Mpox
no Brasil: cenário atual e principais informações sobre a doença
A
monkeypox, atualmente denominada mpox, voltou ao centro do debate público após
a divulgação de novos casos. As reportagens recentes abordam desde as formas de
transmissão do vírus até o cenário epidemiológico atual, além de informações
sobre diagnóstico, tratamento e grupos mais vulneráveis. Ao mesmo tempo, o
aumento do interesse pelo tema nas redes sociais tem ampliado a circulação de
dúvidas e, em alguns casos, de conteúdos imprecisos.
Nesse
cenário permeado por dúvidas e incertezas e com o objetivo de oferecer
informações fundamentadas em evidências científicas, o Conexão UFRJ entrevistou
a professora e virologista Clarissa Damaso, do Instituto de Biofísica Carlos
Chagas Filho e do Núcleo de Enfrentamento e Estudos de Doenças Infecciosas
Emergentes e Reemergentes (Needier) da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ), para explicar o que caracteriza a mpox, como ocorre a transmissão,
quais são os principais sintomas e quais cuidados a população deve adotar.
As
informações apresentadas pela pesquisadora se baseiam em dados do Ministério da
Saúde, incluindo o painel oficial de monitoramento da doença, e nas
recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). A especialista também
analisa o panorama recente da mpox no Brasil e no cenário internacional.
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Entrevista | Mpox em foco
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1- A monkeypox passou a ser monitorada de forma contínua pelas autoridades de
saúde. Para contextualizar o tema, poderia explicar o que caracteriza a mpox?
Como ocorre a transmissão, qual é a situação epidemiológica atual e quais são
os principais sintomas e impactos da doença no organismo?
Clarissa
Damaso: A doença se chama mpox e é causada pelo vírus monkeypox. Ela é
caracterizada pelo surgimento de lesões pustulares pelo corpo ou mais
concentradas na região genital, perianal e perioral. Os pacientes apresentam
ainda febre, mal-estar, dor de cabeça e, em alguns casos, adenomegalia
(gânglios aumentados).
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2- Quais são as principais formas de transmissão da doença e em quais situações
o risco de infecção é maior?
Clarissa
Damaso: A transmissão se dá por contato com as lesões de pessoas infectadas ou
por inalação de gotículas de saliva de pessoas infectadas e com lesão na
cavidade oral. O contato intenso sexual tem sido o maior meio de transmissão
desde 2022, devido ao contato de uma pessoa com lesões da área gential e
perianal de um parceiro infectado.
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3- Em que contexto histórico e geográfico o vírus foi identificado inicialmente
e quais fatores contribuíram para sua introdução e disseminação no Brasil?
Clarissa
Damaso: O vírus é endêmico na África, com os primeiros casos ocorrendo em 1970.
Até 2022, o vírus circulava apenas no continente africano e infectava as
pessoas pelo contato com animais reservatórios do vírus, como alguns tipos de
roedores de floresta. Desde 2022, o vírus passou para a Europa e, a partir daí,
se espalhou para o mundo, alcançando o Brasil em junho de 2022. Desde então,
temos casos continuamente.
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4- Quais são os principais exames laboratoriais indicados para a confirmação da
mpox e quais critérios clínicos e epidemiológicos orientam o diagnóstico da
doença?
Clarissa
Damaso: O diagnóstico é feito recolhendo swab da lesão (procedimento de coleta
de material biológico feito diretamente sobre uma lesão na pele como bolhas,
feridas ou crostas). O material genético viral é extraído e realizado o PCR em
tempo real. A UFRJ faz atendimento de casos suspeitos de mpox e emite o
diagnóstico no Needier. O diagnóstico confirmatório é sempre por testagem
molecular (PCR em tempo real ou por sequenciamento do genoma viral), mas a
suspeição se dá pelo relato do paciente sobre contato com uma pessoa com mpox e
pelo aparecimento de lesões sugestivas da doença.
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5- Existem medicamentos específicos? Em quais casos a doença pode se tornar
mais grave?
Clarissa
Damaso: A doença é mais grave em pacientes imunossuprimidos (pessoas que têm o
sistema imunológico enfraquecido ou com a capacidade de defesa reduzida contra
infecções). O tratamento recomendado é com tecovirimat, mas a disponibilidade
desse antiviral fica a critério do Ministério da Saúde.
Também
temos vacina disponibilizada pelo SUS, de acordo com os seguintes critérios:
VACINAÇÃO
PRÉ-EXPOSIÇÃO:
–
Pessoas vivendo com HIV/Aids (PVHA): homens cisgêneros, travestis e mulheres
transexuais, com idade igual ou superior a 18 anos e com status imunológico
identificado pela contagem de linfócitos T CD4 inferior a 200 células nos
últimos seis meses.
–
Profissionais de laboratório que trabalham diretamente com Orthopoxvírus em
laboratórios com nível de biossegurança 3 (NB-3) entre 18 e 49 anos de idade.
VACINAÇÃO
PÓS-EXPOSIÇÃO:
–
Pessoas que tiveram contato direto com fluidos e secreções corporais de pessoas
suspeitas, prováveis ou confirmadas para mpox, cuja exposição seja classificada
como de alto ou médio risco, conforme recomendações da OMS.
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6- Quais populações são consideradas mais vulneráveis à infecção por mpox ou à
evolução para quadros mais graves da doença?
Clarissa
Damaso: A população mais vulnerável são homens que fazem sexo com homens, com
múltiplos parceiros e parceiros desconhecidos. Além desse grupo, a população
imunossuprimida, sejam pessoas vivendo com HIV sem controle por terapia
antirretroviral, sejam pacientes em uso de quimioterapia.
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7- Qual é o cenário recente da doença no Brasil e no mundo?
Clarissa
Damaso: A doença apresenta elevado número de casos no continente africano,
especialmente nos países do centro-leste e em Madagascar. No Brasil, há um
número relativamente constante de casos desde que o surto arrefeceu no mundo ao
final de 2022. Desde então, têm surgido em torno de 100 casos ou menos por mês.
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8- Há mitos comuns que precisam ser esclarecidos para a população?
Clarissa
Damaso: Sim. Mpox não é varíola. Os vírus são da mesma família viral, mas são
distintos. Varíola não existe mais, é uma doença erradicada. Mpox não é doença
de homossexuais. Todas as pessoas podem contrair mpox desde que tenham contato
com lesões de pessoas infectadas. Chamar mpox de varíola dos macacos está
errado, porque não é varíola e a doença não é do macaco. Este é um uso
pejorativo e preconceituoso. Na África, os macacos são tão vítimas da doença
quanto os homens.
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Estabilidade e vigilância contínua
De
acordo com Clarissa Damaso, o número de casos de mpox no Brasil permanece
relativamente estável desde o fim do surto global de 2022, mantendo-se dentro
da média mensal observada nos últimos anos. “Em janeiro e fevereiro de 2025,
por exemplo, tivemos 144 e 119 casos respectivamente. Em novembro de 2025,
tivemos 46 casos e, em dezembro de 2025, 58 casos. Assim, o Brasil está dentro
da flutuação normal do número de casos”, explica a pesquisadora.
Por
fim, a especialista ressalta que a doença segue sob vigilância e que o acesso à
informação confiável é essencial para orientar a população, reduzir
desinformações e reforçar medidas simples de prevenção, como evitar contato
direto com lesões de pessoas infectadas e procurar atendimento médico em casos
suspeitos.
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Entenda a evolução da mpox nos últimos anos e a atuação da UFRJ no
enfrentamento da doença
Desde a
chegada da mpox ao Brasil, em junho de 2022, a UFRJ mobilizou sua comunidade
acadêmica para ampliar a divulgação científica e promover debates públicos
sobre a doença. O tema ganhou repercussão nacional com a entrevista da
professora e virologista Clarissa Damaso ao Jornal Nacional, na qual explicou
como ocorre a transmissão do vírus e destacou a importância da informação
baseada em evidências para evitar desinformação e estigmatização.
Como
parte desse esforço, a Universidade lançou o selo de eventos Fala, Minerva! com
a realização de debate sobre o tema, voltado a jornalistas, estudantes,
profissionais de saúde e à sociedade em geral. O encontro foi realizado em
formato híbrido e teve transmissão remota pela plataforma Zoom, além de
exibição ao vivo pelo canal oficial da UFRJ no YouTube.
O
objetivo do evento foi reafirmar o protagonismo da UFRJ nas pesquisas sobre a
doença e oferecer informações claras, acessíveis e fundamentadas sobre a
ciência. Durante o debate, especialistas responderam a perguntas centrais: o
que é o vírus? Quais são as manifestações clínicas? Como é feito o diagnóstico?
Como a Universidade está preparada para atender e pesquisar os casos?
Participaram
do encontro pesquisadores reconhecidos da instituição, entre eles as
professoras Clarissa Damaso e Terezinha Castiñeiras e os professores Amilcar
Tanuri e Rafael Galliez. A abertura foi conduzida pela reitora à época e atual
presidenta da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
(Capes), Denise Pires de Carvalho, reforçando o compromisso institucional com a
produção e a difusão de conhecimento científico em momentos de emergência em
saúde pública.
Fonte:
Por Tamiris Zapata – Conexão UFRJ

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