Covid,
6 anos: anjos da memória e do esquecimento
Exatamente
seis anos atrás, no dia 12 de março de 2020, morria na zona leste da cidade de
São Paulo a primeira vítima da covid-19 no Brasil: Rosana Aparecida Urbano,
diarista de 57 anos, falecida no mesmo hospital em que visitou sua mãe no dia
anterior. Até 2023 somaram-se 700 mil mortes por covid-19 reportadas, vítimas
do projeto negacionista do ex-presidente Jair Bolsonaro que transformou o país
com o maior sistema público de saúde do mundo em um laboratório a céu aberto,
no qual estratégias comprovadamente falsas – como a “imunidade de rebanho” ou o
“tratamento precoce” – deixaram rastros de destruição.
Ainda
em 2021, os esforços investigativos da Comissão Parlamentar de Inquérito da
Pandemia (ou CPI da Pandemia) recomendaram o indiciamento de dezenas de pessoas
ligadas ao governo Bolsonaro. Os últimos atos de relevância foram o anúncio,
pelo Ministério da Saúde, da criação do “Memorial da Pandemia de Covid-19”, no
Rio de Janeiro, e a instauração do Grupo de Trabalho dedicado ao aprimoramento
das estratégias brasileiras de resposta às emergências de saúde. É marcante,
porém, que nenhuma dessas iniciativas tenha se traduzido ainda em iniciativas
tangíveis .
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O Anjo marca o lugar
Firmou-se
como símbolo da pandemia no Brasil a cidade de Manaus, palco de uma das faces
mais marcantes da crise pela abertura de covas coletivas em 2020 e pelo
esgotamento dos suprimentos de oxigênio que resultou na morte por asfixia de
pelo menos 40 pessoas. O caso foi um dos focos principais das investigações
realizadas pela CPI da covid-19, que revelou depoimentos e documentos que
comprovaram a negligência do Centro de Coordenação das Operações do Comitê de
Crise da covid-19 (CCOP), então responsável pela resposta federal à pandemia, e
dos demais órgãos competentes.
O
documento revelou, por exemplo, que a empresa responsável pela maior parte do
suprimento de oxigênio disponível em Manaus havia feito inúmeras tentativas de
contato com o Governo Federal para notificar sobre a escassez de recursos – a
última em 11 de janeiro de 2021, três dias antes dos estoques de oxigênio se
esgotarem. No entanto, o governo federal buscou responsabilizar a população
manauara pela falta de adesão ao “tratamento precoce”.
Apesar
desse atravessamento dramático entre a pandemia e a cidade de Manaus, o
primeiro memorial financiado pela Prefeitura surgiu apenas em 2025. A praça
Anjo da Esperança foi inaugurada no dia 02 de novembro como parte das
homenagens do Dia de Finados. Localizada na entrada do cemitério Nossa Senhora
Aparecida, o monumento central é a representação de um anjo (de fisionomia
próxima a imagem clássica de Jesus) com três metros de altura, no rosto a
máscara facial e nas mãos pulmões – “símbolo do respiro da humanidade”.
O
artesão, o gari Luiz Cláudio Azevedo da Silva, é responsável por outras
esculturas presentes na sede da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana
(SEMULSP), entre elas a réplica do touro dourado de Wall Street. A iniciativa
foi apresentada pela Secretaria como uma “homenagem às vítimas da covid-19 e
aos profissionais da saúde que atuaram na linha de frente durante a pandemia”.
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Disputas pelas lembranças
A
inauguração teve pouca repercussão na mídia nacional. Um memorial já havia sido
prometido durante as campanhas eleitorais do ex-prefeito Arthur Virgílio Neto
(à época no PSDB) e do atual prefeito David Almeida (Avante) nas eleições de
2020 e era uma demanda ativa de familiares de vítimas da covid-19 ao longo dos
anos.
Ainda
assim, não existem documentos ou notícias que identifiquem algum tipo de
iniciativa de participação da população e/ou das associações de vítimas na
idealização e realização do monumento ou na inauguração, na qual reporta-se
apenas a fala do vice-prefeito Renato Junior (Avante). Vale notar ainda que,
meses antes da inauguração, o Ministério Público do Estado do Amazonas havia
formalizado uma investigação contra a SEMULSP pelo descaso com a limpeza e
manutenção das covas no cemitério que viria a sediar o memorial, principalmente
na seção onde estão as covas coletivas abertas para receber as vítimas da
covid-19.
Nas
redes sociais da SEMULSP, entre os comentários elogiosos, existem comentários
que questionam a homenagem, refletindo o sentimento de insatisfação quanto ao
potencial do monumento de representar o que aconteceu na cidade durante a
pandemia. Em depoimento, familiares de vítimas afirmaram que o memorial deveria
ter sido idealizado “não apenas para ser visto, mas para ser sentido.”
É
marcante que nesse campo santo estão 74,94% (4.679) de todas as vítimas da
covid-19 enterradas em cemitérios públicos da cidade, muitas dessas em covas
coletivas com demarcações degradadas ou ausentes. De fato, o “Anjo da
Esperança” e a sua praça não foram capazes de nomear as vítimas ali
representadas, o que aconteceu com elas e, principalmente, os motivos que
centralizam a crise que levou à sua morte. Nesse sentido, nos resta perguntar
sobre qual versão do passado a esperança do anjo representado está construída.
Uma
maneira de justificar essa pergunta é entender o anjo através do simbolismo
comparado ao anjo da história de Walter Benjamin, representado na pintura de
Paul Klee Angelus Novus. O anjo nega, para Benjamin, a história linear no qual
os acontecimentos encadeados se orientam ao progresso; olhando
involuntariamente para o passado, “ele vê uma catástrofe única, que acumula
incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés”. Esse olhar
contínuo do anjo permite que se faça surgir o passado no presente, conexão que
se evidencia através do testemunho.
É o
testemunho sobre o passado que permite que a ação no presente aconteça,
contrariando a renúncia ao fatalismo do que já se foi, protagonista de uma
perspectiva linear da história. Pensando sobre a relação dos países
latino-americanos com a memória após as suas ditaduras militares, José Carlos
M. da Silva Filho remonta essa alegoria para explicar que: “Não se trata de
reproduzir o fato com documentos, mas sim de fazer justiça escutando quem fala
[as testemunhas] do seu sofrimento”. No caso da pandemia, reivindicar uma
política de memória demanda significar essas mortes para além do choque
quantitativo, tornando presente o testemunho dos mortos e dos vivos sobre as
suas tragédias.
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“Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”
Ainda
nas palavras do Professor Silva Filho, “recuperar o passado é tarefa da
memória, de uma memória que se põe à escuta daquilo que foi esquecido”. Sob ela
está a responsabilidade da humanidade sobre as suas mazelas e aqueles que
sofrem as suas consequências. Como ecoa o lema da justiça de transição que
temos repetido, a memória serve para que não se repitam os erros, as
negligências, as ignorâncias e os crimes do passado.
Nisso é
necessário considerar que “a política da memória não é monopólio do Estado” (ou
de nenhum dos seus representantes) e, sim, parte de uma rede complexa e ampla
de diferentes testemunhos que juntos constroem a história. Por isso, familiares
de vítimas, ativistas e especialistas da saúde se unem hoje, novamente na
demanda por justiça e na luta contra o esquecimento.
Como
marcou Deisy Ventura em entrevista ao Outra Saúde, é necessária uma “cultura de
reconhecimento das violações de direitos ocorridas”, aliada e constituinte
dessa política. Afinal, os responsáveis hoje presos não o foram pelos crimes
cometidos durante a pandemia, seis anos após a primeira morte por covid-19 no
Brasil. O olhar do “Anjo da Esperança” precisa ser reorientado da rua para
dentro do cemitério, reconhecendo e nomeando as consequências de escolhas
cruéis.
Será o
esquecimento necessário para o “respiro da humanidade”? Ou precisamos
considerar se é possível respirar sem lembrar?
Fonte:
Por Mariana Cabral Campos, em Outra Saúde

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