Maurício
Rands: As bancadas de Vorcaro no Congresso e no STF
O maior
escândalo financeiro da história causa desalento e indignação. Sobretudo em um
país que sempre foi prisioneiro do patrimonialismo. Aqui o estado já nasceu
capturado por estamentos que dele extraem riqueza. Muita e concentrada.
Impressiona como esse gangster do Master era tão bem recebido pelos
portentosos. Do setor público e do setor privado. Tudo isso semeia um clima de
desesperança. Será que o ex-país do futuro não tem mesmo jeito?
Todas as pessoas de bem, sejam de direita ou
de esquerda, querem o combate duro à corrupção. Que sejam punidos todos os que
nela tenham incorrido. Nesse caso de Daniel Vorcaro, todos os que tenham
colaborado com seus crimes ou praticado atos para protegê-lo. Ou que se tenham
deixado seduzir por suas festinhas, contratos milionários e viagens.
Mas, entre o niilismo da descrença defintiiva
nas instituições e o messianismo anti-corrupção, pode-se cogitar de uma outra
atitude. Mais equilibrada, fundamentada e responsável. Não basta a
generalização de que "todo o espectro político estaria envolvido",
como escutamos em certos meios. Há os que argumentam com o fato verdadeiro de
que dois ex-ministros dos governos de Lula, Levandovsky e Mantega, tinham
contratos de lobby. Mas não mostram algum ato praticado pelo governo que tenha
protegido o ex-banqueiro. Esses dois ex-ministros, óbvio, precisam ser
investigados. Se não houver a materialidade de algum delito, que eles ao menos
sejam punidos social e politicamente pela traição ao presidente que os nomeara.
A imensa rede construída por Vorcaro demanda
que as investiagações sejam aprofundadas. Até agora já há fortes indícios de
envolvimento de chefes políticos que, em sua maioria, integram a ultradireita e
o impropriamente denominado Centrão. Vejam-se alguns dos que, segundo os
vazamentos até agora noticiados, compunham a "Bancada Master" no
Congresso e adjacências: Ciro Nogueira (PP, o "amigo de vida"),
Arthur Lira (PP), Antonio Rueda (presidente do União Brasil). Ou que tinham
autoridade sobre fundos de pensão que investiram nos títulos podres ou nas
ações do Master: governador Ibaneis Rocha (MDB, DF), Cláudio Castro (PL, RJ),
senador Davi Alcolumbre (União Brasil, Amapá). Sem falar das contribuições de
Fabiano Zettel, o cunhado e pastor evangélico, às campanhas de Bolsonaro e
Tarcísio de Freitas em 2022.
Qualquer democrata reconhece que o STF e o
ministro Alexandre Morais em particular foram fundamentais para conter a erosão
golpista praticada pelo governo anterior. E cumpriram com louvor as suas
responsabilidades ao julgar e mandar à prisão um ex-presidente e seus generais
que tentaram um golpe de estado. Pela primeira vez em um país que sempre
padeceu de ditaduras ou ameaças militares. Mas o reconhecimento e a defesa do
STF só são eficazes se vierem acompanhados da necessária depuração. Nenhum
tribunal do mundo pode ser respeitado se tiver membros que se tornem cúmplices
de criminosos como Vorcaro. Nosso STF só poderá recuperar sua credibilidade se
tiver a coragem cívica de cortar da própria carne. Garantindo o direito de
defesa aos ministros Toffoli e Morais, o STF deveria abrir investigação interna
formal para apurar as responsabilidades deles no caso Master. Os indícios que
já foram dados a conhecer indicam que eles praticaram atos de proteção a
Vorcaro no exercíco de suas respectivas jurisdições.Toffoli protegeu o seu
ex-sócio aceitando a relatoria, dificultando a investigação da Polícia Federal
e decretando sigilo em seu mais alto grau. Morais até hoje não conseguiu
refutar que tentou proteger o banco Master de uma intervenção do Bacen nos
contatos que teve com o seu presidente. Nem logrou provar que não trocou
mensagens com Vorcaro no dia de sua prisão. Mensagens daquelas que se
autodestroem. Um indicativo de culpa, como ele já escreveu em suas decisões. Os
peritos da PF garantiram que ele reagiu com um emoji ao pedido do ex-banqueiro
para que ele tentasse um certo bloqueio. Que não era aquele que os jogadores de
vôlei fazem na rede. A partida era outra. Envolvia centenas de milhões. E
nenhum dos dois negou que seus familiares estiveram na folha de pagamentos de
Vorcaro e Zettel. Seja no investimento do resort Tayayá de Toffoli e sua
família, seja no fabuloso contrato de honorários da família de Morais.
Por
isso, a saída para recuperar a legitimidade do STF poderia se inspirar no
exemplo da Colômbia. No Escândalo do "Cartel da Toga", foram
condenados pela Suprema Corte três de seus ex-ministros. O nosso STF vai
precisar fazer mais do que emitir notas de espírito de corpo. Do contrário, de
quebra, ainda vai ajudar a eleger parlamentares extremistas que farão suas
campanhas prometendo o impeachment de ministros que podem ter cometido atos de
improbidade na defesa de Vorcaro. Melhor que os dois ministros poupem o país e
decidam se retirar. Sabe-se que as sequelas de processos de impeachment no
Congresso são profundas e duradouras.
• Tá na hora de pedir 6. Por Oliveiros
Marques
A
extrema-direita brasileira decidiu apostar alto no barulho político em torno do
caso envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master. Parlamentares e
influenciadores ligados ao bolsonarismo passaram a defender a abertura de CPIs
como se estivessem diante de um escândalo que comprometeria o governo federal.
O problema dessa estratégia é simples: quanto mais se aprofunda o debate sobre
o tema, mais as conexões levam para o próprio campo da extrema-direita e do
Centrão.
É por
isso que o governo deveria dobrar a aposta. Se a oposição quer CPI, que venha.
Investigar tudo, sem medo, sem seletividade e sem atalhos. Porque, ao contrário
do que tenta sugerir o discurso oposicionista, as relações políticas mais
próximas de Daniel Vorcaro não estão no campo progressista. O objetivo dos
movimentos da extrema-direita é buscar nada mais, nada menos do que criar
nuvens escuras sobre a verdade.
Os
episódios que vieram a público nos últimos dias são esclarecedores. Conversas
atribuídas ao banqueiro mostram diálogos com figuras de alta patente do Centrão
com relações umbilicais com o bolsonarismo, como é o caso do senador Ciro
Nogueira, um dos principais articuladores políticos desse campo no Congresso.
Há também relações com governadores ligados à direita, como Ibaneis Rocha, do
Distrito Federal, e Cláudio Castro, do Rio de Janeiro. O primeiro destinando
bilhões para salvar o Master, o outro, colocando milhões de reais dos
servidores do Estado nas mãos do banqueiro em troca de papéis podres. A rede
política que aparece nas investigações desenha um grande abraço de “amigos para
a vida” da roubalheira com ícones do bolsonarismo.
O caso
ganha contornos ainda mais emblemáticos quando se observa o episódio do avião
utilizado durante a campanha de 2022. O deputado Nikolas Ferreira voou em
aeronave do Banco Master para participar de atividades eleitorais da campanha
de Jair Bolsonaro. E um detalhe bastante espinhoso: o uso da aeronave não
apareceu nas prestações de contas eleitorais.
Outro
elo que chama a atenção é o do cunhado de Vorcaro e pastor da Igreja Lagoinha -
a mesma de Nikolas -, Fabiano Zettel, que doou R$ 5 milhões para as campanhas
de Tarcísio de Freitas em São Paulo e para Jair Bolsonaro. A presença de
lideranças religiosas conectadas a essa rede reforça a dimensão política e
financeira que o caso pode alcançar. Haveria outras campanhas da direita
destinatárias da dinheirama esparramada pelo esquema? A saber.
Ou
seja, os episódios levantam questionamentos que dizem respeito diretamente ao
campo político que hoje tenta posar de acusador. Diante desse quadro, fica cada
vez mais evidente que a gritaria oposicionista pode não passar de um grande
blefe. Ao tentar transformar o caso em arma contra o governo, setores da
direita podem estar construindo a infraestrutura narrativa necessária para
iluminar relações que prefeririam manter nas sombras.
Justamente
por isso o governo não deveria recuar. Nem se acuar. Em momentos de escândalo,
existe uma tendência quase automática na chamada “opinião pública”:
responsabilizar quem está no poder, ainda que não haja ligação direta com os
fatos. Se o governo permitir que a narrativa seja conduzida apenas pelos
adversários, corre o risco de ver um caso alheio cair em seu colo.
A
resposta política, portanto, precisa ser clara: investigação total. Se querem
CPI, que haja CPI. Se querem esclarecimentos, que todos os vínculos sejam
examinados. Transparência completa. E no fim das contas, pode ser que a própria
direita descubra que brincar com fogo tem consequências. Porque quando a luz se
acende de verdade, muitas vezes quem grita “pega ladrão” acaba sendo o primeiro
a sair queimado.
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Um fracasso ou um mistério? Por Moisés Mendes
Os
detalhes mais interessantes sobre as mensagens vazadas do caso Master nem
sempre estão nos conteúdos devassados. Também provoca manchetes a destreza da
Polícia Federal para acessar o que depois acaba vazando para o Globo.
A PF
abre celulares como se abrisse latas de sardinhas. Tudo parece fácil. Mas essa
mesma polícia não conseguiu abrir dois celulares inexpugnáveis do véio da
Havan, que estão até hoje sob sua custódia.
Sorte
tem o véio. Dois celulares dele estão intactos, conforme as últimas
informações, que nem são tão novas. A Polícia Federal sob o comando de Lula
abre tudo, sob ordens da Justiça. Mas a PF de Bolsonaro não abria.
Hoje, a
PF abre e destrincha. E uma turma de dentro da própria polícia escancara e
manda para Malu Gaspar. E depois até conta detalhes de como abriu, para que se
reafirme que os conteúdos são verdadeiros.
A PF
abre celulares de gente com alta proteção. Abriu celulares de Mauro Cid, do pai
do Mauro Cid, dos amigos do Mauro Cid, de generais, de golpistas e de bandidos
de todos os tamanhos.
Abriu
os quatro celulares de um advogado de Bolsonaro, todos os oito de Daniel
Vorcaro e os dos amigos de Vorcaro. A PF abre o celular que aparece na frente
dos seus peritos.
Menos
os celulares do véio da Havan. Em agosto de 2024, o ministro Alexandre de
Moraes decidiu que um inquérito sobre oito tios golpistas do zap seguiria em
frente (havia sido aberto em agosto de 2022) porque dois celulares do
empresário não haviam sido devassados pela perícia.
Seis
tios foram dispensados, e Luciano Hang e Meyer Nigri continuaram no inquérito.
Até hoje, nada. Os celulares eram e parece que ainda são impenetráveis.
Os dois
aparelhos que ficaram sob custódia de gente em postos de comando no governo de
Bolsonaro – a partir de agosto de 2022 – eram blindados a qualquer ação da PF?
Desde agosto de 2024 não se fala mais disso.
Por que
só esses dois? Sabe-se que o empresário não forneceu a senha, como todos os
investigados não fornecem, e os celulares levaram os peritos a um fracasso que
a grande imprensa não aborda. Nunca mais falaram dos aparelhos indevassáveis do
sujeito, porque também ele está blindado nos jornalões.
É uma
ironia que agora, com as notícias sobre as mensagens de Vorcaro para Moraes, as
jornalistas Malu Gaspar e Mônica Bergamo decidam contar tudo sobre como os
outros aparelhos são devassados.
São
informações fornecidas pelas próprias alas da PF que vazam informações de
interesse da direita. A PF entra e sai dos celulares com facilidade, e também
os peritos privados se divertem contando como isso é possível.
Mas
estão lá até hoje, imagina-se que agora em gavetas do necrotério dos celulares
mortos e sem autópsia, os dois aparelhos com códigos de aço do véio da Havan.
Fonte:
Brasil 247

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