sexta-feira, 13 de março de 2026

Luiz Marques: A imprensa como ideologia

Que entendimento de democracia desenvolve a mídia corporativa? Resposta: a de que a democracia é um sistema político onde se desenrola um permanente confronto de opiniões. A definição não faz distinção entre os pontos de vista, o que abre a janela às fake news magnificadas por robôs para manipular os receptores das mensagens. O objetivo é orientar a opção dos consumidores e a tendência dos eleitores para formatar o gosto dos brasileiros.

A “democracia de opinião” dita a performance dos meios de comunicação. Não vale para as relações entre os patrões e os empregados (colaboradores, sic) no interior das empresas, onde o pensamento único senhoril fixa o regramento para aumentar os lucros de modo sensacionalista. Aqui, os veículos de massas têm em comum com a extrema direita a apologia da liberdade de expressão como um valor, em abstrato. Na caixa de Pandora que destampa a dor e o sofrimento, ao revés da esperança no fundo, encontra-se a coleção das fraudulentas emendas impositivas.

A pasteurização de consciências no entretenimento medíocre da TV global inclui a venda de carnês para meter a mão na renda dos pauperizados. Os domingos servem de inspiração ao assalto dos aposentados no INSS e para as falcatruas do banco Master, no desgoverno do Bozo. O recado tem os olhos azuis: as coisas só mudam graças a algum golpe. Uma lavagem cerebral estimula as pregações de cinismo para gozar privilégios. Apaga-se o trabalho dos sindicatos, entidades comunitárias e organizações contrárias às medidas neoliberais. A solidariedade é enterrada a sete palmos.

O elogio da opinião, per se, revalida o supremacismo colonialista de raça e o supremacismo patriarcal de gênero, como se a roda da história tivesse parado e o tempo estivesse congelado na tradição de mando e obediência. Contudo, a revolução cultural de Maio de 1968 continua a reconfigurar a moral e os costumes das gerações. Cazuza tinha razão: “A tua piscina tá cheia de ratos / tuas ideias não correspondem aos fatos / É, o tempo não para”. Eis o principal ensinamento emancipacionista a ser tirado do sessentismo.

A democracia vai além da troca de opiniões e da mitificação do papel dos noticiários. Implica o próprio conteúdo da linguagem escrita e falada. Para Claude Lefort, em A invenção democrática, “a democracia é um processo cumulativo de valores civilizacionais”, regido pelo princípio inalienável do “direito a ter direitos”. Tal é o parâmetro para uma sociabilidade humana.

O direito a ter direitos esbarra na ilusão meritocrática que abstrai as condições de nascimento e o acesso precário das periferias à educação e à cultura. A meritocracia é o triunfo dos vencedores; ignora os motivos que condicionam os perdedores na guerra hobbesiana de todos contra todos. Assim, transforma os primeiros em campeões da arrogância; e os demais em criaturas invisíveis.

O termo meritocracy nas origens não é sinal de justiça; tem um sentido distópico. A apropriação pelas elites avaliza simbólica e moralmente as pretensas virtudes do capitalismo. A prestidigitação mascara a corrida competitiva com pobres, negros, mulheres, indígenas e grupos LGBTQIA+ sempre no pelotão detrás. Hélas.

A Teologia da Prosperidade recrudesce a crença nos eleitos de deus para explicar as desigualdades. A imprensa como ideologia acoberta os mecanismos da exclusão que sequestra os direitos, com a alegação da falta de “mérito”. Sem o discurso calvinista a verdade viria à tona rápido e a farsa se evidenciaria para todos.

O que é política, na percepção da mídia corporativa? Resposta: as atividades da representação no Legislativo e no Executivo dos municípios, estados e União, que tomam as decisões na República. O modelo baseado em representantes é consolidado ao longo do século XX. Significa que a política tem um locus especial para ser exercida. Prevalece a cosmovisão institucionalista do ofício.

Fernando Henrique Cardoso esgrime a versão hegemônica na greve dos petroleiros no início de 1995, em que uma categoria de 40 mil trabalhadores mantém o paredismo por 32 dias. Contra a agenda de privatizações e os cortes de direitos, postula um monopólio estatal do petróleo e um cumprimento de acordos salariais anteriores, enfrentando as demissões e as intervenções judiciais que acusam de abusivas as demandas grevistas. O Estado neoliberal começa então a mostrar as garras afiadas, e o ex-presidente determina a ocupação das refinarias pelo exército.

Os líderes do movimento extrapolam as funções ao levantar a bandeira “Não à privatização da Petrobrás”, reclama FHC. Se querem fazer política candidatem-se ao Parlamento. O exercício da política transcorre no Congresso Nacional. Só empoderada no voto das urnas as posições antiprivatistas dispõem da sagrada legitimidade para disputar a volatilidade da opinião pública.

O sociólogo pede que esqueçam o que escreveu, parecendo desconhecer que a pressão das ruas tem um caráter político; direcionam o poder público. Rosa Luxemburgo se opõe ao fechamento da Duma na URSS pelos bolcheviques, lembrando que ao mobilizar o povo a esquerda consegue aprovar temas polêmicos em plenários conservadores e mesmo reacionários.

O fato de os atores coletivos não figurarem nas manchetes, exceto nas ocasiões em que vidraças são quebradas por black blocs vestidos de preto com máscaras para se proteger da vigilância policial, não quer dizer que não se constituam em sujeitos da política. A participação cidadã confere uma racionalidade aos equipamentos urbanos para superar as desigualdades, inclusive no plano institucional. Tipo as cotas de reparação que alavancam a mobilidade social para compensar 350 anos de escravização.

O liberalismo detesta os heróis oriundos de coletivos com um viés anarquista ou anticapitalista. Prefere os mocinhos empenhados em corrigir o regime, em vez de substituí-lo por sonhos nunca testados na prática. A noção criada por Henry David Thoreau – “desobediência civil” – celebra o indivíduo soberano contra as leis reputadas injustas do Estado, e não as manifestações pluralistas orquestradas pelas associações ou pelos partidos progressistas.

Até na denúncia de atrocidades os aparelhos midiáticos falseiam o real. Ao criticar as contribuições obrigatórias, atacam um suporte material das ações sindicais enfraquecidas nas crises econômicas. Ao citar o número absurdo de agremiações partidárias, reiteram a antipolítica pró-mercado. Ao estampar o genocídio na Faixa de Gaza e os bombardeios no Líbano e no Irã, escondem a total responsabilidade de Israel e Estados Unidos pelos conflitos.

O lawfare (law/direito, warfare/guerra) torna o direito uma arma de destruição de reputações (pessoas, instituições), por intermédio de uma exposição aos moldes de uma operação militar. O instrumento popularizado na Lava Jato é a negação do direito e dos direitos – a terra de Marlboro. A presunção de inocência cai. Não há o contraditório, nem o direito moderno de ampla defesa.

Como observa Achille Mbembe na aula magna da USP em 2024, publicada com o título Democracia como uma comunidade de vida, o método democrático não se resume a uma tecnologia de governo. Qual a vida, é nossa última utopia. “O futuro da humanidade não está apenas firmemente atrelado à Terra. Ele também pode estar firmemente atrelado à democracia. Precisamos parar de nos comportar como se pudéssemos ir para outro lugar”. Jeff Bezos, Elon Musk e seus pares bilionários estão enganados.

O nó górdio concerne à recusa da imprensa realmente existente em preservar o planeta e a democracia, enquanto as big techs e as finanças envernizam um novo miliciano corrupto de sobrenome infame. Mostra que os donos do poder não têm compromisso efetivo com o amanhã, mas com a necropolítica: a acumulação do egoísmo e a promoção da infelicidade. Vade retro satana.

•        Prestação de serviços de interesse público: quem é pior? Por Armando Medeiros de Faria

Centenas de serviços – oferecidos por empresas privadas, ou ofertados pelo Estado – apresentam inegável interesse público e acumulam notória insatisfação popular: educação, saúde, energia, água, telefonia, saneamento, entre outros. Entre Estado e Mercado, não se trata de estabelecer um ranking para apontar quem é melhor ou pior, mesmo porque o Estado atua para garantir o interesse público, com regulamentações e fiscalização das atividades que se movimentam pela lógica econômica do lucro.

O ponto central é a satisfação da sociedade diante da qualidade dos serviços prestados e elencar indicadores de consumidores e cidadãos que sejam, de fato, instrumento de governança.

Na área privada, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) oferece ranking que registra problemas que os consumidores enfrentam no cotidiano. Por exemplo, na saúde suplementar, que abrange planos privados, reportagem do Jornal Nacional (19/02/2026) mostrou que, em 2025, houve quase 35 mil queixas registradas — média de quatro por hora, o maior número desde 2014.

O ranking da Senacon é abrangente. Revela que bancos lideram reclamações por cobranças indevidas e dificuldade de cancelamento. No setor de telecomunicações há falhas recorrentes de atendimento, enquanto o transporte aéreo acumula queixas por cancelamentos e reembolsos.

No Brasil já existem instrumentos institucionais de avaliação da qualidade dos serviços públicos, especialmente no âmbito federal. Serviços e órgãos do Governo Federal, via instrumentos geridos pela Secretaria de Governo Digital, do Ministério da Gestão e da Inovação, contam também com ranking de avaliação, divulgado mensalmente. Abrange apenas os serviços integrados à ferramenta de Avaliação de Satisfação e requer que o órgão tenha, no mínimo, um volume de 50 avaliações. Na agenda da transformação digital, há o Painel de Monitoramento dos Serviços Digitais, que traz estatísticas gerais, inclusive avaliação dos serviços públicos disponíveis no portal gov.br.

As iniciativas mostram que a percepção do cidadão – ouvir o público, premissa básica da comunicação – começou a ser incorporada como indicador de qualidade do Estado. É tarefa complexa, mas falta ainda um sistema nacional integrado e amplamente conhecido de ranking de serviços públicos. Certamente, o País vai evoluir para construir ranking nacional integrado, padronizado e comparável da qualidade dos serviços públicos, sob o crivo do cidadão, integrando o que já foi desenvolvido, bem como padronizando critérios para possibilitar comparações de resultados.

Falhas existem em qualquer sistema complexo — público ou privado. O problema não é o erro isolado.

É o padrão que se repete ano após ano. Daí, para quem usa ouvidorias, serviços de atendimento e rankings para reclamar e avaliar, questiona-se: são aparatos formais, sem relevância estratégica, ou indicadores efetivos de governança? Se a insatisfação da sociedade está refletida nos rankings há algumas hipóteses possíveis: o risco não foi mapeado, foi mapeado e ignorado, ou foi considerado financeiramente aceitável. Em qualquer cenário, há um problema de governança.

Quando a mesma reclamação surge milhares de vezes, deixa de ser incidente e passa a ser sintoma estrutural. O erro passa a ser absorvido como custo operacional ou despesas com judicialização, no caso da iniciativa privada, por exemplo. No  caso do setor público, a reclamação passa a ser absorvida como ineficiência institucionalizada, onde a falha estrutural é normalizada pela burocracia, resultando na precarização do direito do cidadão e no desperdício sistêmico de recursos públicos. E a sociedade começa a dizer: “é assim mesmo”.

Esse é o momento em que a “recorrência” se transforma em “naturalização”. A indignação inicial se dilui. O consumidor reduz suas expectativas. O cidadão diminui a pressão sobre instituições e empresas. O problema deixa de ser percebido como falha corrigível e passa a ser tratado como característica inexorável do sistema.

É nesse ponto que a discussão sobre instrumentos de aferição da percepção do cidadão e do consumidor se torna central. Rankings e indicadores devem funcionar como antídotos contra a naturalização das falhas.

A convivência passiva com o mau funcionamento dos serviços públicos produz um efeito mais profundo do que aparenta. Ela altera o próprio vínculo entre cidadão e Estado. Quando a sociedade se acostuma com a falha, a expectativa de qualidade diminui e a confiança institucional se enfraquece. O serviço público deixa de ser visto como direito garantido e passa a ser percebido como algo precário, que funciona “quando funciona”. Medir, comparar e tornar visível a qualidade dos serviços é, portanto, mais do que gestão administrativa: é uma forma de proteger a própria legitimidade do Estado. E é, também, um poderoso instrumento de comunicar o valor do que é público, com uma mensagem clara: o Estado respeita o cidadão, honra os tributos pagos e assume o compromisso inegociável com a eficiência e garantia de direitos e da própria democracia.

O consumidor pode comparar preços e trocar de fornecedor. O cidadão, porém, ocupa uma posição diferente: ele é titular de direitos, financiador do sistema por meio de tributos e parte constitutiva do próprio Estado. Ele não “compra” o serviço público — ele o legitima. Por isso, a régua de exigência não pode ser menor.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Observatório da Imprensa

 

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