A
inconsequente política-espetáculo de Trump
Vivemos
um momento em que a política internacional passou a operar cada vez mais como
espetáculo. Em vez de enfrentar problemas estruturais, governos constroem
narrativas dramáticas que dominam o noticiário e tentam reorganizar
momentaneamente o apoio político. Como lembrava Guy Debord no livro, na nossa
sociedade do espetáculo, a realidade social é substituída por imagens e
encenações: a política torna-se uma produção permanente de narrativas, custe o
que custar.
Em
outro texto defendi que foi essa lógica que marcou o episódio do sequestro do
presidente Nicolas Maduro autorizado por Trump na Venezuela. Sigo pensando que
a retórica agressiva e violenta, as ameaças militares e as sanções econômicas
são mecanismos espetaculares que seguem funcionando menos como soluções reais e
mais como instrumentos simbólicos momentâneos para reorganizar a política
doméstica dos EUA, desviar a atenção das crises internas e tentar alimentar a
base de Trump com a imagem de um líder forte.
Agora,
porém, o espetáculo ganhou uma dimensão muito mais perigosa: ele se deslocou
para uma guerra aberta contra o Irã. Tentarei argumentar que essa lógica
espetacular continua: gerar o caos com decisões oportunas de curto prazo para
encobrir o aprofundamento das crises estadunidenses. O palco, porém, se ampliou
e os riscos agora são incomparavelmente mais altos, tanto para a humanidade,
como para a própria continuidade de Donald no poder, porque guerras, uma vez
iniciadas, tendem a seguir uma lógica própria que pode tornar incerto até mesmo
o recuo de quem as desencadeou.
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O espetáculo como método político
No
texto sobre a Venezuela, observei que guerras e intervenções passaram a
funcionar também como instrumentos de gestão simbólica do poder, organizados
como narrativas morais simplificadas: democracia contra o autoritarismo, ordem
contra o caos, bem contra o mal. Essa simplificação é essencial para a
política-espetáculo. Conflitos complexos, com raízes históricas profundas e
dinâmicas regionais intrincadas, são transformados em histórias facilmente
consumíveis pelo público. A guerra deixa de ser vista em sua brutalidade,
causadora de mortes (de civis, muitos deles crianças), destruição e
deslocamentos em massa, e passa a ser apresentada como um episódio
cinematográfico, com heróis e vilões bem definidos.
Nesse
sentido, a guerra contra o Irã se encaixa perfeitamente nessa lógica. Ela
produz imagens fortes de mísseis noturnos explodindo em cidades distantes,
discursos inflamados no Salão Oval e mapas com setas indicando movimentações de
tropas. Cria inimigos claros e inequívocos na figura dos aiatolás. Tenta gerar
alguma mobilização nacional momentânea e, ao mesmo tempo e mais importante,
desloca dia após dia a atenção pública de crises internas estadunidenses que
não param de se aprofundar.
Não é a
primeira vez que isso ocorre. Vimos bem isso operar no Brasil durante o governo
Bolsonaro: diante de uma crise real, criavam-se outras crises artificiais, o
noticiário era dominado por declarações bombásticas e depois se recuava ou
reorganizava o conflito conforme a conveniência política. Trump inaugurou esses
modus operandi com as sanções econômicas contra países como a China e o Brasil,
anunciadas com estardalhaço e depois flexibilizadas.
Nessa
lógica o caos não aparece como acidente ou efeito colateral indesejado. Ele se
torna método de governo.
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A guerra e seus financiadores internos
No caso
atual, porém, existe um fator adicional que ajuda a compreender a escalada e
que não estava tão evidente quanto no episódio venezuelano: a guerra contra o
Irã atende a interesses geopolíticos e financeiros muito poderosos,
organicamente ligados à base de sustentação do governo Trump.
A
campanha eleitoral de Trump contou com apoio financeiro decisivo de grandes
doadores alinhados ao governo israelense. Entre eles, destaca-se Miriam
Adelson, bilionária do setor de cassinos e uma das maiores financiadoras da
política republicana, que contribuiu com mais de 100 milhões de dólares para a
campanha política de Trump. Viúva de Sheldon Adelson, também megadoador, Miriam
é conhecida por seu apoio intransigente a Israel e por sua influência na
definição da política externa americana para o Oriente Médio.
Esse
tipo de financiamento não explica sozinho decisões de política externa, mas
indica o campo de forças no qual elas se desenvolvem e as pressões a que estão
submetidas. A guerra, nesse sentido, não é apenas um evento geopolítico. Ela
também está inserida em redes políticas, financeiras e ideológicas que
atravessam o sistema político norte-americano e que esperam retornos concretos
para seus investimentos de campanha.
O
Secretário de Estado, Marco Rubio, em um momento de rara sinceridade, declarou
abertamente que Israel “empurrou” os EUA para esta guerra escancarando a
subordinação da política externa americana aos interesses de um aliado e de
seus poderosos lobbies internos.
O
espetáculo político, nesse caso, mistura interesses estratégicos, pressões
geopolíticas e alianças internas. O “América Primeiro” da retórica trumpista
cedeu lugar à “Israel Primeiro” na prática concreta.
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A crise econômica por trás da encenação
Mas o
espetáculo sempre busca esconder algo mais profundo. No caso, a própria
situação econômica dos Estados Unidos, que se deteriora rapidamente.
Trump
chegou ao poder prometendo prosperidade econômica para a classe trabalhadora.
Parte significativa de seu eleitorado (incluindo trabalhadores precarizados,
setores populares e minorias que votaram no campo republicano) acreditou nessa
promessa de que a economia voltaria a crescer e os empregos bem remunerados
retornariam. Entretanto, os problemas estruturais da economia norte-americana
permanecem e, em muitos aspectos, se agravam.
As
políticas econômicas adotadas pelo governo, como a guerra tarifária contra
parceiros comerciais, já produzem efeitos inflacionários e pressões sobre o
crescimento do PIB. A elevação do custo de vida vem corroendo o poder de compra
da classe trabalhadora e a promessa trumpista de “redução de preços desde o
primeiro dia do governo” revelou-se claramente uma miragem.
Além
disso, a indústria norte-americana vem enfrentando dificuldades persistentes
que nenhum discurso nacionalista consegue reverter. Como analisa Richard
Baldwin, o processo de desindustrialização das economias centrais,
especialmente nos países do G7, reduziu drasticamente a capacidade dessas
economias de gerar empregos industriais de qualidade. Durante décadas, essas
economias concentraram a maior parte da produção manufatureira mundial, mas
essa posição foi gradualmente erodida com a globalização produtiva e a
transferência de cadeias industriais para outras regiões, notadamente a Ásia.
Os
dados são contundentes: o G7 reduziu sua participação na indústria da
transformação global de 67% em 1995 para 34% em 2022. Os Estados Unidos, apesar
de terem estabilizado sua participação em torno de 17%, viram sua base
industrial encolher e se financeirizar. O resultado é um paradoxo político que
está no cerne da atual crise: Trump prometeu restaurar a prosperidade
industrial americana, mas a própria estrutura da economia global e décadas de
políticas neoliberais tornam essa promessa materialmente impossível de se
cumprir no curto prazo de um mandato (e talvez mesmo no longo prazo por conta
da concorrência chinesa).
Quando
a prosperidade prometida não chega, o espetáculo tende a se intensificar. Criar
um inimigo externo e deflagrar uma guerra torna-se uma forma desesperada de
administrar a frustração social sem enfrentar suas causas profundas. Por um
lado, a guerra mascara o fracasso econômico.
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A erosão da confiança no dólar e a bolha da IA
Por
outro lado, a guerra pode aparecer, para certos setores do poder econômico, não
apenas como risco, mas também como uma possível saída para a crise. Uma das
formas mais conhecidas dessa tentativa histórica de reativar a economia é o
chamado keynesianismo militar, isto é, o uso do gasto público e da corrida
tecnológica associada à defesa como motor de crescimento. Nesse contexto, chama
atenção a proximidade crescente entre as grandes empresas de tecnologia —
especialmente aquelas ligadas à inteligência artificial — e o governo Trump.
Muitos dos bilionários que lideram esse setor vêm mantendo relações diretas com
o poder em Washington, seja por meio do financiamento de campanhas, da
participação em conselhos governamentais, da colaboração com as próprias forças
armadas ou, sobretudo, através de contratos públicos cada vez mais volumosos.
Essa
convergência não ocorre por acaso. A expansão da infraestrutura digital, dos
sistemas de vigilância e das tecnologias militares baseadas em IA abre mercado
gigantesco para essas empresas. Em contextos de tensão internacional e
militarização crescente, essas tecnologias tornam-se ainda mais estratégicas,
alimentando uma aproximação entre interesses corporativos e decisões de
política externa. Nesse sentido, a escalada militar envolvendo o Irã não apenas
mobiliza o espetáculo político interno, mas também pode contribuir para ampliar
gastos militares que encontram na inteligência artificial uma nova, ainda que
instável, fronteira de acumulação.
Apesar
disso, uma parte crescente dos investidores internacionais vem demonstrando
dúvidas sobre a capacidade de reação da economia americana sob o governo Trump.
Como observa Paul Krugman em artigo recente, a forte alta do preço do ouro
desde 2025 reflete o chamado debasement trade: um movimento de fuga de capitais
dos ativos americanos motivado pelo temor de inflação futura, deterioração
fiscal ou até medidas arbitrárias do governo contra investidores estrangeiros.
O comportamento dos mercados também começou a mudar. Durante décadas, más
notícias econômicas ou geopolíticas costumavam provocar uma corrida para os
ativos denominados em dólar, considerados o porto seguro do sistema financeiro
global. Agora, porém, observa-se o movimento inverso: quando surgem tensões ou
decisões erráticas em Washington, o dólar tende a cair e as taxas de juros a
subir.
Esse
ambiente de desconfiança torna-se ainda mais preocupante quando combinado com
outra vulnerabilidade estrutural da economia americana: a possível formação de
uma bolha em torno da inteligência artificial.
O valor
de mercado das empresas ligadas à IA cresceu de forma explosiva na última
década, e hoje as maiores empresas do mundo estão diretamente associadas às
expectativas de lucros futuros dessa tecnologia. Juntas, essas gigantes já
representam um valor equivalente a mais da metade do PIB americano. Esse boom
tem sido alimentado por investimentos colossais: estima-se que as empresas de
tecnologia planejem gastar cerca de 5 trilhões de dólares em infraestrutura de
IA até 2030.
O
problema é que os números não fecham. Em vez de depender principalmente de
lucros e fluxo de caixa, muitas empresas passaram a financiar sua expansão por
meio de endividamento crescente e engenharia financeira complexa. Em alguns
casos, surgem estruturas circulares de financiamento — como empresas
fornecedoras de tecnologia investindo diretamente nos próprios clientes para
garantir demanda por seus produtos. Outras companhias têm recorrido a joint
ventures com fundos financeiros para construir centros de dados, transferindo
riscos para investidores que muitas vezes não compreendem completamente a
natureza desses ativos.
Essa
dinâmica lembra, em certos aspectos, os mecanismos que antecederam a crise
financeira de 2008: crescimento acelerado sustentado por crédito, instrumentos
financeiros cada vez mais sofisticados e uma aposta generalizada de que os
retornos futuros justificarão os investimentos presentes. O problema é que os
ganhos econômicos efetivos da IA ainda são incertos. Estudos mostram que a
adoção empresarial da tecnologia tem sido mais lenta do que o esperado e que os
ganhos imediatos de produtividade permanecem limitados. Para justificar os
investimentos atuais, as empresas de IA precisariam gerar receitas gigantescas
e sustentadas ao longo do tempo — algo que ainda está longe de se confirmar.
A
economia americana passa, portanto, a combinar duas tendências potencialmente
contraditórias: de um lado, a perda gradual de confiança nos ativos financeiros
tradicionais; de outro, uma expansão ainda altamente especulativa no setor
tecnológico. Nesse cenário, a escalada militar no Oriente Médio não apenas
amplia os riscos geopolíticos, mas também adiciona instabilidade a um sistema
financeiro que já apresenta sinais claros de fragilidade estrutural, ainda que
momentaneamente sustentado pelo dinamismo (também militar) das big techs e de
outras empresas que operam no paradigma da inteligência artificial.
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Crise política e escândalos morais
O
espetáculo também serve para reorganizar crises políticas internas de natureza
ainda mais explosiva. Nos Estados Unidos, novos desdobramentos ligados aos
arquivos de Jeffrey Epstein continuam alimentando um debate público incendiário
envolvendo elites políticas, financeiras e midiáticas. O Departamento de
Justiça, pressionado pelos próprios trumpistas a cumprir a Lei de
Transparência, vem liberando levas de documentos que expõem as conexões
profundas entre a rede de pedofilia e tráfico sexual e as altas esferas do
poder mundial.
Trump
aparece em diversos registros históricos associado ao círculo social de
Epstein, tema que periodicamente retorna ao debate público e ameaça corroer sua
legitimidade pessoal e simbólica.
Em
contextos como esse, conflitos externos podem funcionar como mecanismos
poderosos de reorganização da agenda política. A guerra desloca o foco da mídia
e da opinião pública. As manchetes sobre bombardeios e movimentações de tropas
substituem manchetes sobre depoimentos comprometedores e documentos
reveladores. A crise interna desaparece temporariamente do centro do debate,
dando ao governo um respiro político precioso.
Não por
acaso, a escalada militar contra o Irã ocorre justamente no momento em que as
investigações sobre Epstein avançavam e novas listas de nomes estavam prestes a
ser divulgadas (e não o foram). O espetáculo da guerra serve, assim, a
múltiplos propósitos: alimenta a imagem do líder forte, desvia a atenção das
crises internas e enterra temporariamente os escândalos sob uma avalanche de
notícias “sérias” sobre segurança nacional.
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O risco sistêmico: quando o espetáculo pode incendiar a plateia
O
problema, porém, é que o cenário atual pode produzir efeitos econômicos e
geopolíticos muito mais amplos e incontroláveis do que aqueles previstos pelos
estrategistas políticos que imaginam controlar o espetáculo.
Diferentemente
da Venezuela, o Irã possui capacidade estratégica real de pressionar o sistema
energético do Oriente Médio, região que desempenha papel central na reciclagem
global de petrodólares, que são os excedentes financeiros acumulados pelos
exportadores de petróleo e reinvestidos em ativos financeiros ocidentais,
especialmente títulos do Tesouro americano e ações de empresas de tecnologia.
Essa
reciclagem de capitais tem sido um dos pilares da estabilidade dos mercados
financeiros globais nas últimas décadas. Os petrodólares do Golfo ajudam a
financiar o déficit público e externo estadunidense e a sustentar a demanda por
ativos financeiros. Se o conflito no Irã desestabilizar seriamente as economias
petrolíferas de países vizinhos como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e
Catar, seja por ataques diretos, seja pelo fechamento do Estreito de Ormuz, os
efeitos podem atingir diretamente o coração dos mercados financeiros
ocidentais.
Nesse
cenário frágil, uma crise geopolítica de grandes proporções poderia rapidamente
se transformar em uma crise financeira sistêmica. O estouro da bolha da IA,
combinado com uma disparada nos preços do petróleo e uma interrupção nos fluxos
de petrodólares, poderia levar a uma recessão profunda nos Estados Unidos, com
efeitos de contágio globais.
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O espetáculo e o caos
Como
foi dito, a política-espetáculo opera através da simplificação. Ela transforma
crises complexas em narrativas fáceis de consumir: heróis, inimigos e ameaças
imediatas. O líder forte que enfrenta o tirano estrangeiro, a nação unida
contra o perigo externo, a missão civilizatória de levar alguma “democracia” ao
Oriente. Mas a história raramente segue esse roteiro.
Guerras
frequentemente começam como operações limitadas, controladas por estrategistas
confiantes em sua capacidade de administrar o conflito. Os mísseis são lançados
com a expectativa de uma resposta calculada, de uma escalada controlada, de um
desfecho rápido e glorioso. O problema é que guerras têm dinâmica própria e
escapam rapidamente ao controle daqueles que as iniciam, arrastando países
inteiros para abismos imprevistos.
O
espetáculo político vive da imagem imediata, da manchete do dia, da mobilização
emocional da audiência, no curto prazo. A história, no entanto, se desenrola em
outro tempo: o tempo longo das consequências, das vidas destruídas, das
economias arrasadas, dos ódios que se perpetuam por gerações.
No caso
do confronto dos EUA e de Israel com o Irã, essa incerteza é ainda mais
profunda. Estamos diante de um adversário com capacidade de retaliar em
múltiplas frentes, de desestabilizar o mercado energético global e de arrastar
a região inteira para um conflito de consequências imprevisíveis.
A
combinação entre a lógica do espetáculo, que empurra para decisões precipitadas
e cinematográficas, e a fragilidade da economia global, sustentada por bolhas
especulativas e fluxos voláteis de capital, vem criando um cenário explosivo.
Por
isso, um antigo ditado da diplomacia continua atual e talvez nunca tenha sido
tão verdadeiro quanto agora: geralmente se sabe como uma guerra começa, mas
quase nunca sabemos como ela termina.
Arrisco
escrever que o espetáculo de Trump no Irã pode ser um dos últimos atos de um
império que, ao tentar provar sua força por meio da guerra, está apenas
exibindo publicamente suas fragilidades mais profundas.
Fonte:
Por José Paulo Guedes Pinto, em Outras Palavras

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