O
Sul Global como laboratório de investigação sobre a extrema-direita, diz
historiadora
“A
experiência da extrema-direita no Sul Global parece nos apresentar um processo
de radicalização que é mais forte e duradouro de setores conservadores das
nossas sociedades, com elevados níveis de intensidade e violência, bem como
consequências institucionais de longo prazo”, analisa a historiadora Tatiana Vargas-Maia. Organizadora do
livro The Rise of the Radical Right in the Global South (Routledge,
2023) junto de Rosana
Pinheiro-Machado,
ela acentua que a abordagem do estudo “começa com um diagnóstico das
insuficiências que observávamos na literatura dominante, que tende a explicar
acontecimentos em países como Brasil e Índia como parte do mesmo fenômeno,
idêntico àquele observado nos EUA e Europa Ocidental, o que produz uma
homogeneidade epistemológica e metodológica que consideramos insuficiente”.
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Confira a entrevista.
·
Quais são as inquietações teóricas e o contexto do
surgimento do livro The Rise of the Radical Right in the Global
South, organizado em parceria com Rosana Pinheiro-Machado?
Tatiana
Vargas-Maia – Começo
a minha reflexão a partir da abordagem que Rosana
Pinheiro-Machado e
eu trazemos na introdução do livro The Rise of the Radical Right in the
Global South (Routledge, 2023), e que continuamos desenvolvendo em
nossas pesquisas compartilhadas e individuais. Como duas mulheres que são do
Sul do Sul Global e que acompanham e investigam questões tanto de
polarização política quanto de radicalização há pelo menos 15
anos, Rosana e eu percebemos nos primeiros anos da pandemia, portanto
em 2020 e 2021, um problema na forma como o debate vinha sendo conduzido e que
nos frustrava profundamente. Este problema estava situado tanto no foco quanto
no tom sobre novos líderes, partidos e movimentos de
extrema-direita em
países como Argentina, Brasil, Índia e Filipinas. Aqueles que como nós
acompanham essa discussão há pelo menos uma década têm usado o ano de 2016 como
um marcador interessante, seja pela primeira eleição de Donald Trump, seja
pelo Brexit. Conseguimos localizar que a discussão começa, como o
próprio título do XXII Simpósio Internacional “A extrema-direita
e os novos autoritarismos. Ameaças à democracia liberal” indica, com
debates sobre a crise das democracias liberais no início deste século. Ao longo
dessa última década a discussão se aprofunda, pensando de maneira mais crítica
sobre as dimensões da permanência da extrema-direita no horizonte
político pós-1945 e na consolidação e no fortalecimento desses movimentos
ideológicos nas primeiras décadas do século XXI. Contudo, a forma como essa
discussão é desenvolvida inicialmente, sobretudo a maneira como chega em
debates mais amplos de nossa sociedade, parecia muito inadequada para
como Rosana e eu observávamos o desenvolvimento pesquisando o
contexto de Sul Global, sobretudo porque muitas vezes a forma como essa
literatura engajava países e casos como Brasil, Índia, Filipinas e Argentina
soava um tanto quanto em descompasso com aquilo que estávamos observando nas
tendências de comportamento e decisão. Muitas vezes esses casos do Sul Global
pareciam estar às margens dessas interpretações mais hegemônicas
da extrema-direita, seja em sua perspectiva histórica, seja em uma
dimensão mais contemporânea. O que significa, em certo sentido, que tais
casos ficavam à margem? A nosso ver, isso significa sobretudo que sempre que
estávamos vendo ou ouvindo explicações para a ascensão e consolidação de
líderes como Jair Bolsonaro, Narendra Modi e Rodrigo Duterte, essas explicações
apenas repetiam a abordagem que havia sido desenvolvida inicialmente para os
países do Norte Global,
como EUA, Grã-Bretanha e França. Ou seja: tomávamos um
arcabouço teórico conceitual, um mecanismo de explicação que havia sido pensado
para o contexto sobretudo daquilo que chamo de Atlântico Norte –
os EUA e a Europa Ocidental – e replicávamos essa
explicação para tentarmos entender o que estava acontecendo em países como o
Brasil, Índia e Filipinas.
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Sul Global como laboratório de investigação sobre a extrema-direita
De
forma mais drástica, inclusive, percebemos que quase sempre os estudos
acadêmicos do Sul Global eram referidos em nota de rodapé, ou seja,
entrávamos na discussão somente como estudos de caso pontuais que espelhavam e
confirmavam aquilo que estava acontecendo nos EUA ou na Europa,
que eram o foco principal e análise e, sobretudo, de desenvolvimento teórico.
Essa marginalização literal do Sul Global na discussão acadêmica nos parece um
erro crasso, fundamental. Da forma como vinha sendo conduzida, a discussão
focava nos casos menos relevantes. Esta é uma das teses importantes que podemos
destacar aqui: é imprescindível pensar o Sul Global, cada vez mais, diante
dos seus contextos e características históricas e contemporâneas como o
provavelmente o mais interessante laboratório para investigarmos o fenômeno
da extrema-direita no mundo atual,
no século XXI, e não necessariamente os casos do Norte Global. A
experiência da extrema-direita no Sul Global parece nos apresentar um processo
de radicalização que é mais forte e duradouro de setores conservadores das
nossas sociedades, com elevados níveis de intensidade e violência, bem como
consequências institucionais de longo prazo. Por isso, um dos elementos do
argumento que subsidia nosso livro é justamente pensar nisto: inverter a lógica
de como a discussão vinha sendo feita e, ao propor um foco nos países e na
experiência da extrema-direita no Sul Global, entender que essa região pode ser
um locus de análise de interpretação primário para esses
eventos, que irá nos informar das características que sejam mais relevantes
para a compreensão desse problema global no século XXI. A partir dessas
observações começamos a trabalhar na proposta e no arcabouço, que seria a
estrutura do livro e que inspiraria e provocaria muitos dos autores que
publicaram e desenvolveram seus textos para pensar e compreender a
extrema-direita no Sul Global. Como mencionei, nossa abordagem começa com
um diagnóstico das insuficiências que observávamos na literatura dominante, que
tende a explicar acontecimentos em países como Brasil e Índia como parte do mesmo
fenômeno, idêntico àquele observado nos EUA e na Europa Ocidental, o que produz
uma homogeneidade epistemológica e metodológica que consideramos insuficiente.
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Diferenças entre Norte e Sul Global
Ao
refletirmos sobre as diferenças, talvez a principal discrepância observada
entre a atuação da extrema-direita no Norte e Sul Global se
traduza em termos de intensidade e escala. É precisamente esta intensidade e
escala que devem ser compreendidas dentro das particularidades históricas de
cada um desses contextos. Um exemplo: Trump e Bolsonaro podem expressar
declarações intoleráveis semelhantes nas mesmas redes sociais, utilizando
táticas idênticas de discurso velado. No entanto, os efeitos das atitudes
igualmente odiosas desses líderes são fundamentalmente diferentes em países com
graus diferentes de desenvolvimento econômico, de consolidação democrática, mas
também da garantia de direitos civis. Assim, para além de estudar a
manifestação desses líderes, partidos e movimentos, estudos contemporâneos
sobre a extrema-direita no século XXI devem considerar o impacto
provocado pela atuação de todos esses líderes, movimentos e partidos e
compreendem que, lidando com contextos sociais, políticos e econômicos
radicalmente diferentes entre Norte e Sul Global, o impacto da ação da
extrema-direita também
seja diferenciado e isso precisa ser levado em consideração em nossos estudos. Todavia,
a maior parte dos estudiosos de extrema-direita parece esgotar sua análise nas
semelhanças entre aquilo que chamam de autoritarismos populistas. O que
insistimos no livro é que é igualmente importante prestar atenção ao fato de
que, por exemplo, as campanhas antigênero do Sul Global são muito
mais viscerais e, portanto, muito mais prejudiciais e violentas do que aquelas
no Norte Global. Isso se deve principalmente às diferenças contextuais que
existem nestes locais, ou seja, para além de identificar semelhanças, talvez o
grande esforço criativo nas pesquisas sobre extrema-direita seja identificar as
diferenças entre esses movimentos e a atuação deles em contextos específicos.
Eis um ponto que enfatizamos: estas diferenças também irão se refletir,
inclusive, na condução e produção da pesquisa acadêmica. Um argumento
necessário e que quero desenvolver posteriormente é que precisamos pensar com
cuidado inclusive na segurança de pesquisadores e pesquisadoras do Sul
Global, que investigam a extrema-direita nesses ambientes, porque
principalmente quando pensamos que uma das condições de desenvolvimento e
desenraizamento dessa extrema-direita está posta na
precariedade do trabalho, que também afeta a nós, pesquisadores do Sul Global,
que estamos igualmente submetidos a fatores estruturais como a contaminação
cruzada do aparato policial dos nossos países e a extrema-direita, como é nítido
no caso brasileiro. Isso nos torna significativamente mais vulneráveis a
dinâmicas de assédio, intimidação, divulgação de informações pessoais e outras
formas de repressão violenta.
·
Quais são as principais ressalvas que sua investigação
endereça à explicação clássica para o recrudescimento da extrema-direita, mas
desta vez no contexto do Sul Global?
Tatiana
Vargas-Maia – Eu
gostaria de explorar a explicação mais aceita para o ressurgimento
da extrema-direita no mundo. Esse argumento centra-se na recessão dos
países ricos, sobretudo a partir de 2008, mas retrocede para a crise do
neoliberalismo, que começa na década de 1990, com o colapso do Estado de bem-estar
social,
em particular nas questões migratórias, naquilo que se convencionou chamar na
imprensa de uma crise migratória (o que acho um termo problemático, embora
continuemos a nos referir a este processo dessa forma). Outro argumento diz
respeito ao crescente ressentimento da classe trabalhadora na Europa
Ocidental e nos EUA ao perceber perdas significativas em seu padrão de
vida, quando a geração atual constata que vive em condições piores ou menos
estáveis do que seus pais ou seus avós viviam. Essa é a combinação de fatores
que é apresentada de maneira geral para explicar a tração eleitoral e
discursiva que a extrema-direita ganha principalmente na segunda década do
século XXI. Esta explicação está muito bem elaborada por autores
como Wendy Brown e Cass Mude para contextos do Norte Global. O problema
é que quando estudamos a extrema-direita no Sul Global e, mais do que
isso, quando estudamos a extrema-direita do Sul Global a partir do
Sul Global, precisamos nos perguntar: de que recessão exatamente estamos
falando? Além disso, a qual Estado de bem-estar social nos referimos? Qual é
esse processo de migração ou talvez de desdemocratização que a literatura está
apontando? Muitos desses elementos que tomamos de maneira rápida, que são
generalizantes de uma experiência global que aceitamos e reproduzimos para
nossos próprios contextos, quando examinados de forma mais pontual e cuidadosa,
não angariam tanta evidência assim. Essas tendências que estão bem discutidas e
documentadas para os casos europeus e americano não se encaixavam bem nos
contextos que estávamos explorando, sobretudo no caso brasileiro, deixando de
lado algumas características que entendíamos muito relevantes para explicar a
vitalidade de líderes como Bolsonaro, Modi, Duterte. Quando esses três líderes chegaram ao poder, é
difícil dizer que seus países estavam em colapso sobre alguma forma prévia de
bem-estar social. Aqui provoco a pensarmos a respeito de nossa experiência
brasileira, na qual entendo que somos muitas vezes generosos demais com a
descrição de nosso Estado, que conta com serviços importantes, mas que não se
caracterizam necessariamente como um Estado de bem-estar
social propriamente dito. Muitas das camadas mais empobrecidas da nossa
sociedade estavam saindo desta condição de pobreza. Por outro lado,
o autoritarismo nunca foi uma
novidade nos séculos XX e XXI nos contextos do Sul Global e
brasileiro. Pelo contrário, como observamos ao longo desta última década, o
autoritarismo sempre se colocou como uma grande promessa, sobretudo como
solução para a crise de segurança pública. Para além disso, se quisermos
observar os casos indiano e filipino no início do século XXI, esses dois países
mantinham um crescimento econômico contínuo. Assim, é estranho falarmos de
recessão ou crise nesses cenários. E ainda que o Brasil tenha
eleito Bolsonaro em meio a uma recessão, o ressurgimento e
fortalecimento dos movimentos de extrema-direita em nosso país ocorre
paralelamente ao auge do desenvolvimento econômico, e aqui penso nos anos de
2010, 2011 e 2012.
·
Quais são as características e os aspectos fundamentais
de proposta analítica que vocês oferecem no livro que organizaram em parceria?
Tatiana
Vargas-Maia – Percebendo
essas diferenças estruturais, identificamos cinco aspectos específicos para
nossa proposta de uma nova abordagem analítica que informaria autores e autoras
que desejam trabalhar com casos do Sul Global na aproximação, uma
nova vertente estrutural e teórica que não ignora a literatura inicial, mas que
tenta entender para além do que é semelhante dentre os casos globais aquilo que
existe de diferente, e como tais diferenças informam a nossa percepção do
fenômeno. A primeira questão diz respeito à recessão econômica e à
subjetividade política. É comum que a literatura tradicional se concentre na
figura do homem branco ressentido e empobrecido. Todavia, em nossos casos, em
contraste, países colonizados do Sul Global têm sido marcados por
conflitos e recessões. Não é uma experiência nova. O
significativo crescimento econômico das economias emergentes também
fomenta novos tipos de engajamento político. Enquanto a nostalgia por um
passado glorioso é fundamental para a subjetividade neofascista do Norte, a
ideia de que as gerações anteriores viviam melhor do que vivemos e que devemos
recuperar esse passado, essa categoria parece ser repensada no Sul. Isso se
articula com os segundo e terceiro pontos do nosso arcabouço, dos quais falarei
adiante, que é a dimensão do nacionalismo. Parece que temos uma melancolia
orientada para o futuro, não um passado glorioso que precisa ser retomado, mas
um futuro promissor que foi prometido e não foi concretizado. Temos emoções
políticas que podem ser semelhantes, mas a orientação delas é diferente, e isso
é importante.
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Nacionalismo e xenofobia no Sul Global
Um
segundo aspecto reside nas nuanças daquilo que podemos pensar acerca da
expressão de nacionalismo e xenofobia nesses diferentes contextos. Apesar de
presente em todos os países, o nacionalismo adquire características
diferentes no Sul Global. Como acabo de mencionar, em alguns países, é
difícil elaborar a ideia de um passado glorioso que merece ser exaltado e
recuperado. Todavia, esses movimentos
de extrema-direita profundamente nacionalistas podem
prometer ou projetar um futuro glorioso, instrumentalizando esse futuro como um
horizonte político, afirmando que eles são os movimentos capazes de
concretizá-lo, enquanto outros movimentos políticos, sobretudo os de esquerda,
estão empenhados em roubá-lo. Além disso, é interessante perceber como
geralmente pensamos a expressão de nacionalismo e como este se atrela à
xenofobia, o que também fala a respeito de como a presença, ou não, de
imigrantes em nossos contextos alimenta ou passa despercebida, em grande
medida, a depender de como esses movimentos estão articulados. Digo isso
porque, sobretudo pela forma como estudamos a I e II Guerra
Mundial como
experiências definidoras de nosso panorama político contemporâneo, estamos
muito preparados e instrumentalizados para pensar a experiência do nacionalismo
como aquela de um nacionalismo expansionista, ou seja, dirigida para fora das
fronteiras e que identifica “inimigos externos” nesse processo de expansão e
construção de um outro adversário. O que muitas vezes não percebemos é
que esse processo de expansão externa para o estrangeiro ocorre após um
processo de colonização interna. Projetos nacionalistas olham em um primeiro
momento para a comunidade nacional com o objetivo de homogeneizar essa
comunidade, e depois podem desenvolver tendências agressivas que levam à
expansão externa. Quando olhamos, então, para experiências da Europa
Ocidental ou dos EUA, com países que ao longo da sua história
contemporânea tiveram longuíssimos e complexos processos de consolidação e
colonização nacional, é natural pensarmos que o “inimigo” é sempre externo,
configurado no estrangeiro. Dessa forma, a figura do migrante é
instrumentalizada facilmente. O que não percebemos é que, sobretudo na
experiência do Sul Global, devido a dinâmicas de colonização e subjugação
na estrutura do sistema internacional, essa dinâmica de colonização do espaço
doméstico por movimentos nacionalistas muitas vezes não está concluída. E o que
esses movimentos de extrema-direita assumem para
si, então, é o processo de consolidação nacional, que significa que nossos
“inimigos” são nacionais e compreendidos como inimigos internos.
No caso
do Brasil é bastante fácil percebermos quem são nossos “inimigos” e como eles são
racializados e sexualizados. Não é à toa que um movimento como
o bolsonarismo, assim como o Movimento Brasil
Livre – MBL,
identifica como problemáticas as pessoas não brancas, em especial as negras e
as de origem indígena, bem como as feministas e os ativistas LGBTQIA+. Um exemplo que
passou despercebido para muitas pessoas é que, quando Sérgio Moro sai
do superministério de Bolsonaro durante a pandemia, ele vaza uma
série de reuniões nas quais o presidente estava acompanhado de seus ministros.
Em um desses encontros Weintraub pede a palavra e fala uma frase que na época
ganhou pouca repercussão, mas que é reveladora desse projeto nacionalista
do bolsonarismo. Em termos que aqui recupero livremente, Weintraub diz
que, a partir desse governo, as pessoas precisam entender que “não existe mais
nada disso de negros, indígenas, gays e feministas, porque agora todo mundo é
brasileiro”. O que é isso senão uma afirmação deste processo e projeto de
homogeneização de uma identidade única que é imposta sobre a sociedade? É claro
que, se quisermos explorar e aprofundar essa análise, podemos perceber essa
identidade muito associada àquilo que nos acostumamos a ouvir falar como o
“cidadão de bem”, que é branco, heterossexual e que constitui uma família
nuclear. Ainda que possamos pensar que o racismo está sempre no cerne
desses projetos de extrema-direita, tanto ao Norte quanto ao Sul, é
importante perceber que a supremacia branca britânica tem significados
diferentes do que a supremacia hindu explorada por Modi contemporaneamente.
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Legado da ditadura e dos “homens fortes”
Um
terceiro aspecto pensa o que chamamos sobre o legado da ditadura e dos “homens
fortes”. Boa parte da literatura contemporânea, focada no Norte Global,
pensa em como crises econômicas e o desmantelamento do estado de bem-estar
social geram na população uma descrença com modelos de democracia liberal.
O início do processo daquilo que muitos autores chamam de “desdemocratização”,
ou seja, países que tinham uma experiência democrática consolidada,
mas que por uma série de mecanismos e processos a população desses países passa
a acreditar cada vez menos da democracia como sendo um processo factível para
melhorar suas vidas e, por isso, começam a apoiar líderes e propostas mais
autoritários. Pensando em nossa experiência, diversos países do Sul Global ainda sofrem
consequências de ditaduras ao longo do século XX, que foram extremamente
violentas e sangrentas. Se quisermos ser realmente honestos com nossa situação
política, ainda estamos lidando com uma cultura muito persistente de violência
tributária a esse contexto. E se compreendermos a proposta democrática como uma
proposta que esvazia o jogo político de violência, isso se mostra falso,
porque neste jogo político seus líderes e seus eleitores acreditam que a
violência pode ser a melhor saída para a resolução de conflitos. Essa concepção
é muito problemática em termos políticos e teóricos porque, ao discutirmos
a desdemocratização, precisamos perceber que ainda estávamos no processo
de consolidar alguma cultura democrática em nossos países.
Para
além disso, vemos expressões dessa cultura de violência dentro das
nossas forças militares e policiais, sempre contra grupos
vulneráveis e marginalizados, que nunca vivenciaram a democracia de fato.
Quando eu falo em “inimigos internos”, percebam como nossa configuração
de extrema-direita não está muito
bem encaixada nessas explicações mais tradicionais que ganham tração a partir
de uma crise do neoliberalismo.
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Democracias laicas x conservadorismo religioso e moral
Um
quarto aspecto mais crítico aponta para que, além da persistência de
um autoritarismo e de uma cultura de violência de nossas sociedades,
temos a continuidade de um conservadorismo religioso e moral muito forte, que
talvez nos dificulte pensar nossa curta experiência democrática como uma
experiência de democracias laicas, como as teorias
democráticas mais tradicionais percebem e reivindicam. Enquanto
o laicismo é um princípio fundamental das democracias consolidadas,
com a ideia clássica de separação entre igreja e Estado, as novas democracias
no Sul Global parecem lutar fortemente, e muitas vezes sem sucesso,
para superar essa interferência religiosa nos assuntos políticos. De alguma
maneira estamos lidando com os efeitos nefastos da presença de um fundamentalismo
religioso em
nossas sociedades, que atua como disciplinador, controlando corpos e a
expressão sexual, mas também disciplinador das expectativas de vida e
comportamento a partir de perspectivas muito bem definidas de papéis de gênero.
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Estratégias de resistência
Refletindo
na experiência de uma maneira mais global, o quinto aspecto não se relaciona
necessariamente com as condições de consolidação e fortalecimento desses
movimentos de extrema-direita. Ele tem a ver com a maneira como podemos
pensar as respostas sociais que são criativas, democráticas e igualmente fortes
observadas por nós. Essa talvez seja uma tentativa de pensar não apenas nas
expressões mais nefastas de nosso contexto, mas como ele também inspira
resistências importantes, ou seja, estratégias fortes e poderosas de
resistência. Precisamos reconhecer o enraizamento da extrema-direita nas
sociedades do Sul Global. Infelizmente, parece se tratar de um fenômeno
que tem uma sobrevida maior do que antecipamos e que, no Brasil, após a derrota
de Bolsonaro em 2022, observamos inclusive essa capacidade
metamórfica de seus antigos aliados de permanecerem ativos na esfera política,
naquilo que tem sido chamado de um “bolsonarismo sem
Bolsonaro”.
Temos a consolidação a partir desse líder, mas sua ausência não significa que o
movimento desaparece, e sim que tem uma sobrevida que talvez esteja calcada
justamente nesses elementos que destaquei anteriormente. Todavia, desde a
consolidação desses movimentos de extrema-direita no
Brasil no século XXI,
mas também no que diz respeito a Argentina, Chile, Índia e Filipinas,
observamos algumas reações muito importantes contra esses movimentos vindas de
sociedades latino-americanas. Penso nos movimentos feministas na Argentina e
Chile, o movimento indígena e negro no Brasil como focos criativos e poderosos
de resistência a esses movimentos de extrema-direita. Esses cinco aspectos que
apresentei não são conclusivos e não temos a pretensão de que funcionem em uma
perspectiva universal. Eles são, na verdade, sugestões que achamos que
conseguem lançar luz como características que compartilhamos nas nossas
expressões cotidianas de autoritarismo. Mais estudos comparativos são
necessários. Nesse momento, observamos que alguns artigos e pesquisas circulam
pensando não apenas em estudos de casos pontuais, mas igualmente em
perspectivas comparativas mais amplas dentro do Sul Global, nos ajudando a
compreender as causas e consequências da extrema-direita nesta região do mundo
e como estas experiências podem nos informar para entender, daí sim, a dimensão
mundial e transnacional do fenômeno contemporâneo
da extrema-direita.
Fonte: Entrevista
com Tatiana Vargas Maia, para IHU

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