Estudo
revela: sanções matam como guerras
Sanções
econômicas são o instrumento de política externa mais utilizado pelas grandes
potências mundiais. Impostas com o objetivo declarado de coagir governos a
mudar comportamentos – “encerrar violações de direitos humanos”, “promover a
democracia” ou conter conflitos armados –, essas medidas restritivas afetam
transações comerciais e financeiras, atingindo de forma ampla e indiscriminada
as populações civis dos países-alvos. Seu uso cresce exponencialmente desde a
década de 1950, mas a eficácia real dessas sanções em atingir seus objetivos
declarados permanece ao redor de apenas 30%, segundo o Global Sanctions
Database (GSDB).
Ao
longo de quatro décadas de pesquisa acadêmica, estudiosos de economia, saúde
pública e relações internacionais têm acumulado evidências de que as sanções
causam danos humanitários graves e mensuráveis. Em 2025, a revista The Lancet
Global Health publicou um estudo rigoroso e abrangente quantificando, pela
primeira vez com robustez metodológica, o número de mortes anuais causadas
diretamente por sanções internacionais, com destaque para as sanções
unilaterais impostas pelos Estados Unidos.
Os
resultados do estudo são contundentes. As sanções unilaterais – aquelas
impostas pelos EUA ou pela União Europeia sem o respaldo de uma resolução
multilateral da ONU – estão associadas a 564.258 mortes por ano no período
analisado. Esse número equivale a 3,6% de todas as mortes registradas nos
países sancionados durante o mesmo intervalo, e supera amplamente a média anual
de mortos em combates em conflitos armados no mundo, estimada em 106.000 por
ano. Os autores concluem que o impacto letal das sanções unilaterais é
comparável ao das guerras.
Quando
analisadas globalmente (sem distinção de tipo), as sanções foram associadas a
776.610 mortes anuais. Já as sanções de caráter econômico – que restringem
diretamente o comércio e as transações financeiras – respondem por uma
estimativa de 628.860 mortes por ano. Esses números ilustram que quanto mais
diretamente as sanções afetam a economia de um país, maior seu impacto sobre a
saúde e a vida de sua população.
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Quem morre
O
estudo revela que os efeitos das sanções são distribuídos de forma desigual
entre a população. As crianças com menos de 5 anos são as mais severamente
afetadas: o impacto nas taxas de mortalidade infantil foi estimado em 8,4
pontos logarítmicos, o maior entre todas as faixas etárias analisadas. Em
termos proporcionais, mortes de crianças com menos de 5 anos representaram 51%
do total de óbitos atribuídos às sanções ao longo de todo o período estudado
(1970–2021).
Os
idosos entre 60 e 80 anos constituem o segundo grupo mais vulnerável, com 2,4
pontos logarítmicos de aumento na mortalidade. Somados, crianças de 0 a 15 anos
e idosos de 60 a 80 anos responderam por 77% de todos os óbitos associados às
sanções – grupos que, notavelmente, estão em sua maioria fora do mercado de
trabalho e dependem mais diretamente de serviços públicos de saúde, alimentação
e assistência social.
Uma
tendência temporal relevante também foi identificada: ao longo das décadas, as
mortes atribuídas às sanções entre os grupos mais jovens diminuíram, enquanto
as mortes entre os grupos mais velhos aumentaram. Isso pode refletir melhorias
em programas de saúde infantil em países de baixa e média renda, mas também o
aprofundamento do impacto crônico das sanções sobre sistemas de saúde que
atendem populações idosas mais vulneráveis.
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O papel específico das sanções dos EUA
Uma das
descobertas mais significativas do estudo é a distinção entre o impacto das
sanções norte-americanas e as demais. Nas especificações alinhadas – que testam
simultaneamente o efeito de diferentes tipos de sanções –, as sanções
unilaterais dos EUA se mostraram significativamente associadas ao aumento da
mortalidade em seis dos sete grupos etários analisados. As sanções unilaterais
da UE, por outro lado, não apresentaram significância estatística em nenhum
grupo etário quando analisadas em conjunto com as norte-americanas.
Os
pesquisadores apontam dois mecanismos que amplificam o impacto das sanções
norte-americanas de forma singular: o papel dominante do dólar americano nas
transações financeiras e no comércio internacional, e a aplicação
extraterritorial das sanções dos EUA, que obriga empresas e bancos de terceiros
países a cumprir as restrições sob pena de sanções secundárias. Isso significa
que uma sanção imposta por Washington pode ter efeitos muito além das
fronteiras bilaterais, bloqueando o acesso de países-alvos a mercados,
medicamentos, alimentos e insumos essenciais em escala global.
É
relevante notar também que, segundo o estudo publicado na Lancet, as sanções da
ONU não apresentaram associação estatisticamente significativa com aumento de
mortalidade em nenhum dos 14 coeficientes testados – e em seis deles o sinal
foi negativo. Uma hipótese levantada pelos autores é que as decisões da ONU,
por envolverem maior deliberação multilateral, escrutínio público e
participação dos próprios países-alvos, tendem a ser desenhadas com maior
atenção aos impactos humanitários.
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Mecanismos de impacto na saúde
As
sanções econômicas afetam a saúde das populações por vias diretas e indiretas.
Diretamente, restringem o acesso a medicamentos, equipamentos médicos e insumos
hospitalares, frequentemente bloqueados por impedimentos financeiros mesmo
quando formalmente isentos das sanções. A incerteza jurídica sobre o que pode
ou não ser importado leva bancos e fornecedores internacionais a se recusarem a
realizar transações com países sancionados, por cautela excessiva – o chamado
efeito de sobrecumprimento (overcompliance).
Indiretamente,
as sanções reduzem as receitas públicas dos governos sancionados, deterioram a
capacidade de importação e comprometem a segurança alimentar, o que resulta em
desnutrição e afeta a imunidade da população. Serviços de saúde pública são
corroídos pela queda de financiamento, e organizações humanitárias enfrentam
barreiras operacionais reais ou percebidas para atuar nos países-alvos. O
resultado é um sistema de saúde progressivamente fragilizado, sem condições de
responder adequadamente às necessidades da população.
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Sanções de ajuda e mortalidade materna
O
artigo principal de Rodríguez e colaboradores é complementado por um estudo
anterior, também publicado na The Lancet Global Health em março de 2025,
conduzido por Ruth Gibson, Gary Darmstadt e colegas da Universidade de
Stanford. Esse trabalho analisou especificamente o impacto das sanções de ajuda
externa (aid sanctions) – cortes direcionados de assistência ao desenvolvimento
– sobre a mortalidade materna e infantil em países de baixa e média renda entre
1990 e 2019.
Os
resultados foram igualmente alarmantes: as sanções de ajuda estiveram
associadas a um aumento de 3,1% na mortalidade infantil e de 6,4% na
mortalidade materna ao ano. Mais revelador ainda: estimou-se que 60% dos ganhos
obtidos na redução da mortalidade materna ao longo do período 1990–2019 foram
revertidos nos cinco anos seguintes à imposição das sanções de ajuda. Para a
mortalidade infantil e de crianças abaixo de 5 anos, a reversão foi de 30%. Em
outras palavras, décadas de progresso em saúde foram destruídas em poucos anos.
Entre
2010 e 2022, um quarto de todos os países do mundo estava sujeito a algum tipo
de sanção imposta pelos EUA, pela UE ou pela ONU. A maioria dos países-alvo
encontra-se no continente africano. Essa distribuição geográfica levanta
questões legítimas sobre equidade: as sanções recaem desproporcionalmente sobre
países mais pobres e vulneráveis, cujos sistemas de saúde e redes de proteção
social são menos capazes de absorver os choques econômicos provocados pelas
restrições.
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Implicações para a política internacional
Em maio
de 2025, os EUA anunciaram a intenção de levantar a maioria das sanções
econômicas contra a Síria, em vigor desde 1979 – um movimento que o Canadá e a
União Europeia logo acompanharam. Esse gesto sugere que os formuladores de
políticas reconhecem, ao menos implicitamente, que as sanções unilaterais têm
impactos reais e devastadores sobre as populações civis.
Para os
países de baixa e média renda, a lição mais urgente é a necessidade de
construir sistemas de financiamento da saúde mais robustos e autônomos – por
meio de ampliação da base tributária, taxação de bens nocivos como tabaco e
álcool, e mecanismos inovadores de alívio de dívida como os programas
debt-to-health, que redirecionam pagamentos de dívida para o fortalecimento dos
sistemas de saúde.
Os
estudos publicados na The Lancet Global Health em 2025 representam um marco na
compreensão científica dos efeitos letais das sanções econômicas. Ao estimar
que as sanções unilaterais causaram cerca de 560.000 mortes anuais na última
década – um número comparável ao total de mortes em conflitos armados –, a
pesquisa coloca em perspectiva a gravidade de um instrumento de política
externa frequentemente descrito como uma alternativa pacífica à guerra. Como
advertiu Woodrow Wilson há mais de um século, as sanções podem ser ‘’algo mais
terrível do que a guerra”. A evidência científica acumulada sugere que ele
estava certo.
O custo
humano das sanções recai, de forma desproporcional, sobre aqueles que têm menos
condições de suportá-lo: crianças, idosos, mães, e as populações mais
marginalizadas dos países mais pobres do mundo.
Diante
desse cenário, a comunidade científica e os formuladores de políticas públicas
têm uma responsabilidade ética inescapável: levar a sério os dados, reformar o
desenho das sanções e, quando necessário, questionar abertamente sua
legitimidade como instrumento de coerção internacional.
Fonte:
Por Antônio Carlos Queiroz, em Outra Saúde

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