sexta-feira, 13 de março de 2026

Valerio Arcary: O desafio da estratégia

O PSol não aceitou a proposta de uma Federação com o PT. Mas esse debate abriu uma tensão de máxima gravidade dentro do partido. A corrente revolução solidária tinha decidido, desde o ano passado, aceitar o convite de Lula para que Guilherme Boulos assumisse a secretaria-geral da presidência. Anunciou que nas próximas semanas, antes do fim da janela legal de transferência partidária, iria considerar o que fazer diante da decisão majoritária de integrar uma coligação de apoio a Lula, mas não uma Federação com o PT. Estão na mesa dois caminhos. Estamos em uma situação na qual a discussão da tática para garantir a reeleição de Lula em outubro, embora incontornável, não deve ocultar a necessidade de “abrir a mente”. Estratégia é, evidentemente, sempre importante. Mas há situações em que uma ponderação séria impõe um “momento” estratégia, ou uma reflexão de maior fôlego. Estratégia e tática são conceitos “importados” da elaboração militar para situar a relação entre os fins e os meios. Na tradição socialista os fins não justificam os meios. Não vale tudo. Fins grandiosos exigem meios dignos. Podemos abordar esta discussão em diferentes graus de abstração. Temos a necessidade de definir estratégia e tática para derrotar a extrema-direita. Devemos pensar estratégia e tática para responder, também, qual deve ser o programa da esquerda diante da crise do capitalismo ou projeto para o Brasil, diante da ameaça Trump na Casa Branca. Mas há uma dimensão da formulação de estratégia e tática que desdobra das anteriores, e remete à necessidade de reorganização da própria esquerda. Sejamos honestos: não é somente o capitalismo que está em crise. A esquerda brasileira está, também, em crise, porque se impõe a necessidade para uma explicação do paradoxo da conjuntura. A situação econômica melhorou com um crescimento lento, mas contínuo do PIB, do salário mínimo e da renda média, uma inflação abaixo de 5% ao ano, e um desemprego abaixo de 6%, mas a aprovação do governo é insuficiente para descartar a possibilidade de derrota eleitoral. Em resumo, uma crise se abriu porque a estratégia lulista parece estar esgotada.

O projeto lulista repousou sempre na aposta de que um crescimento econômico ininterrupto, ainda que modesto, em função de concessões fiscalistas, poderia sustentar políticas sociais focadas de distribuição de renda sem provocar uma ruptura da classe dominante. No laboratório da história essa estratégia de um “reformismo fraco” vingou por uma década até 2013, enquanto o Brasil foi beneficiado pelo boom das commodities. Mas não bloqueou o giro em massa da burguesia para o golpe institucional de 2016. Não atrapalhou o giro de frações do capitalismo brasileiro para o apoio ao neofascismo nas eleições de 2018. Não parece ser um obstáculo para um deslocamento de uma parcela do grande empresariado na direção de Flávio Bolsonaro, mesmo com a condenação dos golpistas de 2022. Não estamos em 2026 nas circunstâncias de 2006, quando da primeira reeleição de Lula, mas em contexto muito pior. A presença de Trump na Casa Branca mudou tudo. A ofensiva nacional imperialista passou desde o princípio do ano pelo ataque à Venezuela, guerra no Irã, articulação de um escudo hemisférico de extrema-direita na América Latina e iminência de um ultimato a Cuba. A governabilidade “a frio” levou o governo às cordas até meados de 2025. Desde então ensaiou, finalmente, um cuidadoso “giro à esquerda”. Mas os limites do lulismo ou da estratégia de reformismo “fraco” são cada vez mais estreitos.

O futuro da esquerda não se reduz à discussão de quem será a liderança na etapa pós-Lula. Vai muito além de uma disputa entre Haddad ou Boulos porque exige um projeto que corresponda à etapa histórica de luta contra o neofascismo nos tempos de Trump. A extrema moderação do lulismo e, também, do PT não respondem aos desafios impostos pelo perigo bolsonarista e pela chantagem nacional-imperialista. A questão vital é qual deve ser este novo programa. Da maior ou menor clareza deste debate dependerá o futuro da esquerda e da estratégia da revolução brasileira. Crises não nos faltarão. Elas exigem paciência histórica. O capitalismo não vai fazer do Brasil um país melhor e menos desigual. Mas a questão de todas as questões é saber quais propostas apresentamos como soluções para a crise que virá, ou seja, qual deve ser o novo programa. Só que um programa sem um instrumento de luta forte que o defenda são somente ideias. O instrumento mais promissor permanece sendo o PSol. Sem boas ideias não é possível vencer, mas não são o bastante. A construção de um novo instrumento só será possível com uma unificação de forças de esquerda que hoje estão dispersas. Mas a luta contra a dispersão não vai avançar com uma ruptura do PSol.

O futuro da esquerda, quando pensamos a estratégia, não pode ser diminuído ao apoio da candidatura de Lula. Devemos defender Lula, por suposto, e construir uma Frente de Esquerda pela coligação das Federações em torno do PT e do PSol, como núcleo central de uma Frente Ampla, no terreno da tática eleitoral. Mas o futuro passa, também, pela afirmação de um programa que vá além do gradualismo lulista. Quais as lições dos últimos três anos desde a apertada vitória eleitoral de 2022? Sem uma Frente de Esquerda não se avança um milímetro. Quais foram as campanhas que alcançaram peso de massas em 2025? “Sem Anistia” levou centenas de milhares às ruas em 10 de julho, 21 setembro e 14 dezembro de 2025. Isenção do imposto de renda para quem ganha menos de cinco mil reais, impostos sobre os super-ricos e fim da escala 6×1 repercutiram na escala de milhões nas redes sociais. Uma aposta na ampliação da “Frente Ampla até que doa’, a qualquer custo seria, portanto, obtusa. Na tática, estaremos diante de dois perigos, quando pensamos a reorganização da esquerda, e as eleições de 2026. O primeiro perigo é o “já ganhou”. O segundo é “giro para o centro”, quando a conjuntura impõe a emergência de um giro à esquerda, até por cálculo eleitoral. Uma derrota para o bolsonarismo abriria o caminho para uma derrota histórica: regressão de uma recolonização do país, e a desmoralização de uma geração de esquerda. Vitória eleitoral não será o bastante para enterrar a extrema-direita. Sem uma onda de lutas de massas de grande dimensão não será possível mudar a relação social de forças e derrotar o neofascismo. Mas não sabemos quando ela virá, porque não há um “sismógrafo” de terremotos sociais. Nesse contexto, vencer nas eleições em 2026 só é possível com Lula, com uma frente de esquerda e uma unidade eleitoral com dissidências burguesas. Mas esta tática não autoriza a conclusão de que a estratégia seja a defesa de um programa social-liberal.

A última vez que este desafio foi colocado de forma incontornável foi em 1978/79 quando se precipitou a fase final de luta contra a ditadura. A ditadura entrou em crise, mas a estratégia dominante na esquerda, naquele momento, expressada pelo PCB entre outros partidos, mergulhou, também, em crise. O desafio era: quais devem ser os instrumentos de luta para derrubar a ditadura? A esquerda estava na clandestinidade, e uma maioria aproveitava expressão legal através do MDB. A onda grevista, o protagonismo de uma nova geração de líderes sindicais, a autoridade conquistada por Lula, entre outros fatores, favoreceu uma aposta na construção do PT que dividiu a esquerda, tanto as correntes moderadas como as mais radicais. Desde então, em um processo de quatro décadas de gênese e apogeu, com diversas crises, o campo PT/CUT e, desde a primeira eleição de Lula em 2002, o lulismo se afirmou como a principal corrente da esquerda brasileira. Mas, por variadas razões, é inescapável pensar e se posicionar sobre o pós-lulismo. Resumo da ópera. O futuro da esquerda depende de fatores objetivos, em especial, da maturação de uma onda de mobilização e disposição de luta mais elevada nos movimentos sociais: sindical e feminista, negro e LGBT, ambiental e camponês, estudantil e popular. Sem esta inversão clara na relação social de forças até o destino da luta contra a extrema-direita permanece incerto. No terreno da tática o desafio é vencer as eleições e ganhar tempo, não diminuindo a presença de Trump na Casa Branca. Mas será indispensável lucidez estratégica da necessidade de um novo instrumento de luta superior a todos os partidos, movimentos e correntes atuais. Esta construção não é possível sem luta política. A disputa do período pós-Lula, embora contido, publicamente, já começou. Ela se expressa de diferentes formas. Mas o terreno de luta sobre a estratégia para o pós-lulismo não se reduz ao desenlace da luta interna no PT que permanece pouco animadora á luz do que foi o PED de 2025. Ela se dará, também, exterior ao PT. Os ritmos serão exploratórios e avançaremos por aproximações sucessivas. A inércia, uma força que nunca deve ser subestimada, porque repousa em interesses consolidados, favorece uma solução de continuidade: a preservação de um projeto de reformismo fraco e lento gradualismo negociado. Mas devemos alimentar a esperança na aposta de uma reorganização que passa pela convergência à esquerda de uma diversidade de forças e militantes com presença nos movimentos sociais mais dinâmicos, e um espaço que associe a combatividade da esquerda do PT, a implantação social de movimentos como o Brasil Popular, e o realismo revolucionário do campo majoritário do PSol. A corrente Revolução Solidária e Boulos cumpriram um papel extraordinário até aqui, entre muitas outras razões, pela independência do impulso da Frente Povo sem Medo e fortalecimento do PSol. Mais do que nunca são necessários nesta luta.

•        PSOL e a disputa do futuro. Por Márcio Pereira Cabral

Há momentos em que a política precisa ser pensada para além das disputas imediatas. Momentos em que decisões organizativas ou partidárias aparentemente pontuais revelam, na verdade, algo mais profundo sobre a forma como um campo político se prepara para enfrentar o tempo histórico em que está inserido. A decisão recente do PSOL sobre a federação precisa ser compreendida nesse registro mais amplo. Não como um gesto de retração ou fechamento, mas como parte de um debate sobre como a esquerda brasileira se posiciona diante de um período que será, muito provavelmente, um dos mais duros das últimas décadas para o campo democrático e popular.

O cenário internacional já oferece sinais claros dessa transição. O mundo atravessa uma fase de reordenamento geopolítico marcada pela intensificação de conflitos regionais, pela disputa aberta entre potências e pelo uso crescente de instrumentos híbridos de guerra – econômicos, tecnológicos e informacionais. As guerras contemporâneas já não se travam apenas nos campos de batalha tradicionais. Elas se estendem às cadeias de energia, aos sistemas financeiros, às redes digitais e às narrativas que moldam a percepção pública dos acontecimentos. Nesse ambiente, imagens, informações e versões de um mesmo evento podem circular simultaneamente, disputando o imaginário coletivo antes mesmo que os fatos sejam plenamente conhecidos.

Essa transformação é visível nas guerras em curso no mundo. No conflito no Oriente Médio, por exemplo, já se tornou comum que vídeos e imagens altamente realistas circulem nas redes antes mesmo que se possa confirmar sua autenticidade. A inteligência artificial passou a produzir conteúdos visuais capazes de simular ataques, destruições e operações militares com um grau de verossimilhança que torna cada vez mais difícil distinguir o registro factual da fabricação digital. O impacto político dessas imagens, porém, é imediato. Elas moldam percepções, criam climas de opinião e influenciam decisões antes mesmo que os acontecimentos possam ser verificados.

Essa nova dimensão da disputa política já alcançou também as democracias contemporâneas. A eleição norte-americana que levou Donald Trump à presidência novamente foi um marco nesse processo, ao revelar a força das campanhas de desinformação, das redes de fake news e da manipulação algorítmica de percepções políticas em larga escala. Desde então, essas ferramentas não apenas se sofisticaram como passaram a se combinar com novas tecnologias de inteligência artificial capazes de ampliar exponencialmente sua capacidade de influência.

É nesse ambiente que ocorrerá a eleição brasileira de 2026.

Tudo indica que será a primeira eleição no país em que campanhas de desinformação estruturadas e ferramentas de inteligência artificial poderão operar de forma combinada, produzindo conteúdos falsos em escala massiva, simulando declarações, imagens e acontecimentos e alimentando ciclos contínuos de mobilização política nas redes digitais. Trata-se de uma forma de guerra política permanente, silenciosa, difusa e altamente assimétrica, na qual as forças progressistas entram em evidente desvantagem estrutural, seja pela menor capacidade de financiamento dessas tecnologias, seja pela própria lógica ética que orienta sua atuação política.

Ao mesmo tempo, essa disputa tecnológica se articula a um cenário geopolítico mais amplo, no qual grandes potências voltam a exercer influência direta sobre processos políticos nacionais. A América Latina sempre foi um espaço sensível dessas disputas. Episódios recentes demonstram que pressões econômicas, intervenções diplomáticas e operações de desestabilização continuam sendo instrumentos recorrentes na disputa por influência sobre governos da região.

O Brasil, pela sua dimensão econômica, territorial e política, dificilmente ficará fora dessa dinâmica. Isso significa que a eleição de 2026 ocorrerá em um contexto de enorme pressão internacional, de intensa disputa informacional e de reorganização das forças da extrema direita global, que já demonstraram capacidade de articulação transnacional e de mobilização política baseada no ressentimento social, no negacionismo e na exploração sistemática de crises econômicas e culturais.

Nesse cenário, a reeleição do presidente Lula assume um significado estratégico para a democracia brasileira e para o conjunto do campo democrático e popular.

Mas reconhecer a centralidade dessa disputa não significa ignorar as complexidades do campo progressista. A unidade da esquerda será indispensável para enfrentar a extrema direita. No entanto, a história política mostra que unidade não é sinônimo de homogeneização. Nenhum campo político amplo se fortalece pela dissolução de suas identidades internas ou pela diluição programática de suas forças constitutivas.

Ao contrário: alianças duradouras se constroem quando diferentes organizações mantêm sua vitalidade política, sua capacidade de formular projetos e sua conexão com setores específicos da sociedade.

No Brasil, esse equilíbrio entre convergência estratégica e pluralidade organizativa é particularmente importante. O PT, como principal partido da esquerda e força dirigente do governo federal, tem uma responsabilidade decisiva na construção de um arco democrático amplíssimo, capaz de dialogar com diferentes setores da sociedade e de isolar politicamente a extrema direita.

Essa tarefa exige amplitude.

Mas também exige a existência de forças políticas capazes de manter viva uma agenda de transformação social mais profunda. Em momentos de crise, o capitalismo tende a reorganizar suas contradições pressionando ainda mais as condições de vida da classe trabalhadora. A precarização do trabalho, a desindustrialização, o enfraquecimento de direitos sociais e a intensificação da exploração ambiental são fenômenos que atravessam o capitalismo contemporâneo em escala global.

O Brasil conhece bem essas tensões.

A defesa da soberania nacional, a reconstrução da capacidade industrial do país, a proteção dos direitos trabalhistas e o enfrentamento da crise climática constituem alguns dos eixos estruturais da disputa política brasileira nos próximos anos. A esses temas se somam outros igualmente decisivos: a defesa da educação pública, da saúde universal, do transporte e do direito à cidade e à terra e das políticas que garantam dignidade e igualdade para os diversos sujeitos sociais que compõem a sociedade brasileira – mulheres, população negra, povos indígenas, comunidade LGBT+, pessoas com deficiência, juventudes e todos aqueles que historicamente foram empurrados para as margens da cidadania. Longe de se tratar de agendas fragmentadas ou setoriais, essas lutas expressam diferentes dimensões de um mesmo conflito histórico: a disputa pelo próprio sentido de desenvolvimento, democracia e justiça social no Brasil contemporâneo.

É nesse terreno que a esquerda precisa atuar com clareza programática.

Debater unidade é necessário. Construir convergências políticas é indispensável. Mas nada disso pode significar a diluição programática das forças democráticas e populares, nem a descaracterização de partidos que surgiram precisamente para ampliar o horizonte das transformações sociais no país.

O PSOL nasceu com esse espírito.

Desde sua fundação, o partido se consolidou como uma força capaz de combinar presença institucional com enraizamento social, atuação parlamentar com mobilização popular, crítica estrutural ao capitalismo com defesa intransigente da democracia. Sua existência ampliou o espaço da esquerda brasileira, trouxe novos temas para o debate público e ajudou a renovar o imaginário político de uma geração inteira.

O debate recente dentro do partido revelou algo fundamental para qualquer organização política que pretende durar: vitalidade interna. Partidos vivos discutem seu destino. Confrontam visões distintas. Produzem sínteses políticas que orientam sua atuação histórica.

Foi exatamente isso que o PSOL demonstrou ser capaz de fazer.

Em um momento de grande pressão política, o partido realizou um debate profundo e tomou uma decisão coletiva sobre seu caminho. Esse processo revelou pluralidade, maturidade e compromisso com a construção de um projeto político para o futuro.

Num tempo de guerras híbridas, disputas tecnológicas e crises democráticas, a esquerda brasileira precisará de inteligência estratégica, capacidade de articulação e coragem política.

Mas precisará também de algo igualmente importante: partidos vivos.

Partidos capazes de pensar o mundo que está emergindo e de imaginar caminhos de transformação para além das urgências imediatas da política.

O PSOL segue sendo uma dessas forças. Um partido que compreende a importância da unidade democrática para enfrentar a extrema direita, mas que também sabe que nenhuma unidade duradoura se constrói apagando identidades, programas e projetos históricos.

Porque, em última instância, a política não se faz apenas para administrar o presente.

Ela se faz para disputar o futuro.

 

Fonte: Esquerda OnLine

 

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