“Momento
político”: reflexões do marqueteiro Paulo de Tarso responsável por diversas
campanhas de petistas a tucanos
O
avanço da direita no cenário internacional, especialmente encabeçado pelo
projeto "Maga" (Make America Great Again, ou Torne a América Grande
de Novo, evocado por Donald Trump), interferiu na popularidade do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). É como avalia Paulo
de Tarso da Cunha Santos, marqueteiro político há mais de 40 anos, responsável
por diversas campanhas nas últimas décadas, de petistas a tucanos. Lula está
encurralado, diz Tarso em entrevista à BBC News Brasil. Sua avaliação é que
iniciativas no campo administrativo, como programas sociais e investimento em
infraestrutura, não chamam mais a atenção do eleitor."O povo está cansado
da demora que a democracia liberal propõe", diz Tarso. "Uma obra, que
às vezes leva quatro anos para ser entregue, traz um sentimento eterno de que
as coisas não andam."
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Confira a seguir os principais trechos da entrevista.
·
Como o senhor enxerga esse crescimento do senador Flávio
Bolsonaro na disputa presidencial?
Paulo
de Tarso da Cunha Santos - A situação internacional, com o projeto Maga,
deu uma interferência na tendência lulista de crescer naturalmente. Com isso,
uma argumentação poderosa do Lula sobre o multilateralismo ficou muito
prejudicada.
Acho
que o Lula está muito sem iniciativa, está muito preso no canto da parede.
Coisas administrativas que eles tinham pensado, parece que o povo não está
dando muita atenção. O povo está cansado da demora que a democracia liberal
propõe. Uma obra, que às vezes leva quatro anos para ser entregue, traz um
sentimento eterno de que as coisas não andam. Estamos vivendo um momento em que
o povo está meio cansado da propaganda petista, que não tem mais a eficiência
que tinha no passado.
·
O senhor acha que o Lula sabe disso?
Paulo
de Tarso - A
impressão que dá é que não. Acho que ele vai começar a se preocupar agora que
as coisas estão ficando mais apertadas, e isso vai obrigá-lo a fazer uma
revisão do projeto do partido. Não adianta fazer campanha com prestação de
contas do que foi feito, é preciso olhar para o futuro. O Flávio [Bolsonaro] é
um cara novo, ele sintetiza o futuro e o antipetismo. Há também uma guerra
midiática. A impressão que dá é que a mídia liberal comprou o projeto do Flávio
[Bolsonaro], algo que não deveria ser estranho para o Lula, porque a vida
política dele sempre foi assim. Além de tudo isso, há a rejeição direta ao PT e
ao Lula, que representa metade do país. Do ponto de vista técnico, não é tão
grande, dado o tempo que o PT está no poder, é até explicável.
·
O senhor fez campanhas para diferentes políticos, de
diferentes partidos. Dada as particularidades de cada campanha e candidato, o
que uma campanha vitoriosa tem que ter?
Paulo
de Tarso – A
primeira coisa é entender o que é vitorioso numa campanha. A campanha vitoriosa
não é sempre a que vence. Campanha vitoriosa é a da Marina [Silva, em 2010],
que começou com 4% e acabou com 20% [dos votos]. Existe uma vitória de
credenciamento também. Se a pessoa fica para a próxima eleição melhor do que
ela entrou, você fez uma campanha que ganhou credenciamento. Isso não satisfaz
muito a mídia, em geral, todo mundo pensa só nos vencedores, mas nós,
estrategistas, temos que preparar o nosso candidato para voos futuros. É quase
que uma escalação. Vejo o caso do Lula, que quase ganha uma [eleição, em 1989],
perde a segunda para o Plano Real [1994], perde a terceira [1998], a quarta
[ganha, em 2002], é como se ele tivesse sido escalado, ao olhar do povo, para
jogar na seleção.
Existe
um estudo acadêmico sobre isso, o efeito "agora é Lula" [jingle da
campanha de 2002]. Ali é dito que o recall é muito grande, as
propostas, questões de rejeição já foram muito tratadas nas campanhas
anteriores. Enfim, o processo político leva com que ele [Lula] pareça ao
eleitorado maduro. Isso se o caminho for feito com qualidade. Essa percepção de
vitória, como a gente chama, é o que conduz à vitória de verdade. Tem uma
pergunta nos questionários quantitativos, que é assim: independente de quem o senhor
vota, quem acha que vai ganhar a eleição? Essa resposta é a mais importante
para os profissionais de planejamento. Se a gente está crescendo na expectativa
de vitória, é que a campanha está indo bem. Não importa crescer na intenção de
voto, porque você pode perder a intenção de voto no último minuto. Mas a
expectativa de vitória é construída como uma decisão mais sólida. E muita gente
usa a expressão que no Brasil é muito conhecida, que é "não quero perder
meu voto".
·
O senhor disse em 2018 que a TV tinha dez vezes mais
importância do que as redes sociais. Naquele ano, o ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL) ganhou a eleição tendo oito segundos de TV. Era uma avaliação
equivocada?
Paulo
de Tarso - Sou
teimoso. Não conheço nenhum projeto internético que tenha vencido pela
internet. Estou falando de projetos majoritários. Projetos proporcionais, eu
conheço vários. Não acho Trump um fenômeno da internet, não acho a [Georgia]
Meloni na Itália um fenômeno de internet, não acho a direita um fenômeno da
internet. No Brasil, não creio que o Bolsonaro tenha vencido na internet. A
internet colaborou, deu mais recall, deu um espaço que antes ele
não tinha. Mas, mesmo com esses [poucos] segundos, ele poderia vencer, por
causa da demanda cidadã que havia pelo projeto que eu acho que recebeu ajuda,
foi formatado, pelo projeto Maga.
·
Existe uma avaliação de que a esquerda ainda não aprendeu
a usar a internet. O senhor concorda?
Paulo
de Tarso - Não
concordo. Porque acho que usar a internet de repente está sendo percebido pela
sociedade como "a internet tem que ser ruim, tem que ser do mal". Só
funciona a internet que eu te agrido, que minto sobre você, que desinformo.
As
pessoas parecem não ver os grupos de fóruns de debate, o novo jornalismo, a
juventude se manifestando. Evidente que o que chama muito atenção é essa
violência própria descoberta, como atribuem, ao Steve Bannon, que é o
profissional de marketing do Trump. Acho que ele só percebeu que o Goebbels [Joseph Goebbles, ministro da
propaganda nazista]
tinha percebido antes, e que outras dezenas de profissionais que fazem
assessoria de imagem perceberam, que é o discurso mais simples, mais formatado
em poucas palavras, mais dentro da humanidade, visceral.
Pátria,
família e Deus. Isso eu e você que nos conhecemos agora, concordamos. Mas se a
gente falar de igualdade, já não concordamos. O que é igualdade? Você vai
querer saber e, até eu te explicar, vai demorar. Queria terminar essa avaliação
com um fenômeno: a direita tem tido mais presença na internet, medida pelas
pesquisas. Em todo o período desse terceiro mandato do Lula, a direita tem mais
presença na internet, mas não consegue ultrapassar o índice de intenção de
votos do Lula.
·
Ou seja, essa presença não se reflete em votos?
Paulo
de Tarso - Não
se reflete em voto. Like não é igual a voto. Isso é uma coisa
objetiva. Você faz política fazendo política, com os fatos políticos. A
repercussão que o Bad Bunny
teve, citando todos os países da América na abertura do
Superbowl, aquilo não é impulsionamento gratuito. Aquilo é um gesto político de
grande poder que toma conta de toda a sociedade.
·
Qual meio de comunicação vai ser mais importante na
eleição desse ano?
Paulo
de Tarso - Um
mix. Qualquer estrategista que conheça um pouquinho do Philip Kotler [professor
universitário americano, chamado informalmente de "pai do marketing"]
vai te dizer: você pode perder por 1%, porque trabalhou mal no rádio. Todos os
países estão trabalhando com diferenças [de vitória] muito pequenas. Tirando
Portugal, que deu uma diferença grande [nas eleições do início do mês], tudo é
2% ou 3%. Então, um erro que você cometa em um dos meios é o suficiente para
você perder.
·
O que é cometer um erro?
Paulo
de Tarso - A
organização de um projeto de campanha tem que ser para preencher as
necessidades que as pessoas detectam em pesquisa — segurança, o preço dos
alimentos, enfim —, mas também tem que envolver, trazer a possibilidade da
pessoa se encher de vontade, nem digo de esperança, mas de vontade de seguir o
caminho. Na verdade, a campanha é uma grande tradutora de utopia. O que vai
acontecer agora em 2026 será uma utopia enfrentando uma outra utopia. E vai
prevalecer quem traduzir melhor. Se na televisão vier com problema muito
difícil, muito cheio de pensamentos, não vai traduzir, o povo não vai se
identificar, não vai dar nada. Se vier com excesso de agressividade, produz
rejeição também.
·
Os debates exercem um papel central ainda nas camapanhas?
Paulo
de Tarso - Sim.
Acho que hoje, para fixar o conceito entre os diversos targets [públicos-alvo],
o que sobra de mais livre de expressão são os debates. E agora com uma
circunstância que não existia, que são os cortes na internet. Os candidatos não
debatem mais para o momento do debate, debatem para o corte da internet. Ele é
preparado para isso. O corte democratiza o debate, amplifica, bota em um
horário mais acessível, ao mesmo tempo que apresenta expressões curtinhas.
Enfim, ganhos e perdas. O debate frente a frente, não tem nada igual, do ponto
de vista da percepção que a gente tem dos candidatos, seus defeitos e
qualidades.
·
Essas avaliações que saem pós-debate, sobre quem foi
melhor, importam para a campanha?
Paulo
de Tarso - Temos
medições que mostram que a avaliação é mais importante que o debate. Quando o
telejornal define quem ganhou, a tendência do povo é achar que aquele candidato
foi melhor. Em 1989, tivemos uma questão da edição de um debate nosso feito
pela TV Globo, que é um caso de repercussão internacional e que deu origem ao
documentário Muito Além do Cidadão Kane (1993). Mais que o
debate e os próprios cortes, que deu um minuto e meio a mais para o [Fernando]
Collor, que é tecnicamente uma coisa inexplicável, o que funcionou foi uma
pesquisa Vox que eles puseram no final, com 584 entrevistados. Não dão amostra,
não dão nada na proporção de cidades nem nada. O Collor ganhava em tudo: melhor
debatedor, melhor proposta... Aquilo ali definiu que o Collor era o mais
preparado para vencer. Mais do que propriamente a comparação entre os
candidatos.
·
Por que o jingle "Lula Lá" se difere dos
demais?
Paulo
de Tarso da Cunha Santos - "O Lula lá" é um jingle que foi pensado
para a militância. Não era pensado para público universal e nem para ser tocado
na televisão, com cenas captadas em estúdio, cenas de rua, etc. Era pensado
para a militância vibrar. Ele tem um quê de canção gospel brasileira. Foi
complicado a gente achar, eu e o Hilton [Acioli, compositor], esse formato.
Primeiro trabalhamos em um samba enredo, mas depois virou uma cantiga, um
cântico, quase um hino. E, aí, o Hilton, com o talento dele, pôs os versos. Tem
uma repetição, não tem um refrão chiclete. Normalmente, os compositores para
[uma música] pegar, fazem um refrão chiclete, e "Lula lá" não tem,
ele tem a repetição, tem um introito, e depois "Lula lá, Lula lá". Isso
faz com que as pessoas aprendam a cantar com muita facilidade. E deu muito
certo, porque foi uma campanha em 1989 que mobilizou muito a militância.
·
Os jingles hoje ocupam o mesmo lugar de importância que
ocupavam no passado?
Paulo
de Tarso - A
capilaridade que a internet traz, junto com a televisão, com o jornal, enfim,
todos os meios, faz com que seja mais difícil determinar um mote. A competição
é muito grande, na rede e fora da rede. O quanto a rede ocupa e o quanto a
televisão ocupa? A competição ainda está meio igual, o que mostra um pouco como
você tem que pensar o trabalho. O planejador tem que pensar num trabalho com
eficiência em tudo. Hoje, você pode perder a eleição no YouTube. Outra razão é
que estamos em uma política mais distanciada da população. Houve uma
despolitização, uma ascensão neoliberal muito forte no mundo todo e não houve
possibilidade de educação do povo. E o resultado disso foi um lento
distanciamento da população.
·
Mas essa ausência de educação do povo é também uma
consequência dos governos do próprio PT, não?
Paulo
de Tarso - Acredito
que o PT tenha feito muito pela educação, no sentido dos limites impostos pelo
golpe de 1964, que até hoje permeiam a política brasileira. Acredito que o PT
fez várias coisas, posso citar programas aqui, como o Prouni, mas ele não
conseguiu implantar uma educação que tivesse mais força na conscientização, que
é a proposta do doutor Paulo Freire. O PT não teve foco, objetivo, em uma
educação para a liberdade. Acho que o grande desafio do Brasil para o próximo
decênio, a partir de agora, é realmente educar o povo. E acho que isso está
unindo esquerda e direita. A questão é como e onde?
·
O marqueteiro João Santana disse recentemente que Lula
deve ganhar já no primeiro turno, pois levar a decisão para o segundo turno
será arriscado. Como o senhor está avaliando essa pré-candidatura à reeleição
do Lula nesse momento?
Paulo
de Tarso - Seguramente,
não concordo com o João Santana. Acho que ele vem sendo movido pelo
ressentimento há um tempo. Sou solidário a ele, acho um grande profissional,
mas essa determinação de "se não ganhar no primeiro turno, não ganha"
não tem razão técnica. A não ser que ele mostre números e questões objetivas,
não apenas a opinião dele. Pelo contrário, acho que o Lula deve ir para o
segundo turno. Então, a campanha tem que ser pensada, de saída, já com o
segundo turno. É importante que o eleitorado não entenda o segundo turno como
uma decepção. É importantíssimo preparar o nosso exército para uma batalha mais
longa. Não vamos ganhar na saída das primeiras trincheiras. É importantíssimo
isso. O presidente tem tudo na mão para se reeleger no segundo turno: tem
governo, tem a maturidade e tem, principalmente, a situação internacional. Acho
que, da comunicação que cerca o presidente hoje, falta um pouco de verniz. É
uma comunicação que está muito centrada na figura do próprio presidente.
Precisa construir elementos de sonho, elementos de realização.
·
Lula vai tentar a reeleição agora, mas, daqui a quatro
anos o PT não parecer ter um candidato.
Paulo
de Tarso – Estamos
no fim da era Lula. Precisamos estar preparados para um debate muito mais
amplo, que não é sobre o fim da era Lula, mas sobre o começo da era Brasil. A
era Brasil está exigindo um plano de país para nós. A China conseguiu tirar 400
milhões de pessoas da miséria em dez anos. Temos tudo para ter um projeto desse
tipo, um projeto que foque na educação. Estamos atrasados em tecnologia,
estamos bem em várias áreas, produção de commodities, mas, em
tecnologia, estamos mal. Precisamos ter unidade política. É muito importante
que o Brasil saia dessa bobagem dos extremos se chocarem todo o tempo e não
sobrar espaço para as pessoas, as inteligências pensarem como ter um projeto
Brasil. E não temos saída, não podemos não pensar nisso.
·
O PT está pensando nisso?
Paulo
de Tarso - Que
eu tenha noção, não está. A formulação de um pensamento desse tipo não combina
com o exercício do poder. Mas se o PT não fizer isso, ele vai ser atropelado
pela história. Não sei o que vai ser do PT... Vamos começar de novo a
entrevista e a gente fala só sobre isso (risos).
·
O senhor votou em todos os candidatos para quem o senhor
fez campanha para presidente?
Paulo
de Tarso - Sim.
Para presidente, votei sempre, todas as vezes. Só uma vez que não, mas não vou
falar qual. Mas não estava fazendo campanha para presidente. Foi uma vez que eu
achei que haveria espaço para o progressismo chegar mais rápido ao poder que o
Lula. E votei contra o Lula. Está fácil de saber qual é. Mas, de forma geral,
já trabalhei sim, com candidatos mais conservadores, duas vezes. Foi péssimo.
·
Por quê?
Paulo
de Tarso - Porque
é muito difícil. No trabalho com o candidato conservador, você tem que ensinar
política para eles. Por mais que pareça que não, a questão da formação do
candidato conservador é difícil. A direita tem uma formação muito aquém [da
formação] dos candidatos progressistas.
·
A direita ou a direita radical?
Paulo
de Tarso – A
extrema-direita, de forma geral. A direita, se o liberalismo social se reunisse
em torno das ideias pró-mercado, teria espaço para discutir esse projeto de
país, sem dúvida. Não dá para pensar em uma democracia sem direita. É
impossível. Mas também não dá para pensar numa direita que elimina todos os
seus adversários. E estamos vendo Donald Trump fazendo um papelão. Vamos ver
com calma o que vai acontecer, mas aparentemente a radicalidade não está sendo
bem aceita.
·
O marketing político e a figura do marqueteiro ficaram um
pouco manchados nos últimos anos, atrelado ao caixa dois. Existe uma maneira de
melhorar essa imagem?
Paulo
de Tarso - Essa
é uma imagem falsa. Como toda imagem falsa, ela acaba se transformando. Esse
estigma da comunicação política sempre houve e sempre vem da parte do perdedor.
Os marqueteiros no Brasil acabaram estigmatizados porque o financiamento de
campanha na democracia liberal é um buraco negro.
·
Por quê?
Paulo
de Tarso - Porque
você brinca de não aceitar que a política tem uma relação direta com o capital.
Você faz de conta que a política é isenta, que a política é limpa, que a
política é moral, vamos dizer assim, e quem tem dinheiro sabe que a definição é
dada pelos interesses em disputa. O caixa dois é impossível de evitar.
·
Ainda hoje?
Paulo
de Tarso - Sempre
será. Não haverá possibilidade. Você vai ter que ter outras maneiras de domar
os interesses. Entender que dinheiro não é poder é um entendimento liberal
falso. Dinheiro é poder, principalmente, poder é dinheiro. Infelizmente, os
marqueteiros entraram na roda de uma discussão que é muito mais profunda.
Entraram na roda por vaidade. A própria ideia de marketing político não existe
no resto do mundo, é só no Brasil. É que, para a gente, é tão vira-lata ao
olhar para o irmão do Norte que para dar um ar de ciência, do que não é
ciência, a gente optou por marketing. E a mídia nos carimbou como marqueteiro.
Mas nós somos, na América Latina toda e mesmo nos Estados Unidos, consultores
políticos.
·
E aproveitando o gancho de imagem manchada, como
trabalhar a imagem de corrupção de alguns candidatos, que pegou tanto nos
últimos anos, especialmente falando do PT? Como desassociar essa imagem?
Paulo
de Tarso - Temos
duas maneiras de olhar. A primeira é o lacerdismo, que funciona no Brasil há
muito tempo, onde as acusações de corrupção são usadas como armas táticas para
desmontar o outro lado. A segunda, é uma questão humana mesmo, da corrupção,
porque são os donos do dinheiro que a promove. A corrupção é mais promovida por
alguém que chega com o cheque de 100 milhões na sua mão, do que você
propriamente trabalhar e desviar 100 milhões. Os empresários são diretamente
ligados em fazer a diferença com o cheque. O gestor, com quem controla a
licitação, e por aí vai. Aí é uma corrupção instrumentalizada e estrutural.
Essa, a democracia liberal está buscando um jeito de vencer. Até hoje, a gente
não conseguiu. Com relação aos casos, como no mensalão, as táticas para fugir
são meio parecidas: negar, buscar provas, não comprar a pauta do seu
adversário, não deixar o adversário pautar a versão que você está dando,
apresentar provas contrárias, enfim, é uma gestão de crise. Em alguns casos,
você tem espaço para realmente mostrar o outro lado e convencer a opinião
pública e o povo. Outros não. Eu já fui surpreendido quando, faltando uma
semana da eleição, o candidato foi preso. Não tem como você gerir uma crise
como essa, ainda que, nos tribunais, ele tenha sido inocentado depois.
·
Já se arrependeu de ter eleito alguém ou de ter trabalho
para a eleição de alguém?
Paulo
de Tarso – Já.
·
De quem?
Paulo
de Tarso - Não
vou dizer. Mas já.
·
E por que se arrependeu?
Paulo
de Tarso – Porque
são corruptos. Basicamente eu só me arrependi de candidatos que depois se
revelaram corruptos.
·
O senhor não sabia?
Paulo
de Tarso - Não.
Quer dizer, acho que eu me enganei. Tem uma questão também, que eu sou um
profissional liberal, atuo no mercado remunerado. Fui contratado por uma imagem
de candidato que eu acreditava que pudesse ser uma exceção. Ou pelo menos não
fosse escancarado. Depois, ele assumiu o governo, e outras situações o levaram
a ser desmascarado, e eu não tenho como defender. Isso eu acho que acontece com
todos os profissionais. Você trabalha o candidato naquele momento. Você não é
responsável pelo que ele faz. Infelizmente, preferia não ter [trabalhado para
um candidato corrupto]. Mas eu não sou imune a um bom cachê.
·
Hoje tem alguém para quem o senhor não faria campanha de
jeito nenhum? Nem por um bom cachê?
Paulo
de Tarso - Não
faria campanha para extrema-direita, pelo cachê que fosse. Morei no exílio. Meu
pai foi um ministro progressista do Jango. Eu tenho uma tradição pessoal com
relação a uma política de espírito público. Já recusei propostas do Paulo
Maluf, do Delfim Neto. Recusei propostas de grandes expoentes da direita que eu
achava que não tinha sentido. Ia me estigmatizar, e eu não queria. Não
conseguiria levantar o número de argumentos que eu precisava para obter a
vitória.
Fonte:
BBC News Brasil

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