sexta-feira, 13 de março de 2026

A importação do discurso anti-imigração pela extrema-direita romena

No final de agosto, um jovem romeno de vinte anos, admirador do fascismo, filmou-se agredindo um entregador de comida nepalês. “Volte para o seu país, invasor!”, gritou ele enquanto socava o rosto do imigrante. Quase ao mesmo tempo, uma briga irrompeu entre funcionários romenos e estrangeiros em uma fábrica da IKEA. Enquanto isso, no Facebook, um deputado do principal partido de extrema-direita, agora infelizmente em grande evidência, defendeu que as pessoas recusassem comidas entregues por um estrangeiro.

No final de outubro, a Nova Direita — um partido assumidamente fascista — realizou um protesto na capital, Bucareste, contra a “substituição de romenos por populações estrangeiras de raça não branca”. No início de novembro, outro líder da extrema-direita, George Simion — segundo colocado nas recentes eleições presidenciais — e seu candidato à prefeitura de Bucareste publicaram uma foto entre dois prédios. “Romenos moram no prédio da esquerda, imigrantes moram no da direita, reformado com verbas públicas”, escreveu ele — insinuando que os imigrantes recebem todos os benefícios, em detrimento dos romenos.

Antes de 2025, o discurso anti-imigração era praticamente inexistente na Romênia. Então, como chegamos a essa situação?

Há poucos anos, os migrantes eram uma visão rara até mesmo em Bucareste, uma cidade de dois milhões de habitantes. Hoje eles se tornaram uma parte visível da força de trabalho, inclusive em cidades menores, principalmente na construção civil e na hotelaria. Para ilustrar: em 2017, o governo estabeleceu a cota de novas permissões para trabalhadores estrangeiros em 8.000. Em 2022, esse número foi fixado em cem mil e, desde então, cem mil novas permissões têm sido emitidas anualmente. A maioria vem de países do sul da Ásia, como Nepal, Sri Lanka ou Bangladesh.

Se a imigração é um fenômeno recente, a atitude dos romenos em relação aos migrantes tem sido, em sua maioria, indiferente ou, na melhor das hipóteses, neutra. No entanto, isso pode mudar em breve. Percebendo que poderia ser uma estratégia para o sucesso eleitoral nas eleições gerais de 2028, forças de extrema-direita têm intensificado estrategicamente narrativas anti-imigração. O que vimos até agora pode ser apenas o primeiro ato de uma história muito maior.

<><> Mão de obra barata

Em grande parte da mídia tradicional e liberal, o sentimento anti-imigração é frequentemente interpretado através de uma lente cultural. Mas, para realmente compreender o que está acontecendo, é importante entender as condições materiais subjacentes. De fato, a imigração não se desenvolveu da mesma forma na Romênia e no antigo Bloco Oriental como na Europa Ocidental ou nos Estados Unidos. Desde a queda do regime do Partido Comunista, a Romênia tem sido uma fonte de emigração em larga escala, com milhões de seus cidadãos deixando o país para trabalhar no exterior. As estimativas apontam para uma diáspora entre quatro e seis milhões de pessoas — cerca de 25% da população do país. Como é possível que uma economia de alta renda ainda enfrente um êxodo de sua própria população, apesar de anos de crescimento? E, ao mesmo tempo, experimente uma explosão nos números da imigração?

A causa principal remonta ao modelo de mão de obra barata adotado por sucessivos governos desde o início dos anos 2000. Apostando em uma combinação de força de trabalho bem treinada, baixos salários e baixos impostos, a Romênia esperava atrair capital estrangeiro para impulsionar o crescimento econômico. E conseguiu — em termos de crescimento do PIB, o país superou a maioria dos membros da UE nos últimos 25 anos. Sempre que as empresas exigiam, os impostos eram reduzidos, as leis trabalhistas eram revogadas, tudo para mantê-las satisfeitas. Mas esse crescimento foi extremamente desigual. Enquanto a maior parte da prosperidade se acumulava nos centros urbanos, o campo e as pequenas cidades rurais ficavam para trás.

Essa estratégia perdeu força no final da década de 2010. A alta emigração significava que menos trabalhadores permaneciam na Romênia, e aqueles que ficavam exigiam salários mais altos. Diante dessa escassez de mão de obra, o governo e as empresas tinham duas opções. A primeira era mudar seu modelo econômico e migrar para uma economia de maior valor agregado, com salários mais altos. Isso também significaria caminhar rumo a uma economia mais redistributiva e equitativa, para trazer de volta os emigrantes e desacelerar o declínio demográfico.

A segunda opção era continuar com os negócios como sempre foram — e foi o que fizeram. O capital local e as elites políticas não conseguem pensar além da estratégia de mão de obra barata para obter lucro através da pura exploração. Permanecem presos a essa camisa de força ideológica. Mas algo precisava mudar para que os negócios pudessem continuar como sempre foram. Então, começaram a explorar a ideia de contratar imigrantes. Se os trabalhadores não querem mais trabalhar por baixos salários, mas os empregadores se recusam a mudar seu modelo, a solução mais fácil era trocar os trabalhadores.

<><> Uma nova servidão por dívida

Para que isso funcionasse, dois obstáculos precisavam ser removidos. Primeiro, a legislação local exigia que os migrantes não pertencentes à UE recebessem, no mínimo, o salário médio nacional, tornando sua mão de obra muito cara. Segundo, a liberdade de trocar de empregador à vontade significava que eles podiam simplesmente pedir demissão caso estivessem insatisfeitos com as condições de trabalho. Ambos os problemas foram prontamente resolvidos com o consenso de todos os partidos políticos: os migrantes agora podiam receber o salário mínimo romeno, cerca de 50% do salário médio nacional que recebiam antes, e não podiam mais deixar o emprego anterior por um ano sem a aprovação do primeiro empregador.

Esse último modelo foi inspirado no sistema Kafala dos países do Golfo, um arcabouço legal que vincula os trabalhadores aos seus empregadores. Além disso, enquanto os migrantes recebem o salário mínimo (US$ 500 líquido por mês), seus colegas romenos recebem o dobro, mesmo desempenhando exatamente a mesma função. Tudo isso enquanto os migrantes frequentemente trabalham até quatorze horas por dia sem receber horas extras. A maioria dos migrantes foi contratada para trabalhar nos setores de manufatura, construção civil e hotelaria — os mesmos empregos que os romenos ocupam quando emigram para o exterior em busca de trabalho.

No entanto, isso é apenas a ponta do iceberg. A situação dos trabalhadores migrantes na Romênia equivale, na prática, a um regime de servidão por dívida. Para conseguir um emprego aqui, eles acabam pagando cerca de US$ 5.000 — incluindo documentação legal, taxas de transporte e subornos para agilizar o processo. Esse dinheiro é frequentemente obtido por meio de empréstimos abusivos, venda de bens de família ou hipoteca de suas casas em seus países de origem, na esperança de quitá-los com o dinheiro dos novos empregos. Perder o emprego antes de quitar esses empréstimos significaria voltar para casa com uma dívida impagável.

É por isso que a maioria opta por suportar a exploração em vez de lutar contra ela. E mesmo que tentem, os processos podem levar anos nos tribunais e custar uma fortuna. O jogo sempre foi manipulado contra os trabalhadores em geral, mas os migrantes não têm a menor chance. A exploração dos trabalhadores sempre foi uma característica inerente, não um defeito.

A Romênia não recebeu um fluxo significativo de trabalhadores refugiados ucranianos como a Polônia e a República Tcheca. O que o país recebeu foi uma onda de trabalhadores da República da Moldávia — um país vizinho que fala o mesmo idioma. Como a maioria deles também possuía passaportes romenos, eles se integraram facilmente, tinham os mesmos direitos e não foram registrados como migrantes. Foi somente após o pico desse número na década de 2010 que os empregadores romenos voltaram sua atenção para os migrantes não europeus — aproveitando-se de seus direitos trabalhistas limitados e da falta de domínio da língua romena.

A imigração está especial e intrinsecamente ligada à ascensão da uberização do trabalho. No início da pandemia, todos os trabalhadores em aplicativos de entrega de comida eram trabalhadores autônomos romenos. Contudo, em dois anos, quase todos os entregadores que se viam eram imigrantes. À medida que as taxas cobradas dos trabalhadores autônomos diminuíram, os imigrantes se tornaram os únicos dispostos a aceitar salários mais baixos. Na Romênia, os trabalhadores autônomos são contratados por uma empresa local que atua como intermediária entre a plataforma e a empresa e cobra taxas. Dessa forma, os imigrantes se tornam vítimas de uma exploração dupla: pela arbitrariedade das plataformas de trabalho autônomo e pela exploração das empresas romenas. Embora frequentemente em conflito, neste caso, o capital local e o internacional trabalharam em conjunto para aumentar os lucros com o trabalho dos imigrantes.

Em 2023, a revista The Economist publicou um artigo descrevendo a Romênia como um país que “está passando de um país de emigrantes para um país de imigrantes”, comparando-a à Itália, que passou pelo mesmo processo décadas atrás. Na lógica de um suposto desenvolvimento econômico linear, a maioria dos países passaria pelas mesmas fases. Mas o que tanto a The Economist quanto os especialistas locais não percebem é que a Romênia nunca deixou de ser um país de emigração, com milhões de pessoas no exterior. A Romênia encontra-se na situação singular de ser, simultaneamente, um país de emigração e de imigração.

<><> O manual da extrema direita

ARomênia raramente teve incidentes notáveis envolvendo migrantes no passado. De fato, quase não havia migrantes no país. No entanto, nos últimos meses, houve uma intensificação tanto da retórica quanto dos ataques violentos. Isso não é uma resposta a crimes específicos ou reais cometidos por migrantes. Trata-se de uma retórica artificial orquestrada pela extrema direita, que tenta transformar o tema em assunto de campanha para as eleições municipais de Bucareste deste ano e para as eleições gerais de 2028.

A maioria dessas narrativas de guerra cultural são copiadas da extrema-direita da Europa Ocidental, dos Estados Unidos e dos países do Grupo de Visegrád, na Europa centro-oriental. Elas variam de teorias da conspiração como a “teoria da grande substituição” a fórmulas mais eufemísticas: “nossos valores incompatíveis”, “o modo de vida distinto europeu e cristão”, ou outros clichês na linha do Choque de Civilizações. Outras técnicas — como notícias falsas sobre casos de estupro que nunca aconteceram e palavras exageradas como “invasão” — também foram emprestadas de grupos de extrema-direita estrangeiros. Novamente, é preciso ressaltar que isso não estava presente anteriormente no discurso da extrema-direita romena. Sua introdução representa uma mudança calculada de foco na comunicação dessas forças.

Em contraste com esses temas culturais defendidos por partidos de extrema-direita e sites de teorias da conspiração, existe também uma narrativa vinda de romenos comuns que não têm uma agenda política. Seu descontentamento não se concentra na etnia, mas nas dificuldades econômicas. Alguns chegam a ter empatia com os imigrantes asiáticos, mas acreditam que os estrangeiros estão sendo usados como mão de obra barata para substituí-los.

Apesar de ser uma estratégia vencedora para angariar votos, até recentemente os partidos de extrema-direita hesitaram em abordar o lado econômico da migração. Isso pode ser explicado ao analisarmos os doadores e membros de destaque desses partidos. A maioria deles são empresários, especialmente nos setores da construção civil e da hotelaria, que dependem fortemente da mão de obra migrante. Esses partidos também podem ter temido que o populismo econômico pudesse se transformar em um sentimento antiempresarial. Embora a extrema-direita frequentemente critique as corporações estrangeiras, ela o faz em prol dos interesses das empresas romenas. Afinal, o nacionalismo visa o interesse dos empregadores, não dos empregados.

No entanto, tudo isso pode mudar em breve. Simion, líder da Aliança para a União dos Romenos (AUR), o maior partido de extrema-direita da Romênia, já trilhou o caminho do nativismo econômico e do chauvinismo assistencialista com sua declaração contra imigrantes em Bucareste. Isso ecoa suas campanhas anteriores contra refugiados ucranianos: diz-se que os “outros” recebem todo tipo de auxílio do Estado, enquanto os romenos não recebem nada. Até agora, essa estratégia tem se mostrado eficaz, já que muitos romenos se sentem abandonados pelo Estado e enganados pela transição para o capitalismo. O que a extrema-direita faz é encontrar um bode expiatório para toda essa frustração.

Uma consequência particularmente lamentável é que muitos dos romenos que pregam contra a imigração são eles próprios imigrantes. No último quarto de século, os romenos foram vilipendiados e discriminados no Ocidente — recentemente, ativistas de extrema-direita na Irlanda do Norte incendiaram casas de imigrantes romenos. Claro que isso não impediu Simion de participar de um comício de extrema-direita contra a imigração organizado por Tommy Robinson em Londres, no dia 13 de setembro.

Não é a primeira vez que imigrantes antigos se voltam contra os recém-chegados. Querendo provar que estão “assimilados”, tentam em vão se tornar mais britânicos do que os próprios britânicos, mais alemães do que os próprios alemães, e assim por diante. Felizmente, nem todos caem nessa armadilha: 68% dos romenos veem os imigrantes como um impulso para a economia, em vez de uma ameaça, segundo uma pesquisa de 2024. Ainda assim, nada impede que a extrema-direita conquiste as mesmas vitórias que obteve em outras partes da Europa.

Muitos na diáspora romena hoje apoiam partidos de extrema-direita — tanto na Romênia quanto em seus novos países de acolhimento — e adotam suas narrativas. Claus, por exemplo, é um romeno de meia-idade que vive em Gloucestershire e publica regularmente vídeos no TikTok sobre como a Grã-Bretanha está sendo tomada por imigrantes. Ele se refere apenas a pessoas de pele escura e não europeias, é claro.

A abordagem do establishment liberal em toda a Europa provou ser fundamentalmente falha. Na melhor das hipóteses, oferece apenas slogans reconfortantes. Mas, sem abordar as causas estruturais e o capitalismo, apenas prepara o terreno para o florescimento do extremismo. Na pior das hipóteses, adota o discurso e os métodos da extrema-direita, como vimos com Keir Starmer, Olaf Scholz e Emmanuel Macron.

O que precisamos, na Romênia e em outros lugares, é de uma nova onda de movimentos socialistas, a única maneira de derrotar a ascensão fascista. Deve ser uma onda que se afaste da armadilha das guerras culturais e fale abertamente sobre a luta de classes. Ao olhar para os migrantes, muitos romenos veem um reflexo de sua própria condição quando trabalhavam no exterior. “Eles vêm para cá em busca de salários melhores, assim como nós. Assim como nossos parentes ainda fazem”, dizem alguns. Isso mostra que sempre existe uma forma residual de consciência de classe, mesmo que seja apenas instintiva. O que ela precisa é de representação política.

 

Fonte: Por Andrei-Constantin Gudu - Tradução Pedro Silva

 

 

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