A
“transição energética” nas mãos dos rentistas
No
artigo A ‘COP da Verdade’ e a ficção das finanças verdes, publicado nesta
revista em um momento particularmente importante, às vésperas da realização da
COP em Belém do Pará, a pesquisadora Isadora Cruxên foi certeira e provocativa
ao tensionar os fundamentos da chamada agenda das finanças verdes no Brasil. Ao
examinar o caso do saneamento básico, a autora mostrou como a sustentabilidade
vem sendo progressivamente reconfigurada sob a lógica da financeirização. Por
trás do marketing “verde” e das debêntures subsidiadas, argumenta o texto, há
uma escolha política clara: transformar direitos e políticas públicas em ativos
rentáveis.
O
argumento desloca o centro do debate. Em vez de discutir apenas metas
climáticas ou compromissos diplomáticos, somos convidados a observar os
instrumentos que estruturam essa agenda e os interesses que se organizam em
torno deles. Que tipo de transição está sendo construída quando a
sustentabilidade passa a ser medida em termos de rentabilidade?
Essa
pergunta ganha ainda mais força quando observamos o desenho recente das
políticas econômicas e energéticas no Brasil.
Em
entrevista ao Financial Times, o ministro da Fazenda Fernando Haddad anunciou
um pacote de transição verde estimado em centenas de bilhões de dólares ao
longo da próxima década, envolvendo cerca de uma centena de iniciativas
voltadas à descarbonização da economia. A ambição declarada era posicionar o
Brasil como protagonista da chamada economia verde. Contudo, segundo a
reportagem, a maior parte dos recursos necessários para viabilizar essa
transição deveria vir do setor privado e do mercado financeiro. Quanto aos
recursos públicos, autoridades afirmaram que os investimentos seriam ajustados
para caber no orçamento, de modo a não tensionar as regras fiscais.
Desse
modo, a fala do ministro Haddad ao Financial Times, citada por Isadora Cruxên
em seu texto, não foi apenas retórica. Ela antecipou o desenho institucional
que viria a se consolidar nos meses seguintes.
O
anúncio encontrou materialidade no Plano de Transformação Ecológica, coordenado
pelo Ministério da Fazenda, que passou a estruturar a estratégia econômica do
governo sob o eixo da descarbonização, da reindustrialização verde e da
mobilização de capital para a agenda climática. Dentro desse plano, dois
pilares ganham destaque: a transição energética e as chamadas finanças
sustentáveis.
No
reino da austeridade, a transição ecológica precisa ser desenhada de modo a não
tensionar o arcabouço fiscal. Mas a austeridade não apenas impõe limites ao
gasto público. Ela exige a construção de um modelo de transição energética que
abra novos mercados e novas possibilidades de acumulação para o setor privado.
Em uma fase marcada pela financeirização da economia global, isso significa
estruturar a descarbonização como oportunidade de investimento e rentabilidade
para investidores institucionais, fundos e grandes gestores financeiros.
A
consequência é inequívoca: a transformação energética passa a depender
estruturalmente da mobilização do mercado financeiro.
E esse
mercado já está consolidado.
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A financeirização da infraestrutura
As
debêntures são títulos de renda fixa emitidos por empresas para financiar suas
atividades. Existem dois grandes tipos. As debêntures tradicionais, cujos
rendimentos são tributados segundo a tabela regressiva do Imposto de Renda, e
as debêntures incentivadas, criadas pela Lei nº 12.431 de 2011, que oferecem
isenção de Imposto de Renda para investidores pessoas físicas.
Esse
benefício fiscal foi concebido para atrair capital privado para projetos de
infraestrutura. Na prática, criou-se um instrumento altamente atrativo para
investidores interessados em retornos previsíveis de longo prazo.
Entre
2018 e 2025, considerando o conjunto das emissões realizadas, esses títulos
apresentam prazo médio de aproximadamente 14,6 anos. Trata-se de contratos
financeiros extensos, geralmente indexados ao IPCA ou ao CDI, estruturados
sobre fluxos futuros de receita provenientes de concessões, geração de energia
ou prestação de serviços essenciais.
Mas
além da estrutura contratual, importa observar a dinâmica recente desse
mercado.
Após um
período de baixa intensidade na década de 2010, o número de emissões de
debêntures vinculadas à geração de energia eólica e solar cresce de forma
consistente a partir de 2018 e explode após 2021, atingindo patamares
superiores a cem emissões anuais em 2024 e 2025.
Esse
salto não é apenas estatístico. Ele indica que a transição energética se
consolidou como uma das principais fronteiras de emissão de títulos
incentivados no país.
A
descarbonização deixa de ser apenas promessa política e passa a ser convertida
em contratos financeiros de longo prazo.
Como já
destacado por Isadora Cruxên, o próprio Plano de Transformação Ecológica
aprofundou essa lógica ao incorporar novos instrumentos legais voltados à
mobilização do capital privado. Em janeiro de 2024, foi sancionada a Lei nº
14.801, que instituiu as chamadas debêntures de infraestrutura e ampliou os
mecanismos de incentivo fiscal para investimentos em setores considerados
estratégicos, como energia, saneamento e transporte.
Mas a
explosão recente de emissões também produziu um efeito estrutural.
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O interesse na geração de energia
No
segmento de energia elétrica, o montante atinge R$ 202,29 bilhões, concentrados
majoritariamente em projetos de geração por fontes alternativas — leia-se,
produção e construção de parques eólicos e usinas solares.
Esse
volume supera com ampla margem os demais setores de infraestrutura. Em termos
concretos, mais de duzentos bilhões de reais da infraestrutura incentivada
brasileira encontram-se hoje vinculados à geração renovável.
Quando
se observa que esse estoque está ancorado em contratos com prazo médio de 14,6
anos, percebe-se que não se trata de um movimento conjuntural. São compromissos
financeiros de longo prazo que transformam a expansão da energia renovável em
base estruturante de ativos financeiros isentos de Imposto de Renda para
investidores.
A
transição energética, nesse cenário, deixa de ser apenas diretriz ambiental e
se consolida como eixo dominante do mercado de infraestrutura incentivada.
A
engrenagem financeira se completa com a consolidação dos Fundos de Investimento
em Infraestrutura (FI-Infra). Atualmente existem 37 FI-Infra registrados na B3,
dedicados majoritariamente à aquisição de debêntures incentivadas.
Em
2025, a rentabilidade média desses fundos foi de 13,11% ao ano, com rendimentos
isentos de Imposto de Renda para pessoas físicas, desempenho que supera boa
parte das carteiras de ações cuidadosamente estruturadas por “experts” do
mercado financeiro.
O
investidor não precisa adquirir diretamente uma debênture de um parque eólico
ou usina solar. Pode comprar cotas de um fundo que reúne dezenas de emissores,
com gestão profissional e diversificação de risco.
Cria-se,
assim, um circuito completo. A política pública define o setor prioritário e
estabelece os incentivos institucionais; as empresas emitem debêntures para
financiar os projetos; os fundos de infraestrutura adquirem esses títulos e os
transformam em produtos financeiros; os investidores compram as cotas desses
fundos; e, ao final do processo, os rendimentos são distribuídos com benefícios
fiscais. A engrenagem revela algo mais profundo do que um simples mecanismo de
financiamento da infraestrutura: ela remete a uma característica histórica da
economia brasileira, marcada pela captura recorrente do fundo público por
agentes econômicos privados.
Os
incentivos fiscais, concebidos para estimular investimentos em setores
considerados estratégicos, acabam funcionando como canais de transferência
indireta de recursos públicos para circuitos de valorização financeira. Nesse
sentido, instrumentos apresentados como soluções modernas para financiar a
transição energética reproduzem dinâmicas bastante antigas da formação
econômica brasileira. Trata-se de engrenagens arcaicas com roupagens modernas,
em um capitalismo no qual o rentismo se consolidou no próprio cerne das
relações econômicas e políticas.
Sob a
promessa de alinhar sustentabilidade e mercado, a chamada economia verde passa
a operar também como novo campo de expansão dessas formas de captura. A
transição energética não aparece apenas como resposta à crise climática, mas
como oportunidade para reorganizar fluxos de renda, ativos financeiros e
incentivos públicos em favor de novos circuitos de acumulação.
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Energia eólica invade os territórios
Mas há
uma dimensão frequentemente invisibilizada nessa engrenagem: o território.
Segundo
a pesquisadora Lorena Izá Pereira, em estudo publicado no dossiê “A apropriação
de terras se renova com as energias verdes e outros extrativismos”, produzido
pela iniciativa Land Matrix-LAC em 2023, a expansão da energia eólica no Brasil
tem sido acompanhada por processos de territorialização de grandes empresas
voltados ao controle do território e de seus recursos. Em seu artigo intitulado
“A territorialização de empresas de energia eólica no Brasil: estrangeirização
e estratégias de controle do território”, a autora demonstra que esses
empreendimentos não produzem apenas impactos ambientais, mas também formas
profundas de injustiça sócio-territorial, ao favorecer a expansão da acumulação
de capital sob a retórica da sustentabilidade.
A
instalação de parques eólicos exige o acesso e o controle de extensas áreas de
terra para a instalação de aerogeradores e infraestrutura associada. Embora o
vento seja um bem comum, sua exploração ocorre por meio da apropriação privada
do território. Nesse processo, empresas passam a controlar não apenas a terra,
mas também o potencial eólico e as dinâmicas sociais locais, reorganizando usos
do território e formas de vida previamente existentes.
Os
impactos desse processo são múltiplos: supressão de vegetação nativa,
alterações na paisagem, cercamento de áreas tradicionalmente utilizadas pelas
comunidades, mudanças nas dinâmicas sociais locais e impactos sobre atividades
produtivas e modos de vida. Em muitos casos, a expansão desses projetos também
estimula a valorização e a especulação fundiária, reconfigurando mercados de
terra e aprofundando tensões agrárias.
Nesse
sentido, a chamada transição energética, embora apresentada como solução para a
crise climática, pode também reforçar processos de apropriação territorial,
estrangeirização da terra e desterritorialização de comunidades, reproduzindo
dinâmicas históricas de exploração sob o discurso contemporâneo da
sustentabilidade.
A
transição energética é necessária. A crise climática é incontornável.
Mas
quando a sustentabilidade passa a ser medida prioritariamente pela capacidade
de gerar novos ativos financeiros e fluxos de rentabilidade para investidores,
a pergunta inevitável retorna.
Sustentável
para quem?
Para as
populações diretamente afetadas pela instalação dos empreendimentos? Ou para os
investidores que recebem rendimentos anuais de dois dígitos livres de Imposto
de Renda ancorados nesses mesmos projetos?
A
transição energética é inevitável.
O que
permanece em disputa é a forma social, econômica e territorial que essa
transição irá assumir.
Fonte:
Por Bruno Barcella, em Outras Palavras

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