O
colapso hídrico e a seca de propostas
O
diagnóstico é alarmante, embora sua leitura ofereça nuances diferentes. Para
alguns, todo o ciclo da água do planeta — que inclui mares, atmosfera e outras
fontes de água doce ou potável — enfrenta uma “tensão”. Para outros, é algo
ainda mais cruel: o planeta começou a passar por uma “falência hídrica”, nas
palavras da Universidade das Nações Unidas, em seu mais recente relatório sobre
o assunto. Não apenas a renda anual de água dos rios e da chuva foi gasta, mas
também as economias milenares guardadas em geleiras, áreas úmidas e veios
subterrâneos foram esvaziadas. O resultado são sistemas literalmente falidos:
aquíferos compactados, lagos fantasmas, deltas afundando, todos sem capacidade
de recuperação.
Há
apenas alguns meses, os rios da Amazônia registraram seus níveis históricos
mais baixos. Quase ao mesmo tempo, a Espanha foi brutalmente atingida pelas
piores enchentes das últimas décadas, com um trágico lastro de destruição e
morte. A crise climática causada pelo aquecimento global fez com que o ciclo
hidrológico entrasse em um atraso sem precedentes. Não poderia ser diferente,
já que o aquecimento dos mares quadruplicou dos anos 80 até o presente. Seu
impacto direto em vastas áreas de gelo e glaciares não pode mais ser ignorado:
massas de gelo derretendo e, como corolário, elevando o nível do mar. Segundo
fontes científicas, um quarto da população mundial, principalmente em países de
baixa e média renda, está exposta a riscos crescentes de inundações
catastróficas.
Essa
leitura da realidade fala da “conta cobrada pelo desperdício”, ou seja, do
preço que já está sendo pago pelo uso excessivo de água e de outros recursos
naturais para responder a um sistema de produção e consumo que ultrapassa toda
lógica do que é possível. O panorama é “desolador”, enfatiza o relatório, com
75% da população mundial em países onde a água é escassa ou seu acesso é
inseguro. Além disso, mais da metade dos grandes lagos do planeta está secando
rapidamente e 2 bilhões de pessoas habitam terras que afundam devido à
“superexploração” da água subterrânea. “Em 50 anos”, conclui o relatório,
“foram perdidas áreas úmidas equivalentes a toda a superfície da União
Europeia”.
Tal
cenário implica consequências sérias, e as evidências são irrefutáveis: a crise
não conhece fronteiras. A agricultura, que consome 70% da água doce, está no
epicentro do colapso. Quando as plantações em uma região secam, a escassez
resultante impacta dramaticamente o preço dos alimentos. Inevitavelmente, isso
atinge a segurança alimentar global e desestabiliza economias. “A água que
falta aqui”, alerta o relatório, “é perceptível na comida lá”. Em conclusão:
“Essa falência não é um problema local, mas um risco sistêmico que corre nas
veias do comércio mundial”.
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O Ártico como nunca se havia visto
As
mudanças climáticas estão deixando a região ártica irreconhecível; e isso afeta
negativamente o restante do planeta. De acordo com o Relatório Ártico de 2025,
o ano passado registrou duas décadas contínuas de aquecimento recorde.
Desde
sua criação, em 2006, o Relatório Ártico, com apoio da Administração Nacional
Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA, sigla em inglês), tem fornecido
atualizações anuais confiáveis sobre a situação do Ártico. O Programa de
Monitoramento e Avaliação do Ártico (AMAP) apoia esse trabalho, facilitando a
revisão independente do Relatório.
Produzido
por 112 cientistas de 13 países, esse “boletim” documenta as tendências atuais,
os eventos recorde e os desafios emergentes em uma região que está se aquecendo
muito mais rápido que o resto do planeta. Uma das transformações em curso mais
preocupantes desse processo é a ‘atlantificação’, uma dinâmica que força a
circulação de águas mais quentes e salgadas para o norte e, com elas, espécies
boreais que invadem os ecossistemas árticos.
A perda
de 129 bilhões de toneladas da camada de gelo da Groenlândia somente em 2025
também é resultado desse processo. Embora abaixo do nível médio das últimas
duas décadas, essa erosão confirma, no entanto, uma tendência de longo prazo.
No Alasca, especificamente, as geleiras perderam em média 38 metros de
espessura vertical desde meados do século XX, resultando em uma ampla redução
generalizada da altitude das superfícies geladas. Esse é um retrocesso
significativo dos glaciares, um fator chave para a elevação do nível do mar e
uma nova ameaça: desde o alarmante declínio das reservas de água doce nas
comunidades árticas até o aumento do risco de enchentes, deslizamentos de terra
e tsunamis no restante do planeta. Tudo isso com riscos incalculáveis para pessoas,
infraestruturas e costas.
O
relatório, também adotado e promovido pela Organização Meteorológica Mundial
(OMM), revela um aparente paradoxo: durante a temporada de neve de 2024-2025, o
acúmulo foi acima da média em grandes áreas daquela região, mantendo-se alto
até maio. No entanto, em junho, a extensão da cobertura de neve caiu abaixo dos
valores normais, em linha com o observado nos últimos 15 anos. Cerca de metade
disso vem sendo registrado há seis décadas: um sinal claro de uma mudança
estrutural nesse subsistema climático. Um dos fenômenos mais marcantes
documentados pelo estudo é o dos “rios oxidados” devido ao derretimento. Em
mais de 200 bacias hidrográficas do Alasca, o descongelamento do permafrost
(terra congelada ou abaixo de 0⁰C por pelo menos dois anos consecutivos) liberou
ferro e outros metais, tingindo de laranja rios e córregos antes intocados. O
aumento resultante da acidez e da presença de metais potencialmente tóxicos
está deteriorando a qualidade da água, comprometendo inevitavelmente habitats
aquáticos e acelerando a perda de biodiversidade.
Detectado
pela primeira vez no final dos anos 1990, esse ‘enverdecimento’ do Ártico é
outro fenômeno da mesma realidade climática, alarmante devido à sua
intensificação. Em 2025, a tundra ártica atingiu seu terceiro maior nível de
verdor desde que os registros de satélite começaram. “Calor recorde, recordes
mínimos de gelo marinho, geleiras recuando, aquecimento contínuo dos oceanos e
eventos extremos sem precedentes estão redefinindo esta região”, conclui o
Relatório..
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América Latina e Caribe: região fragilizada
Um
terço da água potável do planeta está localizado no continente latino-americano
e caribenho, que representa apenas 8% da população mundial. Essa relação
implica uma disponibilidade média de água potável por habitante quatro vezes
maior do que a média mundial. No entanto, a região continua sofrendo com o
estresse hídrico em cidades e áreas produtivas. Como resultado, 166 milhões de
pessoas não possuem um serviço gerenciado de forma segura, menos da metade das
águas residuais é devidamente tratada e um em cada dois países ainda não possui
uma gestão integrada de seus próprios recursos hídricos.
Essa é
uma realidade paradoxal se considerarmos que a América Latina e o Caribe
desfrutam dos maiores níveis de precipitação — uma média de 1.600 milímetros
por ano — mesmo que sua distribuição não seja uniforme. A variabilidade
geográfica da precipitação, juntamente com uma sazonalidade marcada e o aumento
da demanda em áreas de alta atividade econômica, causam esse estresse, cuja
constatação é inquestionável. Por exemplo, o aumento da frequência e da
gravidade das secas e de outros desastres relacionados à água naquela região,
determinantes do aumento dos níveis de risco para a segurança alimentar e para
os meios de subsistência dos agricultores.
Vários
relatórios recentes do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre
Mudanças Climáticas (IPCC) confirmam as consequências do impacto climático na
segurança hídrica, com uma inevitável diminuição da água de irrigação
proveniente de geleiras que agora estão derretendo rapidamente, a perda de
umidade do solo e sua capacidade decrescente de absorver CO2. Esse é um
fenômeno que também produz maior evaporação em sistemas de irrigação por rega e
superfícies de cultivos mais secas e quentes, entre outros problemas não menos
graves.
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A Europa não está em melhor situação
Devido
às mudanças climáticas, a Europa também está secando. Essa é a conclusão de um
estudo conjunto do University College London com a Watershed Investigations
(uma organização independente de pesquisa) e o jornal britânico The Guardian,
baseado em dados de satélite sobre variações no campo gravitacional da Terra.
Publicado
no final de 2025, esse artigo confirma que as reservas de água em grandes
extensões de terra estão, inexoravelmente, em declínio, embora não da mesma
forma em todos os lugares. Assim, por exemplo, o norte e noroeste do
continente, da Escandinávia a partes do Reino Unido e Portugal, experimentam um
aumento anual da umidade, enquanto o sul e sudeste, incluindo a Espanha, a
Itália, a França, a Suíça, a Alemanha, a Romênia e a Ucrânia, enfrentam secas
estruturais.
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Há saída?
Apesar
do enfraquecimento progressivo que a comunidade internacional e suas
organizações multilaterais têm experimentado nos últimos tempos, Senegal e
Emirados Árabes Unidos continuam organizando a próxima Conferência Mundial das
Nações Unidas sobre Água, que será realizada em dezembro de 2026. Esse evento
tem como objetivo fortalecer um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
das Nações Unidas: “Garantir a disponibilidade da água e a sua gestão
sustentável e do saneamento para todos”, promovendo a vontade política, o
investimento e a inovação para acelerar o progresso rumo a uma governança
global adequada da água.
Além da
retórica e das conferências agendadas, milhões de seres humanos continuam
aguardando que seja cumprida a recomendação de organizações internacionais de
que cada indivíduo tenha entre 50 e 100 litros de água por dia e que o custo
disso não exceda 3% da renda familiar. O planeta sofre com mais calor a cada
dia, já enfrenta uma falência de água e milhões de seus habitantes são vítimas,
em sua própria carne, do desrespeito a um direito humano essencial, o acesso à
água potável.
Fonte:
Por Sergio Ferrari, em Outras Palavras

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