sexta-feira, 13 de março de 2026

Educação: o nó estrutural do magistério no Brasil

O Brasil universalizou o acesso à escola ao longo das últimas décadas, especialmente a partir da expansão do ensino fundamental nos anos 1990. Mas não universalizou o direito efetivo à aprendizagem. Construiu-se um sistema formalmente abrangente, porém estruturalmente desigual em resultados, permanência escolar e trajetórias pós-escolares.

Quase todas as crianças entram na escola. Saem, entretanto, para destinos profundamente distintos. O paradoxo é persistente: mais escolarização convive com desigualdade extrema, frustração social e corrosão da promessa meritocrática.

Desde a Constituição de 1988, a educação ocupa um lugar central no discurso democrático. Esse reconhecimento, porém, não se converteu em uma arquitetura institucional capaz de tratar a desigualdade educacional como um problema sistêmico. Consolidou-se uma sucessão de políticas fragmentadas, que administram a desigualdade, mas não a enfrentam. Os mecanismos de reprodução social descritos pela sociologia da educação seguem operando quase intactos.

O diagnóstico é conhecido. A transformação, reiteradamente adiada.

<><> O nó estrutural do magistério

Nenhuma reforma educacional profunda ocorreu sem enfrentar as condições materiais, profissionais e simbólicas dos professores. No Brasil, esse é o núcleo duro do bloqueio reformista.

A formação inicial é fragmentada. A formação continuada é episódica. As carreiras são instáveis. A remuneração é incompatível com a centralidade social da função. As condições de trabalho favorecem o adoecimento e a evasão profissional.

Exige-se da escola que absorva problemas sociais crescentes mantendo o magistério em condição estrutural de precariedade.

As experiências internacionais mostram o contrário. Na Finlândia, a valorização docente foi o ponto de partida, não a consequência. Na Coreia do Sul, políticas de equalização caminharam em conjunto com a construção de um corpo docente profissionalizado e socialmente prestigiado. Não há equidade educacional sem um pacto explícito com os professores.

<><> Desigualdade territorial e material

A desigualdade educacional brasileira é também territorial. As condições de funcionamento das escolas variam drasticamente entre regiões, centros urbanos e periferias, áreas urbanas e rurais. Infraestrutura precária, ausência de bibliotecas e laboratórios, conectividade limitada e problemas básicos de saneamento ainda são realidade em milhares de escolas.

Falar em equidade sem enfrentar essas assimetrias materiais esvazia o próprio conceito. Países que reduziram desigualdades combinaram financiamento redistributivo com padrões nacionais mínimos de infraestrutura escolar. No Brasil, a persistência dessas disparidades revela menos escassez de recursos e mais ausência de prioridade política continuada.

<><> A fratura entre público e privado

Há ainda uma contradição estrutural raramente enfrentada: a segmentação entre redes públicas e privadas. Enquanto os grupos de maior renda recorrem majoritariamente ao ensino privado, a escola pública tende a ser percebida como política “para os outros”.

Essa clivagem corrói a base social da escola pública. Onde as classes médias se retiram do sistema, enfraquece-se a pressão política por qualidade, financiamento e proteção institucional. Reformas orientadas à equidade exigem, em algum grau, a preservação da escola pública como referência compartilhada.

<><> Plataformas, dados e soberania cognitiva

A escola deixou de ser o principal ambiente de circulação do saber. Crianças e jovens vivem imersos em plataformas, redes, algoritmos e sistemas de recomendação. Torna-se incontornável ampliar a conectividade educacional, mas com infraestrutura pública robusta e capacidade soberana de gestão de dados educacionais.

Sem um projeto educacional explícito, a tecnologia tende a amplificar desigualdades pré-existentes. Ao mesmo tempo, a incapacidade de formar competências críticas sustenta circuitos de desinformação, negacionismo científico e erosão democrática. Nesse contexto, a educação passa a operar também como política de soberania cognitiva.

<><> Política de longo curso

O Estado brasileiro produziu diagnósticos corretos. O Plano Nacional de Educação identificou com clareza a valorização docente, o financiamento e a desigualdade territorial como eixos centrais.

Seu problema não foi a ausência de diretrizes, mas a falta de instrumentos políticos capazes de sustentá-las ao longo do tempo. Sem coordenação federativa robusta, financiamento previsível e capacidade institucional de correção de rumos, o PNE operou mais como referência normativa do que como força organizadora.

Reformas educacionais profundas são intergeracionais. Um horizonte plausível exige tratar a educação como política de Estado de longo curso, por exemplo, com uma perspectiva que se estenda de 2027 a 2050.

<><> Escolha civilizatória

A relevância das eleições de 2026 ultrapassa a de uma simples disputa eleitoral. Elas representam a escolha entre reconstruir um pacto democrático baseado em ciência, educação e fortalecimento institucional e aprofundar trajetórias de desmonte, obscurantismo e negacionismo.

A educação não é uma política setorial. É escolha civilizatória.

Sem enfrentar simultaneamente o pacto docente, a desigualdade territorial e a fragmentação social do sistema, o Brasil continuará adiando sua revolução educacional – e, com ela, a possibilidade de uma democracia socialmente sustentável.

 

Fonte: Por Celso Pinto de Melo, em Outras Palavras

 

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