Gibran
Jordão: Na Colômbia, Pacto Histórico interrompe sucessão de derrotas da
esquerda latino-americana
No
último domingo, 8 de março, aconteceu o processo eleitoral na Colômbia para a
renovação das vagas para Câmara e Senado. A apuração terminou nesta
terça-feira, e os números revelaram que o Pacto Histórico foi o mais votado
tanto na Câmara como no Senado. Essa vitória eleitoral nas eleições
legislativas indica uma tendência para a eleição presidencial que acontecerá em
maio deste ano. Caso Gustavo Petro consiga eleger o seu sucessor – Ivan Cepeda
–, a Colômbia poderá interromper uma onda de derrotas eleitorais da esquerda no
continente latino-americano.
Em
2022, o partido de Petro obteve 2.880.245 votos para o Senado; em 2026, sua
votação foi de 4.413.636 votos, aumentando de 20 para 25 cadeiras. Na Câmara de
Representantes, em 2022 recebeu 3.133.345 votos; em 2026 sua votação aumentou
para 4.338.702 votos, chegando a 40 cadeiras. Embora não tenha maioria absoluta
no Congresso, o Pacto Histórico se tornou o partido mais votado nas duas casas,
configurando uma imensa vitória política para as forças de esquerda no país de
Gabriel García Márquez.
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Uma onda de protestos dá à luz o Pacto Histórico em 2022
A
Colômbia passou por mobilizações sociais iniciadas em 2019 e que se
intensificaram em 2021, com greve geral e protestos de descontentamento popular
contra o governo de Iván Duque – Centro Democrático. As agruras da pandemia e a
aplicação de projetos contra direitos sociais, além da forte repressão policial
aos protestos, geraram uma situação de convulsão no país. Em fevereiro de 2021,
é lançado o Pacto Histórico, uma coalizão que tinha o objetivo de unir partidos
de esquerda e movimentos sociais para disputar as eleições legislativas e
presidenciais de 2022. Essa unidade de forças progressistas conseguiu eleger
Gustavo Petro para a presidência e uma bancada expressiva tanto na Câmara (28
cadeiras) como no Senado (20 cadeiras).
Os
partidos tradicionais da direita sofreram retrocessos eleitorais, mas suas
bancadas ainda tinham forte presença no Congresso como um todo, criando uma
situação de difícil governabilidade para Petro. Em vários momentos de sua
administração, a mobilização popular foi um recurso utilizado para aprovar
projetos de interesse da classe trabalhadora colombiana. A pressão das ruas
sobre o parlamento foi uma característica do modelo de governar do Pacto
Histórico em todas as vezes que as forças ligadas à burguesia colombiana
travavam projetos de interesse do governo ou quando organizavam iniciativas
para desestabilizar o país.
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A transformação do Pacto Histórico: de uma coligação para um partido-frente
O plano
de governo de Gustavo Petro procurou avançar em reformas estruturais na saúde
pública, no sistema de pensões, no aumento do salário mínimo, na transição
energética, na segurança alimentar e na estabilidade do país com a consigna de
Paz Total, além de episódios de embates públicos com o presidente dos Estados
Unidos – Donald Trump. A forma de governar e as políticas públicas de Petro
encontraram forte oposição das forças reacionárias do país, e a sociedade
colombiana se polarizou.
Em
junho de 2025, os partidos da coalizão que formava o Pacto Histórico decidiram
fundir-se em uma legenda única sob a personalidade jurídica de partido. Essa
movimentação se deu por dois fatores principais. A primeira motivação foi
atender às exigências da legislação eleitoral, que só permitia coligação entre
forças políticas que não tivessem ultrapassado 15% dos votos na eleição
anterior. Como o Pacto Histórico teve um desempenho muito superior a esses
critérios, os partidos parceiros desse projeto não podiam repetir a coligação
que tinha sido feita em 2022. Então, havia somente dois caminhos: lançar listas
separadas ou se fundir em uma federação de partidos com uma lista única de
candidatos sob a mesma legenda.
A
segunda opção foi o caminho escolhido e, após longas e complexas negociações e
dificuldades com a Justiça Eleitoral, conseguiram transformar o Pacto Histórico
em uma sigla única, com correntes internas e um sistema de prévias para
escolher os candidatos tanto para disputar as eleições legislativas como a
presidência da República. A Colombia Humana – partido de Petro –, o Polo
Democrático Alternativo (PDA), o Partido Comunista Colombiano, o Movimento
Alternativo Indígena e Social (MAIS), o Partido do Trabalho da Colômbia (PTC),
grupos ambientalistas, movimentos indígenas, partidos de centro-esquerda, entre
outras forças políticas, passaram a fazer parte do Pacto Histórico, agora não
mais como uma pragmática coligação, mas como uma frente de vários partidos sob
uma mesma sigla e personalidade jurídica.
A
segunda motivação estratégica para essa transformação visava eliminar a
dispersão de votos inerente ao sistema de coalizões e fortalecer a marca
“Pacto” perante o eleitorado, reforçando um sentimento de unidade da esquerda
para dar continuidade a um projeto de interesse do povo colombiano contra o
projeto das elites reacionárias, sócias menores do imperialismo americano.
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A vitória nas eleições legislativas indica o favoritismo de Ivan Cepeda?
Nas
eleições para a renovação das cadeiras da Câmara e do Senado, o Pacto Histórico
mostrou ser a maior força política do país, conseguindo o maior número de
cadeiras nas duas casas. As prévias do partido mobilizaram milhares de
eleitores que escolheram Ivan Cepeda como candidato à presidência da República.
Ele foi fundador do Movimento Nacional de Vítimas de Crimes de Estado – MOVICE.
Sua participação na política se deu após a morte de seu pai, o senador Manuel
Cepeda Vargas, líder da União Patriótica assassinado em 1994. Ele também é
senador pela coalizão Pacto Histórico e um dos principais articuladores das
negociações de paz do governo Petro com grupos armados.
As
pesquisas em geral mostram que Cepeda é o grande favorito para vencer o
primeiro turno das eleições, devido à grande fragmentação de forças das
candidaturas da direita e da extrema direita. Mas tudo indica que a eleição
presidencial colombiana terá um segundo turno acirradíssimo, e não é possível
dizer quem será o adversário das forças reacionárias que irá para o segundo
turno. O candidato de extrema direita Abelardo de la Espriella (Salvación
Nacional) é um dos favoritos a enfrentar Ivan Cepeda no segundo turno.
Embora
o Pacto Histórico tenha conseguido as maiores bancadas do Congresso Nacional,
as forças de direita e extrema direita, como o Centro Democrático e o Salvación
Nacional, também tiveram votações muito expressivas, aumentando
significativamente suas bancadas no Congresso Nacional, tanto na Câmara como no
Senado. O fato de as forças de direita estarem fragmentadas em várias siglas
pode dar a impressão de estarem fragilizadas para a disputa presidencial, mas,
em um possível segundo turno, a unidade de todas as forças da direita em torno
de um candidato específico, sem dúvida nenhuma, deixa a disputa em aberto e
totalmente imprevisível, mesmo que Cepeda seja o favorito.
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O Pacto Histórico mostra o caminho para a América Latina…
A
experiência política do Pacto Histórico tem demonstrado que a unidade das
forças de esquerda é um caminho acertado para enfrentar a extrema direita
latino-americana, que é sócia menor do imperialismo estadunidense.
Especialmente pelo fato de conseguir aglutinar várias frações do espectro de
esquerda e centro-esquerda do país em uma frente única tanto para organizar
lutas específicas como para governar.
O
governo de Petro, em aliança com os movimentos sociais e em mobilização
permanente para fazer avançar reformas estruturais que se chocam contra os
interesses da elite colombiana, está sendo bem reconhecido e reivindicado por
milhões de trabalhadoras e trabalhadores das mais variadas regiões da Colômbia.
Mas é preciso observar que a polarização do país indica que, para superar os
ciclos históricos de dependência e construir um projeto de desenvolvimento
nacional soberano, ainda será um longo caminho. As frações da direita e da
extrema direita colombiana, em aliança com o imperialismo ocidental, ainda têm
bastante força para desestabilizar o país e impedir o avanço das forças
progressistas. Sem dúvida nenhuma, a Colômbia hoje é um polo de resistência no
continente, onde as forças reacionárias vêm avançando no último período e
vencendo a maioria dos processos eleitorais. A vitória ou a derrota do Pacto
Histórico no primeiro semestre deste ano na disputa da presidência da República
vai impactar, para o bem ou para o mal, o resultado das eleições no Brasil no
segundo semestre de 2026.
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Lula e Petro conversam sobre pressão dos EUA para
classificar PCC e CV como terroristas
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou por telefone nesta quarta-feira
(11) com o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, em meio à crescente pressão
dos Estados Unidos para classificar facções criminosas brasileiras como
organizações terroristas. A ligação ocorreu pela manhã e, segundo o Palácio do
Planalto, tratou principalmente da agenda política regional e da coordenação
entre países da América Latina. O diálogo acontece em um momento de preocupação
do governo brasileiro com a possibilidade de Washington incluir o Primeiro
Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) na lista de organizações
terroristas estrangeiras. A eventual classificação pelas autoridades americanas
abriria espaço para sanções financeiras e outras medidas internacionais contra
integrantes das facções. No governo brasileiro, também há receio de que a
decisão possa servir de base jurídica para ações extraterritoriais de combate
ao crime organizado.
O tema
tem mobilizado o Itamaraty e o Palácio do Planalto nas últimas semanas. O
ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, chegou a discutir a proposta em
contato com autoridades dos Estados Unidos, numa tentativa de evitar que a
medida seja formalizada. Embora a conversa entre Lula e Petro tenha sido
oficialmente apresentada como parte da articulação política regional, o debate
sobre segurança e soberania ganhou peso no contexto da ligação. Segundo o
Planalto, os dois presidentes também discutiram os preparativos para a próxima
Cúpula da CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), marcada
para o dia 21 de março em Bogotá. Durante o telefonema, Petro informou a Lula
sobre uma reunião prevista entre países da CELAC e nações africanas, que deve
ocorrer na mesma data do encontro regional.
A
cúpula é vista por diplomatas como um espaço para ampliar a coordenação
política entre países da América Latina em um momento de tensões geopolíticas
mais amplas, que envolvem disputas comerciais, segurança regional e a atuação
de potências externas. Além da agenda regional, os dois líderes também
confirmaram presença em um evento internacional que discutirá temas ligados à
democracia. Lula e Petro devem participar da quarta edição do encontro “Em
Defesa da Democracia”, organizado pelo governo da Espanha e previsto para
ocorrer em Barcelona no dia 18 de abril. O telefonema entre os dois presidentes
ocorre poucos dias após Lula levantar publicamente preocupações sobre segurança
e defesa nacional. Na segunda-feira (9), durante visita de Estado do presidente
da África do Sul, Cyril Ramaphosa, o presidente brasileiro afirmou que o país
precisa estar preparado para possíveis ameaças externas. “Se a gente não se
preparar na questão de defesa, qualquer dia alguém invade a gente”, declarou
Lula durante cerimônia no Palácio do Planalto. A fala foi interpretada por
integrantes do governo como uma referência indireta às discussões nos Estados
Unidos sobre a classificação de facções brasileiras como organizações
terroristas.
Nos
bastidores diplomáticos, autoridades brasileiras avaliam que a eventual decisão
americana poderia gerar impactos políticos e econômicos relevantes.Entre as
consequências possíveis estão o congelamento de ativos ligados às organizações,
restrições a transações financeiras e maior pressão internacional sobre países
onde essas redes criminosas atuam. Além disso, especialistas apontam que o
enquadramento de grupos criminosos como organizações terroristas altera o
tratamento jurídico e estratégico dado a essas redes, abrindo espaço para
medidas mais duras de cooperação internacional no combate ao crime organizado.
·
‘Boric conclui mandato com esquerda chilena de joelhos’,
avalia cientista política
O Chile
realizou nesta quarta-feira (11/03) a cerimônia de transição que marca o fim
do governo de centro-esquerda de Gabriel
Boric e
a posse do líder da extrema direita do país, José Antonio Kast. Segundo a
analista política María Francisca Quiroga, mestra em Ciências Políticas pela
Universidade do Chile, professora da Academia Diplomática Andrés Bello e
diretora-chefe do meio alternativo La Voz de los que Sobran, o evento encerra um
mandato de centro-esquerda que foi “bastante medíocre em termos de políticas
públicas, pois não deixou nenhum legado duradouro”.
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Leia a entrevista:
·
Que é a avaliação dos quatro anos de Gabriel Boric como
presidente do Chile?
María
Francisca Quiroga: Foi
um governo que, em seu início, era repleto de simbolismo, com um componente
geracional muito importante pelos líderes estudantis que ascenderam ao poder
muito rapidamente, e que vieram dessa matriz política ao estilo da Concertación
– podemos dizer que eles eram os “filhos” da Concertación, em termos
ideológicos –, e que chegaram ao poder sem passar pelas estruturas partidárias
tradicionais, como o Partido Socialista, a Juventude Socialista. No entanto, em
última análise, eles tinham um problema central: a falta de capacidade técnica
e de uma narrativa política. Permaneceram presos aos slogans que tinham como
movimento estudantil, sobre como confrontar o neoliberalismo e outros
problemas.
Sem a
expertise técnica e as equipes necessárias, Boric acabou governando com os
remanescentes da Concertación, com membros do Partido Socialista e, em menor
medida, com alguns membros da Democracia Cristã, partidos que estavam em
completa crise.
Do
ponto de vista das políticas públicas, seu governo foi bastante medíocre, pois
não deixou nenhum legado duradouro. A reforma previdenciária e a jornada de
trabalho de 40 horas semanais são suas principais vitórias, mas não veio junto
com uma mudança mais abrangente na relação entre capital e trabalho: o
movimento sindical tem menos poder do que antes, e as administradoras de fundos
de pensão (AFPs, empresas de previdência privada) foram fortalecidas.
O
grande símbolo deste governo talvez seja o de não usar gravata, algo que o
presidente conseguiu manter do primeiro ao último dia, mas que é uma marca
meramente estética, que é característica de certos quadros da Frente Ampla e
alguns do Partido Comunista.
·
Como você acha que Boric será lembrado? Ele poderia ser
presidente novamente no futuro?
Boric
tem um futuro político pela frente. Ele cumpriu 40 anos recentemente, terá
tempo para se reinventar e inclusive está reconstruindo sua estrutura
político-partidária. Mesmo com a esquerda em crise e a opinião pública se
deslocando para a direita, ele poderia voltar a ser uma figura política
relevante no futuro, com o voto obrigatório. Será preciso avaliar como seu
discurso se mantém vigente ao longo do tempo em questões como economia e
segurança. Certamente, também vai depender do que acontecer com o governo de
Kast. Desde que o Chile implementou o voto obrigatório (em 2020), a cena
política se tornou muito volátil. Isso faz com que os partidos precisem
fortalecer o seu trabalho de base, e a Frente Ampla tem muito pouco trabalho de
base, depende das redes sociais e de certos grupos urbanos. No aspecto pessoal,
Boric será lembrado como um presidente jovem, acessível, que andava de
bicicleta, não usava gravata, que encontrou o amor quando era presidente e que
teve uma filha durante o seu mandato. Se você pensar bem, essa é a narrativa.
Esse personagem doce e emotivo, o homem que amadurece, é muito valorizado por
setores liberais. Acho que Boric conquistou nesses quatro anos foi ser muito
bem visto pelo mundo liberal, pelos socialistas neoliberais. O liberalismo o vê
como uma figura atraente. Mas do ponto de vista do seu setor político, não
deixa uma boa impressão. No momento, a esquerda também está de joelhos no
Chile, e os movimentos sociais também estão de joelhos. É um governo que acaba
desmantelando os movimentos sociais e deixando as bases mobilizadas ainda mais
desmobilizadas.
·
O que se pode esperar do governo de José Antonio Kast?
Qual é o seu projeto?
Se
trata de uma figura conservadora, católica e formada por Jaime Guzmán, que foi
o ideólogo da ditadura de Pinochet (1973-1990). Surgiu na União Democrata
Independente (UDI), partido símbolo do pinochetismo, mas, nos últimos oito
anos, ele se transformou nessa figura ligada à extrema-direita internacional,
empregou todas as estratégias de comunicação, construiu o Partido Republicano e
derrotou a própria UDI e o Renovação Nacional (RN), outro partido tradicional
da direita. De certa forma, ele é um fenômeno muito semelhante ao de Boric, mas
à direita. E, assim como Boric inspirava novos ares à esquerda, mas terminou
governando como a esquerda tradicional, Kast ascendeu como uma novidade na
direita, mas tende a governar como a direita tradicional. Será um governo
sintonizado com o setor empresarial, com essa estrutura econômica neoliberal e,
por outro lado, com um forte foco no desempenho da comunicação, com um forte
componente estético de rechaço ao que fez a Frente Ampla, o retorno da gravata
será o símbolo da restauração da ordem. Há um projeto político-econômico de
redução do tamanho do Estado. Acho que isso vai ser bem brutal, porque o Chile
é um país com um Estado bastante reduzido e uma estrutura neoliberal. O Chile
já teve reformas neoliberais durante a ditadura, e elas foram mantidas nos
governos de centro-esquerda da Concertação. Um dos seus desafios será como
alimentar sua base e a expectativa em relação ao governo de emergência, que
servirá de estrutura para tudo. O eleitorado chileno está atualmente
impaciente, indignado, e o humor pode mudar de um momento para o outro. Ele é
conservador, vai buscar alianças ideológicas e baseadas em valores dos Estados
Unidos e em uma sintonia com Donald Trump.
·
Como Kast conseguirá equilibrar essa afinidade ideológica
com Trump e a necessidade econômica do Chile de manter suas relações com a
China, mesmo com o presidente americano exigindo que seus aliados se distanciem
do gigante asiático?
Será um
dos seus maiores desafios. Todo o setor empresarial chileno está fortemente
atrelado à China, os negócios são e seguirão sendo com a China. Kast aposta no
fato de que os chineses são pragmáticos, e a direita chilena sabe manter essa
abordagem nas negociações. Mas, se os Estados Unidos impuserem novas regras ao
jogo sobre a relação dos países do continente com a China, creio que o governo
se inclinará a ceder aos elementos mais políticos e simbólicos de Washington, o
que pode ser um problema para a relação com o setor empresarial chileno, que
prefere manter a paz com Pequim. Esse pragmatismo, baseado na lógica de que as
empresas chilenas criarão negócios com a China e os Estados Unidos, deu certo
nos últimos anos, mas não sei se haverá espaço para manobrar a partir da
postura adotada por Trump em seu atual mandato. Nesse sentido, o governo terá
que encontrar mecanismos para lidar com cenários de maior confrontação entre
China e Estados Unidos, com a consciência de que a economia chilena é altamente
dependente, todo o setor do agronegócio e, obviamente, toda a mineração,
dependem da China. Ademais, temos que observar a nossa concorrência com relação
ao Peru nesse sentido. É um país que vive uma crise política permanente, mas
ainda assim, se trata de um país que está avançando em suas relações com a
China e concorre com o Chile nos mesmos setores de mineração e agronegócio.
·
O que pode mudar na relação com o Brasil? Boric era um
aliado de Lula. Kast será mais hostil?
Certamente,
haverá um distanciamento político-cultural. Porém, lembremos que Boric, no
início do seu governo, foi bastante inábil em seu posicionamento com o mundo
progressista latino-americano, por suas declarações sobre a Venezuela, e a
decisão de fazer suas primeiras viagens internacionais à Europa. Melhorou com o
tempo, especialmente quando compreendeu a importância de Lula como figura e da
relação geopolítica com o Brasil. Acho que ele desenvolveu certa experiência ao
se aproximar de Lula e outros presidentes da região, e no caso de Lula acho que
se configurou uma relação de aprendizagem, que ajudou Boric a entender certas
questões. A partir daí, o Chile começou a adotar uma posição clara de seus
líderes em relação ao Brasil, com Pedro Sánchez na Espanha, com Petro na
Colômbia, que tem um estilo diferente, e Claudia Sheinbaum no México. Sobre
Kast, acho que ele compreende que o Brasil é muito importante para a economia
chilena, e desde essa perspectiva, com um Ministério das Relações Exteriores
muito voltado para os negócios, tentará encontrar um equilíbrio. No entanto,
começou mal, ao priorizar o filho de Bolsonaro e fazer com que Lula desista de
comparecer à posse. Esse tipo de erro não é bem recebido pelo mundo empresarial
e quem sustenta o projeto de Kast é a elite empresarial.
·
Com Kast na presidência, é possível que o Chile retire
seu apoio à candidatura de Bachelet para secretária-geral da ONU?
A
candidatura de Bachelet tem uma transcendência muito grande no Chile, que é um
país que valoriza o sucesso. O Chile é um país que tem essa natureza insular,
cercado pelo oceano de um lado e por essa gigantesca cadeia de montanhas do
outro, que criam um isolamento geográfico muito peculiar. Talvez por isso nós
gostamos de ter figuras reconhecidas internacionalmente, que obtém sucesso do
lado de lá do oceano e da cordilheira, e acho que Bachelet se encaixa nessa
descrição. Mesmo quem não gosta da Bachelet ou que critica seus dois mandatos
presidenciais a valoriza como uma mulher que teve sucesso na política e seu
sucesso em esferas internacionais. Por isso, acho que Kast tende a ser
pragmático nesse aspecto. Ele precisa manter um alto índice de aprovação e
trabalhar com tudo relacionado à performance de comunicação, porque não
conseguirá cumprir todas as promessas em relação ao combate crime e outras
questões programáticas. Fazer essa confrontação com Bachelet por mero capricho
ideológico pode significar um desgaste comunicacional que prejudicaria sua
estratégia.
Fonte:
Brasil 247/O Cafezinho/Opera Mundi

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