quinta-feira, 12 de março de 2026

Hugo Albuquerque: O caos Trump, Irã e o tabuleiro global

Uma agressão militar contra o Irã já era prevista há tempos, tomando corpo nos últimos anos. A guerra dos 12 dias, no último mês de junho, foi um ensaio disso: na medida em que os iranianos não cruzaram a linha vermelha de uma guerra, Israel tratou de iniciar um ataque ao país, para envolver os Estados Unidos – que entraram no conflito, mas saíram rapidamente depois de um ataque às centrais nucleares iranianas, com Trump clamando vitória.

Caso raro na História, as três partes envolvidas se declararam vencedoras, embora só os iranianos tenham saído às ruas para comemorar. De lá para cá, Israel passou os últimos meses tecendo uma retomada das hostilidades contra Teerã, enquanto Trump fazia exigências absurdas para os iranianos – levando-os para a armadilha de negociações feitas para não chegar a lugar algum.

Sem provas de que o Irã estava construindo bombas nucleares, a administração Trump exigia o desmantelamento do programa de mísseis do país, mas não obrigava Israel a dar qualquer garantia de segurança aos iranianos. Paralelamente, a economia do país foi submetida ao caos, e manifestações orquestradas pelo exterior buscavam mudar o regime – o que fracassou em meio a uma quase guerra civil.

No fim, um Trump acovardado e arrastado à guerra por Netanyahu autorizou ataques conjuntos ao Irã, matando o líder do país, o aiatolá Khamenei, enquanto ainda estava à mesa de negociação. O resto, já sabemos: Teerã respondeu à altura atacando Israel e também as bases americanas no Oriente Médio, além de instalações sensíveis – puro caos, com resultados ainda não definidos.

Na China antiga, o filósofo operário Mozi, na compilação canônica de sua obra, comparava a função do governante à do médico, mas lembrava que enquanto o médico tinha por meta determinar a origem da doença que acometia um paciente, o governante deveria determinar a origem do caos. E aqui vamos nós: o que teria motivado uma ação temerária, em relação à qual o próprio Trump tentou se desvencilhar?

<><> Uma guerra (aparentemente) sem sentido para Trump

Levando em consideração todo o seu discurso e mesmo seu primeiro mandato, Trump buscou escapar às guerras. Promoveu, é verdade, o bárbaro assassinato do general iraniano Qasssem Soleimani, mas não escalou para uma guerra. Anos antes, o próprio Trump insinuava que Obama começaria uma guerra no Irã porque não sabia negociar. Quando George Bush filho iniciou a Guerra do Iraque, Trump foi um de seus maiores críticos.

No seu retorno à Casa Branca, Trump se encontra entre a cruz e a espada, mirando uma baixa de juros na marra, enquanto promove medidas inflacionárias como o tarifaço, o bloqueio à mão de obra imigrante, dentre outras desventuras em série. Iniciar uma ação militar no Oriente Médio era visto como algo temerário para os preços do petróleo e, consequentemente, da inflação nos Estados Unidos, inviabilizando seus planos.

Longe de qualquer desenvolvimentismo, a obsessão de Trump com os juros talvez tenha sentido numa tentativa de evitar que a bolha da Inteligência Artificial exploda no seu governo. Menos juros significa mais capital fluindo para a bolsa, especificamente para ações das Big Techs – e assim, talvez, o país cruzasse o cabo da Boa Esperança da fase inicial do desenvolvimento da Inteligência Artificial.

Se a overdose tarifária não ajudou Trump, enfraquecendo o dólar, cogitar uma escalada no Oriente Médio deveria ser a última coisa que ele gostaria de fazer. Mas os últimos meses foram marcados de bombardeios contra o retornado mandatário americano. As revelações do caso Epstein, onde muito provavelmente Trump está envolvido, arrepiaram até o fio de cabelo da cúpula do governo. Mas a derrota do tarifaço na Suprema Corte mostrava mais.

Trump estava sob ameaça e perdendo governabilidade, enquanto parlamentares neoconservadores se tornavam vozes mais fortes. O presidente que poria fim às guerras infinitas do “establishment” se tornou, rapidamente, o orquestrador de uma ação militar de larga escala contra um país com o qual ainda negociava. Isso depois da ação de sequestro de Nicolás Maduro e bombardeio a Caracas.

<><> Uma guerra que faz todo sentido para Netanyahu

Além de todas as variáveis políticas e econômicas, o público americano se mostrou contrário tanto à intervenção na Venezuela quanto à intervenção no Irã. Nenhuma pesquisa ajudava Trump antes, nem depois. Ou seja, quando o custo econômico e político da guerra vier – já há centenas de soldados americanos mortos na resposta iraniana, isso, oficialmente –, tudo será pior avaliado.

Quem tem pesquisas de opinião a seu favor é o eterno premiê israelense Benjamin Netanyahu, cada vez mais poderoso a cada retorno ao poder – dessa vez, não deveria estar, porque vivia às voltas com acusações de corrupção, mas parece ser a única figura capaz de construir e liderar uma coalizão de governo no seu país, que se sustenta se estiver numa guerra permanente.

A agressão contra o Irã é incrivelmente popular em Israel segundo as pesquisas, como o genocídio de Gaza também é. A sociedade israelense se move dessa maneira seja pela ideologia que lhes é imposta goela abaixo desde a escola até, lembrem disso, pela noção de que Israel é um país movido por sua indústria de tecnologia bélica – logo, guerra e prosperidade sempre andaram juntas no país.  

Não há, contudo, paralelo com os Estados Unidos, onde desde o começo do século 21 a percepção é que as guerras não trazem mais riqueza como antes. Só os custos sociais, em um país que já não avança como fazia até os anos 1980, a despeito de nunca ter construído um estado de bem-estar social: bem ou mal, o mercado dava conta de incluir os americanos, mas hoje não mais.

Portanto, Trump foi à guerra por Israel, isso é inquestionável. E nisso há uma boa dose de medo e a megalomania: ele espera pelo apoio de todo o lobby sionista dentro dos Estados Unidos para vencer as próximas eleições de meio de mandato – e ainda conseguir um inconstitucional terceiro mandato. Trump está fazendo coisas opostas ao que fazia, sem qualquer ganho imediato. Vejamos isso como um investimento, pois.

<><> As origens do caos

Trump não conseguiu impor essa guerra apenas por sua sociedade macabra com Netanyahu. Há um ponto que parece fazer sentido. Isso pode representar um ganho colateral que valha o sacrifício momentâneo: acertar uma importante fonte de petróleo da China, o que consta, talvez não por acaso, de um relatório recente da Heritage Foundation sobre uma guerra entre as duas potências: Washington deveria “degradar” as fontes de petróleo de Pequim.

Se a Venezuela foi uma ação americana para assombrar governos latino-americanos, também foi para garantir uma fonte de petróleo próxima aos Estados Unidos em um caso de conflagração global. No caso iraniano, é mais importante o petróleo tirado da China do que aquilo que possa vir a ser ganho. Será que os israelenses querem o mal da China? Taticamente sim, embora estrategicamente isso esteja em aberto.

Historicamente, Israel sempre buscou cooptar a China, com Ben Gurion em pessoa fazendo análises acertadas sobre o futuro chinês. Mas o presidente Mao ignorou constantemente esse assédio e se manteve firme enquanto esteve no poder. Isso só mudou nos anos 1990, com Israel fornecendo tecnologia militar para os chineses como prova de boa vontade. Hoje, Israel espera que a China o incluísse no seu jogo de circulação de capitais no Oriente Médio.

A opção chinesa pelo Irã reflete não só a fome do país por petróleo, mas seus interesses em transformar o país em um hub terrestre. Pactuar com Teerã por essa razão implica em concordar com certos pontos de vista iranianos para o Oriente Médio, o que pode não se confundir diretamente com a luta existencial contra Israel, mas significa contrariedade aos Acordos de Abraão e a mudança na logística de exportação de petróleo.

Sim, o Irã não tem nenhum interesse de que oleodutos e gasodutos sejam construídos em massa na península Arábica, desaguando imediatamente no Mediterrâneo, sob o controle ou tutela de Israel – o que tornaria o golfo Pérsico, e o estreito de Ormuz, em peças de museus. A julgar pelo uso do fechamento tático de Ormuz pelos iranianos na atual crise, percebemos bem isso.

Isso também coloca os russos numa encruzilhada, diretamente, e em companhia dos chineses, de quem são sócios em empreitadas como o Brics e a Organização para Cooperação de Xangai. Israel pretende dobrar ambos, enquanto arrasta os Estados Unidos para uma guerra arriscada e custosa no curto prazo, mas que pode servir para fechar caminhos chineses, controlando mais o mercado do petróleo.

A situação, é claro, é a de um evento limite. E pode, realmente, arrastar o mundo para uma Terceira Guerra. Tudo dependerá dos próximos dias e da capacidade de resistência do Irã. Por fim, a questão Palestina, central para toda humanidade, se universalizou de vez de forma concreta com essa guerra – que muitos fingiram que não ia acontecer, de tão insensata que parecia. Mas é justamente por isso que aconteceu.

¨      O Irã desafia a máquina de guerra dos EUA no Oriente Médio. Por Sayid Marcos Tenório

Estamos diante de um momento que poderá marcar uma inflexão histórica na geopolítica contemporânea. Pela primeira vez em muitas décadas, a arquitetura de poder militar construída pelos EUA no Oriente Médio começa a ser diretamente desafiada por um adversário capaz de impor custos estratégicos reais. 

O que surpreende não é apenas a intensidade das operações iranianas, mas a escala e a coordenação com que vêm sendo conduzidas. Em poucos dias de confronto, bases aéreas, centros de radar, instalações logísticas e sistemas avançados de radar foram atingidas de forma coordenada.

Essas instalações não são simples postos militares. Elas sustentaram por décadas a supremacia militar dos EUA na região. Bases norte-americanas no Bahrein, no Kuwait, no Catar e na Arábia Saudita estão entre as maiores estruturas militares já construídas fora do território norte-americano, e consumiram trilhões de dólares ao longo de mais de três décadas. 

Essas bases fazem parte de uma vasta rede de projeção de poder que permitiu aos EUA controlar rotas energéticas, influenciar equilíbrios regionais e manter uma presença militar permanente no Golfo.

No entanto, aquilo que durante anos pareceu praticamente intocável começa a revelar vulnerabilidades diante de um adversário que passou décadas se preparando para um cenário de confronto direto. 

Já vi analistas recorrem à comparação com Pearl Harbor, em 1941. A analogia, porém, é limitada. Pearl Harbor foi um ataque surpresa concentrado em poucas horas. O que ocorre agora envolve uma sequência de ataques e respostas militares distribuídos por diferentes pontos da região.

Mais importante do que a comparação histórica é a percepção de que, pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, a vasta rede de poder militar construída pelos EUA no Oriente Médio demonstra sinais de vulnerabilidade.

Outro elemento que chama atenção é o crescente silêncio informativo que passou a cercar o conflito. À medida que os dias avançam, a quantidade de imagens, vídeos e relatos disponíveis ao público parece diminuir. 

Em guerras anteriores, a cobertura era intensa e quase permanente. Durante a primeira Guerra do Golfo, por exemplo, o mundo assistia diariamente a imagens de bombardeios e operações militares. 

“Bombas inteligentes” eram apresentadas como símbolo da supremacia tecnológica norte-americana. Câmeras acopladas a mísseis transmitiam imagens ao vivo e o público acompanhava quase em tempo real a destruição de alvos militares.

Hoje, paradoxalmente, apesar de vivermos na era da informação digital, quase não vemos registros visuais da ofensiva atual. Essa ausência levanta uma questão inevitável:  se os EUA realmente tivessem domínio completo sobre o espaço aéreo iraniano, seria natural esperar imagens de aeronaves operando livremente sobre cidades iranianas. 

Até o momento, porém, tais registros são raros ou inexistentes. O que sugere um cenário mais complexo, no qual o espaço aéreo iraniano permanece fortemente defendido e sua capacidade de resposta militar continua ativa.

As capacidades do Irã não são improvisações. O Irã passou décadas preparando-se para um cenário como este. Ao longo dos anos, desenvolveu uma estratégia defensiva baseada na dispersão de infraestrutura militar, na profundidade territorial e na construção de complexos subterrâneos fortificados.

Grande parte de suas instalações militares encontra-se distribuída em diferentes regiões do país. Arsenais, centros de comando e plataformas de lançamento de mísseis foram projetados justamente para sobreviver a ataques maciços. Esse modelo de defesa dificulta qualquer tentativa de neutralizar rapidamente a capacidade militar do país.

Além disso, o território iraniano apresenta características geográficas que tornam extremamente complexa qualquer hipótese de invasão terrestre. Com cadeias montanhosas extensas, desertos e vastas áreas de difícil acesso, o país possui uma profundidade estratégica muito superior à de outros cenários de guerra recente no Oriente Médio.

Outro ponto sensível nesse conflito é o Estreito de Ormuz, um dos corredores marítimos mais estratégicos do planeta. Uma parcela significativa do petróleo mundial passa por essa estreita faixa de água. Qualquer interrupção prolongada do tráfego marítimo nessa região poderia produzir impactos imediatos nos mercados energéticos globais.

Essas constatações indicam que subestimaram a capacidade de preparação do Irã. Mesmo sob pressão militar intensa, o sistema de defesa iraniano continua operando. Sua capacidade de lançar mísseis permanece ativa e sua estratégia de dissuasão segue funcionando. A estrutura militar construída ao longo de décadas demonstra uma resiliência maior do que muitos analistas previam.

Isso não significa que o conflito esteja definido ou que suas consequências humanas sejam menores. Em qualquer guerra, civis pagam um preço devastador. Infraestruturas são destruídas, cidades sofrem ataques e populações inteiras vivem sob constante ameaça.

Do ponto de vista estratégico, porém, uma questão começa a emergir com clareza: aqueles que iniciaram essa escalada militar podem ter aberto um conflito muito mais difícil de controlar do que imaginaram. E o Irã já declarou que será a nação persa que vai decidir a hora de parar.

Quando a poeira finalmente baixar sobre este conflito, o mundo poderá olhar para este momento como o início de uma nova fase na história do Oriente Médio. Uma fase em que a hegemonia militar dos EUA na região deixa de parecer inabalável e passa a ser abertamente contestada.

 

Fonte: Opera Mundi

 

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