sexta-feira, 13 de março de 2026

Gibran Jordão: Na Colômbia, Pacto Histórico interrompe sucessão de derrotas da esquerda latino-americana

No último domingo, 8 de março, aconteceu o processo eleitoral na Colômbia para a renovação das vagas para Câmara e Senado. A apuração terminou nesta terça-feira, e os números revelaram que o Pacto Histórico foi o mais votado tanto na Câmara como no Senado. Essa vitória eleitoral nas eleições legislativas indica uma tendência para a eleição presidencial que acontecerá em maio deste ano. Caso Gustavo Petro consiga eleger o seu sucessor – Ivan Cepeda –, a Colômbia poderá interromper uma onda de derrotas eleitorais da esquerda no continente latino-americano.

Em 2022, o partido de Petro obteve 2.880.245 votos para o Senado; em 2026, sua votação foi de 4.413.636 votos, aumentando de 20 para 25 cadeiras. Na Câmara de Representantes, em 2022 recebeu 3.133.345 votos; em 2026 sua votação aumentou para 4.338.702 votos, chegando a 40 cadeiras. Embora não tenha maioria absoluta no Congresso, o Pacto Histórico se tornou o partido mais votado nas duas casas, configurando uma imensa vitória política para as forças de esquerda no país de Gabriel García Márquez.

<><> Uma onda de protestos dá à luz o Pacto Histórico em 2022

A Colômbia passou por mobilizações sociais iniciadas em 2019 e que se intensificaram em 2021, com greve geral e protestos de descontentamento popular contra o governo de Iván Duque – Centro Democrático. As agruras da pandemia e a aplicação de projetos contra direitos sociais, além da forte repressão policial aos protestos, geraram uma situação de convulsão no país. Em fevereiro de 2021, é lançado o Pacto Histórico, uma coalizão que tinha o objetivo de unir partidos de esquerda e movimentos sociais para disputar as eleições legislativas e presidenciais de 2022. Essa unidade de forças progressistas conseguiu eleger Gustavo Petro para a presidência e uma bancada expressiva tanto na Câmara (28 cadeiras) como no Senado (20 cadeiras).

Os partidos tradicionais da direita sofreram retrocessos eleitorais, mas suas bancadas ainda tinham forte presença no Congresso como um todo, criando uma situação de difícil governabilidade para Petro. Em vários momentos de sua administração, a mobilização popular foi um recurso utilizado para aprovar projetos de interesse da classe trabalhadora colombiana. A pressão das ruas sobre o parlamento foi uma característica do modelo de governar do Pacto Histórico em todas as vezes que as forças ligadas à burguesia colombiana travavam projetos de interesse do governo ou quando organizavam iniciativas para desestabilizar o país.

<><> A transformação do Pacto Histórico: de uma coligação para um partido-frente

O plano de governo de Gustavo Petro procurou avançar em reformas estruturais na saúde pública, no sistema de pensões, no aumento do salário mínimo, na transição energética, na segurança alimentar e na estabilidade do país com a consigna de Paz Total, além de episódios de embates públicos com o presidente dos Estados Unidos – Donald Trump. A forma de governar e as políticas públicas de Petro encontraram forte oposição das forças reacionárias do país, e a sociedade colombiana se polarizou.

Em junho de 2025, os partidos da coalizão que formava o Pacto Histórico decidiram fundir-se em uma legenda única sob a personalidade jurídica de partido. Essa movimentação se deu por dois fatores principais. A primeira motivação foi atender às exigências da legislação eleitoral, que só permitia coligação entre forças políticas que não tivessem ultrapassado 15% dos votos na eleição anterior. Como o Pacto Histórico teve um desempenho muito superior a esses critérios, os partidos parceiros desse projeto não podiam repetir a coligação que tinha sido feita em 2022. Então, havia somente dois caminhos: lançar listas separadas ou se fundir em uma federação de partidos com uma lista única de candidatos sob a mesma legenda.

A segunda opção foi o caminho escolhido e, após longas e complexas negociações e dificuldades com a Justiça Eleitoral, conseguiram transformar o Pacto Histórico em uma sigla única, com correntes internas e um sistema de prévias para escolher os candidatos tanto para disputar as eleições legislativas como a presidência da República. A Colombia Humana – partido de Petro –, o Polo Democrático Alternativo (PDA), o Partido Comunista Colombiano, o Movimento Alternativo Indígena e Social (MAIS), o Partido do Trabalho da Colômbia (PTC), grupos ambientalistas, movimentos indígenas, partidos de centro-esquerda, entre outras forças políticas, passaram a fazer parte do Pacto Histórico, agora não mais como uma pragmática coligação, mas como uma frente de vários partidos sob uma mesma sigla e personalidade jurídica.

A segunda motivação estratégica para essa transformação visava eliminar a dispersão de votos inerente ao sistema de coalizões e fortalecer a marca “Pacto” perante o eleitorado, reforçando um sentimento de unidade da esquerda para dar continuidade a um projeto de interesse do povo colombiano contra o projeto das elites reacionárias, sócias menores do imperialismo americano.

<><> A vitória nas eleições legislativas indica o favoritismo de Ivan Cepeda?

Nas eleições para a renovação das cadeiras da Câmara e do Senado, o Pacto Histórico mostrou ser a maior força política do país, conseguindo o maior número de cadeiras nas duas casas. As prévias do partido mobilizaram milhares de eleitores que escolheram Ivan Cepeda como candidato à presidência da República. Ele foi fundador do Movimento Nacional de Vítimas de Crimes de Estado – MOVICE. Sua participação na política se deu após a morte de seu pai, o senador Manuel Cepeda Vargas, líder da União Patriótica assassinado em 1994. Ele também é senador pela coalizão Pacto Histórico e um dos principais articuladores das negociações de paz do governo Petro com grupos armados.

As pesquisas em geral mostram que Cepeda é o grande favorito para vencer o primeiro turno das eleições, devido à grande fragmentação de forças das candidaturas da direita e da extrema direita. Mas tudo indica que a eleição presidencial colombiana terá um segundo turno acirradíssimo, e não é possível dizer quem será o adversário das forças reacionárias que irá para o segundo turno. O candidato de extrema direita Abelardo de la Espriella (Salvación Nacional) é um dos favoritos a enfrentar Ivan Cepeda no segundo turno.

Embora o Pacto Histórico tenha conseguido as maiores bancadas do Congresso Nacional, as forças de direita e extrema direita, como o Centro Democrático e o Salvación Nacional, também tiveram votações muito expressivas, aumentando significativamente suas bancadas no Congresso Nacional, tanto na Câmara como no Senado. O fato de as forças de direita estarem fragmentadas em várias siglas pode dar a impressão de estarem fragilizadas para a disputa presidencial, mas, em um possível segundo turno, a unidade de todas as forças da direita em torno de um candidato específico, sem dúvida nenhuma, deixa a disputa em aberto e totalmente imprevisível, mesmo que Cepeda seja o favorito.

<><> O Pacto Histórico mostra o caminho para a América Latina…

A experiência política do Pacto Histórico tem demonstrado que a unidade das forças de esquerda é um caminho acertado para enfrentar a extrema direita latino-americana, que é sócia menor do imperialismo estadunidense. Especialmente pelo fato de conseguir aglutinar várias frações do espectro de esquerda e centro-esquerda do país em uma frente única tanto para organizar lutas específicas como para governar.

O governo de Petro, em aliança com os movimentos sociais e em mobilização permanente para fazer avançar reformas estruturais que se chocam contra os interesses da elite colombiana, está sendo bem reconhecido e reivindicado por milhões de trabalhadoras e trabalhadores das mais variadas regiões da Colômbia. Mas é preciso observar que a polarização do país indica que, para superar os ciclos históricos de dependência e construir um projeto de desenvolvimento nacional soberano, ainda será um longo caminho. As frações da direita e da extrema direita colombiana, em aliança com o imperialismo ocidental, ainda têm bastante força para desestabilizar o país e impedir o avanço das forças progressistas. Sem dúvida nenhuma, a Colômbia hoje é um polo de resistência no continente, onde as forças reacionárias vêm avançando no último período e vencendo a maioria dos processos eleitorais. A vitória ou a derrota do Pacto Histórico no primeiro semestre deste ano na disputa da presidência da República vai impactar, para o bem ou para o mal, o resultado das eleições no Brasil no segundo semestre de 2026.

¨      Lula e Petro conversam sobre pressão dos EUA para classificar PCC e CV como terroristas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou por telefone nesta quarta-feira (11) com o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, em meio à crescente pressão dos Estados Unidos para classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. A ligação ocorreu pela manhã e, segundo o Palácio do Planalto, tratou principalmente da agenda política regional e da coordenação entre países da América Latina. O diálogo acontece em um momento de preocupação do governo brasileiro com a possibilidade de Washington incluir o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) na lista de organizações terroristas estrangeiras. A eventual classificação pelas autoridades americanas abriria espaço para sanções financeiras e outras medidas internacionais contra integrantes das facções. No governo brasileiro, também há receio de que a decisão possa servir de base jurídica para ações extraterritoriais de combate ao crime organizado.

O tema tem mobilizado o Itamaraty e o Palácio do Planalto nas últimas semanas. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, chegou a discutir a proposta em contato com autoridades dos Estados Unidos, numa tentativa de evitar que a medida seja formalizada. Embora a conversa entre Lula e Petro tenha sido oficialmente apresentada como parte da articulação política regional, o debate sobre segurança e soberania ganhou peso no contexto da ligação. Segundo o Planalto, os dois presidentes também discutiram os preparativos para a próxima Cúpula da CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), marcada para o dia 21 de março em Bogotá. Durante o telefonema, Petro informou a Lula sobre uma reunião prevista entre países da CELAC e nações africanas, que deve ocorrer na mesma data do encontro regional.

A cúpula é vista por diplomatas como um espaço para ampliar a coordenação política entre países da América Latina em um momento de tensões geopolíticas mais amplas, que envolvem disputas comerciais, segurança regional e a atuação de potências externas. Além da agenda regional, os dois líderes também confirmaram presença em um evento internacional que discutirá temas ligados à democracia. Lula e Petro devem participar da quarta edição do encontro “Em Defesa da Democracia”, organizado pelo governo da Espanha e previsto para ocorrer em Barcelona no dia 18 de abril. O telefonema entre os dois presidentes ocorre poucos dias após Lula levantar publicamente preocupações sobre segurança e defesa nacional. Na segunda-feira (9), durante visita de Estado do presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, o presidente brasileiro afirmou que o país precisa estar preparado para possíveis ameaças externas. “Se a gente não se preparar na questão de defesa, qualquer dia alguém invade a gente”, declarou Lula durante cerimônia no Palácio do Planalto. A fala foi interpretada por integrantes do governo como uma referência indireta às discussões nos Estados Unidos sobre a classificação de facções brasileiras como organizações terroristas.

Nos bastidores diplomáticos, autoridades brasileiras avaliam que a eventual decisão americana poderia gerar impactos políticos e econômicos relevantes.Entre as consequências possíveis estão o congelamento de ativos ligados às organizações, restrições a transações financeiras e maior pressão internacional sobre países onde essas redes criminosas atuam. Além disso, especialistas apontam que o enquadramento de grupos criminosos como organizações terroristas altera o tratamento jurídico e estratégico dado a essas redes, abrindo espaço para medidas mais duras de cooperação internacional no combate ao crime organizado.

·        ‘Boric conclui mandato com esquerda chilena de joelhos’, avalia cientista política

O Chile realizou nesta quarta-feira (11/03) a cerimônia de transição que marca o fim do governo de centro-esquerda de Gabriel Boric e a posse do líder da extrema direita do país, José Antonio Kast. Segundo a analista política María Francisca Quiroga, mestra em Ciências Políticas pela Universidade do Chile, professora da Academia Diplomática Andrés Bello e diretora-chefe do meio alternativo La Voz de los que Sobran, o evento encerra um mandato de centro-esquerda que foi “bastante medíocre em termos de políticas públicas, pois não deixou nenhum legado duradouro”.

<><> Leia a entrevista:

·        Que é a avaliação dos quatro anos de Gabriel Boric como presidente do Chile?

María Francisca Quiroga: Foi um governo que, em seu início, era repleto de simbolismo, com um componente geracional muito importante pelos líderes estudantis que ascenderam ao poder muito rapidamente, e que vieram dessa matriz política ao estilo da Concertación – podemos dizer que eles eram os “filhos” da Concertación, em termos ideológicos –, e que chegaram ao poder sem passar pelas estruturas partidárias tradicionais, como o Partido Socialista, a Juventude Socialista. No entanto, em última análise, eles tinham um problema central: a falta de capacidade técnica e de uma narrativa política. Permaneceram presos aos slogans que tinham como movimento estudantil, sobre como confrontar o neoliberalismo e outros problemas.

Sem a expertise técnica e as equipes necessárias, Boric acabou governando com os remanescentes da Concertación, com membros do Partido Socialista e, em menor medida, com alguns membros da Democracia Cristã, partidos que estavam em completa crise.

Do ponto de vista das políticas públicas, seu governo foi bastante medíocre, pois não deixou nenhum legado duradouro. A reforma previdenciária e a jornada de trabalho de 40 horas semanais são suas principais vitórias, mas não veio junto com uma mudança mais abrangente na relação entre capital e trabalho: o movimento sindical tem menos poder do que antes, e as administradoras de fundos de pensão (AFPs, empresas de previdência privada) foram fortalecidas.

O grande símbolo deste governo talvez seja o de não usar gravata, algo que o presidente conseguiu manter do primeiro ao último dia, mas que é uma marca meramente estética, que é característica de certos quadros da Frente Ampla e alguns do Partido Comunista.

·        Como você acha que Boric será lembrado? Ele poderia ser presidente novamente no futuro?

Boric tem um futuro político pela frente. Ele cumpriu 40 anos recentemente, terá tempo para se reinventar e inclusive está reconstruindo sua estrutura político-partidária. Mesmo com a esquerda em crise e a opinião pública se deslocando para a direita, ele poderia voltar a ser uma figura política relevante no futuro, com o voto obrigatório. Será preciso avaliar como seu discurso se mantém vigente ao longo do tempo em questões como economia e segurança. Certamente, também vai depender do que acontecer com o governo de Kast. Desde que o Chile implementou o voto obrigatório (em 2020), a cena política se tornou muito volátil. Isso faz com que os partidos precisem fortalecer o seu trabalho de base, e a Frente Ampla tem muito pouco trabalho de base, depende das redes sociais e de certos grupos urbanos. No aspecto pessoal, Boric será lembrado como um presidente jovem, acessível, que andava de bicicleta, não usava gravata, que encontrou o amor quando era presidente e que teve uma filha durante o seu mandato. Se você pensar bem, essa é a narrativa. Esse personagem doce e emotivo, o homem que amadurece, é muito valorizado por setores liberais. Acho que Boric conquistou nesses quatro anos foi ser muito bem visto pelo mundo liberal, pelos socialistas neoliberais. O liberalismo o vê como uma figura atraente. Mas do ponto de vista do seu setor político, não deixa uma boa impressão. No momento, a esquerda também está de joelhos no Chile, e os movimentos sociais também estão de joelhos. É um governo que acaba desmantelando os movimentos sociais e deixando as bases mobilizadas ainda mais desmobilizadas.

·        O que se pode esperar do governo de José Antonio Kast? Qual é o seu projeto?

Se trata de uma figura conservadora, católica e formada por Jaime Guzmán, que foi o ideólogo da ditadura de Pinochet (1973-1990). Surgiu na União Democrata Independente (UDI), partido símbolo do pinochetismo, mas, nos últimos oito anos, ele se transformou nessa figura ligada à extrema-direita internacional, empregou todas as estratégias de comunicação, construiu o Partido Republicano e derrotou a própria UDI e o Renovação Nacional (RN), outro partido tradicional da direita. De certa forma, ele é um fenômeno muito semelhante ao de Boric, mas à direita. E, assim como Boric inspirava novos ares à esquerda, mas terminou governando como a esquerda tradicional, Kast ascendeu como uma novidade na direita, mas tende a governar como a direita tradicional. Será um governo sintonizado com o setor empresarial, com essa estrutura econômica neoliberal e, por outro lado, com um forte foco no desempenho da comunicação, com um forte componente estético de rechaço ao que fez a Frente Ampla, o retorno da gravata será o símbolo da restauração da ordem. Há um projeto político-econômico de redução do tamanho do Estado. Acho que isso vai ser bem brutal, porque o Chile é um país com um Estado bastante reduzido e uma estrutura neoliberal. O Chile já teve reformas neoliberais durante a ditadura, e elas foram mantidas nos governos de centro-esquerda da Concertação. Um dos seus desafios será como alimentar sua base e a expectativa em relação ao governo de emergência, que servirá de estrutura para tudo. O eleitorado chileno está atualmente impaciente, indignado, e o humor pode mudar de um momento para o outro. Ele é conservador, vai buscar alianças ideológicas e baseadas em valores dos Estados Unidos e em uma sintonia com Donald Trump.

·        Como Kast conseguirá equilibrar essa afinidade ideológica com Trump e a necessidade econômica do Chile de manter suas relações com a China, mesmo com o presidente americano exigindo que seus aliados se distanciem do gigante asiático?

Será um dos seus maiores desafios. Todo o setor empresarial chileno está fortemente atrelado à China, os negócios são e seguirão sendo com a China. Kast aposta no fato de que os chineses são pragmáticos, e a direita chilena sabe manter essa abordagem nas negociações. Mas, se os Estados Unidos impuserem novas regras ao jogo sobre a relação dos países do continente com a China, creio que o governo se inclinará a ceder aos elementos mais políticos e simbólicos de Washington, o que pode ser um problema para a relação com o setor empresarial chileno, que prefere manter a paz com Pequim. Esse pragmatismo, baseado na lógica de que as empresas chilenas criarão negócios com a China e os Estados Unidos, deu certo nos últimos anos, mas não sei se haverá espaço para manobrar a partir da postura adotada por Trump em seu atual mandato. Nesse sentido, o governo terá que encontrar mecanismos para lidar com cenários de maior confrontação entre China e Estados Unidos, com a consciência de que a economia chilena é altamente dependente, todo o setor do agronegócio e, obviamente, toda a mineração, dependem da China. Ademais, temos que observar a nossa concorrência com relação ao Peru nesse sentido. É um país que vive uma crise política permanente, mas ainda assim, se trata de um país que está avançando em suas relações com a China e concorre com o Chile nos mesmos setores de mineração e agronegócio.

·        O que pode mudar na relação com o Brasil? Boric era um aliado de Lula. Kast será mais hostil?

Certamente, haverá um distanciamento político-cultural. Porém, lembremos que Boric, no início do seu governo, foi bastante inábil em seu posicionamento com o mundo progressista latino-americano, por suas declarações sobre a Venezuela, e a decisão de fazer suas primeiras viagens internacionais à Europa. Melhorou com o tempo, especialmente quando compreendeu a importância de Lula como figura e da relação geopolítica com o Brasil. Acho que ele desenvolveu certa experiência ao se aproximar de Lula e outros presidentes da região, e no caso de Lula acho que se configurou uma relação de aprendizagem, que ajudou Boric a entender certas questões. A partir daí, o Chile começou a adotar uma posição clara de seus líderes em relação ao Brasil, com Pedro Sánchez na Espanha, com Petro na Colômbia, que tem um estilo diferente, e Claudia Sheinbaum no México. Sobre Kast, acho que ele compreende que o Brasil é muito importante para a economia chilena, e desde essa perspectiva, com um Ministério das Relações Exteriores muito voltado para os negócios, tentará encontrar um equilíbrio. No entanto, começou mal, ao priorizar o filho de Bolsonaro e fazer com que Lula desista de comparecer à posse. Esse tipo de erro não é bem recebido pelo mundo empresarial e quem sustenta o projeto de Kast é a elite empresarial.

·        Com Kast na presidência, é possível que o Chile retire seu apoio à candidatura de Bachelet para secretária-geral da ONU?

A candidatura de Bachelet tem uma transcendência muito grande no Chile, que é um país que valoriza o sucesso. O Chile é um país que tem essa natureza insular, cercado pelo oceano de um lado e por essa gigantesca cadeia de montanhas do outro, que criam um isolamento geográfico muito peculiar. Talvez por isso nós gostamos de ter figuras reconhecidas internacionalmente, que obtém sucesso do lado de lá do oceano e da cordilheira, e acho que Bachelet se encaixa nessa descrição. Mesmo quem não gosta da Bachelet ou que critica seus dois mandatos presidenciais a valoriza como uma mulher que teve sucesso na política e seu sucesso em esferas internacionais. Por isso, acho que Kast tende a ser pragmático nesse aspecto. Ele precisa manter um alto índice de aprovação e trabalhar com tudo relacionado à performance de comunicação, porque não conseguirá cumprir todas as promessas em relação ao combate crime e outras questões programáticas. Fazer essa confrontação com Bachelet por mero capricho ideológico pode significar um desgaste comunicacional que prejudicaria sua estratégia.

 

Fonte: Brasil 247/O Cafezinho/Opera Mundi

 

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