Que
fim levou a Fazenda Volkswagen, onde trabalhadores foram escravizados no Pará?
LOCAL
DO MAIOR caso de trabalho escravo da história recente do país, que levou a
Volkswagen a ser condenada em R$ 165 milhões pela Justiça brasileira em duas
instâncias, a fazenda Companhia Vale do Rio Cristalino, no Pará, também foi
alvo de violentos conflitos por terra que resultaram em ao menos oito mortes,
até ser adquirida por uma gigante da pecuária nacional.
A
montadora alemã criou gado e explorou madeira em Santana do Araguaia, na região
sul do estado, entre 1974 e 1986. Incentivadas pelo regime militar, as
atividades contaram com isenções fiscais da ordem de R$ 500 milhões, segundo
cálculos atualizados pelo MPT (Ministério Público do Trabalho).
O
desmatamento e a abertura de pastos eram realizados por trabalhadores em
condições análogas à escravidão, segundo acusações do MPT acolhidas em primeiro
e segundo graus pela Justiça do Trabalho.
Aliciados
em outros estados com promessas de altos ganhos, os lavradores relatam que eram
impedidos de sair da Fazenda Volkswagen, como a propriedade era conhecida, por
causa de dívidas fraudulentas e da vigilância constante de jagunços.
A
multinacional sempre negou responsabilidade sobre o caso. Em audiência na Vara
Trabalhista de Redenção (PA), no ano passado, alegou ter apurado denúncias de
irregularidades que “não foram identificadas e confirmadas”.
Em
fevereiro, na segunda instância do Tribunal Regional do Trabalho, em Belém
(PA), atribuiu as violações a empreiteiros intermediários, conhecidos como
“gatos”, que recrutavam a mão-de-obra.
Em nota
enviada à Repórter Brasil após a condenação em segunda grau, a Volkswagen do
Brasil disse que “seguirá em busca de segurança jurídica nas esferas superiores
do Judiciário Brasileiro”, e que “repudia qualquer forma de trabalho forçado,
degradante ou análogo à escravidão” (leia o posicionamento).
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Urânio, mortes e reforma agrária marcam histórico da área após saída da
Volkswagen
Atualmente,
a maior parte dos 139 mil hectares da propriedade original da montadora —
território comparável ao do município de São Paulo — abriga vários
assentamentos de reforma agrária.
Outra
parcela, de 52 mil hectares, foi marcada por violentos conflitos e disputas por
terra. Por anos, a área foi parcialmente arrendada pela AgroSB, braço
agropecuário do Grupo Opportunity, fundado pelo banqueiro Daniel Dantas, e uma
das maiores criadoras de gado do país.
No
local, também havia fazendeiros que se diziam donos de partes da propriedade,
além de famílias sem-terra que reivindicavam a destinação da área para reforma
agrária.
Nesse
contexto de tensão fundiária, ao menos oito trabalhadores rurais foram
assassinados. Em 2023, o Tribunal de Justiça do Pará homologou um acordo de
posse em favor da AgroSB. A empresa agrícola confirmou o acordo à Repórter
Brasil, mas acrescentou que não é mais proprietária do imóvel.
Na
antiga propriedade da montadora alemã, há também uma jazida de urânio nunca
explorada. No final da década de 1970, o governo militar estimou em 150 mil
toneladas o volume de minério. A jazida é considerada estratégica pelo SGB
(Serviço Geológico do Brasil) para transformar o país em exportador de urânio,
matéria-prima com larga aplicação na indústria bélica e de energia.
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Braço agropecuário do Grupo Opportunity assumiu parte da Fazenda Volkswagen
A
chegada da AgroSB ao Sul do Pará remonta à primeira metade da década de 2000,
época em que a antiga Fazenda Volkswagen encontrava-se ocupada por posseiros e
famílias sem-terra.
Em
2004, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária)
desapropriou cerca de 88 mil hectares da Fazenda Volkswagen, então conhecida
como “Fazenda Cristalino”, para a reforma agrária (60% da área da antiga
propriedade), assentando 1.300 famílias.
Os 52
mil hectares restantes também eram reivindicados por trabalhadores sem-terra,
mas o processo de desapropriação só foi aberto pelo Incra no final de 2008,
poucos meses após um grupo sem-terra entrar na área.
A
ocupação tinha sido realizada em razão da Operação Satiagraha, da Polícia
Federal. Os agentes investigavam se o Banco Opportunity teria usado a compra de
gado e terras no Pará para lavagem de recurso de forma ilegal — a empresa
sempre negou as irregularidades.
Na
época, a AgroSB afirmou ao jornal Folha de S.Paulo que arrendava a Fazenda
Cristalino e criava milhares de cabeças de boi em cerca de 40 mil hectares da
propriedade.
Após
levar o banqueiro Daniel Dantas à prisão por duas vezes em menos de cinco dias,
em 2008, a Operação Satiagraha foi anulada pelo STJ (Superior Tribunal de
Justiça) três anos depois, devido à participação irregular de agentes da Abin
(Agência Brasileira de Inteligência) nas investigações.
Questionada
pela Repórter Brasil sobre o assunto em 2022, a AgroSB destacou que as prisões
ocorridas no âmbito da operação foram consideradas ilegais pelo STF (Supremo
Tribunal Federal) em 2014.
A
ocupação dos sem-terra se manteve nesse período em uma parcela da Fazenda
Cristalino. A propriedade era objeto de processos de reintegração por parte não
só da AgroSB, mas também de outros ocupantes.
Nessa
época, ocorreram alguns episódios de ataques aos trabalhadores sem-terra e a
outros posseiros. Em 2010, quatro lavradores foram mortos, segundo carta do
frei Henri des Roziers, advogado da CPT em Xinguara (PA). Em 2017, outros
quatros homens foram mortos na área. Os responsáveis pelos crimes nunca foram
encontrados, nem responsabilizados.
A
AgroSB fechou um acordo na Justiça Federal em 2023 pela posse da fazenda com ao
menos dois posseiros que também reivindicavam a propriedade.
Procurada
pela Repórter Brasil, a AgroSB afirmou, em nota, que adquiriu a Fazenda
Cristalino em meados de 2008, quando a área “encontrava-se parcialmente ocupada
por terceiros. Importante esclarecer que já existia, desde 2001, decisão
liminar determinando a desocupação das áreas então ocupadas”, diz o comunicado.
Ainda
segundo a empresa, “diante da prolongada disputa possessória envolvendo o
imóvel e da dificuldade de solução definitiva no âmbito judicial ao longo de
muitos anos, mesmo possuindo respaldo jurídico para a desocupação sem
indenização, a AgroSB optou por conduzir um processo de negociação individual
com os ocupantes, o que permitiu uma solução pacífica para a saída dessas
pessoas do local e a superação de um conflito fundiário que se arrastava havia
anos”.
A
companhia declarou ainda que “os eventuais fatos históricos mencionados
referem-se a períodos anteriores ou a contextos alheios à atuação da AgroSB na
área, possivelmente associados ao contexto das disputas entre ocupantes no
imóvel naquele período”. E acrescentou que “atualmente, a área mencionada não
se encontra mais sob gestão ou operação da AgroSB” (leia o posicionamento na
íntegra).
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‘Maior frigorífico da América Latina’ foi erguido para atender Volkswagen e
parceiros
Além da
abertura de pastagens, o projeto agropecuário da Volkswagen na Amazônia
envolveu também a construção do Frigorífico Atlas.
Erguido
na virada da década de 1970 para a de 1980, o abatedouro era tido na época como
o maior da América Latina, e contou com recursos federais da Sudam
(Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia), além de financiamento do
Banco Mundial.
Com
investimento de US$ 97 milhões, o Atlas começou a operar em 1983. A planta foi
planejada para abater até 800 cabeças de gado por dia e empregava cerca de 700
trabalhadores, conta o historiador Antonio Acker em seu livro “Volkswagen in
the Amazon: The Tragedy of Global Development in Modern Brazil”. A carne
processada partia em voos fretados para comercialização em outros mercados.
As
denúncias de trabalho escravo e tráfico de pessoas envolvendo a Fazenda
Volkswagen, somada aos altos custos operacionais e à desvalorização do cruzeiro
em 1985, transformou a dívida em dólar em um passivo impagável, segundo o
historiador.
Depois
de diversas mudanças de controle, o frigorífico passou a ser gerido na década
de 2010 pela JBS, a maior processadora global de proteína animal. Em 2017, a
planta chegou a ser embargada depois da Operação Carne Fria, do Ministério
Público Federal, que indicava o processamento de carne proveniente de áreas
desmatadas ilegalmente.
Na
época, a JBS negou ter comprado gado de áreas embargadas (interditadas) pelo
Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente), afirmando que selecionava “100%
dos fornecedores com base em critérios socioambientais”.
A
empresa alegou também que não adquiria animais de “fazendas envolvidas com
desmatamento de florestas nativas, invasões de terras indígenas ou de
conservação ambiental e que estejam embargadas pelo Ibama”.
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Soja avança sobre o Sul do Pará
Se a
pecuária de corte era a ponta de lança no Sul do Pará quando a Volkswagen
decidiu investir na região décadas atrás, hoje são as plantações de soja que
avançam sobre a paisagem local, em paralelo às pastagens.
Apenas
em Santana do Araguaia, onde ficava a fazenda da montadora alemã, as lavouras
de soja dobraram de área (de 60 mil para 120 mil hectares) entre 2014 e 2023.
Dados
da Faepa (Federação da Agricultura e Pecuária do Pará) apontam o grão como o
principal item da pauta exportadora do agronegócio paraense, representando 25%
do valor total.
O que
não mudou na região foi a submissão de pessoas ao trabalho escravo. A expansão
da fronteira agrícola no Sul do Pará sempre foi acompanhada de casos de
trabalho escravo, geralmente empregado na derrubada de mata nativa e na limpeza
de pastagens.
Dados
organizados pelo projeto Perfil Resgatado, da Repórter Brasil, a partir de
informações do Ministério do Trabalho e Emprego, revelam que 13.557
trabalhadores foram resgatados no estado desde 1995.
O
município de Santana do Araguaia ocupa o 4º lugar no ranking estadual de mais
vítimas, e 10º no ranking nacional; foram 774 trabalhadores resgatados desde
1995. Os dados também apontam que a pecuária é o setor com maior número de
resgates.
Fonte:
Reporter Brasil

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