Sem
pastores midiáticos e discreta: a igreja evangélica que 'exporta' músicos para
as principais orquestras do país
A música ocidental deve
à Igreja Católica algumas de suas
mais bonitas e transcendentais composições. Parte significativa da música
erudita surgiu para louvar a Deus e atrair novas
"ovelhas" para o rebanho de fiéis católicos.
Antonio
Vivaldi, que além de violinista virtuoso foi padre, dedicou parte da carreira
prolífica no século 18 à música sacra. No Brasil do mesmo período havia Frei
Jesuíno do Monte Carmelo, que além de pintor, escultor e arquiteto, também foi
compositor.
De lá
para cá, a Igreja Católica mudou — assim como a ligação entre o catolicismo e a
produção de novos talentos da música clássica.
No
Brasil, as transformações no perfil da religiosidade e no papel social das
igrejas e templos pelo país deslocou o eixo, criando uma dinâmica nova: hoje,
um número relevante dos músicos que entram nas orquestras do país vem de
igrejas evangélicas.
No caso
da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo (Ojesp), 80% a 90% de seus músicos
estão ligados a igrejas pentecostais, diz à BBC News Brasil seu diretor musical
e maestro titular, Cláudio Cruz.
A
maioria vem da Congregação Cristã no Brasil (CCB), a segunda maior denominação
pentecostal do país, com 2,29 milhões de fiéis ou 5,4% dos evangélicos,
conforme os dados do último Censo.
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Dirigentes e professores de música voluntários
A
denominação, que chegou ao Brasil há mais de um século mas se constituiu
oficialmente como entidade em 1932, orgulha-se de ter o que ficou conhecida
como "maior orquestra do Brasil" — chegou mesmo a ser a "maior
do mundo", mas teria perdido o título informal para a venezuelana El Sistema, que celebrou ano
passado seu cinquentenário e revelou ao mundo o maestro Gustavo Dudamel, que
este ano assume a direção musical da Filarmônica de Nova York.
Talvez
orgulho não seja uma palavra apropriada aqui, por ausente do léxico da CCB, que
tem como norma de conduta uma modéstia quase patológica: comunica-se pouco com
a comunidade externa, não tem pastores midiáticos ou que apoiem pública e
vocalmente esse ou aquele político e, intramuros, não remunera dirigentes,
coordenadores, professores de música nem os músicos que tocam nos cultos.
Eventuais
composições de "irmãos" com o intuito de ampliar o hinário de louvor
executado nos cultos ficam anônimas, pois tampouco existe na CCB assunção de
autoria.
"Não
há aqui reconhecimento do homem, do nome, da pessoa. Ninguém é exaltado,
ninguém é galardoado. Se o que temos veio de Deus, então [a obra] é de Deus,
não daquele nome", disse à reportagem por WhatsApp Cláudio Moraes,
encarregado regional, responsável pelas orquestras de várias igrejas do Estado
de São Paulo.
O
violinista Jhony Santos, hoje na Ojesp, já integrou a Orquestra Experimental de
Repertório e ano passado "spallou", ou seja, foi o spalla,
o principal destaque de toda a orquestra em uma apresentação em Paris.
Tem
apenas 19 anos, algo coerente com uma carreira musical bastante precoce: ele
começou aos 6 anos na igreja, a CCB de Itaquaquecetuba, na região metropolitana
de São Paulo, onde ainda mora com a mãe. Aos 7 começou a tocar violino.
Quando
"congrega", ou seja, quando toca em algum culto da CCB, algo que faz
regularmente, ele sabe que não está se desafiando musicalmente — o que seria
importante para quem busca aperfeiçoamento e já este ano tenta uma vaga para
estudar na Alemanha ou na Áustria —, mas isso não parece incomodá-lo: "Na
igreja eu toco com o intuito de adorar [a Deus], ali não importa se o cara toca
muito ou toca pouco, o importante é fazer música com o coração, fazer o louvor
'subir'."
No
aquecimento para apresentações da Ojesp, e também da Jovem Tom Jobim, outra
orquestra paulista, esta dedicada exclusivamente ao repertório nacional, é
muito comum que os músicos "puxem" os hinos que eles ainda tocam nos
templos e com os quais se iniciaram na música.
Além
dos louvores da CCB, é comum se ouvir os da Assembleia de Deus, que rivaliza
com a Congregação na formação de músicos para as orquestras paulistas e é de
longe a maior denominação evangélica do país, com 12,31 milhões de adeptos
—29,1% dos evangélicos, ainda de acordo com as estatísticas do Censo de 2022.
Foi lá
que se iniciou na música a violinista Otielen Luz, 24 anos, titular da Jovem
Tom Jobim e este ano suplente na Ojesp.
À BBC,
ela disse que "sempre sonhou em tocar na orquestra da igreja", mas
quando chegou lá, primeiro no teclado, aos 7 anos, e finalmente no violino, aos
10, considerou "difícil" o repertório.
Ainda
hoje ela acha relativamente complexo o que é tocado na Assembleia.
Adolescente,
Otielen passou pela Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp Tom Jobim),
a porta de entrada mais utilizada pelos integrantes das orquestras paulistas, e
foi se desenvolvendo no violino.
Ela
ainda se mantém ligada à Assembleia de Deus, regendo um coral de jovens adultos
todos os domingos pela manhã em Osasco.
E diz
que chega a conduzir até 70 pessoas, em uma divisão de gênero bastante equânime
e com todas as vozes clássicas de um coral, inclusive tenor.
O que
varia ali, segundo ela, são as disposições de espírito. "Há pessoas muito
dedicadas, que estão no coral há dez anos, e há os turistas, com quem a gente
tem de conversar para ver o que está acontecendo. Ninguém é dispensado, afinal
somos todos voluntários, e a ideia é que todos continuem vindo."
As
restrições colocadas aos músicos na Assembleia de Deus são, de forma geral, bem
menores do que as estabelecidas na CCB. Os hinos podem ser recriados e
rearranjados por seus maestros e mulheres são liberadas para tocar diversos
instrumentos.
Nas
orquestras da Congregação, as mulheres estão limitadas a aprender e tocar
apenas órgão. Todos os demais instrumentos melódicos (metais e cordas) ficam
reservados aos homens, uma prática que acaba tendo impactos no equilíbrio de
gênero dos músicos das orquestras paulistas.
Na
Ojesp, elas são apenas 22% dos bolsistas neste ano, um número em linha com a
média dos últimos anos, apesar do incremento das ações afirmativas, como a
prioridade na indicação de regentes-assistentes mulheres e repertórios
compostos exclusivamente por mulheres.
O
desequilíbrio de gênero não agrada a Cláudio Cruz, ele mesmo um fiel da CCB na
adolescência, nos anos 1980, quando havia mais restrições para os músicos da
igreja — não tocar por dinheiro ou trabalhar aos sábados, por exemplo.
Ao
longo de sua carreira, o maestro Cruz teve de lidar de alguma maneira com essas
limitações. "Já tive muitos problemas com músicos vindo de igrejas que
diziam que não podiam executar certas peças, 'Carmina Burana', por exemplo, a
'Sinfonia dos Orixás', de Almeida Prado, ou o 'Maracatu do Chico Rei' [de
Francisco Mignone]. Vinham falar comigo, mas eu propunha em troca que parassem
de fazer bicos em casamentos, baladas, no samba, no Carnaval, em terreiros...
Aí eu quebrava as pernas deles."
O
coordenador regional Cláudio Moraes, da CCB, explica que a norma de fazer das
"irmãs" apenas organistas não é uma decisão dogmática, mas meramente
administrativa. Justificam-na a capacidade feminina de "executar diversos
trabalhos ao mesmo tempo" e a "necessidade de acomodar os muitos
músicos que se formam na igreja".
Para
Moraes, como o órgão é um instrumento harmônico, supostamente mais difícil de
aprender e executar, capaz de produzir algumas notas simultaneamente,
diferentemente dos instrumentos melódicos como a flauta ou o saxofone, optou-se
por entregar o órgão às mulheres.
"Cientificamente
falando, as mulheres têm mais habilidade para fazer atividades múltiplas ao
mesmo tempo. Então o que a igreja pensou lá atrás? Se as mulheres ficarem no
órgão e os homens nos instrumentos melódicos, há grandes chances de preenchermos
as vagas que abrimos nas igrejas", disse à BBC.
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Expansão evangélica nas periferias
Para
Cruz, o aumento da participação de igrejas evangélicas na formação de talentos
da música clássica no país é explicado em parte pelo aumento dos projetos
sociais capitaneados por elas nas periferias.
Não
existem estatísticas consolidadas sobre o tema, mas as próprias denominações
dão pistas em seus sites ou redes sociais da envergadura desses projetos.
A
Vitória em Cristo, por exemplo, há cerca de 20 anos mantém a Associação
Beneficente Projeto Elikya, que "abençoa" com oficinas gratuitas de
reforço de aprendizagem, música, esportes, informática, artes e "apoio
emocional" por volta de mil crianças. A atuação é principalmente na cidade
do Rio de Janeiro, mas também no Vale do Jequitinhonha (MG) e em Luanda,
capital de Angola.
A
Igreja Batista da Lagoinha, surgida em Belo Horizonte e que ganhou bastante
espaço no mundo laico ao apoiar Jair Bolsonaro e seu grupo político, também
conta oficialmente, há oito anos, com a Fábrica de Artes, instituição com o
objetivo declarado de formar "uma nova geração de artistas, que
expressará louvor a Deus das mais diversas formas".
A sede
fica em Belo Horizonte, em prédio projetado por um pastor da Lagoinha com 70
salas e teatro para 400 pessoas. Ali são oferecidos cerca de 20 cursos nas
áreas de música, teatro e dança, para crianças e adultos, não necessariamente
fiéis da Lagoinha.
No
Paraná, o projeto Dorcas, ligado à Associação Evangélica Cristo Redentor,
confluência de igrejas luteranas surgida em Curitiba, utiliza a música como
eixo educacional.
Mais de
5 mil crianças e adolescentes são assistidos em projetos como o Música no
Bairro, que busca desenvolver "habilidades emocionais, cognitivas e
sociais" com práticas de canto coral e aulas de flauta doce e de outros
instrumentos de sopro.
Os
exemplos se multiplicam pelo Brasil, sintomas de como a comunidade evangélica
se expande.
O
crescimento do número de fiéis dessas denominações foi captado pelo Censo de
2022: em relação ao recenseamento anterior, de 2010, a população que se declara
evangélica passou de 21,6% para 26,9%, ao passo que os católicos, então 65,1%,
diminuíram para 56,7%.
Fonte:
BBC News Brasil

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