sexta-feira, 13 de março de 2026

Obesidade infantil causa danos vasculares precoces, indica estudo

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com 130 crianças entre 6 e 11 anos identificou que a obesidade pode causar, por si só, danos imediatos à saúde cardiovascular infantil, aumentando o risco de doenças como aterosclerose, infarto e acidente vascular cerebral (AVC) já na infância.

O trabalho, apoiado pela FAPESP (processos 21/14313-7 e 22/09352-6), identificou sinais precoces de inflamação e disfunção no endotélio – camada que reveste os vasos sanguíneos – em crianças com sobrepeso e obesidade.

“Os resultados do estudo reforçam a gravidade da obesidade infantil, mostrando que ela precisa ser revertida desde cedo. Alertamos também sobre a necessidade de políticas públicas para a redução da obesidade na infância, sobretudo em populações em vulnerabilidade socioeconômica”, afirma Maria do Carmo Pinho Franco, professora da Unifesp e autora do estudo publicado no International Journal of Obesity.

A pesquisadora explica que a obesidade promove – em adultos e crianças – uma inflamação crônica e de baixo grau que deixa o sistema de defesa do organismo em constante alerta, gerando uma sucessão de falsos alarmes e, por consequência, o envelhecimento prematuro das células imunes. No endotélio, o foco do estudo, os pesquisadores identificaram que esse processo inflamatório provoca dano celular, mesmo em crianças, o que aumenta a gravidade da obesidade infantil.

“Já era sabido que crianças com sobrepeso ou obesidade tendem a se tornar adolescentes e adultos com o mesmo problema, o que aumenta o risco de desenvolver doenças cardiovasculares e cardiometabólicas no futuro. Mas esse efeito não é apenas cumulativo. O estudo identificou que as crianças com sobrepeso ou obesidade já apresentam sinais de inflamação e disfunção endotelial, indicando que o processo de adoecimento cardiovascular começa já na infância, mesmo antes de outros fatores de risco aparecerem”, diz Franco.

“Essas crianças não fumam, não bebem e não têm décadas de maus hábitos considerados fatores de risco para doenças cardiovasculares. Trata-se também de uma população pré-púbere, ou seja, sem a influência de hormônios sexuais. O único fator presente é o excesso de peso. Portanto, a análise mostrou que a obesidade, por si só, é suficiente para iniciar um processo inflamatório crônico de baixo grau, com impacto direto na saúde vascular”, completa.

No trabalho, os pesquisadores encontraram elevação na expressão gênica da citocina inflamatória TNF-alfa em amostras de sangue das crianças com sobrepeso ou obesidade, além de um aumento dos níveis circulantes de micropartículas endoteliais (EMPs, na sigla em inglês) apoptóticas – os dois marcadores inflamatórios podem indicar dano à célula endotelial, contribuindo para um quadro de disfunção no tecido. Franco explica que, como o endotélio é considerado o orquestrador da saúde vascular, a lesão precoce nos vasos sanguíneos detectada no exame das crianças pode levar a doenças como aterosclerose, infarto e acidente vascular cerebral (AVC).

A pesquisa também mediu indicadores como índice de massa corporal (IMC), circunferência da cintura, pressão arterial e função endotelial da microvasculatura. Crianças com sobrepeso e obesidade apresentaram pior desempenho no Índice de Hiperemia Reativa (RHI, na sigla em inglês), que avalia a saúde dos microvasos, além de maior expressão do gene TNF-alfa, fator que se correlacionou com os níveis elevados de EMPs e a piora da função endotelial.

Outro aspecto importante do estudo é que ele foi conduzido com crianças atendidas em um Centro da Juventude na capital paulista. A avaliação do IMC, circunferência da cintura, pressão arterial e tonometria arterial periférica foi realizada no próprio local, com apoio de nutricionistas, médicos e enfermeiros voluntários.

As análises laboratoriais, incluindo extração de RNA e quantificação de marcadores inflamatórios por PCR (qRT-PCR), foram feitas no Departamento de Biofísica da Escola Paulista de Medicina (EPM-Unifesp).

Também foi feito um trabalho de conscientização e treinamento com merendeiras e responsáveis em que foram ensinadas receitas que substituíssem o uso de ultraprocessados no cardápio de crianças, priorizando alimentos saudáveis.

Os pesquisadores defendem a necessidade urgente de ampliar e fortalecer políticas públicas para prevenir a obesidade infantil, especialmente em comunidades com vulnerabilidade socioeconômica. “Além de todo o problema de cunho individual, sem a intervenção precoce essas crianças tendem a se tornar adultos com doenças cardiovasculares e metabólicas, o que representa um impacto preocupante para a saúde pública e para a sustentabilidade do sistema de saúde brasileiro”, alerta Franco.

•        Qual a relação entre publicidade infantil e obesidade?

A obesidade infantil é um fator de preocupação crescente em todo o mundo. Além da educação alimentar e da grande oferta de alimentos gordurosos e ultraprocessados, pesquisas sugerem que a publicidade infantil também está diretamente relacionada com o aumento dos problemas de saúde relacionados ao sobrepeso entre crianças.

A influência da propaganda na alimentação das crianças aparece entre os fatores que levam ao aumento de peso, junto com o aumento do consumo de alimentos altamente calóricos. Segundo a Comissão para Erradicar a Obesidade Infantil da Organização Mundial da Saúde (OMS), crianças e adolescentes convivem com uma exposição excessiva a alimentos com baixo valor nutricional, muitas vezes industrializados. O relatório elaborado pela comissão aconselha a restrição da publicidade de alimentos não saudáveis, assim como a prática de atividades físicas.

Existiria uma relação entre a publicidade infantil e a obesidade? Especialistas apontam as campanhas publicitárias como vilãs por estimular o consumismo no público jovem. Uma pesquisa feita pela Universidade de Dartmouth, nos Estados Unidos, indica que, mesmo inserindo alimentos saudáveis em suas propagandas, a presença de personagens, cores e brinquedos associados à marca da empresa fazia com que, em dois terços do tempo, as crianças não lembrassem da comida saudável; no terço restante, era mais provável que se lembrassem da comida não saudável.

O DataFolha fez uma pesquisa a pedido do Instituto Alana para saber a opinião de pais de crianças de até 11 anos sobre o impacto da publicidade de cadeias de fast-food em seus filhos. Os resultados mostram que uma maioria (79%) concorda que a publicidade leva as crianças a pedirem aos pais os produtos anunciados; 76% acredita que a publicidade dificulta a educação alimentar provida pelos pais no ambiente familiar. Ou seja, a publicidade foca em um público sem poder aquisitivo, que são as crianças, mesmo com a desaprovação daqueles que, de fato, são os que têm meios de comprar seus produtos.

Países como Inglaterra e França já proíbem a publicidade infantil. No caso da Inglaterra, são proibidas propagandas voltadas para crianças de até 16 anos. Já na França são veiculados anúncios de saúde positiva após anúncios de comidas com alto teor de açúcar, gordura e sódio. Atualmente, uma lei em vigor desde 2012 em Florianópolis (8.985/12) proíbe redes de fast-food de comercializarem produtos que acompanhem brindes voltados ao público infantil. É a primeira cidade do país a contar com a proibição.

<><> Algumas dicas para ajudar seu filho a comer bem

•        Muitas crianças comem enquanto veem televisão. Isso é ruim, porque a criança não presta atenção ao que come, sem diferenciar sabor ou quantidade, sendo esse último o mais perigoso, já que a criança pode acabar comendo impulsivamente. Portanto, o ideal é fazer as refeições à mesa, com horários mais ou menos fixos e regulares;

•        Parece desnecessário dizer, mas coma a mesma comida que dá para os seus filhos (até os legumes e vegetais). Crianças adoram imitar os pais e vigiam suas reações durante a refeição. Portanto, vamos comer aquele brócolis com um sorriso no rosto, já que isso ajudá seu filho ou filha a ver a alimentação saudável como algo positivo;

•        Converse com sua filha ou filho sobre de onde veio a comida de vocês. Mostre uma mudinha de feijão, uma árvore com frutos ou, se tiver acesso, um pomar ou horta para mostrar a origem dos alimentos (veja aqui como ensinar crianças a plantar sua própria comida). Fazer da sua alimentação uma atividade divertida trará uma visão positiva de alimentos saudáveis.

•        Evite produtos industrializados. Suco de caixinha, salgadinhos e balas, por exemplo. Eles possuem corantes, conservantes e demasiada quantidade de açúcar. O ideal é lançar mão de sucos naturais e misturá-los com hortaliças, como maçã com cenoura, e implementar o hábito de beber água desde cedo (hidratar-se é muito importante!);

•        Um dos atrativos da publicidade infantil é o estímulo de cores e sons. Faça da refeição algo divertido e use alimentos coloridos (milho, cenoura e beterraba são alimentos de cores fortes que fazem bem à saúde) com formas engraçadas (ovos fritos fazem as caras mais engraçadas e tiras de cenoura fazem ótimos bigodes), ou com incríveis efeitos sonoros e texturas (pepinos, cenouras e repolho fazem barulho e viram brincadeira). Só tome cuidado com os agrotóxicos (dê preferência para alimentos orgânicos).

•        Se as crianças forem grandes o suficiente, leve-as para a cozinha e faça deles seu sous-chef (o segundo comandante da cozinha) ou dê algum outro título dessa magnitude. Ensine lições importantes, como lavar bem suas verduras, aplicar soluções contra agrotóxicos (veja aqui como fazer) e diferenciar um fruto verde do maduro a partir de tarefas dignas do Príncipe ou Princesa da Cozinha (dependendo dos interesses dos seus filhos, crie títulos que os ajudem a entrar na brincadeira, como Pirata das Muitas Refeições, Cientistas Malucos do Almoço ou, até mesmo, Vingadores da Fome e da Justiça).

Lembre-se que o ideal não é colocar seus filhos em uma dieta para emagrecer em um curto período de tempo, mas reeducar sua alimentação para que eles levem a alimentação saudável para a vida, evitando não só a obesidade infantil, mas também na vida adulta. Sempre consulte um médico ou um nutricionista.

 

Fonte: Por Maria Fernanda Ziegler – Agência FAPESP/eCycle

 

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