INSS
perdeu 56% dos servidores e lida com onda de burnout enquanto fila de pedidos
explode
Miucha
Cicaroni, 47, vinha empurrando com a barriga os sintomas. O ritmo de trabalho
intenso e a pressão por metas continuavam causando ansiedade. Ela já havia
sofrido um burnout, um esgotamento extremo devido à realidade do trabalho, anos
antes, em 2021. Era setembro de 2025 e ela, que atuava justamente na concessão
de benefícios como o auxílio-doença a quem precisa se afastar do trabalho,
percebeu que era a hora de parar. Buscou um médico, que confirmou o
diagnóstico: um novo burnout.
A
servidora de carreira do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) de Campinas
(SP) é parte de um problema complexo que passa despercebido entre as
recorrentes críticas à lentidão do órgão para atender aposentados e segurados.
“Numa tentativa de se adaptar, a gente vai adoecendo”, afirmou Cicaroni, que
denunciou o INSS ao Ministério Público do Trabalho (MPT).
Miucha
Cicaroni, servidora do INSS, está afastada por burnout pelo trabalho no
Entre
2006 e 2025, o INSS perdeu mais de metade de seus postos de trabalho, 53% para
ser exato. Do outro lado, a demanda disparou em 80%. Metade da força de
trabalho para quase o dobro de solicitações – e a fila não para de crescer,
chegando ao marco histórico de 3 milhões de processos aguardando análise.
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Por que isso importa?
• Entender o desafio pelo qual o INSS
passa vai além das investigações da CPMI do INSS e envolve identificar os
gargalos que impedem que população seja atendida e que funcionários sofram com
condições de trabalho que só provoque aumento de fila de espera.
Segundo
dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), apenas entre 2024 e
2025, ao menos 1.871 servidores foram afastados do INSS por transtornos mentais
ou comportamentais. O número equivale a cerca de 10% da atual força de trabalho
da autarquia. Por questões de sigilo, o órgão não pode identificar quantos
servidores foram afastados por síndrome de burnout ou transtornos ligados à
atuação profissional.
Do
outro lado do “balcão”, há histórias como a de João Bernardo Amorim, que ainda
não completou dois anos, mas já enfrentou um acidente vascular cerebral (AVC)
perinatal. O garoto de Mossoró (RN) também foi diagnosticado com síndrome de
West, condição rara que combina espasmos típicos da epilepsia com atrasos no
desenvolvimento neuropsicomotor, ou seja, atrapalha seus movimentos, cognição e
até fala. Bernardo requer cuidado em tempo integral. A mãe, Claudenice Amorim,
acabou perdendo o emprego de consultora financeira.
Por
causa disso, buscou o INSS em abril de 2025, em busca do Benefício de Prestação
Continuada (BPC), auxílio a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda.
Dez meses depois, a mãe ainda aguarda para receber o dinheiro. As dificuldades
financeiras impediram a família de manter Bernardo em tratamentos necessários e
até nas sessões de fisioterapia, o que, sabem, pode comprometer o futuro da
criança.
“Essa
demora resultou na regressão dos marcos de desenvolvimento do meu filho. Ele
não está mais conseguindo ficar de pé, conseguindo sentar, ainda não fala. Eu
não voltei a trabalhar porque estou sendo exclusivamente dele. Com essa
regressão, ele precisa de mim para tudo”, relata Amorim, também mãe de uma
menina de quatro anos.
A
Agência Pública investigou dados dos últimos 20 anos para identificar os
principais gargalos que fazem a fila do INSS aumentar e o órgão lidar com a
perda de servidores. Se de um lado há estados que aguardam uma média superior a
100 dias para ter o caso sequer analisado, do outro, trabalhadores do órgão
reclamam de número insuficiente de vagas, problemas tecnológicos e condições de
trabalho que levam até ao adoecimento. O resultado vem sendo a certeza de que
apenas o esforço não tem sido capaz de fazer frente ao tamanho do problema para
manter o funcionamento da estrutura de um dos maiores sistemas de proteção
social do planeta.
Condições
de trabalho de servidores e demora no tempo de espera por benefícios estão
entre principais entraves para funcionamento da Previdência Social e a fila de
espera vem aumentando com o passar do tempo.
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Solução para falta de servidores virou problema em dobro
Menos
da metade dos 19 mil funcionários do INSS trabalham na análise de benefícios
diretamente. O último concurso aprovado para a autarquia ofertou apenas 300
vagas, frente os mais de 20 mil postos de trabalho vagos, segundo o próprio
órgão, que seguem sem preenchimento. De acordo com fontes ouvidas em reserva
pela reportagem esta seria uma espécie de “reforma administrativa silenciosa”,
que esvazia órgãos públicos a partir da não reposição de servidores.
Além da
redução da força de trabalho, servidores relatam dificuldade quanto ao processo
de digitalização dos serviços da autarquia, medida adotada justamente para
fazer frente à perda de funcionários. A implementação do INSS Digital, iniciada
em 2017 e aprofundada em 2019, se consolidou na pandemia, quando o atendimento
presencial foi suspenso. Hoje, é possível iniciar processos e movimentá-los por
meio da plataforma Meu INSS. Por um lado, isso democratizou o acesso a direitos
previdenciários e assistenciais. Por outro, abriu a porteira do órgão enquanto
o contingente de trabalhadores despencava.
No
INSS, fotocópias e pedidos em papel cederam espaço à análise automática de
documentos digitais utilizando inteligência artificial (IA). Em 2025, por
exemplo, o número de benefícios concedidos bateu recorde e foi superior a 7,6
milhões, 47% a mais que a média anual praticada seis anos antes. Mas o
crescimento não tem sido capaz de fazer frente ao aumento da demanda. Enquanto
o número de análises concluídas (benefícios concedidos ou negados) teve um
aumento de cerca de 3%, o número de requerimentos, saltou mais de 26%, passando
dos 798 mil para mais de um milhão, segundo os boletins de Transparência
Previdenciária de junho de 2023 e dezembro de 2025. A consequência é o aumento
da fila.
Para o
ex-ministro do governo Lula e atual deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS), o
problema da fila do INSS seria a manutenção dos funcionários em home office
desde a pandemia, o que seria “uma vergonha”, como classificou em
pronunciamento. Segundo a Diretoria de Gestão de Pessoas do INSS, no entanto,
54% dos trabalhadores atuam presencialmente, 40% remotamente, e outros 6% em
modelo híbrido.
O
servidor Cristiano Machado, membro da Federação Nacional de Sindicatos de
Trabalhadores em Saúde, Trabalho, Previdência e Assistência Social (Fenasps),
pontua ainda que quem trabalha remoto cumpre metas 30% superiores e prefere
arcar com os custos do trabalho diante das condições das agências. “O
mobiliário é ruim, não tem ergonomia, a internet não funciona direito. Temos
computadores rodando ainda com Windows 7 [lançado em 2009], temos agências com
problemas de infiltração quando chove”, exemplifica, destacando que é
necessário investimento na Previdência. “As pessoas não vão conseguir viver
trabalhando nesse ritmo por muito tempo”, completa.
Mas o
buraco da fila do INSS pode ser ainda mais fundo e vai além do formato de
trabalho. Se a fila para a análise de concessão bateu recorde de 3 milhões, a
manutenção dos benefícios é ainda mais desafiadora. Quando se inclui revisão de
pedidos concedidos, investigação de irregularidades e fraudes, recursos contra
decisões do instituto e outras análises, a fila passa dos 10 milhões de
pedidos, segundo reportagem do Jornal Nacional.
Para
tentar fazer frente ao problema, as gestões do órgão adotaram diversas
estratégias, incluindo mutirões, pagamentos de bônus por trabalho extra e o
Programa de Gestão e Desempenho (PGD), que estabeleceu uma pontuação para cada
tipo de tarefa. Assim, os servidores passaram a trabalhar com metas diárias:
4,27 pontos [5,55 para os que trabalham remotamente]. Uma aposentadoria por
idade, origem urbana, por exemplo, rende um ponto ao ser concluída. Por tempo
de contribuição, 1,45 ponto. Entre outros exemplos. Não cumprir o estabelecido
diariamente pode implicar em perda de gratificações, com redução salarial, e
até processo administrativo, com possibilidade de demissão.
O
problema é que não há distinção entre uma análise simples, em que o
beneficiário tenha atuado a vida toda na mesma empresa, ou mais complexa, casos
de múltiplos vínculos. Assim, servidores acabam esticando a jornada, por até 15
horas por dia, na tentativa de cumprir as metas, e alguns sentem estar sendo
responsabilizados pela “culpa” do aumento da fila, o que fontes ouvidas pela
Pública classificaram repetidas vezes como “assédio institucional”.
Marcos
[nome fictício] trabalha no INSS na região Sul e reclama das metas. “As
situações eram mais contornáveis, tinha uma relação mais humanizada entre
servidores e chefia. A partir do momento em que foi colocado esse programa, a
cobrança veio de uma forma muito mais incisiva, ameaçadora”, lembra o servidor,
também afastado há um ano por burnout e que preferiu não se identificar por
temer represálias. “No intuito de cumprir metas, acontece de o servidor não
fazer uma análise adequada. Isso acaba gerando retrabalho, prejudica a
população. Nós estamos lidando com vidas”, resume.
Entre
os servidores, outra queixa recorrente são as quedas e lentidão recorrente nos
sistemas utilizados na análise dos benefícios, geridos pela Dataprev. Segundo o
servidor Leonardo Fonseca, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores do Seguro
Social e Previdência (Sinssp), o problema é grave especialmente porque a
autarquia não abate as metas de maneira correspondente ao tempo em que os
servidores ficam impossibilitados de trabalhar. “Às vezes a gente fica um
tempão sem sistema. […] Muitas vezes eu tive que trabalhar de madrugada ou
final de semana para conseguir atingir a meta”, relata.
Em
relação ao PGD, após críticas de trabalhadores e organizações sindicais, o
programa passou por mudanças e deixou de ser obrigatório para os servidores em
escala presencial. A Pública buscou a Dataprev para entender os motivos das
limitações tecnológicas apresentadas e o INSS para responder sobre os problemas
estruturais e da fila de atendimentos.
Em
nota, a Dataprev afirmou que “entre 2024 e 2025, registrou disponibilidade
superior a 96% nas medições realizadas. Em 2026, até fevereiro, o índice
atingiu 98,63%, em linha com as metas estabelecidas contratualmente”. A estatal
destacou ainda que “para um diagnóstico completo de eventuais instabilidades, é
necessário considerar também fatores externos, como infraestruturas locais e
condições de conectividade das redes de acesso, sobre as quais a empresa não
possui controle nem visibilidade”. O órgão não apresentou a metodologia de
cálculo.
Segundo
fontes ouvidas pela Pública, o índice de 98% em 2026, apresentado pela Dataprev
foi classificado como “peça de ficção”. A insatisfação não é exclusividade do
nível de operações do órgão. A instabilidade rotineira nos sistemas foi
admitida pela própria chefia do INSS. Em ofício interno obtido pelo Metrópoles,
o presidente do órgão, Gilberto Waller Júnior, questionou a realização de uma
festa da Dataprev no início de março, que celebrava o sucesso da implementação
de uma nova plataforma. “Não há nada pra comemorar, muito pelo contrário, o
Instituto nunca teve seu trabalho tão prejudicado por falhas sistêmicas”,
criticou o presidente no documento.
Em nota
à Pública, o INSS admitiu a “redução significativa” de seu quadro de servidores
e os episódios de instabilidade dos sistemas. Afirmou que foi criado um grupo
de trabalho sobre o abatimento de metas e que elas foram estabelecidas “com
base em critérios técnicos”. A assessoria do órgão disse que não comenta
questões de saúde dos servidores e destacou ações realizadas para reduzir as
filas, como mutirões e grupos de trabalho especializados. O INSS também disse
não identificar prejuízos do teletrabalho e afirmou estar adotando medidas para
melhorar as condições de trabalho nas unidades.
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A pressa inevitável de quem espera (e precisa)
Quem
necessita acionar o INSS por um benefício ou aposentadoria tem desafios
diferentes a depender de onde viva. Até dezembro de 2025, o tempo médio de
concessão (TMC) era de 50 dias. No entanto, há uma disparidade regional
notável, com esse prazo chegando a 28 dias no Distrito Federal e a 102 dias
para quem vive no Acre.
O
estudante Vitor Hugo Sousa, 25, de Fortaleza, enfrentou um Linfoma de Hodgkin,
um câncer do sangue que tem origem no sistema linfático, entre 2024 e 2025. Ele
buscou o INSS por um auxílio-doença, mas teve que esperar mais de 120 dias para
obter o benefício. Não é caso isolado. Jacirane Oliveira Soares, 29, de Grajaú
(MA), foi atropelada e ficou com uma sequela na perna. Impedida de trabalhar
como agricultora, desde maio de 2025, a indígena Guajajara busca uma
aposentadoria por invalidez rural, ainda não concedida. A superintendência do
Nordeste é a segunda com maior prazo de atendimento entre as regionais do
órgão.
Na
década de 2010, o TMC do INSS oscilava entre menos de 20 e poucos mais de 30
dias, mas praticamente dobrou desde então. Um acordo assinado entre o INSS, o
Supremo Tribunal Federal (STF) e outros órgãos federais em 2021, estabeleceu 45
dias como limite para a maior parte dos tipos de benefício. Na prática, o tempo
de espera pode ser muito maior. A média, de 50 dias, já supera o estabelecido,
ainda assim, é um período mais curto do que os mais de 100 dias registrados
durante vários meses do governo Bolsonaro, quando houve aumento da demanda e
represamento de perícias médicas devido a pandemia de covid-19.
A fila
do INSS é um problema também pelo peso que a Previdência Social tem na economia
do país, especialmente nas pequenas cidades. Entre aposentadorias, benefícios
previdenciários, assistenciais e de legislação especial, o órgão injetou quase
R$ 1 trilhão nos lares brasileiros em 2025. A título de comparação, isso é seis
vezes mais que o orçamento do Bolsa Família para 2026, de R$ 158 bilhões. Além
disso, sete em cada 10 municípios recebem mais recursos em suas economias com
origem no INSS do que no Fundo de Participação dos Municípios (FPM).
Com
tamanho peso, é natural que a incapacidade do INSS de atender o tamanho da
demanda se reflita na crescente judicialização contra o órgão. Segundo o
Anuário da Justiça Federal de 2025, a autarquia aparecia como réu [polo
passivo] em 4,3 milhões de processos, sendo a maior litigante do país. Ainda
segundo o levantamento, o número de novos processos aumentou em 88% em quatro
anos.
No caso
de pessoas de baixa renda e sem condições de acessar um advogado, cabe à
Defensoria Pública da União (DPU) litigar contra o INSS. Em 2025, foram quase
30 mil casos do tipo. “O cidadão vulnerável, que precisa dos recursos do INSS
para a sobrevivência, para despesas básicas como alimentação, moradia e
remédios, tem passado por dificuldades extremas por conta da falta de estrutura
do órgão”, aponta o defensor público federal Felipe Kugler, subcoordenador da
Câmara de Coordenação e Revisão Previdenciária da DPU.
Para o
diretor do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBDP), Alexandre
Triches, a solução para os problemas da fila do INSS e das condições de
trabalho dos servidores passa por mais investimentos. “É preciso ter abertura
de concurso, não apenas para atendimento e análise de processos, mas também de
técnicos em TI, que possam auxiliar na modernização do órgão. A Previdência
precisa investir em inovação, precisa ter ferramentas que permitam que as
classes mais vulneráveis possam acessar de maneira mais facilitada”, aponta.
Com uma
história que remonta a mais de um século atrás, a Previdência Social brasileira
está em um momento conturbado, navegando entre escândalos investigados em CPI,
servidores com burnout e milhões de brasileiros aguardando na fila por
benefícios – sem falar na inversão da pirâmide etária que desafia a própria
lógica do sistema, com um número cada vez maior de aposentados e cada vez menor
de jovens.
No
início de 2026, o INSS solicitou ao Ministério da Gestão e Inovação em Serviços
Públicos a abertura de concurso para contratar 8,5 mil novos trabalhadores,
entre técnicos e analistas. O incremento poderia colocar o atendimento da
autarquia em um novo patamar, resta saber se para isso haverá, além de espaço
fiscal, vontade política.
Fonte:
Por Rafael Oliveira, da Agencia Pública

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