Hugo
Albuquerque: O caos Trump, Irã e o tabuleiro global
Uma
agressão militar contra o Irã já era prevista há tempos, tomando corpo nos
últimos anos. A guerra dos 12 dias, no último mês de junho, foi um
ensaio disso: na medida em que os iranianos não cruzaram a linha vermelha de
uma guerra, Israel tratou de iniciar um ataque ao país, para envolver os
Estados Unidos – que entraram no conflito, mas saíram rapidamente depois de um
ataque às centrais nucleares iranianas, com Trump clamando vitória.
Caso
raro na História, as três partes envolvidas se declararam vencedoras, embora só
os iranianos tenham saído às ruas para comemorar. De lá para cá, Israel passou
os últimos meses tecendo uma retomada das hostilidades contra Teerã, enquanto
Trump fazia exigências absurdas para os iranianos – levando-os para a armadilha
de negociações feitas para não chegar a lugar algum.
Sem
provas de que o Irã estava construindo bombas nucleares, a administração Trump
exigia o desmantelamento do programa de mísseis do país, mas não obrigava
Israel a dar qualquer garantia de segurança aos iranianos. Paralelamente, a
economia do país foi submetida ao caos, e manifestações orquestradas pelo
exterior buscavam mudar o regime – o que fracassou em meio a uma quase guerra
civil.
No fim,
um Trump acovardado e arrastado à guerra por Netanyahu autorizou ataques
conjuntos ao Irã, matando o líder do país, o aiatolá Khamenei, enquanto ainda
estava à mesa de negociação. O resto, já sabemos: Teerã respondeu à altura
atacando Israel e também as bases americanas no Oriente Médio, além de
instalações sensíveis – puro caos, com resultados ainda não definidos.
Na
China antiga, o filósofo operário Mozi, na compilação canônica de sua obra,
comparava a função do governante à do médico, mas lembrava que enquanto o
médico tinha por meta determinar a origem da doença que acometia um paciente, o
governante deveria determinar a origem do caos. E aqui vamos nós: o que teria
motivado uma ação temerária, em relação à qual o próprio Trump tentou se
desvencilhar?
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Uma guerra (aparentemente) sem sentido para Trump
Levando
em consideração todo o seu discurso e mesmo seu primeiro mandato, Trump buscou
escapar às guerras. Promoveu, é verdade, o bárbaro assassinato do general
iraniano Qasssem Soleimani, mas não escalou para uma guerra. Anos antes, o
próprio Trump insinuava que Obama começaria uma guerra no Irã porque não sabia
negociar. Quando George Bush filho iniciou a Guerra do Iraque, Trump foi um de
seus maiores críticos.
No seu
retorno à Casa Branca, Trump se encontra entre a cruz e a espada, mirando uma
baixa de juros na marra, enquanto promove medidas inflacionárias como o
tarifaço, o bloqueio à mão de obra imigrante, dentre outras desventuras em
série. Iniciar uma ação militar no Oriente Médio era visto como algo temerário
para os preços do petróleo e, consequentemente, da inflação nos Estados Unidos,
inviabilizando seus planos.
Longe
de qualquer desenvolvimentismo, a obsessão de Trump com os juros talvez tenha
sentido numa tentativa de evitar que a bolha da Inteligência Artificial exploda
no seu governo. Menos juros significa mais capital fluindo para a bolsa,
especificamente para ações das Big Techs – e assim, talvez, o país cruzasse o
cabo da Boa Esperança da fase inicial do desenvolvimento da Inteligência
Artificial.
Se a
overdose tarifária não ajudou Trump, enfraquecendo o dólar, cogitar uma
escalada no Oriente Médio deveria ser a última coisa que ele gostaria de fazer.
Mas os últimos meses foram marcados de bombardeios contra o retornado
mandatário americano. As revelações do caso Epstein, onde muito provavelmente
Trump está envolvido, arrepiaram até o fio de cabelo da cúpula do governo. Mas
a derrota do tarifaço na Suprema Corte mostrava mais.
Trump
estava sob ameaça e perdendo governabilidade, enquanto parlamentares
neoconservadores se tornavam vozes mais fortes. O presidente que poria fim às
guerras infinitas do “establishment” se tornou, rapidamente, o
orquestrador de uma ação militar de larga escala contra um país com o qual
ainda negociava. Isso depois da ação de sequestro de Nicolás Maduro e
bombardeio a Caracas.
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Uma guerra que faz todo sentido para Netanyahu
Além de
todas as variáveis políticas e econômicas, o público americano se mostrou
contrário tanto à intervenção na Venezuela quanto à intervenção no Irã. Nenhuma
pesquisa ajudava Trump antes, nem depois. Ou seja, quando o custo econômico e
político da guerra vier – já há centenas de soldados americanos mortos na
resposta iraniana, isso, oficialmente –, tudo será pior avaliado.
Quem
tem pesquisas de opinião a seu favor é o eterno premiê israelense Benjamin
Netanyahu, cada vez mais poderoso a cada retorno ao poder – dessa vez, não
deveria estar, porque vivia às voltas com acusações de corrupção, mas parece
ser a única figura capaz de construir e liderar uma coalizão de governo no seu
país, que se sustenta se estiver numa guerra permanente.
A
agressão contra o Irã é incrivelmente popular em Israel segundo as pesquisas,
como o genocídio de Gaza também é. A sociedade israelense se move dessa maneira
seja pela ideologia que lhes é imposta goela abaixo desde a escola até, lembrem
disso, pela noção de que Israel é um país movido por sua indústria de
tecnologia bélica – logo, guerra e prosperidade sempre andaram juntas no
país.
Não há,
contudo, paralelo com os Estados Unidos, onde desde o começo do século 21 a
percepção é que as guerras não trazem mais riqueza como antes. Só os custos
sociais, em um país que já não avança como fazia até os anos 1980, a despeito
de nunca ter construído um estado de bem-estar social: bem ou mal, o mercado
dava conta de incluir os americanos, mas hoje não mais.
Portanto,
Trump foi à guerra por Israel, isso é inquestionável. E nisso há uma boa dose
de medo e a megalomania: ele espera pelo apoio de todo o lobby sionista dentro
dos Estados Unidos para vencer as próximas eleições de meio de mandato – e
ainda conseguir um inconstitucional terceiro mandato. Trump está fazendo coisas
opostas ao que fazia, sem qualquer ganho imediato. Vejamos isso como um
investimento, pois.
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As origens do caos
Trump
não conseguiu impor essa guerra apenas por sua sociedade macabra com Netanyahu.
Há um ponto que parece fazer sentido. Isso pode representar um ganho colateral
que valha o sacrifício momentâneo: acertar uma importante fonte de petróleo da
China, o que consta, talvez não por acaso, de um relatório recente da Heritage
Foundation sobre uma guerra entre as duas potências: Washington
deveria “degradar” as fontes de petróleo de Pequim.
Se a
Venezuela foi uma ação americana para assombrar governos latino-americanos,
também foi para garantir uma fonte de petróleo próxima aos Estados Unidos em um
caso de conflagração global. No caso iraniano, é mais importante o petróleo
tirado da China do que aquilo que possa vir a ser ganho. Será que os
israelenses querem o mal da China? Taticamente sim, embora estrategicamente
isso esteja em aberto.
Historicamente,
Israel sempre buscou cooptar a China, com Ben Gurion em pessoa fazendo análises
acertadas sobre o futuro chinês. Mas o presidente Mao ignorou constantemente
esse assédio e se manteve firme enquanto esteve no poder. Isso só mudou nos
anos 1990, com Israel fornecendo tecnologia militar para os chineses como prova
de boa vontade. Hoje, Israel espera que a China o incluísse no seu jogo de
circulação de capitais no Oriente Médio.
A opção
chinesa pelo Irã reflete não só a fome do país por petróleo, mas seus
interesses em transformar o país em um hub terrestre. Pactuar
com Teerã por essa razão implica em concordar com certos pontos de vista
iranianos para o Oriente Médio, o que pode não se confundir diretamente com a
luta existencial contra Israel, mas significa contrariedade aos Acordos de Abraão
e a mudança na logística de exportação de petróleo.
Sim, o
Irã não tem nenhum interesse de que oleodutos e gasodutos sejam construídos em
massa na península Arábica, desaguando imediatamente no Mediterrâneo, sob o
controle ou tutela de Israel – o que tornaria o golfo Pérsico, e o estreito de
Ormuz, em peças de museus. A julgar pelo uso do fechamento tático de Ormuz
pelos iranianos na atual crise, percebemos bem isso.
Isso
também coloca os russos numa encruzilhada, diretamente, e em companhia dos
chineses, de quem são sócios em empreitadas como o Brics e a Organização para
Cooperação de Xangai. Israel pretende dobrar ambos, enquanto arrasta os Estados
Unidos para uma guerra arriscada e custosa no curto prazo, mas que pode servir
para fechar caminhos chineses, controlando mais o mercado do petróleo.
A
situação, é claro, é a de um evento limite. E pode, realmente, arrastar o mundo
para uma Terceira Guerra. Tudo dependerá dos próximos dias e da capacidade de
resistência do Irã. Por fim, a questão Palestina, central para toda humanidade,
se universalizou de vez de forma concreta com essa guerra – que muitos fingiram
que não ia acontecer, de tão insensata que parecia. Mas é justamente por isso
que aconteceu.
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O Irã desafia a máquina de guerra dos EUA no Oriente
Médio. Por Sayid Marcos Tenório
Estamos
diante de um momento que poderá marcar uma inflexão histórica na geopolítica
contemporânea. Pela primeira vez em muitas décadas, a arquitetura de poder
militar construída pelos EUA no Oriente Médio começa a ser diretamente
desafiada por um adversário capaz de impor custos estratégicos reais.
O que
surpreende não é apenas a intensidade das operações iranianas, mas a escala e a
coordenação com que vêm sendo conduzidas. Em poucos dias de confronto, bases
aéreas, centros de radar, instalações logísticas e sistemas avançados de radar
foram atingidas de forma coordenada.
Essas
instalações não são simples postos militares. Elas sustentaram por décadas a
supremacia militar dos EUA na região. Bases norte-americanas no Bahrein, no
Kuwait, no Catar e na Arábia Saudita estão entre as maiores estruturas
militares já construídas fora do território norte-americano, e consumiram
trilhões de dólares ao longo de mais de três décadas.
Essas
bases fazem parte de uma vasta rede de projeção de poder que permitiu aos EUA
controlar rotas energéticas, influenciar equilíbrios regionais e manter uma
presença militar permanente no Golfo.
No
entanto, aquilo que durante anos pareceu praticamente intocável começa a
revelar vulnerabilidades diante de um adversário que passou décadas se
preparando para um cenário de confronto direto.
Já vi
analistas recorrem à comparação com Pearl Harbor, em 1941. A analogia, porém, é
limitada. Pearl Harbor foi um ataque surpresa concentrado em poucas horas. O
que ocorre agora envolve uma sequência de ataques e respostas militares
distribuídos por diferentes pontos da região.
Mais
importante do que a comparação histórica é a percepção de que, pela primeira
vez desde o fim da Guerra Fria, a vasta rede de poder militar construída pelos
EUA no Oriente Médio demonstra sinais de vulnerabilidade.
Outro
elemento que chama atenção é o crescente silêncio informativo que passou a
cercar o conflito. À medida que os dias avançam, a quantidade de imagens,
vídeos e relatos disponíveis ao público parece diminuir.
Em
guerras anteriores, a cobertura era intensa e quase permanente. Durante a
primeira Guerra do Golfo, por exemplo, o mundo assistia diariamente a imagens
de bombardeios e operações militares.
“Bombas
inteligentes” eram apresentadas como símbolo da supremacia tecnológica
norte-americana. Câmeras acopladas a mísseis transmitiam imagens ao vivo e o
público acompanhava quase em tempo real a destruição de alvos militares.
Hoje,
paradoxalmente, apesar de vivermos na era da informação digital, quase não
vemos registros visuais da ofensiva atual. Essa ausência levanta uma questão
inevitável: se os EUA realmente tivessem domínio completo sobre o espaço
aéreo iraniano, seria natural esperar imagens de aeronaves operando livremente
sobre cidades iranianas.
Até o
momento, porém, tais registros são raros ou inexistentes. O que sugere um
cenário mais complexo, no qual o espaço aéreo iraniano permanece fortemente
defendido e sua capacidade de resposta militar continua ativa.
As
capacidades do Irã não são improvisações. O Irã passou décadas preparando-se
para um cenário como este. Ao longo dos anos, desenvolveu uma estratégia
defensiva baseada na dispersão de infraestrutura militar, na profundidade
territorial e na construção de complexos subterrâneos fortificados.
Grande
parte de suas instalações militares encontra-se distribuída em diferentes
regiões do país. Arsenais, centros de comando e plataformas de lançamento de
mísseis foram projetados justamente para sobreviver a ataques maciços. Esse
modelo de defesa dificulta qualquer tentativa de neutralizar rapidamente a
capacidade militar do país.
Além
disso, o território iraniano apresenta características geográficas que tornam
extremamente complexa qualquer hipótese de invasão terrestre. Com cadeias
montanhosas extensas, desertos e vastas áreas de difícil acesso, o país possui
uma profundidade estratégica muito superior à de outros cenários de guerra
recente no Oriente Médio.
Outro
ponto sensível nesse conflito é o Estreito de Ormuz, um dos corredores
marítimos mais estratégicos do planeta. Uma parcela significativa do petróleo
mundial passa por essa estreita faixa de água. Qualquer interrupção prolongada
do tráfego marítimo nessa região poderia produzir impactos imediatos nos
mercados energéticos globais.
Essas
constatações indicam que subestimaram a capacidade de preparação do Irã. Mesmo
sob pressão militar intensa, o sistema de defesa iraniano continua operando.
Sua capacidade de lançar mísseis permanece ativa e sua estratégia de dissuasão
segue funcionando. A estrutura militar construída ao longo de décadas demonstra
uma resiliência maior do que muitos analistas previam.
Isso
não significa que o conflito esteja definido ou que suas consequências humanas
sejam menores. Em qualquer guerra, civis pagam um preço devastador.
Infraestruturas são destruídas, cidades sofrem ataques e populações inteiras
vivem sob constante ameaça.
Do
ponto de vista estratégico, porém, uma questão começa a emergir com clareza:
aqueles que iniciaram essa escalada militar podem ter aberto um conflito muito
mais difícil de controlar do que imaginaram. E o Irã já declarou que será a
nação persa que vai decidir a hora de parar.
Quando
a poeira finalmente baixar sobre este conflito, o mundo poderá olhar para este
momento como o início de uma nova fase na história do Oriente Médio. Uma fase
em que a hegemonia militar dos EUA na região deixa de parecer inabalável e
passa a ser abertamente contestada.
Fonte:
Opera Mundi

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