Como
é o regime teocrático do Irã, onde a fé dita a vida de todos
O Irã escolheu seu novo líder supremo.
Mojtaba Khamenei sucederá seu
pai, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026),
morto durante os ataques coordenados dos Estados
Unidos e Israel contra o Irã, no sábado, 28 de fevereiro.
O novo
líder terá poder absoluto e se transformará na referência máxima, política e
religiosa, do país que seu pai liderou por quase quatro décadas, desde 1989.
Mojtaba
Khamenei controlará uma nação em que a religião determina a política e quase
todos os aspectos da vida dos seus habitantes.
Com sua
eleição, começa um novo capítulo, no qual o regime iraniano aparentemente
permanece intacto, mas ainda é cedo para projetar o alcance deste conflito e suas consequências.
O Irã
nem sempre foi uma teocracia — um regime no qual a autoridade máxima é
atribuída a Deus e exercida por autoridades religiosas. Sua força é explicada
por elementos históricos e teológicos, mas também por fatores políticos.
A
capacidade do regime de sustentar o sistema institucional que o mantém é vital
para sua sobrevivência. Mas é igualmente fundamental sua sistemática dedicação
para evitar o surgimento de eventuais opositores, segundo diversos
especialistas.
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O líder todo-poderoso
A
teocracia iraniana é única.
O país
tem Parlamento e presidente eleitos pelo povo, mas todo o poder se concentra em
uma figura, que é o líder supremo. Seu poder quase não tem contrapeso.
O líder
supremo pode vetar e exercer influência decisiva sobre as principais políticas
públicas do país. E, além de ser o chefe de Estado, é também a autoridade
máxima política e religiosa do Irã.
Ele
atua como comandante-chefe das Forças Armadas e todas as nomeações militares de
alto escalão dependem da sua decisão.
O líder
supremo também nomeia o chefe do Poder Judiciário e o diretor da rádio e TV
estatal, que mantém o monopólio do setor no país.
"É
como ter outro rei, mas um rei religioso", define o jornalista Siavash
Ardalan, da BBC News Persa.
O
Conselho de Guardiães e a Assembleia de Peritos são os dois outros pilares
teocráticos do sistema iraniano.
O
Conselho tem como principal função revisar a legislação parlamentar. Todas as
leis aprovadas pelo Parlamento devem receber sua aprovação antes de entrar em
vigor.
"O
Conselho também desempenha papel de filtro nos processos eleitorais, avaliando
todos os candidatos para as eleições parlamentares, presidenciais e a
Assembleia de Peritos", explica o especialista em teologia política
islâmica Naser Ghobadzadeh, professor de Política e Relações Internacionais da
Universidade Americana da Bulgária.
Já a
Assembleia de Peritos, que teve a missão de escolher Mojtaba Khamenei como novo
líder supremo, é um organismo composto por 88 membros.
Seus
integrantes são eleitos por votação popular, mas todos eles devem ser homens e
possuir o nível de mojtahed. Por isso, a Assembleia é composta
exclusivamente por clérigos.
Uma das
suas principais funções é escolher a autoridade máxima e supervisionar seu
desempenho — papel que, na prática, não é cumprido.
O Corpo
da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) é outro elemento fundamental para a
proteção do regime teocrático do país. Ele foi criado como exército paralelo
para defender a Revolução Iraniana de 1979 e se manteve
leal ao regime desde então.
A força
da teocracia iraniana é expressa muito além da sua estrutura institucional.
Ela
também é sentida nas ruas, onde as mulheres são obrigadas a usar o hijab e, se
não cumprirem as regras impostas pelo aiatolá, podem ser detidas
pela polícia da moralidade.
Foi o
que aconteceu com Mahsa Amini (1999-2022), uma jovem iraniana de origem curda
que morreu nas mãos daquele organismo aos 22 anos de idade, ao ser presa em
2022. Sua morte gerou protestos em massa no país.
Mas
como este regime se instalou no Irã?
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O caminho para a teocracia
O
regime teocrático dos aiatolás surgiu na Revolução Iraniana de 1979. Até então,
o Irã era uma monarquia, onde o clero tinha poder limitado.
O
levante contra o xá Mohammad Reza Pahlavi (1919-1980) ocorreu quando diversos
setores do país concordaram em se opor ao regime da época.
A
modernização autoritária impulsionada pelo xá ao longo dos anos era vista pelo
mundo islâmico como submissão ao Ocidente, particularmente aos Estados Unidos.
E,
embora originalmente a revolução não fosse apenas religiosa, a consolidação da
liderança do aiatolá Ruhollah Khomeini (1902-1989) foi fundamental para a
instalação da teocracia no Irã.
Khomeini
era um líder carismático e erudito religioso. No exílio, ele promoveu a ideia
que hoje está no centro do regime iraniano: que o clero deveria ter o poder de
tutelar diretamente o poder político.
Trata-se
de uma reinterpretação radical do conceito de velayat-e faqih (tutela
do jurista islâmico). Esta nova definição rompeu totalmente com a leitura
tradicional do mundo xiita — o ramo do
Islã que passou a ser a religião oficial do Irã durante a dinastia dos
safávidas (1501-1736).
Até a
reinterpretação de Khomeini, os xiitas entendiam este conceito como a
influência necessária dos clérigos sobre os temas da vida pública, mas não como
participação direta nas estruturas governamentais.
A
doutrina original provém de uma crença fundamental do islamismo xiita,
particularmente do seu ramo duodecimano. Seus seguidores acreditam que os
sucessores espirituais do profeta Maomé (c.570-632) são doze imãs, considerados guias
espirituais com autoridade para interpretar o Islã.
Eles
professam que o décimo-segundo imã não morreu, mas sim entrou em ocultação. E,
algum dia, ele irá regressar para instaurar a ordem prometida.
Durante
séculos, muitos clérigos defenderam que, enquanto esse líder espiritual
permanecer oculto, nenhuma figura política poderia assumir plena legitimidade
em seu nome.
Mas,
como seu ocultamento se prolongou, a ideia de que um erudito em jurisprudência
islâmica poderia administrar os assuntos da comunidade muçulmana acabou se
consolidando.
"O
islamismo xiita nunca foi apolítico", explica Ghobadzadeh. "O que ele
evitou historicamente foi a tomada direta das instituições estatais, ou seja, a
estrutura formal de governo."
Com
esta premissa e durante séculos, o poder político e religioso do Irã
permaneceram vinculados, embora relativamente separados. Até que Ruhollah
Khomeini elevou para outro nível o conceito da tutela do jurista islâmico.
"Com
sua teoria do velayat-e faqih, Khomeini rompeu fundamentalmente com
esta tradição", destaca Ghobadzadeh.
"Ele
defendeu que a ocultação havia se prolongado por muito tempo e uma parte
importante da lei islâmica tem dimensões sociais e políticas", explica o
professor.
"Exatamente
por isso, os clérigos não só estavam autorizados, mas sim obrigados a assumir o
governo em nome do imã ausente, para aplicar essas leis."
Frente
à crescente impopularidade do xá, mesmo com a classe clerical dividida em
relação à reinterpretação de Khomeini, o clima antimonarquista acabou sendo
propício para gerar apoio à sua ideia.
Após a
queda da monarquia, os iranianos aprovaram por referendo a criação da República
Islâmica baseada nesta interpretação do velayat-e faqih, que foi
institucionalizada na Constituição do país, com Khomeini como seu primeiro
líder supremo.
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A máquina institucional
Os
especialistas concordam que a supremacia constitucional das instituições do
regime, particularmente os amplos poderes formais outorgados ao líder supremo,
foram fundamentais para sua consolidação.
A
religião por si própria e a imagem pública de incorruptibilidade do clero após
a revolução desempenharam papel decisivo neste sentido.
"Nos
anos imediatamente posteriores à revolução, essa popularidade e credibilidade
se traduziram, por meio de processos eleitorais, em um domínio quase inconteste
das instituições sendo formadas", relembra o professor.
Ghobadzadeh
destaca que as eleições para a Assembleia de Peritos — para redigir a
Constituição — foram simbólicas. Embora seus membros fossem eleitos em
concorrência aberta, um alto percentual das vagas ficou nas mãos dos clérigos.
Eles
utilizaram essa maioria com habilidade. E, quando sua popularidade caiu, não
perderam sua posição.
"A
Constituição que eles mesmos haviam redigido garantiu que seu domínio
institucional sobrevivesse até mesmo à perda do seu prestígio público",
segundo Ghobadzadeh. "A opinião pública mudou, mas a arquitetura do poder,
não."
"Tanto
Khomeini como Khamenei exploraram ao máximo estas prerrogativas",
prossegue o professor.
"E,
em diversas ocasiões, eles chegaram a ir além das suas amplas atribuições
constitucionais, para garantir a sobrevivência do sistema e seu próprio
controle sobre ele."
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Fatores externos
Mas
também houve fatores externos ao regime que permitiram seu fortalecimento.
Pouco
tempo depois da revolução, o Iraque de Saddam Hussein (1937-2006) declarou
guerra contra o Irã. Khomeini aproveitou o conflito, que se estendeu por quase
oito anos, para consolidar o novo regime e solidificar suas estruturas de
poder.
A
narrativa do regime iraniano sobre a guerra se baseou na ideia de "defesa
sagrada". E, no plano político, ela serviu para silenciar a oposição.
Após a
morte de Khomeini em 1989 e a ascensão de Ali Khamenei, o sistema aprofundou
sua onipresença.
Durante
o mandato de Ali Khamenei, a institucionalidade teocrática passou por ampla
expansão.
Se, com
Khomeini, o escritório do líder supremo era uma estrutura relativamente
pequena, com Khamenei ele se expandiu exponencialmente.
Isso
permitiu que o líder, após a chegada do movimento reformista dentro da própria
revolução, desmantelasse a oposição de diferentes formas.
"O
regime marginalizou todos os grupos de oposição desde o princípio",
segundo o jornalista Siavash Ardalan, da BBC News Persa.
"A
revolução teve sucesso graças a todos os grupos — nacionalistas, comunistas,
socialistas e sociais-democratas. Mas, quando os religiosos formaram o governo,
expulsaram todos os demais."
"Houve
também divisões entre eles próprios", prossegue Ardalan. "Alguns se
tornaram setores linha-dura e outros passaram a ser moderados e reformistas
dentro da classe religiosa. E estes, novamente, foram expulsos pelos setores
linha-dura."
"Foi
simplesmente um processo de radicalização e eliminação de todos os
opositores", conclui o jornalista.
Mas o
autoritarismo do regime também se mostrou nas ruas. E uma amostra recente foi
a repressão aos protestos de janeiro
deste ano.
Diversas
estimativas indicam que, durante os protestos, morreram milhares de iranianos
que saíram às ruas para manifestar seu descontentamento com a situação
econômica vivida pelo país de quase 90 milhões de habitantes.
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Por que o regime continua de pé?
A
estrutura institucional fortalecida pelo regime ao longo de décadas e empregada
como arma para perpetuar seu poder não é o único fator que explica sua
resistência ao colapso.
Outro
motivo é o fato de que, atualmente, não existe uma alternativa clara para sua
substituição.
"Uma
das conquistas mais importantes da República Islâmica foi a supressão
sistemática de qualquer alternativa viável a ela mesma", explica
Ghobadzadeh.
"A
oposição, especialmente a que opera fora do Irã, não produziu uma figura, nem
um movimento que seja capaz de reunir amplo apoio popular dentro do país."
A única
figura proeminente que surgiu é o filho do antigo xá, o príncipe Reza Pahlavi.
Ele ganhou visibilidade sobretudo entre a diáspora iraniana e alguns setores do
país, mas ainda não se sabe ao certo se sua figura poderia aglutinar apoio
suficiente.
Em
contraste com a perda de apoio popular do regime, especialistas também destacam
a existência de um amplo grupo de iranianos com interesses econômicos pela sua
continuidade.
Mas o
início do conflito se deu há pouco mais de dez dias e os especialistas
concordam que ainda é muito cedo para concluir se o sistema poderá manter seu
atual equilíbrio a longo prazo. E a guerra será decisiva para isso.
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Libaneses temem guerra longa entre Hezbollah e Israel
Para muitos libaneses, os novos ataques entre
a milícia Hezbollah e Israel são
como um retorno à guerra.
Os novos confrontos efetivamente encerram o
frágil cessar-fogo iniciado em novembro de 2024, acordado a duras penas após
dois meses de confrontos que resultaram em 4 mil mortos e uma invasão
terrestre israelense no Líbano.
"Famílias já exaustas por anos de
dificuldades estão novamente em movimento, com milhares obrigados a dormir em
carros e espaços públicos", disse à DW Suzanne Takkenberg, diretora
regional para o Líbano da Ação Contra a Fome, sediada em Beirute.
É o caso de Rola Atwi, uma mãe de 36 anos do
subúrbio de Haret Hreik, em Beirute. "Eu peguei meu filho e minha filha e
fugimos de casa pouco antes de ela ser destruída num ataque israelense na
semana passada", ela contou à DW.
Desde
então, a família sobrevive na calçada, em um bairro à beira-mar no oeste
da capital libanesa. Proteger os filhos se tornou a única prioridade.
"Minha filha tem epilepsia e, quando há sons altos, ela sofre convulsões.
Eu me sinto entorpecida. Só quero que minha filha fique segura."
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Em dez dias, 750 mil deslocados
O Líbano foi arrastado para a nova guerra no
Oriente Médio na semana passada, quando a milícia
xiita Hezbollah, apoiada pelo Irã, começou a atacar Israel em resposta ao
assassinato do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei.
Desde então, a situação se acirrou em ambos
os lados da fronteira entre Líbano e Israel. Tanto o Hezbollah quanto o Irã
miram civis em Israel. Contudo, as vítimas civis em Israel são limitadas devido
aos sistemas de defesa e abrigos do país.
No Líbano, os ataques israelenses
desencadearam uma crise humanitária em larga escala. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), 570 pessoas morreram e mais de 750 mil foram deslocadas
até esta terça-feira (10/03).
Outras cerca de 1.300 foram feridas, de
acordo com autoridades de saúde do Líbano, que não distingue entre
combatentes e civis.
Hezbollah e Hamas fazem parte do
chamado Eixo da
Resistência, uma aliança informal liderada pelo Irã
que se apresenta como a "resistência" à influência dos Estados
Unidos no Oriente Médio e defende a eliminação de Israel.
Tanto o Hezbollah quanto o Hamas são
classificados como organizações terroristas por Estados Unidos, Alemanha e
outros países.
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Sem fim à vista
O
jornal Financial Times noticiou nesta semana que a campanha de
Israel contra o Hezbollah poderia continuar mesmo após o fim da guerra de EUA e
Israel contra o Irã.
Em meio
a uma crise humanitária crescente, os políticos libaneses se preparam para um
combate prolongado. O Parlamento do Líbano estendeu a atual legislatura por
dois anos, adiando as eleições originalmente previstas para maio.
No
início do mês, o governo libanês já havia proibido todas as atividades
militares e de segurança do Hezbollah, ressaltando que somente o Estado libanês
tem autoridade para decidir sobre assuntos de guerra e paz.
Para o
analista político Ralph Baydoun, o impacto político de proibir o Hezbollah é
mais um "ato performático de sinalização externa do que de aplicação
prática".
"Porta-vozes
da mídia do Hezbollah ainda são convidados por canais de TV libaneses,
inclusive por veículos anti-Hezbollah", diz o observador, que mora em
Beirute. "Mais de 20 anos de controle sobre o Estado libanês permitiram ao
grupo se entrincheirar em posições sensíveis no Judiciário, na segurança e no
governo, dando-lhe margem para contornar decisões estatais."
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Pressão por desarmamento
O
governo do Líbano e as Forças Armadas Libanesas (LAF) há muito enfrentam
dificuldades para impor o desarmamento do Hezbollah, conforme havia sido
estipulado no cessar-fogo de novembro de 2024.
Até
agora, a milícia entregou suas armas sobretudo ao sul do rio Litani, mas
se recusa a se desarmar totalmente, alegando a necessidade de defender o país
de ataques israelenses contínuos e da ocupação militar em cinco pontos da
fronteira conjunta.
Por sua
vez, Israel declarou que não deixará de atacar o Hezbollah enquanto o grupo
representar uma ameaça. "Vale ressaltar que o Hezbollah nunca deu
sinal verde aos esforços de desarmamento das Forças Armadas Libanesas e
nunca permitiu buscas em posições não expostas por Israel", diz
Baydoun. Ele acrescenta que os seis foguetes que desencadearam o atual
conflito atual foram lançados de pontos ao sul do rio Litani.
Para o
presidente libanês, Joseph Aoun, no entanto, o desarmamento permanece um tema
crucial por ser uma condição para o tão necessário investimento
internacional de reconstrução dos danos da guerra anterior. À época, o Banco
Mundial estimou os custos em 11 bilhões de dólares (R$ 57 bilhões).
Fonte:
BBC News Mundo/DW Brasil

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