Luiz
Marques: A imprensa como ideologia
Que
entendimento de democracia desenvolve a mídia corporativa? Resposta: a de que a
democracia é um sistema político onde se desenrola um permanente confronto de
opiniões. A definição não faz distinção entre os pontos de vista, o que abre a
janela às fake news magnificadas por robôs para manipular os receptores das
mensagens. O objetivo é orientar a opção dos consumidores e a tendência dos
eleitores para formatar o gosto dos brasileiros.
A
“democracia de opinião” dita a performance dos meios de comunicação. Não vale
para as relações entre os patrões e os empregados (colaboradores, sic) no
interior das empresas, onde o pensamento único senhoril fixa o regramento para
aumentar os lucros de modo sensacionalista. Aqui, os veículos de massas têm em
comum com a extrema direita a apologia da liberdade de expressão como um valor,
em abstrato. Na caixa de Pandora que destampa a dor e o sofrimento, ao revés da
esperança no fundo, encontra-se a coleção das fraudulentas emendas impositivas.
A
pasteurização de consciências no entretenimento medíocre da TV global inclui a
venda de carnês para meter a mão na renda dos pauperizados. Os domingos servem
de inspiração ao assalto dos aposentados no INSS e para as falcatruas do banco
Master, no desgoverno do Bozo. O recado tem os olhos azuis: as coisas só mudam
graças a algum golpe. Uma lavagem cerebral estimula as pregações de cinismo
para gozar privilégios. Apaga-se o trabalho dos sindicatos, entidades
comunitárias e organizações contrárias às medidas neoliberais. A solidariedade
é enterrada a sete palmos.
O
elogio da opinião, per se, revalida o supremacismo colonialista de raça e o
supremacismo patriarcal de gênero, como se a roda da história tivesse parado e
o tempo estivesse congelado na tradição de mando e obediência. Contudo, a
revolução cultural de Maio de 1968 continua a reconfigurar a moral e os
costumes das gerações. Cazuza tinha razão: “A tua piscina tá cheia de ratos /
tuas ideias não correspondem aos fatos / É, o tempo não para”. Eis o principal
ensinamento emancipacionista a ser tirado do sessentismo.
A
democracia vai além da troca de opiniões e da mitificação do papel dos
noticiários. Implica o próprio conteúdo da linguagem escrita e falada. Para
Claude Lefort, em A invenção democrática, “a democracia é um processo
cumulativo de valores civilizacionais”, regido pelo princípio inalienável do
“direito a ter direitos”. Tal é o parâmetro para uma sociabilidade humana.
O
direito a ter direitos esbarra na ilusão meritocrática que abstrai as condições
de nascimento e o acesso precário das periferias à educação e à cultura. A
meritocracia é o triunfo dos vencedores; ignora os motivos que condicionam os
perdedores na guerra hobbesiana de todos contra todos. Assim, transforma os
primeiros em campeões da arrogância; e os demais em criaturas invisíveis.
O termo
meritocracy nas origens não é sinal de justiça; tem um sentido distópico. A
apropriação pelas elites avaliza simbólica e moralmente as pretensas virtudes
do capitalismo. A prestidigitação mascara a corrida competitiva com pobres,
negros, mulheres, indígenas e grupos LGBTQIA+ sempre no pelotão detrás. Hélas.
A
Teologia da Prosperidade recrudesce a crença nos eleitos de deus para explicar
as desigualdades. A imprensa como ideologia acoberta os mecanismos da exclusão
que sequestra os direitos, com a alegação da falta de “mérito”. Sem o discurso
calvinista a verdade viria à tona rápido e a farsa se evidenciaria para todos.
O que é
política, na percepção da mídia corporativa? Resposta: as atividades da
representação no Legislativo e no Executivo dos municípios, estados e União,
que tomam as decisões na República. O modelo baseado em representantes é
consolidado ao longo do século XX. Significa que a política tem um locus
especial para ser exercida. Prevalece a cosmovisão institucionalista do ofício.
Fernando
Henrique Cardoso esgrime a versão hegemônica na greve dos petroleiros no início
de 1995, em que uma categoria de 40 mil trabalhadores mantém o paredismo por 32
dias. Contra a agenda de privatizações e os cortes de direitos, postula um
monopólio estatal do petróleo e um cumprimento de acordos salariais anteriores,
enfrentando as demissões e as intervenções judiciais que acusam de abusivas as
demandas grevistas. O Estado neoliberal começa então a mostrar as garras
afiadas, e o ex-presidente determina a ocupação das refinarias pelo exército.
Os
líderes do movimento extrapolam as funções ao levantar a bandeira “Não à
privatização da Petrobrás”, reclama FHC. Se querem fazer política candidatem-se
ao Parlamento. O exercício da política transcorre no Congresso Nacional. Só
empoderada no voto das urnas as posições antiprivatistas dispõem da sagrada
legitimidade para disputar a volatilidade da opinião pública.
O
sociólogo pede que esqueçam o que escreveu, parecendo desconhecer que a pressão
das ruas tem um caráter político; direcionam o poder público. Rosa Luxemburgo
se opõe ao fechamento da Duma na URSS pelos bolcheviques, lembrando que ao
mobilizar o povo a esquerda consegue aprovar temas polêmicos em plenários
conservadores e mesmo reacionários.
O fato
de os atores coletivos não figurarem nas manchetes, exceto nas ocasiões em que
vidraças são quebradas por black blocs vestidos de preto com máscaras para se
proteger da vigilância policial, não quer dizer que não se constituam em
sujeitos da política. A participação cidadã confere uma racionalidade aos
equipamentos urbanos para superar as desigualdades, inclusive no plano
institucional. Tipo as cotas de reparação que alavancam a mobilidade social
para compensar 350 anos de escravização.
O
liberalismo detesta os heróis oriundos de coletivos com um viés anarquista ou
anticapitalista. Prefere os mocinhos empenhados em corrigir o regime, em vez de
substituí-lo por sonhos nunca testados na prática. A noção criada por Henry
David Thoreau – “desobediência civil” – celebra o indivíduo soberano contra as
leis reputadas injustas do Estado, e não as manifestações pluralistas
orquestradas pelas associações ou pelos partidos progressistas.
Até na
denúncia de atrocidades os aparelhos midiáticos falseiam o real. Ao criticar as
contribuições obrigatórias, atacam um suporte material das ações sindicais
enfraquecidas nas crises econômicas. Ao citar o número absurdo de agremiações
partidárias, reiteram a antipolítica pró-mercado. Ao estampar o genocídio na
Faixa de Gaza e os bombardeios no Líbano e no Irã, escondem a total
responsabilidade de Israel e Estados Unidos pelos conflitos.
O
lawfare (law/direito, warfare/guerra) torna o direito uma arma de destruição de
reputações (pessoas, instituições), por intermédio de uma exposição aos moldes
de uma operação militar. O instrumento popularizado na Lava Jato é a negação do
direito e dos direitos – a terra de Marlboro. A presunção de inocência cai. Não
há o contraditório, nem o direito moderno de ampla defesa.
Como
observa Achille Mbembe na aula magna da USP em 2024, publicada com o título
Democracia como uma comunidade de vida, o método democrático não se resume a
uma tecnologia de governo. Qual a vida, é nossa última utopia. “O futuro da
humanidade não está apenas firmemente atrelado à Terra. Ele também pode estar
firmemente atrelado à democracia. Precisamos parar de nos comportar como se
pudéssemos ir para outro lugar”. Jeff Bezos, Elon Musk e seus pares bilionários
estão enganados.
O nó
górdio concerne à recusa da imprensa realmente existente em preservar o planeta
e a democracia, enquanto as big techs e as finanças envernizam um novo
miliciano corrupto de sobrenome infame. Mostra que os donos do poder não têm
compromisso efetivo com o amanhã, mas com a necropolítica: a acumulação do
egoísmo e a promoção da infelicidade. Vade retro satana.
• Prestação de serviços de interesse
público: quem é pior? Por Armando Medeiros de Faria
Centenas
de serviços – oferecidos por empresas privadas, ou ofertados pelo Estado –
apresentam inegável interesse público e acumulam notória insatisfação popular:
educação, saúde, energia, água, telefonia, saneamento, entre outros. Entre
Estado e Mercado, não se trata de estabelecer um ranking para apontar quem é
melhor ou pior, mesmo porque o Estado atua para garantir o interesse público,
com regulamentações e fiscalização das atividades que se movimentam pela lógica
econômica do lucro.
O ponto
central é a satisfação da sociedade diante da qualidade dos serviços prestados
e elencar indicadores de consumidores e cidadãos que sejam, de fato,
instrumento de governança.
Na área
privada, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) oferece ranking que
registra problemas que os consumidores enfrentam no cotidiano. Por exemplo, na
saúde suplementar, que abrange planos privados, reportagem do Jornal Nacional
(19/02/2026) mostrou que, em 2025, houve quase 35 mil queixas registradas —
média de quatro por hora, o maior número desde 2014.
O
ranking da Senacon é abrangente. Revela que bancos lideram reclamações por
cobranças indevidas e dificuldade de cancelamento. No setor de telecomunicações
há falhas recorrentes de atendimento, enquanto o transporte aéreo acumula
queixas por cancelamentos e reembolsos.
No
Brasil já existem instrumentos institucionais de avaliação da qualidade dos
serviços públicos, especialmente no âmbito federal. Serviços e órgãos do
Governo Federal, via instrumentos geridos pela Secretaria de Governo Digital,
do Ministério da Gestão e da Inovação, contam também com ranking de avaliação,
divulgado mensalmente. Abrange apenas os serviços integrados à ferramenta de
Avaliação de Satisfação e requer que o órgão tenha, no mínimo, um volume de 50
avaliações. Na agenda da transformação digital, há o Painel de Monitoramento
dos Serviços Digitais, que traz estatísticas gerais, inclusive avaliação dos
serviços públicos disponíveis no portal gov.br.
As
iniciativas mostram que a percepção do cidadão – ouvir o público, premissa
básica da comunicação – começou a ser incorporada como indicador de qualidade
do Estado. É tarefa complexa, mas falta ainda um sistema nacional integrado e
amplamente conhecido de ranking de serviços públicos. Certamente, o País vai
evoluir para construir ranking nacional integrado, padronizado e comparável da
qualidade dos serviços públicos, sob o crivo do cidadão, integrando o que já
foi desenvolvido, bem como padronizando critérios para possibilitar comparações
de resultados.
Falhas
existem em qualquer sistema complexo — público ou privado. O problema não é o
erro isolado.
É o
padrão que se repete ano após ano. Daí, para quem usa ouvidorias, serviços de
atendimento e rankings para reclamar e avaliar, questiona-se: são aparatos
formais, sem relevância estratégica, ou indicadores efetivos de governança? Se
a insatisfação da sociedade está refletida nos rankings há algumas hipóteses
possíveis: o risco não foi mapeado, foi mapeado e ignorado, ou foi considerado
financeiramente aceitável. Em qualquer cenário, há um problema de governança.
Quando
a mesma reclamação surge milhares de vezes, deixa de ser incidente e passa a
ser sintoma estrutural. O erro passa a ser absorvido como custo operacional ou
despesas com judicialização, no caso da iniciativa privada, por exemplo. No caso do setor público, a reclamação passa a
ser absorvida como ineficiência institucionalizada, onde a falha estrutural é
normalizada pela burocracia, resultando na precarização do direito do cidadão e
no desperdício sistêmico de recursos públicos. E a sociedade começa a dizer: “é
assim mesmo”.
Esse é
o momento em que a “recorrência” se transforma em “naturalização”. A indignação
inicial se dilui. O consumidor reduz suas expectativas. O cidadão diminui a
pressão sobre instituições e empresas. O problema deixa de ser percebido como
falha corrigível e passa a ser tratado como característica inexorável do
sistema.
É nesse
ponto que a discussão sobre instrumentos de aferição da percepção do cidadão e
do consumidor se torna central. Rankings e indicadores devem funcionar como
antídotos contra a naturalização das falhas.
A
convivência passiva com o mau funcionamento dos serviços públicos produz um
efeito mais profundo do que aparenta. Ela altera o próprio vínculo entre
cidadão e Estado. Quando a sociedade se acostuma com a falha, a expectativa de
qualidade diminui e a confiança institucional se enfraquece. O serviço público
deixa de ser visto como direito garantido e passa a ser percebido como algo
precário, que funciona “quando funciona”. Medir, comparar e tornar visível a
qualidade dos serviços é, portanto, mais do que gestão administrativa: é uma
forma de proteger a própria legitimidade do Estado. E é, também, um poderoso
instrumento de comunicar o valor do que é público, com uma mensagem clara: o
Estado respeita o cidadão, honra os tributos pagos e assume o compromisso
inegociável com a eficiência e garantia de direitos e da própria democracia.
O
consumidor pode comparar preços e trocar de fornecedor. O cidadão, porém, ocupa
uma posição diferente: ele é titular de direitos, financiador do sistema por
meio de tributos e parte constitutiva do próprio Estado. Ele não “compra” o
serviço público — ele o legitima. Por isso, a régua de exigência não pode ser
menor.
Fonte:
A Terra é Redonda/Observatório da Imprensa

Nenhum comentário:
Postar um comentário