sexta-feira, 13 de março de 2026

Covid, 6 anos: anjos da memória e do esquecimento

Exatamente seis anos atrás, no dia 12 de março de 2020, morria na zona leste da cidade de São Paulo a primeira vítima da covid-19 no Brasil: Rosana Aparecida Urbano, diarista de 57 anos, falecida no mesmo hospital em que visitou sua mãe no dia anterior. Até 2023 somaram-se 700 mil mortes por covid-19 reportadas, vítimas do projeto negacionista do ex-presidente Jair Bolsonaro que transformou o país com o maior sistema público de saúde do mundo em um laboratório a céu aberto, no qual estratégias comprovadamente falsas – como a “imunidade de rebanho” ou o “tratamento precoce” – deixaram rastros de destruição.

Ainda em 2021, os esforços investigativos da Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia (ou CPI da Pandemia) recomendaram o indiciamento de dezenas de pessoas ligadas ao governo Bolsonaro. Os últimos atos de relevância foram o anúncio, pelo Ministério da Saúde, da criação do “Memorial da Pandemia de Covid-19”, no Rio de Janeiro, e a instauração do Grupo de Trabalho dedicado ao aprimoramento das estratégias brasileiras de resposta às emergências de saúde. É marcante, porém, que nenhuma dessas iniciativas tenha se traduzido ainda em iniciativas tangíveis .

<><> O Anjo marca o lugar

Firmou-se como símbolo da pandemia no Brasil a cidade de Manaus, palco de uma das faces mais marcantes da crise pela abertura de covas coletivas em 2020 e pelo esgotamento dos suprimentos de oxigênio que resultou na morte por asfixia de pelo menos 40 pessoas. O caso foi um dos focos principais das investigações realizadas pela CPI da covid-19, que revelou depoimentos e documentos que comprovaram a negligência do Centro de Coordenação das Operações do Comitê de Crise da covid-19 (CCOP), então responsável pela resposta federal à pandemia, e dos demais órgãos competentes.

O documento revelou, por exemplo, que a empresa responsável pela maior parte do suprimento de oxigênio disponível em Manaus havia feito inúmeras tentativas de contato com o Governo Federal para notificar sobre a escassez de recursos – a última em 11 de janeiro de 2021, três dias antes dos estoques de oxigênio se esgotarem. No entanto, o governo federal buscou responsabilizar a população manauara pela falta de adesão ao “tratamento precoce”.

Apesar desse atravessamento dramático entre a pandemia e a cidade de Manaus, o primeiro memorial financiado pela Prefeitura surgiu apenas em 2025. A praça Anjo da Esperança foi inaugurada no dia 02 de novembro como parte das homenagens do Dia de Finados. Localizada na entrada do cemitério Nossa Senhora Aparecida, o monumento central é a representação de um anjo (de fisionomia próxima a imagem clássica de Jesus) com três metros de altura, no rosto a máscara facial e nas mãos pulmões – “símbolo do respiro da humanidade”.

O artesão, o gari Luiz Cláudio Azevedo da Silva, é responsável por outras esculturas presentes na sede da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (SEMULSP), entre elas a réplica do touro dourado de Wall Street. A iniciativa foi apresentada pela Secretaria como uma “homenagem às vítimas da covid-19 e aos profissionais da saúde que atuaram na linha de frente durante a pandemia”.

<><> Disputas pelas lembranças

A inauguração teve pouca repercussão na mídia nacional. Um memorial já havia sido prometido durante as campanhas eleitorais do ex-prefeito Arthur Virgílio Neto (à época no PSDB) e do atual prefeito David Almeida (Avante) nas eleições de 2020 e era uma demanda ativa de familiares de vítimas da covid-19 ao longo dos anos.

Ainda assim, não existem documentos ou notícias que identifiquem algum tipo de iniciativa de participação da população e/ou das associações de vítimas na idealização e realização do monumento ou na inauguração, na qual reporta-se apenas a fala do vice-prefeito Renato Junior (Avante). Vale notar ainda que, meses antes da inauguração, o Ministério Público do Estado do Amazonas havia formalizado uma investigação contra a SEMULSP pelo descaso com a limpeza e manutenção das covas no cemitério que viria a sediar o memorial, principalmente na seção onde estão as covas coletivas abertas para receber as vítimas da covid-19.

Nas redes sociais da SEMULSP, entre os comentários elogiosos, existem comentários que questionam a homenagem, refletindo o sentimento de insatisfação quanto ao potencial do monumento de representar o que aconteceu na cidade durante a pandemia. Em depoimento, familiares de vítimas afirmaram que o memorial deveria ter sido idealizado “não apenas para ser visto, mas para ser sentido.”

É marcante que nesse campo santo estão 74,94% (4.679) de todas as vítimas da covid-19 enterradas em cemitérios públicos da cidade, muitas dessas em covas coletivas com demarcações degradadas ou ausentes. De fato, o “Anjo da Esperança” e a sua praça não foram capazes de nomear as vítimas ali representadas, o que aconteceu com elas e, principalmente, os motivos que centralizam a crise que levou à sua morte. Nesse sentido, nos resta perguntar sobre qual versão do passado a esperança do anjo representado está construída.

Uma maneira de justificar essa pergunta é entender o anjo através do simbolismo comparado ao anjo da história de Walter Benjamin, representado na pintura de Paul Klee Angelus Novus. O anjo nega, para Benjamin, a história linear no qual os acontecimentos encadeados se orientam ao progresso; olhando involuntariamente para o passado, “ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés”. Esse olhar contínuo do anjo permite que se faça surgir o passado no presente, conexão que se evidencia através do testemunho.

É o testemunho sobre o passado que permite que a ação no presente aconteça, contrariando a renúncia ao fatalismo do que já se foi, protagonista de uma perspectiva linear da história. Pensando sobre a relação dos países latino-americanos com a memória após as suas ditaduras militares, José Carlos M. da Silva Filho remonta essa alegoria para explicar que: “Não se trata de reproduzir o fato com documentos, mas sim de fazer justiça escutando quem fala [as testemunhas] do seu sofrimento”. No caso da pandemia, reivindicar uma política de memória demanda significar essas mortes para além do choque quantitativo, tornando presente o testemunho dos mortos e dos vivos sobre as suas tragédias.

<><> “Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”

Ainda nas palavras do Professor Silva Filho, “recuperar o passado é tarefa da memória, de uma memória que se põe à escuta daquilo que foi esquecido”. Sob ela está a responsabilidade da humanidade sobre as suas mazelas e aqueles que sofrem as suas consequências. Como ecoa o lema da justiça de transição que temos repetido, a memória serve para que não se repitam os erros, as negligências, as ignorâncias e os crimes do passado.

Nisso é necessário considerar que “a política da memória não é monopólio do Estado” (ou de nenhum dos seus representantes) e, sim, parte de uma rede complexa e ampla de diferentes testemunhos que juntos constroem a história. Por isso, familiares de vítimas, ativistas e especialistas da saúde se unem hoje, novamente na demanda por justiça e na luta contra o esquecimento.

Como marcou Deisy Ventura em entrevista ao Outra Saúde, é necessária uma “cultura de reconhecimento das violações de direitos ocorridas”, aliada e constituinte dessa política. Afinal, os responsáveis hoje presos não o foram pelos crimes cometidos durante a pandemia, seis anos após a primeira morte por covid-19 no Brasil. O olhar do “Anjo da Esperança” precisa ser reorientado da rua para dentro do cemitério, reconhecendo e nomeando as consequências de escolhas cruéis.

Será o esquecimento necessário para o “respiro da humanidade”? Ou precisamos considerar se é possível respirar sem lembrar?

 

Fonte: Por Mariana Cabral Campos, em Outra Saúde

 

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