Valerio
Arcary: O desafio da estratégia
O PSol
não aceitou a proposta de uma Federação com o PT. Mas esse debate abriu uma
tensão de máxima gravidade dentro do partido. A corrente revolução solidária
tinha decidido, desde o ano passado, aceitar o convite de Lula para que
Guilherme Boulos assumisse a secretaria-geral da presidência. Anunciou que nas
próximas semanas, antes do fim da janela legal de transferência partidária,
iria considerar o que fazer diante da decisão majoritária de integrar uma
coligação de apoio a Lula, mas não uma Federação com o PT. Estão na mesa dois
caminhos. Estamos em uma situação na qual a discussão da tática para garantir a
reeleição de Lula em outubro, embora incontornável, não deve ocultar a
necessidade de “abrir a mente”. Estratégia é, evidentemente, sempre importante.
Mas há situações em que uma ponderação séria impõe um “momento” estratégia, ou
uma reflexão de maior fôlego. Estratégia e tática são conceitos “importados” da
elaboração militar para situar a relação entre os fins e os meios. Na tradição
socialista os fins não justificam os meios. Não vale tudo. Fins grandiosos
exigem meios dignos. Podemos abordar esta discussão em diferentes graus de
abstração. Temos a necessidade de definir estratégia e tática para derrotar a
extrema-direita. Devemos pensar estratégia e tática para responder, também,
qual deve ser o programa da esquerda diante da crise do capitalismo ou projeto
para o Brasil, diante da ameaça Trump na Casa Branca. Mas há uma dimensão da
formulação de estratégia e tática que desdobra das anteriores, e remete à
necessidade de reorganização da própria esquerda. Sejamos honestos: não é
somente o capitalismo que está em crise. A esquerda brasileira está, também, em
crise, porque se impõe a necessidade para uma explicação do paradoxo da
conjuntura. A situação econômica melhorou com um crescimento lento, mas
contínuo do PIB, do salário mínimo e da renda média, uma inflação abaixo de 5%
ao ano, e um desemprego abaixo de 6%, mas a aprovação do governo é insuficiente
para descartar a possibilidade de derrota eleitoral. Em resumo, uma crise se
abriu porque a estratégia lulista parece estar esgotada.
O
projeto lulista repousou sempre na aposta de que um crescimento econômico
ininterrupto, ainda que modesto, em função de concessões fiscalistas, poderia
sustentar políticas sociais focadas de distribuição de renda sem provocar uma
ruptura da classe dominante. No laboratório da história essa estratégia de um
“reformismo fraco” vingou por uma década até 2013, enquanto o Brasil foi
beneficiado pelo boom das commodities. Mas não bloqueou o giro em massa da
burguesia para o golpe institucional de 2016. Não atrapalhou o giro de frações
do capitalismo brasileiro para o apoio ao neofascismo nas eleições de 2018. Não
parece ser um obstáculo para um deslocamento de uma parcela do grande
empresariado na direção de Flávio Bolsonaro, mesmo com a condenação dos golpistas
de 2022. Não estamos em 2026 nas circunstâncias de 2006, quando da primeira
reeleição de Lula, mas em contexto muito pior. A presença de Trump na Casa
Branca mudou tudo. A ofensiva nacional imperialista passou desde o princípio do
ano pelo ataque à Venezuela, guerra no Irã, articulação de um escudo
hemisférico de extrema-direita na América Latina e iminência de um ultimato a
Cuba. A governabilidade “a frio” levou o governo às cordas até meados de 2025.
Desde então ensaiou, finalmente, um cuidadoso “giro à esquerda”. Mas os limites
do lulismo ou da estratégia de reformismo “fraco” são cada vez mais estreitos.
O
futuro da esquerda não se reduz à discussão de quem será a liderança na etapa
pós-Lula. Vai muito além de uma disputa entre Haddad ou Boulos porque exige um
projeto que corresponda à etapa histórica de luta contra o neofascismo nos
tempos de Trump. A extrema moderação do lulismo e, também, do PT não respondem
aos desafios impostos pelo perigo bolsonarista e pela chantagem
nacional-imperialista. A questão vital é qual deve ser este novo programa. Da
maior ou menor clareza deste debate dependerá o futuro da esquerda e da
estratégia da revolução brasileira. Crises não nos faltarão. Elas exigem
paciência histórica. O capitalismo não vai fazer do Brasil um país melhor e
menos desigual. Mas a questão de todas as questões é saber quais propostas
apresentamos como soluções para a crise que virá, ou seja, qual deve ser o novo
programa. Só que um programa sem um instrumento de luta forte que o defenda são
somente ideias. O instrumento mais promissor permanece sendo o PSol. Sem boas
ideias não é possível vencer, mas não são o bastante. A construção de um novo
instrumento só será possível com uma unificação de forças de esquerda que hoje
estão dispersas. Mas a luta contra a dispersão não vai avançar com uma ruptura
do PSol.
O
futuro da esquerda, quando pensamos a estratégia, não pode ser diminuído ao
apoio da candidatura de Lula. Devemos defender Lula, por suposto, e construir
uma Frente de Esquerda pela coligação das Federações em torno do PT e do PSol,
como núcleo central de uma Frente Ampla, no terreno da tática eleitoral. Mas o
futuro passa, também, pela afirmação de um programa que vá além do gradualismo
lulista. Quais as lições dos últimos três anos desde a apertada vitória
eleitoral de 2022? Sem uma Frente de Esquerda não se avança um milímetro. Quais
foram as campanhas que alcançaram peso de massas em 2025? “Sem Anistia” levou
centenas de milhares às ruas em 10 de julho, 21 setembro e 14 dezembro de 2025.
Isenção do imposto de renda para quem ganha menos de cinco mil reais, impostos
sobre os super-ricos e fim da escala 6×1 repercutiram na escala de milhões nas
redes sociais. Uma aposta na ampliação da “Frente Ampla até que doa’, a
qualquer custo seria, portanto, obtusa. Na tática, estaremos diante de dois
perigos, quando pensamos a reorganização da esquerda, e as eleições de 2026. O
primeiro perigo é o “já ganhou”. O segundo é “giro para o centro”, quando a
conjuntura impõe a emergência de um giro à esquerda, até por cálculo eleitoral.
Uma derrota para o bolsonarismo abriria o caminho para uma derrota histórica:
regressão de uma recolonização do país, e a desmoralização de uma geração de
esquerda. Vitória eleitoral não será o bastante para enterrar a
extrema-direita. Sem uma onda de lutas de massas de grande dimensão não será
possível mudar a relação social de forças e derrotar o neofascismo. Mas não
sabemos quando ela virá, porque não há um “sismógrafo” de terremotos sociais.
Nesse contexto, vencer nas eleições em 2026 só é possível com Lula, com uma
frente de esquerda e uma unidade eleitoral com dissidências burguesas. Mas esta
tática não autoriza a conclusão de que a estratégia seja a defesa de um
programa social-liberal.
A
última vez que este desafio foi colocado de forma incontornável foi em 1978/79
quando se precipitou a fase final de luta contra a ditadura. A ditadura entrou
em crise, mas a estratégia dominante na esquerda, naquele momento, expressada
pelo PCB entre outros partidos, mergulhou, também, em crise. O desafio era:
quais devem ser os instrumentos de luta para derrubar a ditadura? A esquerda
estava na clandestinidade, e uma maioria aproveitava expressão legal através do
MDB. A onda grevista, o protagonismo de uma nova geração de líderes sindicais,
a autoridade conquistada por Lula, entre outros fatores, favoreceu uma aposta
na construção do PT que dividiu a esquerda, tanto as correntes moderadas como
as mais radicais. Desde então, em um processo de quatro décadas de gênese e
apogeu, com diversas crises, o campo PT/CUT e, desde a primeira eleição de Lula
em 2002, o lulismo se afirmou como a principal corrente da esquerda brasileira.
Mas, por variadas razões, é inescapável pensar e se posicionar sobre o pós-lulismo.
Resumo da ópera. O futuro da esquerda depende de fatores objetivos, em
especial, da maturação de uma onda de mobilização e disposição de luta mais
elevada nos movimentos sociais: sindical e feminista, negro e LGBT, ambiental e
camponês, estudantil e popular. Sem esta inversão clara na relação social de
forças até o destino da luta contra a extrema-direita permanece incerto. No
terreno da tática o desafio é vencer as eleições e ganhar tempo, não diminuindo
a presença de Trump na Casa Branca. Mas será indispensável lucidez estratégica
da necessidade de um novo instrumento de luta superior a todos os partidos,
movimentos e correntes atuais. Esta construção não é possível sem luta
política. A disputa do período pós-Lula, embora contido, publicamente, já começou.
Ela se expressa de diferentes formas. Mas o terreno de luta sobre a estratégia
para o pós-lulismo não se reduz ao desenlace da luta interna no PT que
permanece pouco animadora á luz do que foi o PED de 2025. Ela se dará, também,
exterior ao PT. Os ritmos serão exploratórios e avançaremos por aproximações
sucessivas. A inércia, uma força que nunca deve ser subestimada, porque repousa
em interesses consolidados, favorece uma solução de continuidade: a preservação
de um projeto de reformismo fraco e lento gradualismo negociado. Mas devemos
alimentar a esperança na aposta de uma reorganização que passa pela
convergência à esquerda de uma diversidade de forças e militantes com presença
nos movimentos sociais mais dinâmicos, e um espaço que associe a combatividade
da esquerda do PT, a implantação social de movimentos como o Brasil Popular, e
o realismo revolucionário do campo majoritário do PSol. A corrente Revolução
Solidária e Boulos cumpriram um papel extraordinário até aqui, entre muitas
outras razões, pela independência do impulso da Frente Povo sem Medo e
fortalecimento do PSol. Mais do que nunca são necessários nesta luta.
• PSOL e a disputa do futuro. Por Márcio
Pereira Cabral
Há
momentos em que a política precisa ser pensada para além das disputas
imediatas. Momentos em que decisões organizativas ou partidárias aparentemente
pontuais revelam, na verdade, algo mais profundo sobre a forma como um campo
político se prepara para enfrentar o tempo histórico em que está inserido. A
decisão recente do PSOL sobre a federação precisa ser compreendida nesse
registro mais amplo. Não como um gesto de retração ou fechamento, mas como
parte de um debate sobre como a esquerda brasileira se posiciona diante de um
período que será, muito provavelmente, um dos mais duros das últimas décadas
para o campo democrático e popular.
O
cenário internacional já oferece sinais claros dessa transição. O mundo
atravessa uma fase de reordenamento geopolítico marcada pela intensificação de
conflitos regionais, pela disputa aberta entre potências e pelo uso crescente
de instrumentos híbridos de guerra – econômicos, tecnológicos e informacionais.
As guerras contemporâneas já não se travam apenas nos campos de batalha
tradicionais. Elas se estendem às cadeias de energia, aos sistemas financeiros,
às redes digitais e às narrativas que moldam a percepção pública dos
acontecimentos. Nesse ambiente, imagens, informações e versões de um mesmo
evento podem circular simultaneamente, disputando o imaginário coletivo antes
mesmo que os fatos sejam plenamente conhecidos.
Essa
transformação é visível nas guerras em curso no mundo. No conflito no Oriente
Médio, por exemplo, já se tornou comum que vídeos e imagens altamente realistas
circulem nas redes antes mesmo que se possa confirmar sua autenticidade. A
inteligência artificial passou a produzir conteúdos visuais capazes de simular
ataques, destruições e operações militares com um grau de verossimilhança que
torna cada vez mais difícil distinguir o registro factual da fabricação
digital. O impacto político dessas imagens, porém, é imediato. Elas moldam
percepções, criam climas de opinião e influenciam decisões antes mesmo que os
acontecimentos possam ser verificados.
Essa
nova dimensão da disputa política já alcançou também as democracias
contemporâneas. A eleição norte-americana que levou Donald Trump à presidência
novamente foi um marco nesse processo, ao revelar a força das campanhas de
desinformação, das redes de fake news e da manipulação algorítmica de
percepções políticas em larga escala. Desde então, essas ferramentas não apenas
se sofisticaram como passaram a se combinar com novas tecnologias de
inteligência artificial capazes de ampliar exponencialmente sua capacidade de
influência.
É nesse
ambiente que ocorrerá a eleição brasileira de 2026.
Tudo
indica que será a primeira eleição no país em que campanhas de desinformação
estruturadas e ferramentas de inteligência artificial poderão operar de forma
combinada, produzindo conteúdos falsos em escala massiva, simulando
declarações, imagens e acontecimentos e alimentando ciclos contínuos de
mobilização política nas redes digitais. Trata-se de uma forma de guerra
política permanente, silenciosa, difusa e altamente assimétrica, na qual as
forças progressistas entram em evidente desvantagem estrutural, seja pela menor
capacidade de financiamento dessas tecnologias, seja pela própria lógica ética
que orienta sua atuação política.
Ao
mesmo tempo, essa disputa tecnológica se articula a um cenário geopolítico mais
amplo, no qual grandes potências voltam a exercer influência direta sobre
processos políticos nacionais. A América Latina sempre foi um espaço sensível
dessas disputas. Episódios recentes demonstram que pressões econômicas,
intervenções diplomáticas e operações de desestabilização continuam sendo
instrumentos recorrentes na disputa por influência sobre governos da região.
O
Brasil, pela sua dimensão econômica, territorial e política, dificilmente
ficará fora dessa dinâmica. Isso significa que a eleição de 2026 ocorrerá em um
contexto de enorme pressão internacional, de intensa disputa informacional e de
reorganização das forças da extrema direita global, que já demonstraram
capacidade de articulação transnacional e de mobilização política baseada no
ressentimento social, no negacionismo e na exploração sistemática de crises
econômicas e culturais.
Nesse
cenário, a reeleição do presidente Lula assume um significado estratégico para
a democracia brasileira e para o conjunto do campo democrático e popular.
Mas
reconhecer a centralidade dessa disputa não significa ignorar as complexidades
do campo progressista. A unidade da esquerda será indispensável para enfrentar
a extrema direita. No entanto, a história política mostra que unidade não é
sinônimo de homogeneização. Nenhum campo político amplo se fortalece pela
dissolução de suas identidades internas ou pela diluição programática de suas
forças constitutivas.
Ao
contrário: alianças duradouras se constroem quando diferentes organizações
mantêm sua vitalidade política, sua capacidade de formular projetos e sua
conexão com setores específicos da sociedade.
No
Brasil, esse equilíbrio entre convergência estratégica e pluralidade
organizativa é particularmente importante. O PT, como principal partido da
esquerda e força dirigente do governo federal, tem uma responsabilidade
decisiva na construção de um arco democrático amplíssimo, capaz de dialogar com
diferentes setores da sociedade e de isolar politicamente a extrema direita.
Essa
tarefa exige amplitude.
Mas
também exige a existência de forças políticas capazes de manter viva uma agenda
de transformação social mais profunda. Em momentos de crise, o capitalismo
tende a reorganizar suas contradições pressionando ainda mais as condições de
vida da classe trabalhadora. A precarização do trabalho, a desindustrialização,
o enfraquecimento de direitos sociais e a intensificação da exploração
ambiental são fenômenos que atravessam o capitalismo contemporâneo em escala
global.
O
Brasil conhece bem essas tensões.
A
defesa da soberania nacional, a reconstrução da capacidade industrial do país,
a proteção dos direitos trabalhistas e o enfrentamento da crise climática
constituem alguns dos eixos estruturais da disputa política brasileira nos
próximos anos. A esses temas se somam outros igualmente decisivos: a defesa da
educação pública, da saúde universal, do transporte e do direito à cidade e à
terra e das políticas que garantam dignidade e igualdade para os diversos
sujeitos sociais que compõem a sociedade brasileira – mulheres, população
negra, povos indígenas, comunidade LGBT+, pessoas com deficiência, juventudes e
todos aqueles que historicamente foram empurrados para as margens da cidadania.
Longe de se tratar de agendas fragmentadas ou setoriais, essas lutas expressam
diferentes dimensões de um mesmo conflito histórico: a disputa pelo próprio
sentido de desenvolvimento, democracia e justiça social no Brasil
contemporâneo.
É nesse
terreno que a esquerda precisa atuar com clareza programática.
Debater
unidade é necessário. Construir convergências políticas é indispensável. Mas
nada disso pode significar a diluição programática das forças democráticas e
populares, nem a descaracterização de partidos que surgiram precisamente para
ampliar o horizonte das transformações sociais no país.
O PSOL
nasceu com esse espírito.
Desde
sua fundação, o partido se consolidou como uma força capaz de combinar presença
institucional com enraizamento social, atuação parlamentar com mobilização
popular, crítica estrutural ao capitalismo com defesa intransigente da
democracia. Sua existência ampliou o espaço da esquerda brasileira, trouxe
novos temas para o debate público e ajudou a renovar o imaginário político de
uma geração inteira.
O
debate recente dentro do partido revelou algo fundamental para qualquer
organização política que pretende durar: vitalidade interna. Partidos vivos
discutem seu destino. Confrontam visões distintas. Produzem sínteses políticas
que orientam sua atuação histórica.
Foi
exatamente isso que o PSOL demonstrou ser capaz de fazer.
Em um
momento de grande pressão política, o partido realizou um debate profundo e
tomou uma decisão coletiva sobre seu caminho. Esse processo revelou
pluralidade, maturidade e compromisso com a construção de um projeto político
para o futuro.
Num
tempo de guerras híbridas, disputas tecnológicas e crises democráticas, a
esquerda brasileira precisará de inteligência estratégica, capacidade de
articulação e coragem política.
Mas
precisará também de algo igualmente importante: partidos vivos.
Partidos
capazes de pensar o mundo que está emergindo e de imaginar caminhos de
transformação para além das urgências imediatas da política.
O PSOL
segue sendo uma dessas forças. Um partido que compreende a importância da
unidade democrática para enfrentar a extrema direita, mas que também sabe que
nenhuma unidade duradoura se constrói apagando identidades, programas e
projetos históricos.
Porque,
em última instância, a política não se faz apenas para administrar o presente.
Ela se
faz para disputar o futuro.
Fonte:
Esquerda OnLine

Nenhum comentário:
Postar um comentário