Entretanto, isso é visto com muita
desconfiança, como se fosse uma estratégia para conseguir votos. De alguma
maneira, as lideranças nacionais e regionais ligadas à direita são entendidas
como lideranças mais orgânicas. Elas são mais passíveis de confiança.
As pessoas de esquerda e suas candidaturas são lidas como outsider.
Existe aí uma questão fundamental que não está simplesmente relacionada ao
conteúdo das narrativas de direita, mas à construção de uma sensação de que
essas pessoas estão mais próximas, teriam mais entendimento das especificidades
do grupo e, portanto, teriam mais condições de atender às expectativas
políticas dele.
·
A fé acaba se constituindo como um elemento central que
determina o voto?
Jacqueline
Moraes Teixeira – Não.
As pessoas não votam apenas em quem é evangélico ou da igreja. Não é que a fé
direcione a expectativa e o voto apenas para quem é da igreja, mas,
fundamentalmente, a fé aciona uma necessidade de construção da confiança, a
qual vem pela rede, no sentido de que é preciso entender de onde está vindo o
candidato. O candidato pode não ser evangélico – como é o caso
do Bolsonaro –, mas tem uma rede na qual as pessoas confiam. É essa
rede que ajuda a entender o quanto uma pessoa pode ser elegível. A dinâmica da
rede é muito forte para entender quem é o candidato, de onde ele vem e por
quais caminhos. É por isso que cada vez mais aparece a ideia de voto
evangélico. Não gosto dessa formulação porque ela compromete e enfraquece o debate,
além da nossa capacidade de pensar as heterogeneidades que atravessam esse
grupo. As igrejas são um lugar significativo de construção de solidariedade e
de rede de proteção, a tal ponto que a rede importa. Nesse sentido, as pessoas
não votam em alguém que pode colocar a rede em risco. A rede é a prioridade a
partir da qual se faz a leitura em quem se pode ou não confiar.
·
As igrejas têm suas especificidades, mas, de modo geral,
que tipo de compreensão política diria que as mulheres estão adquirindo nas
igrejas e, a partir dessa compreensão, que narrativa elaboram sobre a situação
social, política e econômica do país?
Jacqueline
Moraes Teixeira – Em
2022, 2023 e 2024, coordenei uma pesquisa no Instituto de Estudos da
Religião (ISER) com Lívia Reis, em que evidenciamos essas questões. A
pesquisa começou em 2022 para produzir uma leitura da conjuntura das eleições.
Depois, continuamos o estudo para compreender os níveis de entendimento e as
leituras relacionadas ao governo Lula, além das compreensões sobre economia e
políticas públicas de educação e saúde. Percebemos que Bolsonaro não é uma
figura nacional exclusiva no sentido de que as pessoas afirmam que votarão
nele, mas existe uma dificuldade de conseguir ler determinadas políticas
fundamentais, que foram produzidas no governo Lula, como sendo políticas
do governo Lula. Por exemplo, as pessoas têm dificuldade de apreender a
dimensão do equilíbrio econômico que aumentou a empregabilidade no contexto da
vida delas. A sensação econômica de que as coisas estão muito caras sempre
aparece como muito evidente, apesar da retirada do imposto de itens
fundamentais da cesta básica. A dificuldade de compreender políticas
de bem-estar social como políticas produzidas por um governo de
esquerda dificulta muito as leituras relacionadas à confiabilidade, à sensação
de que o governo não está sendo corrupto e, consequentemente, às adesões à
esquerda. Isso se desdobrou de forma muito forte no contexto das eleições de
2024, quando vários candidatos de direita foram eleitos em prefeituras
importantes e em cidades de pequeno porte. Nesse sentido, empurrar todo mundo
para a direita e chamar todo mundo de conservador empobrece muito a leitura da
conjuntura, como tem sido muito comum.
·
Diante desse quadro, quais os principais desafios da
esquerda e da direita para a eleição deste ano?
Jacqueline
Moraes Teixeira – O
desafio substancial neste ano eleitoral, no contexto desta disputa, é entender
que, se Bolsonaro não é a principal figura 'engajante', tem um
trabalho significativo a ser feito para direcionar os votos para a candidatura
de Flávio Bolsonaro. Há um deslocamento
aí para o qual pouco nos atentamos, mas que foi fundamental em 2022 e será em
2026. Às vezes, apostamos que os eleitores decidem especificamente pela imagem
de quem está se candidatando, mas as figuras de mediação são importantes para a
construção da confiabilidade, como foram as figuras de Damares Alves e Michelle
Bolsonaro em 2022. Fiz pesquisas de campo em Brasília naquele
período. A estética dos eventos eleitorais não mostrava a imagem
do Bolsonaro. As imagens que apareciam eram da Michelle e de
outras mulheres, como a Celina Leão (PP), vice-governadora do
Distrito Federal. Isso significa que as figuras femininas, mesmo que não
estejam no centro do pleito, são centrais na construção da confiabilidade do
voto. Logo, essas figuras mediadoras e produtoras da confiabilidade são
fundamentais.
·
A esquerda também está se aproximando desse grupo e suas
demandas?
Jacqueline
Moraes Teixeira
- Nunca imaginei que Michelle seria candidata à Presidência. Não era
nem o objetivo dela nem o do partido. Mas ela tem uma imagem. Consegue suscitar
uma certa situação de insurgência que gera confiabilidade no processo. Não à
toa é tão importante, no contexto atual do PL, ver o que é possível fazer
para que Michelle e o PL passem a apoiar a candidatura
de Flávio Bolsonaro. A falta de apoio dela pode ser negativa. Mesmo ela se
candidatando como senadora, o seu apoio é fundamental para incidir sobre
determinados grupos e sobre essa camada específica das mulheres
evangélicas. Quando falamos da esquerda política, aí está o grande
desafio. Na atual conjuntura, infelizmente, há uma dificuldade de ter uma
figura política de esquerda que possa ancorar essa mediação e a produção de
confiabilidade específica nesse grupo, para além do Lula. Falta uma aposta
na formação de figuras que se tornem nacionalmente conhecidas, importantes e
fundamentais não só para a história da esquerda no Brasil, mas também para os
movimentos sociais, como mulheres negras, evangélicas pentecostais, como é o
caso de Benedita da Silva e Marina Silva. Infelizmente, no
conjunto das questões históricas e por decisões institucionais partidárias,
essas figuras não conseguem se capilarizar nacionalmente no sentido de ir para
as pontas.
·
A primeira-dama, Janja, tentou uma aproximação com as
mulheres evangélicas no ano passado. Qual é o significado e a repercussão dessa
iniciativa no meio evangélico?
Jacqueline
Moraes Teixeira – É
uma aproximação importante, que deve continuar, mas chegou tarde porque a
visibilidade dessa aproximação está muito colada à construção do pleito e das
eleições. Isso acaba corroborando na construção da desconfiança, já que a
aproximação não é orgânica.
·
Como a imagem da primeira-dama é vista nesse grupo?
Destoa muito do perfil das mulheres evangélicas ou se assemelha a ele em alguma
medida?
Jacqueline
Moraes Teixeira – A
figura dela não destoa muito. Estamos falando de uma mulher cis, que é reconhecida
publicamente como heterossexual. Além disso, é uma companheira importante do
seu marido. A conjuntura política criticou muito o protagonismo
da Janja por estar sempre definindo determinadas agendas. Mas o
protagonismo dela, ao contrário do que se espera, não é lido como algo ruim
pelas mulheres evangélicas porque entra nessa ideia da mulher que está o tempo
todo produzindo a cena e atuando como grande fechamento do seu marido. A grande
questão é que Janja representa uma aproximação específica,
partidária, que, por uma série de questões históricas, soa muito interessada
por conta da conjuntura política ou para ganhar votos. Outra questão é
que Janja, de alguma maneira, fez uma aproximação com grupos
de mulheres evangélicas progressistas. É muito importante que esse grupo
seja visibilizado porque falamos pouco sobre ele. A mídia fala pouco
das mulheres que se reconhecem como progressistas políticas, como feministas
que enfrentam publicamente questões relacionadas ao aborto e às políticas
públicas, que são temas delicados no contexto das igrejas evangélicas
brasileiras. É fundamental que essa aproximação aconteça e essas mulheres sejam
visibilizadas. Mas, infelizmente, elas representam a minoria do público
evangélico e estão mais concentradas em igrejas do protestantismo histórico. As
mulheres que frequentam essas igrejas têm ensino superior completo, com perfil
étnico-racial majoritariamente branco, embora existam mulheres
negras nesse contexto dos movimentos progressistas de mulheres
evangélicas. É importante que essa aproximação alcance as mulheres pentecostais
e neopentecostais, que são a maioria das evangélicas. O desafio está em
produzir contato e relação de confiabilidade com essas mulheres.
·
Outro campo de disputa entre as mulheres é o feminismo.
Tem crescido entre elas, evangélicas ou não, uma postura antifeminista ou o
feminismo tem sido ressignificado?
Jacqueline
Moraes Teixeira – As
duas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo. Se, por um lado, existe o crescimento do
antifeminismo e
do discurso de que o feminismo é contrário aos princípios de fé cristã, por
outro lado emerge a noção de feminino. Existe uma construção para que feminismo
e feminino sejam categorias contrárias. Nesse sentido, a fé
cristã conduziria mais as mulheres na defesa do feminino e não do
feminismo. Apesar de a ideia de feminino ter sido construída em
oposição à categoria de feminismo, ela não nega o conteúdo das pautas
históricas do feminismo. Ao contrário, traz essas pautas para si, as
ressignifica e as purifica, afirmando que elas não seriam propriamente
femininas. As pautas centrais são as questões relacionadas à violência
doméstica – porque grande parte das mulheres que sofrem violência doméstica é
evangélica, segundo pesquisas de Valéria Vilhena. Visto que a questão da
violência passou a ser mais divulgada, as mulheres evangélicas passaram a
desenvolver seus primeiros projetos de atendimento a mulheres em situação de
violência. Surge então a ideia de que o enfrentamento da violência de
gênero, da violência doméstica, a Lei Maria da Penha e a lei do feminicídio seriam pautas
de um movimento feminino – e não de um movimento feminista. A pauta
do movimento feminista incluiria o aborto e a masculinização das
mulheres e não a igualdade. A ideia de igualdade se desdobra numa concepção de
que o feminismo defende que as mulheres devem se parecer mais com os homens. Em
contraposição, a ideia de feminino propõe que as mulheres defendam o que é ser
mulher e isso tem que ser valorizado. O reconhecimento de que é errado as
mulheres ganharem menos que os homens não é visto como uma pauta feminista,
mas, sim, como uma pauta feminina. Tem uma estratégia reducionista aí. A
institucionalização de várias políticas de direitos humanos no país e a
promulgação da Lei Maria da Penha, em 2006, foram fundamentais para trazer
muitas mulheres evangélicas, que tinham atuação em movimentos sociais,
para o cenário político nacional. Foi por conta da promulgação desta lei que
várias igrejas evangélicas abriram projetos de atendimento a mulheres em
situação de violência. Minha pesquisa de pós-doutorado, feita entre 2018 e
2021, analisa a candidatura de várias mulheres evangélicas pentecostais,
mostrando que a emergência política delas ocorre porque cursaram Direito e
Serviço Social e começam a abrir projetos de enfrentamento de mulheres em
situação de violência em suas igrejas locais. Esses projetos cresceram, foram
para outras igrejas e isso foi importante para que elas passassem a ter
reconhecimento político e fossem lançadas como candidatas em 2018 e em 2022.
·
Nos últimos anos, as feministas têm enfatizado a
discussão sobre a violência de gênero. Quais temas tendem a orientar as
próximas ondas do movimento?
Jacqueline
Moraes Teixeira – Enquanto feminismo –
e me reconheço como feminista – temos uma questão para revisitar, que é o
entendimento de por que razão as pautas do feminismo chegam, mas a assinatura
feminista, não.
Hoje,
existe uma consciência mais plural e capilarizada das desigualdades e da violência contra as
mulheres.
Mas por que, na ponta, quando essa informação chega e essa sensibilidade
acontece, a assinatura da luta feminista não está junto? Esse é um desafio que
temos e que estará cada vez mais evidente nos próximos anos. A disputa é muito
mais pela assinatura do que pelo conteúdo. Não gosto de pensar a ideia de
feminino como antifeminismo, mas como uma possibilidade de disputar a
assinatura de uma agenda que aparece sem direção, sem endereço e sem nome.
Precisamos nos perguntar por que esse nome aparece de um jeito e não de outro e
por que isso não chega nas pontas e, quando chega, como chega. Precisamos
discutir cada vez mais quais pedagogias, dinâmicas e políticas de diálogo
podemos construir para diluir mal-entendidos, atravessamentos e avançar na
discussão sobre a legalização do aborto, sobre o reconhecimento das
múltiplas formas de ser mulher, das populações trans,
das travestis e desse conjunto plural e reconhecido de mulheres que
compõem esse escopo e toda a nossa luta.
·
A data de 8 de março é um momento para refletirmos sobre
quais pautas fundamentais para as mulheres brasileiras?
Jacqueline
Moraes Teixeira – O 8 de março é um dia de
luta e reconhecimento do quanto a desigualdade ainda permanece de modo muito
forte na nossa sociedade. O aumento do
feminicídio é
assustador em São Paulo e em outros estados do país. Ainda temos uma
configuração de muita luta, de muito a ser feito, enquanto estamos lutando pela
sobrevivência – e esse é um dado assustador. A igualdade não é somente de
condições de subsistência, mas precisa ser uma igualdade da possibilidade de
existir. Sou otimista e, apesar desses quadros ruins, entendo que temos
conquistado muitas coisas. Apesar de vários retrocessos no oferecimento
de políticas públicas específicas para mulheres, também estamos
falando de uma consciência mais generalizada da violência e da necessidade de
lutar para existir. Quando olho para o público feminino das igrejas, que, em
sua maioria, infelizmente, por questões históricas e étnico-raciais, se
encontra distante da universidade, percebo que ele se reconhece como foco de
uma violência e tem pensado ressignificações para o seu enfrentamento. Temos
que celebrar a desconstrução da ideia de uma mulher
religiosa, evangélica, alienada e oprimida, e pensar como
podemos reconhecer e fortalecer os vínculos, as capacidades e as possibilidades
de resistência que vêm surgindo nas igrejas por redes de mulheres evangélicas.
·
Cresceu muito a escalada do ódio e da violência na
sociedade civil. Neste ano eleitoral, essa dinâmica tende a se acentuar. Como
rompê-la e restabelecer as relações humanas?
Jacqueline
Moraes Teixeira – O
nosso principal desafio é, de fato, tentar não dividir, no sentido de
amplificar ainda mais a política do “nós e dos outros”, afastando ainda mais as
pessoas, como sendo os outros que não compreendem e não dialogam com o que
fazemos, como sendo inimigos ou pouco esclarecidos. Temos que seguir discutindo
as nossas bases epistemológicas e entendendo, com coragem, que precisamos
realmente apostar em espaços e tecnologias de comunicação não violenta e de
diálogo. Temos que seguir nos perguntando quem reconhecemos como nós e quem
estamos afastando como outros, e o que esse afastamento tem produzido.
Fonte: Entrevista
com Jacqueline Moraes Teixeira, para IHU

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