sexta-feira, 13 de março de 2026

Maria Luiza Falcão: China - mercado do mundo

Ao anunciar a ampliação da iniciativa “Compras na China” para 2026, Pequim sinaliza algo muito maior do que uma política de estímulo ao varejo ou ao turismo de consumo. O que está em curso é uma transformação silenciosa — porém potencialmente histórica — na forma como o crescimento chinês será sustentado e, mais do que isso, na própria geografia do capitalismo global. Não se trata apenas de vender mais. Trata-se de reorganizar o centro gravitacional da demanda mundial.

<><> Da fábrica ao mercado do mundo

Durante décadas, a ascensão chinesa foi explicada por uma fórmula relativamente conhecida: industrialização acelerada, inserção competitiva nas cadeias globais e extraordinária capacidade exportadora. A China tornou-se a “fábrica do mundo”, abastecendo mercados ocidentais e acumulando reservas internacionais em uma escala sem precedentes históricos.

Hoje, porém, o país parece dar um passo adicional e qualitativamente distinto.

A estratégia de atrair consumo estrangeiro, incentivar marcas globais a lançar produtos em território chinês e transformar grandes cidades em polos internacionais de compras sugere uma ambição clara: converter-se também no mercado do mundo.

Em discurso na Cúpula de CEOs da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC, sigla em inglês), em Gyeongju, na República da Coreia, no ano passado, Xi Jinping afirmou que a China pode oferecer mais oportunidades de crescimento para a comunidade empresarial global. A APEC reúne 21 economias, responsáveis por cerca de metade do comércio mundial e por uma parcela muito significativa do PIB global.

A China é atualmente o segundo maior mercado mundial em consumo e importações e o único país em desenvolvimento que realiza uma exposição internacional de importação em nível nacional e continua a abrir seu mercado ao mundo.

“O mercado chinês é enorme e promissor. Estamos avançando continuamente em uma abertura de alto padrão e nos esforçamos para ajudar todas as partes a prosperar por meio de maior abertura e conectividade”, disse Xi.

Essa mudança não deve ser lida como abandono do modelo industrial. Ao contrário, trata-se de uma tentativa sofisticada de combinar potência produtiva com densidade de mercado interno — uma dupla condição que, historicamente, caracterizou as economias capazes de exercer verdadeira centralidade no sistema internacional.

Os Estados Unidos fizeram isso no século XX. A China parece disposta a testar essa posição no XXI.

<><> Mudança de regime de crescimento

Do ponto de vista da economia política, estamos possivelmente diante de uma transição de regime de crescimento.

Economias muito dependentes das exportações tornam-se vulneráveis aos ciclos externos, ao protecionismo e às oscilações geopolíticas. Fortalecer o consumo doméstico — e, agora, também atrair consumidores estrangeiros — funciona como um amortecedor estrutural contra a instabilidade global.

Não se trata de um expediente conjuntural. Trata-se de reduzir a exposição ao mundo sem se fechar para ele. Essa distinção é crucial.

A China não parece buscar isolamento, mas autonomia relativa — conceito clássico das teorias do desenvolvimento, frequentemente associado à capacidade de sustentar crescimento mesmo em ambientes internacionais adversos.

Em um cenário marcado por guerras comerciais, restrições tecnológicas, friend-shoring e reconfiguração das cadeias produtivas, ampliar o peso do mercado interno torna-se uma forma de seguro macroeconômico.

Quanto maior a demanda doméstica, menor a vulnerabilidade estratégica.

<><> Abertura seletiva: longe de uma guinada neoliberal

Uma leitura superficial poderia interpretar o convite a marcas globais como sinal de liberalização acelerada. Essa conclusão seria precipitada.

O que se observa é uma abertura cuidadosamente administrada pelo Estado — instrumental, gradual e compatível com prioridades nacionais.

Ao atrair empresas internacionais, Pequim parece perseguir múltiplos objetivos:

  • elevar padrões de qualidade e competição;
  • estimular inovação tecnológica;
  • pressionar empresas locais a subir na cadeia de valor;
  • diversificar a oferta ao consumidor;
  • consolidar cidades chinesas como centros globais de consumo.

Nada disso soa como rendição ao mercado. Soa como estratégia.

A tradição do desenvolvimento tardio sempre enfatizou que a abertura econômica pode ser virtuosa quando subordinada a um projeto nacional — e perigosa quando guiada apenas pela lógica financeira. A China, ao que tudo indica, continua operando segundo o primeiro princípio.

Não abre mão do planejamento.

Não abdica da política industrial.

Não entrega os comandos do sistema.

Abre — mas sob suas condições.

<><> O consumo como forma de poder

Talvez o aspecto mais subestimado dessa iniciativa seja seu significado geopolítico. Grandes mercados geram dependência.

Empresas ajustam estratégias para acessar consumidores. Países moderam tensões quando interesses econômicos relevantes estão em jogo. Cadeias produtivas se reorganizam em torno dos polos de demanda.

Durante décadas, exportar para os Estados Unidos foi quase uma necessidade sistêmica para inúmeras economias. O consumidor americano funcionou como motor do crescimento global.

Se a China conseguir ocupar parte desse papel, mesmo que de forma incompleta, veremos um deslocamento silencioso — porém profundo — na arquitetura do capitalismo.

O mercado também projeta poder.

Talvez de maneira menos visível que bases militares, mas frequentemente mais duradoura.

<><> Um escudo contra a fragmentação do mundo

O contexto internacional ajuda a explicar a racionalidade dessa estratégia.

A economia mundial atravessa um período de fragmentação crescente:

  • disputas tecnológicas entre grandes potências;
  • ressurgimento de políticas industriais nacionais;
  • expansão de barreiras comerciais;
  • tensões geopolíticas persistentes.

Nesse ambiente, depender excessivamente da demanda externa torna-se arriscado.

Fortalecer o consumo interno — e ampliar sua dimensão internacional — permite à China reduzir a sensibilidade a choques políticos e comerciais.

É menos uma política de estímulo e mais uma arquitetura de resiliência.

<><> Os obstáculos não são triviais

Uma análise rigorosa, contudo, não pode ignorar os desafios.

Entre eles, destacam-se quatro tensões estruturais:

Desigualdade de renda: embora tenha diminuído ao longo das últimas décadas, ainda limita a expansão de um consumo de massa plenamente robusto.

Elevada taxa de poupança das famílias: frequentemente associada à necessidade de autoproteção diante de custos com saúde, educação e envelhecimento.

Reacomodação do setor imobiliário: a desaceleração do mercado de propriedades afeta o chamado efeito riqueza, tradicionalmente relevante para o comportamento do consumidor.

Transição demográfica: o envelhecimento populacional tende a alterar padrões de gasto e crescimento.

Esses fatores sugerem que o futuro do consumo chinês dependerá menos do brilho das vitrines e mais da profundidade das políticas sociais.

Em outras palavras, ampliar a demanda exige fortalecer redes de proteção e reduzir incertezas — uma agenda que combina economia e política em proporções inseparáveis.

<><> O equívoco das leituras curto-prazistas

Parte da análise ocidental provavelmente classificará essa iniciativa como mero estímulo anticíclico destinado a compensar desacelerações recentes.

Essa interpretação parece curta. O que pode estar em formação é algo mais ambicioso: a construção da China como uma das principais âncoras da demanda global.

Se essa trajetória se consolidar, estaremos diante de uma transformação comparável — guardadas as diferenças históricas — à emergência do consumidor americano no pós-Segunda Guerra.

Não é exagero afirmar que isso alteraria:

  • fluxos internacionais de investimento;
  • estratégias corporativas;
  • padrões de inovação;
  • e até alinhamentos diplomáticos.

Quando mercados mudam de lugar, o poder costuma acompanhá-los.

<><> Entre a produção e o consumo: a síntese chinesa

Talvez a singularidade do experimento chinês esteja justamente na tentativa de evitar uma armadilha que marcou outras economias maduras: a substituição da produção pela financeirização.

A China não parece disposta a escolher entre indústria e consumo.

Busca combinar ambos.

Se conseguir, poderá inaugurar um arranjo pouco comum na história econômica recente: uma potência simultaneamente produtiva e consumidora, apoiada por coordenação estatal e planejamento de longo prazo.

Isso não elimina contradições — nenhum processo de desenvolvimento o faz —, mas indica uma estratégia coerente com a busca por estabilidade em um mundo cada vez mais volátil.

<><> Uma pergunta para o século XXI

Talvez a questão decisiva já não seja saber se a China conseguirá estimular seu consumo. A pergunta mais profunda é outra: o capitalismo do século XXI começará a se organizar em torno do consumidor chinês?

Caso a resposta seja ao menos parcialmente positiva, não estaremos apenas diante de uma política econômica bem-sucedida.

Assistiremos a uma redistribuição silenciosa — porém estrutural — do poder econômico mundial.

E, como a história costuma demonstrar, quando o eixo da demanda se desloca, o eixo da influência tende a segui-lo.

As novas vitrines chinesas podem não ser apenas espaços de consumo. Podem ser as janelas por onde se observa o nascimento de uma nova etapa da economia global.

¨      China turbina reservas e cria “escudo” de 120 dias contra choque global no petróleo

A China ampliou de forma significativa suas importações de petróleo no início de 2026, em uma estratégia que analistas consideram essencial para proteger o país contra possíveis choques no abastecimento global de energia. O aumento das compras externas ajudou Pequim a fortalecer suas reservas estratégicas e criar um “escudo” estimado em cerca de 120 dias de cobertura de importações.

Dados oficiais divulgados pela alfândega chinesa mostram que o país importou 96,93 milhões de toneladas de petróleo bruto nos meses de janeiro e fevereiro, volume 15,8% superior ao registrado no mesmo período de 2025. Apesar da alta nas compras, o valor total pago pelas importações caiu cerca de 5,2% em dólares, refletindo oscilações nos preços internacionais da commodity.

Analistas apontam que o aumento nas compras ocorreu em meio ao crescimento das tensões no Oriente Médio e à possibilidade de interrupções no fornecimento de petróleo na região. Segundo especialistas, o governo chinês vinha acumulando estoques de petróleo e gás desde o início do ano, antecipando riscos associados ao conflito envolvendo o Irã e seus impactos sobre rotas estratégicas de transporte de energia.

O cenário geopolítico ganhou relevância após ataques aéreos realizados por Estados Unidos e Israel contra o Irã no final de fevereiro. Desde então, o tráfego comercial no Estreito de Ormuz — rota por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial — sofreu forte impacto, com interrupções no fluxo de navios petroleiros e redução da produção em refinarias de países como Arábia Saudita e Iraque.

Mesmo sendo altamente dependente do petróleo do Oriente Médio, a China construiu ao longo dos últimos anos um grande estoque estratégico. Estimativas indicam que o volume armazenado permite ao país manter o abastecimento por cerca de quatro meses sem necessidade de novas importações, funcionando como um amortecedor contra eventuais interrupções no mercado global.

Esse acúmulo de reservas também tem efeitos no mercado internacional. Ao reduzir a necessidade de compras emergenciais em momentos de crise, a estratégia chinesa ajuda a evitar disputas agressivas por cargueiros de petróleo, o que poderia provocar aumentos ainda mais fortes nos preços globais.

A iniciativa faz parte de um esforço mais amplo de Pequim para reforçar sua segurança energética. Além de ampliar estoques, o país vem diversificando fornecedores, fortalecendo parcerias energéticas e investindo em produção doméstica e fontes alternativas de energia.

Com a economia chinesa sendo a maior importadora de petróleo do mundo, as decisões de Pequim sobre estoques e compras internacionais têm impacto direto sobre o equilíbrio do mercado global. Em um cenário de tensões geopolíticas e incertezas sobre o abastecimento, a estratégia de reservas ampliadas pode se tornar um dos principais fatores de estabilidade no setor energético internacional.

¨      Exportações da China disparam 21,8% só no início de 2026 e dá lição a economia de guerra dos EUA

A economia chinesa começou o ano com um forte impulso no comércio exterior. Dados divulgados pelas autoridades alfandegárias indicam que as exportações da China cresceram 21,8% nos dois primeiros meses do ano, superando previsões de analistas e sinalizando uma retomada vigorosa da demanda global por produtos industriais e tecnológicos do país.

O resultado marca uma aceleração significativa em relação ao desempenho observado no final do ano anterior, quando o crescimento havia sido menor. O avanço foi impulsionado principalmente por envios de eletrônicos, semicondutores, automóveis e equipamentos industriais, setores que vêm registrando alta demanda internacional, em especial com o crescimento de investimentos ligados à inteligência artificial e à tecnologia.

Os números mostram também que o comércio exterior chinês continua sendo um dos pilares da economia do país. Nos dois primeiros meses do ano, o valor total das exportações alcançou cerca de US$ 657 bilhões, reforçando o papel da indústria chinesa nas cadeias globais de produção.

Outro dado relevante foi o crescimento das importações, que aumentaram aproximadamente 19,8% no mesmo período. O movimento indica que, além da expansão das vendas externas, a China também ampliou a compra de produtos e commodities do exterior, o que contribuiu para a formação de um grande superávit comercial.

Entre os principais destinos das exportações chinesas, houve forte aumento nas vendas para a União Europeia e países do Sudeste Asiático, enquanto os envios para os Estados Unidos registraram queda de cerca de 11%, reflexo das tensões comerciais entre as duas potências e das tarifas aplicadas sobre produtos chineses.

A expansão das exportações também foi impulsionada por produtos ligados às novas cadeias industriais do país, como veículos elétricos, baterias de lítio e células solares, setores que vêm ganhando participação no comércio global e consolidando a estratégia chinesa de liderança tecnológica em energias limpas e eletrificação.

Apesar do desempenho positivo, analistas alertam que o cenário internacional ainda apresenta incertezas. Fatores como tensões geopolíticas, possíveis mudanças nas tarifas comerciais e oscilações no mercado de energia podem afetar o ritmo do comércio global ao longo do ano.

Mesmo com esses riscos, o forte crescimento das exportações reforça a importância do setor externo para a economia chinesa, especialmente em um momento em que o país busca equilibrar a recuperação econômica interna com a manutenção de sua competitividade no mercado internacional.

 

Fonte: Brasil 247/O Cafezinho

 

Nenhum comentário: