A
importação do discurso anti-imigração pela extrema-direita romena
No
final de agosto, um jovem romeno de vinte anos, admirador do fascismo,
filmou-se agredindo um entregador de comida nepalês. “Volte para o seu país,
invasor!”, gritou ele enquanto socava o rosto do imigrante. Quase ao mesmo
tempo, uma briga irrompeu entre funcionários romenos e estrangeiros em uma
fábrica da IKEA. Enquanto isso, no Facebook, um deputado do principal partido
de extrema-direita, agora infelizmente em grande evidência, defendeu que as
pessoas recusassem comidas entregues por um estrangeiro.
No
final de outubro, a Nova Direita — um partido assumidamente fascista — realizou
um protesto na capital, Bucareste, contra a “substituição de romenos por
populações estrangeiras de raça não branca”. No início de novembro, outro líder
da extrema-direita, George Simion — segundo colocado nas recentes eleições
presidenciais — e seu candidato à prefeitura de Bucareste publicaram uma foto
entre dois prédios. “Romenos moram no prédio da esquerda, imigrantes moram no
da direita, reformado com verbas públicas”, escreveu ele — insinuando que os
imigrantes recebem todos os benefícios, em detrimento dos romenos.
Antes
de 2025, o discurso anti-imigração era praticamente inexistente na Romênia.
Então, como chegamos a essa situação?
Há
poucos anos, os migrantes eram uma visão rara até mesmo em Bucareste, uma
cidade de dois milhões de habitantes. Hoje eles se tornaram uma parte visível
da força de trabalho, inclusive em cidades menores, principalmente na
construção civil e na hotelaria. Para ilustrar: em 2017, o governo estabeleceu
a cota de novas permissões para trabalhadores estrangeiros em 8.000. Em 2022,
esse número foi fixado em cem mil e, desde então, cem mil novas permissões têm
sido emitidas anualmente. A maioria vem de países do sul da Ásia, como Nepal,
Sri Lanka ou Bangladesh.
Se a
imigração é um fenômeno recente, a atitude dos romenos em relação aos migrantes
tem sido, em sua maioria, indiferente ou, na melhor das hipóteses, neutra. No
entanto, isso pode mudar em breve. Percebendo que poderia ser uma estratégia
para o sucesso eleitoral nas eleições gerais de 2028, forças de extrema-direita
têm intensificado estrategicamente narrativas anti-imigração. O que vimos até
agora pode ser apenas o primeiro ato de uma história muito maior.
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Mão de obra barata
Em
grande parte da mídia tradicional e liberal, o sentimento anti-imigração é
frequentemente interpretado através de uma lente cultural. Mas, para realmente
compreender o que está acontecendo, é importante entender as condições
materiais subjacentes. De fato, a imigração não se desenvolveu da mesma forma
na Romênia e no antigo Bloco Oriental como na Europa Ocidental ou nos Estados
Unidos. Desde a queda do regime do Partido Comunista, a Romênia tem sido uma
fonte de emigração em larga escala, com milhões de seus cidadãos deixando o
país para trabalhar no exterior. As estimativas apontam para uma diáspora entre
quatro e seis milhões de pessoas — cerca de 25% da população do país. Como é
possível que uma economia de alta renda ainda enfrente um êxodo de sua própria
população, apesar de anos de crescimento? E, ao mesmo tempo, experimente uma
explosão nos números da imigração?
A causa
principal remonta ao modelo de mão de obra barata adotado por sucessivos
governos desde o início dos anos 2000. Apostando em uma combinação de força de
trabalho bem treinada, baixos salários e baixos impostos, a Romênia esperava
atrair capital estrangeiro para impulsionar o crescimento econômico. E
conseguiu — em termos de crescimento do PIB, o país superou a maioria dos
membros da UE nos últimos 25 anos. Sempre que as empresas exigiam, os impostos
eram reduzidos, as leis trabalhistas eram revogadas, tudo para mantê-las
satisfeitas. Mas esse crescimento foi extremamente desigual. Enquanto a maior
parte da prosperidade se acumulava nos centros urbanos, o campo e as pequenas
cidades rurais ficavam para trás.
Essa
estratégia perdeu força no final da década de 2010. A alta emigração
significava que menos trabalhadores permaneciam na Romênia, e aqueles que
ficavam exigiam salários mais altos. Diante dessa escassez de mão de obra, o
governo e as empresas tinham duas opções. A primeira era mudar seu modelo
econômico e migrar para uma economia de maior valor agregado, com salários mais
altos. Isso também significaria caminhar rumo a uma economia mais
redistributiva e equitativa, para trazer de volta os emigrantes e desacelerar o
declínio demográfico.
A
segunda opção era continuar com os negócios como sempre foram — e foi o que
fizeram. O capital local e as elites políticas não conseguem pensar além da
estratégia de mão de obra barata para obter lucro através da pura exploração.
Permanecem presos a essa camisa de força ideológica. Mas algo precisava mudar
para que os negócios pudessem continuar como sempre foram. Então, começaram a
explorar a ideia de contratar imigrantes. Se os trabalhadores não querem mais
trabalhar por baixos salários, mas os empregadores se recusam a mudar seu
modelo, a solução mais fácil era trocar os trabalhadores.
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Uma nova servidão por dívida
Para
que isso funcionasse, dois obstáculos precisavam ser removidos. Primeiro, a
legislação local exigia que os migrantes não pertencentes à UE recebessem, no
mínimo, o salário médio nacional, tornando sua mão de obra muito cara. Segundo,
a liberdade de trocar de empregador à vontade significava que eles podiam
simplesmente pedir demissão caso estivessem insatisfeitos com as condições de
trabalho. Ambos os problemas foram prontamente resolvidos com o consenso de
todos os partidos políticos: os migrantes agora podiam receber o salário mínimo
romeno, cerca de 50% do salário médio nacional que recebiam antes, e não podiam
mais deixar o emprego anterior por um ano sem a aprovação do primeiro
empregador.
Esse
último modelo foi inspirado no sistema Kafala dos países do Golfo, um arcabouço
legal que vincula os trabalhadores aos seus empregadores. Além disso, enquanto
os migrantes recebem o salário mínimo (US$ 500 líquido por mês), seus colegas
romenos recebem o dobro, mesmo desempenhando exatamente a mesma função. Tudo
isso enquanto os migrantes frequentemente trabalham até quatorze horas por dia
sem receber horas extras. A maioria dos migrantes foi contratada para trabalhar
nos setores de manufatura, construção civil e hotelaria — os mesmos empregos
que os romenos ocupam quando emigram para o exterior em busca de trabalho.
No
entanto, isso é apenas a ponta do iceberg. A situação dos trabalhadores
migrantes na Romênia equivale, na prática, a um regime de servidão por dívida.
Para conseguir um emprego aqui, eles acabam pagando cerca de US$ 5.000 —
incluindo documentação legal, taxas de transporte e subornos para agilizar o
processo. Esse dinheiro é frequentemente obtido por meio de empréstimos
abusivos, venda de bens de família ou hipoteca de suas casas em seus países de
origem, na esperança de quitá-los com o dinheiro dos novos empregos. Perder o
emprego antes de quitar esses empréstimos significaria voltar para casa com uma
dívida impagável.
É por
isso que a maioria opta por suportar a exploração em vez de lutar contra ela. E
mesmo que tentem, os processos podem levar anos nos tribunais e custar uma
fortuna. O jogo sempre foi manipulado contra os trabalhadores em geral, mas os
migrantes não têm a menor chance. A exploração dos trabalhadores sempre foi uma
característica inerente, não um defeito.
A
Romênia não recebeu um fluxo significativo de trabalhadores refugiados
ucranianos como a Polônia e a República Tcheca. O que o país recebeu foi uma
onda de trabalhadores da República da Moldávia — um país vizinho que fala o
mesmo idioma. Como a maioria deles também possuía passaportes romenos, eles se
integraram facilmente, tinham os mesmos direitos e não foram registrados como
migrantes. Foi somente após o pico desse número na década de 2010 que os
empregadores romenos voltaram sua atenção para os migrantes não europeus —
aproveitando-se de seus direitos trabalhistas limitados e da falta de domínio
da língua romena.
A
imigração está especial e intrinsecamente ligada à ascensão da uberização do
trabalho. No início da pandemia, todos os trabalhadores em aplicativos de
entrega de comida eram trabalhadores autônomos romenos. Contudo, em dois anos,
quase todos os entregadores que se viam eram imigrantes. À medida que as taxas
cobradas dos trabalhadores autônomos diminuíram, os imigrantes se tornaram os
únicos dispostos a aceitar salários mais baixos. Na Romênia, os trabalhadores
autônomos são contratados por uma empresa local que atua como intermediária
entre a plataforma e a empresa e cobra taxas. Dessa forma, os imigrantes se
tornam vítimas de uma exploração dupla: pela arbitrariedade das plataformas de
trabalho autônomo e pela exploração das empresas romenas. Embora frequentemente
em conflito, neste caso, o capital local e o internacional trabalharam em
conjunto para aumentar os lucros com o trabalho dos imigrantes.
Em
2023, a revista The Economist publicou um artigo descrevendo a Romênia como um
país que “está passando de um país de emigrantes para um país de imigrantes”,
comparando-a à Itália, que passou pelo mesmo processo décadas atrás. Na lógica
de um suposto desenvolvimento econômico linear, a maioria dos países passaria
pelas mesmas fases. Mas o que tanto a The Economist quanto os especialistas
locais não percebem é que a Romênia nunca deixou de ser um país de emigração,
com milhões de pessoas no exterior. A Romênia encontra-se na situação singular
de ser, simultaneamente, um país de emigração e de imigração.
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O manual da extrema direita
ARomênia
raramente teve incidentes notáveis envolvendo migrantes no passado. De fato,
quase não havia migrantes no país. No entanto, nos últimos meses, houve uma
intensificação tanto da retórica quanto dos ataques violentos. Isso não é uma
resposta a crimes específicos ou reais cometidos por migrantes. Trata-se de uma
retórica artificial orquestrada pela extrema direita, que tenta transformar o
tema em assunto de campanha para as eleições municipais de Bucareste deste ano
e para as eleições gerais de 2028.
A
maioria dessas narrativas de guerra cultural são copiadas da extrema-direita da
Europa Ocidental, dos Estados Unidos e dos países do Grupo de Visegrád, na
Europa centro-oriental. Elas variam de teorias da conspiração como a “teoria da
grande substituição” a fórmulas mais eufemísticas: “nossos valores
incompatíveis”, “o modo de vida distinto europeu e cristão”, ou outros clichês
na linha do Choque de Civilizações. Outras técnicas — como notícias falsas
sobre casos de estupro que nunca aconteceram e palavras exageradas como
“invasão” — também foram emprestadas de grupos de extrema-direita estrangeiros.
Novamente, é preciso ressaltar que isso não estava presente anteriormente no
discurso da extrema-direita romena. Sua introdução representa uma mudança calculada
de foco na comunicação dessas forças.
Em
contraste com esses temas culturais defendidos por partidos de extrema-direita
e sites de teorias da conspiração, existe também uma narrativa vinda de romenos
comuns que não têm uma agenda política. Seu descontentamento não se concentra
na etnia, mas nas dificuldades econômicas. Alguns chegam a ter empatia com os
imigrantes asiáticos, mas acreditam que os estrangeiros estão sendo usados como
mão de obra barata para substituí-los.
Apesar
de ser uma estratégia vencedora para angariar votos, até recentemente os
partidos de extrema-direita hesitaram em abordar o lado econômico da migração.
Isso pode ser explicado ao analisarmos os doadores e membros de destaque desses
partidos. A maioria deles são empresários, especialmente nos setores da
construção civil e da hotelaria, que dependem fortemente da mão de obra
migrante. Esses partidos também podem ter temido que o populismo econômico
pudesse se transformar em um sentimento antiempresarial. Embora a
extrema-direita frequentemente critique as corporações estrangeiras, ela o faz
em prol dos interesses das empresas romenas. Afinal, o nacionalismo visa o
interesse dos empregadores, não dos empregados.
No
entanto, tudo isso pode mudar em breve. Simion, líder da Aliança para a União
dos Romenos (AUR), o maior partido de extrema-direita da Romênia, já trilhou o
caminho do nativismo econômico e do chauvinismo assistencialista com sua
declaração contra imigrantes em Bucareste. Isso ecoa suas campanhas anteriores
contra refugiados ucranianos: diz-se que os “outros” recebem todo tipo de
auxílio do Estado, enquanto os romenos não recebem nada. Até agora, essa
estratégia tem se mostrado eficaz, já que muitos romenos se sentem abandonados
pelo Estado e enganados pela transição para o capitalismo. O que a
extrema-direita faz é encontrar um bode expiatório para toda essa frustração.
Uma
consequência particularmente lamentável é que muitos dos romenos que pregam
contra a imigração são eles próprios imigrantes. No último quarto de século, os
romenos foram vilipendiados e discriminados no Ocidente — recentemente,
ativistas de extrema-direita na Irlanda do Norte incendiaram casas de
imigrantes romenos. Claro que isso não impediu Simion de participar de um
comício de extrema-direita contra a imigração organizado por Tommy Robinson em
Londres, no dia 13 de setembro.
Não é a
primeira vez que imigrantes antigos se voltam contra os recém-chegados.
Querendo provar que estão “assimilados”, tentam em vão se tornar mais
britânicos do que os próprios britânicos, mais alemães do que os próprios
alemães, e assim por diante. Felizmente, nem todos caem nessa armadilha: 68%
dos romenos veem os imigrantes como um impulso para a economia, em vez de uma
ameaça, segundo uma pesquisa de 2024. Ainda assim, nada impede que a
extrema-direita conquiste as mesmas vitórias que obteve em outras partes da
Europa.
Muitos
na diáspora romena hoje apoiam partidos de extrema-direita — tanto na Romênia
quanto em seus novos países de acolhimento — e adotam suas narrativas. Claus,
por exemplo, é um romeno de meia-idade que vive em Gloucestershire e publica
regularmente vídeos no TikTok sobre como a Grã-Bretanha está sendo tomada por
imigrantes. Ele se refere apenas a pessoas de pele escura e não europeias, é
claro.
A
abordagem do establishment liberal em toda a Europa provou ser fundamentalmente
falha. Na melhor das hipóteses, oferece apenas slogans reconfortantes. Mas, sem
abordar as causas estruturais e o capitalismo, apenas prepara o terreno para o
florescimento do extremismo. Na pior das hipóteses, adota o discurso e os
métodos da extrema-direita, como vimos com Keir Starmer, Olaf Scholz e Emmanuel
Macron.
O que
precisamos, na Romênia e em outros lugares, é de uma nova onda de movimentos
socialistas, a única maneira de derrotar a ascensão fascista. Deve ser uma onda
que se afaste da armadilha das guerras culturais e fale abertamente sobre a
luta de classes. Ao olhar para os migrantes, muitos romenos veem um reflexo de
sua própria condição quando trabalhavam no exterior. “Eles vêm para cá em busca
de salários melhores, assim como nós. Assim como nossos parentes ainda fazem”,
dizem alguns. Isso mostra que sempre existe uma forma residual de consciência
de classe, mesmo que seja apenas instintiva. O que ela precisa é de
representação política.
Fonte:
Por Andrei-Constantin Gudu - Tradução Pedro Silva

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