O
papel do governo na angústia dos parentes de desaparecidos
Na
sexta-feira de Páscoa de 2025, Danielle Barros recebeu um telefonema que
colocaria fim a dez meses e 11 dias de angústia: um homem parecido com seu
irmão Vitor, desaparecido desde junho do ano anterior, estava vivendo como
morador de rua em Santo André, na região metropolitana de São Paulo.
Danielle
e seus parentes, moradores de Diadema, logo entraram num carro e partiram para
o local onde estava o homem, a cerca de dez quilômetros de distância. Ao chegar
lá, ela sentiu "uma alegria que não tem tamanho": era mesmo Vitor, de
23 anos, que tem esquizofrenia.
"Já
ia fazer quase um ano – passavam dias frios, dias quentes, e não sabíamos dele.
Não tenho palavras para descrever a felicidade que foi reencontrá-lo",
conta Danielle.
O
sorriso do reencontro da família Barros é a minoria no universo de pessoas
desaparecidas no Brasil. Em 2025, foram registrados 84.760 desaparecimentos e
23.919 localizações de pessoas, segundo dados do Ministério da Justiça. A cada
hora, quase dez pessoas desaparecem em todo o país, sendo três menores de 18
anos.
É o
maior número de desaparecidos desde o início da série histórica, em 2015, e o
quinto ano seguido de alta, após o forte recuo de 2020, quando eclodiu a
pandemia de covid-19.
Não há
uma explicação definitiva para essa tendência. Em nota à DW, o Ministério da
Justiça afirma que a alta não significa, necessariamente, que há crescimento
real dos casos, pois pode ser consequência de uma menor subnotificação – à
medida que campanhas recentes estimulam as pessoas a registrar o
desaparecimento de parentes. Alguns especialistas também avaliam que a alta
pode sugerir o aumento de ocultação de cadáveres de mortos pelo crime
organizado.
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Políticas criadas, resultados lentos
Nos
últimos sete anos, o Brasil vem criando novos instrumentos para tentar
enfrentar melhor o problema dos desaparecidos. O marco inicial foi a sanção da
Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, em 2019. Desde então, os
governos federal e estaduais vêm dialogando para tentar padronizar e priorizar
as investigações sobre desaparecimentos e centralizar informações para
facilitar a localização de pessoas.
Uma
novidade importante foi o lançamento, em agosto de 2025, do Cadastro Nacional
de Pessoas Desaparecidas, que visa reunir as ocorrências – mas, até o momento,
apenas 12 estados estão integrados ao sistema. São Paulo, Minas Gerais e Rio de
Janeiro e Rio Grande do Sul, os três com maior número de registro de
desaparecidos, seguem de fora.
O
governo federal e governos estaduais também vêm promovendo campanhas de coleta
de DNA de familiares de pessoas desaparecidas, para contribuir na busca dos
seus entes, e o Ministério da Justiça afirma ter, desde 2024, oferecido cursos
de capacitação a 158 profissionais de Polícias Civis – responsável por
investigar esse tipo de caso.
Nada
disso ajudou Danielle a encontrar seu irmão Vitor. Ela relata ter recebido um
tratamento "humilhante" nas duas vezes em que foi à delegaria de
Diadema – "os policiais perguntavam se tínhamos certeza que ele estava
desaparecido, diziam que não podiam fazer nada" – e encontrou seu irmão
por meio da organização Mães da Sé, que desde 1996 apoia familiares na busca de
desaparecidos.
Uma
moradora de Santo André que costumava dar comida a Vitor notou, num dia, que
ele estava chorando e se aproximou para conversar. Foi aí que ele disse seu
nome completo e que queria chegar a Diadema, mas não sabia como. A moradora
então digitou seu nome em um buscador e viu o cartaz com sua foto no Instagram
da Mães da Sé.
O
próprio desaparecimento de Vitor teve a ver com a negligência do Estado, afirma
Danielle. Ele havia sido preso por furto de celular e cumprido cerca de um ano
de pena. Já diagnosticado com esquizofrenia e prestes a ser liberado de uma
unidade prisional em Dracena, a 660 quilômetros da capital, ela ligou ao
presídio, enfatizou que o irmão tinha um transtorno mental e pediu a data da
liberação para que seus familiares fossem buscá-lo – e diz ter sido orientada a
telefonar de novo na segunda-feira seguinte.
Ao
ligar na data combinada, ela afirma ter ouvido como resposta: "ele não
chegou por aí?" Depois, descobriu que Vitor havia sido colocado em um
ônibus para São Paulo e, desorientado, não conseguiu chegar a Diadema.
"Ele cometeu um crime, teria que responder, mas deveria ter tido um
tratamento mais adequado", afirma Danielle. Hoje Vitor mora com a mãe, na
sua cidade natal.
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Quando uma pessoa some
Há
motivos variados que levam ao desaparecimento de pessoas. Entre os não
criminosos, há os involuntários – pessoas com problemas de saúde mental ou que
sofrem acidentes e não conseguem retornar para casa – e os voluntários – como
um adolescente que decide fugir de casa ou uma mulher que quer iniciar uma nova
vida longe de um marido violento.
E há os
desaparecimentos criminosos, caso de mulheres e adolescentes sequestradas para
a exploração sexual, bebês raptados para tráfico humano, pessoas submetidas a
trabalho análogo à escravidão ou vítimas de homicídio cujos cadáveres são
ocultados.
A
orientação dos governos é registrar um boletim de ocorrência na delegacia mais
próxima assim que a família nota o desaparecimento – não é necessário esperar
24 horas, ao contrário do que alguns acreditam. E às vezes é já nesse primeiro
passo, quando os familiares estão preocupados e fragilizados, que o Estado
falha.
Uma
cartilha elaborada pelo Ministério da Justiça orienta as delegacias a
dispensarem "atenção diferencial e apropriada" aos familiares,
"não só com vistas a não agravar o sofrimento que sentem, quanto para
facilitar e enriquecer as contribuições que podem oferecer aos agentes
públicos". E uma resolução do Conselho Nacional de Justiça de agosto de
2025 estabelece que o Judiciário deve adotar escuta qualificada e procedimentos
não revitimizantes ao lidar com esses familiares.
Princípios
com frequência ignorados, afirma Ivanise Esperidião, que há 30 anos busca o
paradeiro da sua filha Fabiana e preside a Mães da Sé. "Até hoje, tem
pessoas que chegam em uma delegacia e, dependendo do delegado de plantão, ele
fala: 'volte em 24 horas'. Você depende muito da boa vontade da
autoridade", afirma. "Na maioria das vezes, eles já têm uma opinião
formada. Se é adulto, foi embora porque quis. Se é adolescente, fugiu de casa,
está envolvido com drogas. Se é criança, desapareceu por maus-tratos."
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Crime organizado e esquadrões da morte
Outra
organização atuante no tema é a Mães em Luta, presidida por Vera Lucia Ranu,
que procura por sua filha Fabiana há 33 anos. Ela avalia que a alta anual no
registro de desaparecimentos pode também estar relacionada a execuções
promovidas pelo crime organizado, em especial de jovens de classes baixas
aliciados pelas facções.
"Muitas
vezes assassinam e usam as valas clandestinas, que temos aqui em São Paulo, no
Rio de Janeiro, em Salvador... Aí ninguém acha, e quando a mãe percebe que [o
filho] não vai voltar, às vezes cria coragem e faz boletim de ocorrência",
diz. "Isso vem crescendo, às vezes é uma disputa, guerras por poder, temos
várias famílias nessa situação."
Para
unir as vozes das diversas entidades civis voltadas à localização de
desaparecidos, em 2025 foi lançado o Movimento Nacional de Familiares de
Pessoas Desaparecidas, com apoio do Comitê Internacional da Cruz Vermelha.
Hânya
Pereira Rêgo, integrante do conselho deliberativo do movimento, começou a se
engajar na causa por ser parente de desaparecido político na ditadura militar,
e mais tarde resolveu aproveitar sua experiência para auxiliar os familiares de
desaparecidos na democracia.
Ela
afirma que, além do crime organizado, há agentes do Estado que também
desaparecem com pessoas, seja de forma direcionada ou para encobrir erros
cometidos por policiais. "No tempo da ditadura, quando não eram presos
políticos, eles desapareciam com 'bandidos' ou com pessoas inconvenientes, a
pretexto de esquadrão da morte. Hoje o esquadrão não precisa ser esquadrão, é a
própria polícia em muitos estados", diz.
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Aposta em cadastro nacional e perfil genético
Mas
Hânya é otimista sobre o potencial para acelerar a localização de pessoas nos
próximos anos, à medida em que mais estados aderirem ao Cadastro Nacional de
Pessoas Desaparecidas e mais familiares terem seu DNA coletado e integrado ao
banco de dados. Haverá uma "explosão" de localização de pessoas, diz.
"Muitas
infelizmente com a confirmação de morte. Mas nosso desejo é que esse cadastro
consiga entrar em instituições de internação por drogas ou por doenças mentais,
em abrigos. Na hora em que o poder público entrar nesses locais e colher
digitais e DNA, possivelmente poderemos encontrar pessoas vivas", afirma.
Ela
aponta que o estado de São Paulo, origem de cerca de um quarto dos registros de
desaparecimento, "é o mais reticente" a participar do cadastro
nacional. Em nota à DW, a Secretaria de Segurança Pública paulista afirma que
"as tratativas para integração" ao banco de dados nacional
"estão em andamento".
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Custo da falta de coordenação
Medidas
simples, como cruzar o perfil de mortos com o registro de desaparecidos antes
de sepultá-las como indigentes, também poupariam muitas famílias de sofrimento.
É o caso de Sandro Andrade, 58 anos, cujo filho ficou desaparecido por sete
anos e meio.
Samuel
tinha 19 anos quando saiu de casa, no Grajaú, zona sul de São Paulo, para ir a
uma festa em dezembro de 2017 e não voltou mais. Depois de fazer muita pressão
sobre vereadores, deputados estaduais e autoridades, Sandro conseguiu que uma
nova investigação fosse iniciada em 2024, que logo identificou a entrada de um
corpo compatível com o de Samuel no Instituto Médico Legal cinco dias após seu
desaparecimento.
Um
exame de DNA confirmou que se tratava mesmo de Samuel. Seu cadáver havia sido
localizado às margens do Rio Pinheiros, morto por asfixia mecânica por
afogamento. Uma investigação identificou que seu celular havia sido vendido
pela internet dois dias após o desaparecimento, mas não apontou a cadeia de
eventos que levou à sua morte.
"Faltou
os órgãos se comunicarem, faltou o famoso banco de dados, o empenho",
afirma Sandro. "É revoltante, um corpo enterrado cinco dias após o
desaparecimento devolvido à família quase oito anos depois." Ele entrou
com uma ação contra o estado pedindo uma indenização. "Não vai trazer o
meu filho de volta, não vai sair do bolso do governador, mas é o mínimo, uma
retratação – não tivemos nem um pedido de desculpas."
Fonte:
DW Brasil

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