Luís
Nassif: Como a flexibilização de Campos Neto permitiu a infiltração do crime
organizado
Como a
desregulamentação promovida por Paulo Guedes e Roberto Campos Neto abriu
brechas estruturais para a lavagem de dinheiro no Brasil...
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Peça 1. O Caso Banco Master: Ponto de Partida
Investigações
do ICL Notícias revelaram que o fundo responsável pela aquisição do Banco
Master para Vorcaro teria utilizado recursos do narcotraficante espanhol Oliver
Ortiz de Zarate Martin. O caso expõe uma vulnerabilidade sistêmica: a entrada
de capital criminoso no mercado financeiro brasileiro por meio de um
instrumento criado justamente para modernizá-lo — as contas fiduciárias.
A porta
de entrada do crime organizado não foi um esquema artesanal de doleiros. Foi
uma estrutura regulatória criada pelo Estado brasileiro.
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Peça 2. Contas Fiduciárias: O Instrumento e Suas Fragilidades
Uma
conta fiduciária é uma conta bancária em que uma instituição guarda ou
administra recursos em nome de terceiros. Embora conceitualmente simples, sua
opacidade é estrutural: por definição, o gestor pode sempre alegar que o
dinheiro não é seu.
Elas
surgiram nos anos 90 no Brasil, tiveram um bom impulso a partir de 2010. E
escancarou-se o mercado com a entrada de Roberto Campos Neto. Entre 2019 e 2024
houve a explosão das FIDCs (Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios),
CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários), CRAs (Certificados de
Recebíveis do Agronegócio) e fundos de crédito privado, todos operando através
de contas fiduciárias.
Diferencia-se
do truste — instrumento do direito anglo-saxão com obrigações legais claras
entre instituidor, administrador e beneficiário — por carecer de transparência
equivalente sobre o beneficiário econômico final.
Três
informações centrais ficam sistematicamente ocultas:
• Quem efetivamente controla o fluxo da conta
• Quem é o beneficiário econômico real
• Se os recebíveis vinculados são reais ou
fictícios
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Peça 3. A Decisão Regulatória: Fintechs como Justificativa
A
flexibilização das contas fiduciárias foi introduzida durante a gestão
Guedes-Campos Neto com o objetivo declarado de estimular o ecossistema de
fintechs. Na prática, o resultado foi a criação de um sistema de crédito
paralelo — o shadow banking — amplo, interconectado e de difícil rastreamento.
Uma das
mudanças estruturais foi a criação de dois novos tipos de instituição
financeira:
• SCD – Sociedade de Crédito Direto
• SEP – Sociedade de Empréstimo entre
Pessoas
Como
essas empresas não possuem balanço grande para emprestar, muitas passaram a
usar:
investidores
↓
FIDC
↓
fintech
origina crédito
↓
pagamentos
entram na conta fiduciária
Ou
seja, o fundo financia os empréstimos.
As
contas fiduciárias passaram a alimentar FIDCs, securitizações e plataformas
digitais, formando um circuito em que recursos podem transitar por contas de
passagem e fundos estruturados com baixa exigência de identificação da origem.
No
início da expansão das fintechs, as exigências de Compliance e KYC eram
significativamente menos rígidas do que nos bancos tradicionais — janela
aproveitada pelo crime organizado.
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Peça 4. O Precedente Europeu
O
modelo não é inédito. Deutsche Bank e Santander utilizaram estruturas
fiduciárias semelhantes para captar recursos do tráfico no Leste Europeu. O
Panamá Papers documentou que, apenas em 2016, a unidade offshore do Deutsche
Bank nas Ilhas Virgens atendeu mais de 900 clientes, movimentando cerca de €
311 milhões.
Posteriormente,
o banco foi multado em US$ 150 milhões pelo Departamento de Serviços
Financeiros de Nova York por permitir que Jeffrey Epstein movimentasse milhões
por meio de contas fiduciárias e empresas de fachada — mesmo após ser
classificado como cliente de alto risco.
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Peça 5. Três Mecanismos de Lavagem
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Fragmentação de fluxos
Cada
camada adicionada ao circuito torna o rastreamento exponencialmente mais
difícil:
→ Empresa de fachada
gera recebível fictício
→ Recebível
é cedido a um FIDC
→ FIDC deposita em
conta fiduciária
→ Pagamento final
chega a investidores ou empresas relacionadas com aparência
de legitimidade
>>>
Legalização via recebíveis
Organização
criminosa controla empresa que cria vendas fictícias, gera duplicatas ou
recebíveis e os cede a um fundo de investimento. O dinheiro entra no sistema
financeiro formal com a aparência de uma transação comercial ordinária,
validada contabilmente por um FIDC.
>>>
Multiplicação do capital
O
capital ilícito é aportado em um FIDC, que o utiliza para conceder empréstimos.
Os juros pagos pelos tomadores fazem o capital crescer dentro do sistema
regulado. Recursos de origem criminosa convertem-se, progressivamente, em
rendimentos financeiros aparentemente legítimos.
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Peça 6. A Segregação Patrimonial como Escudo
As
contas fiduciárias operam sob segregação patrimonial — o dinheiro dos clientes
não se mistura com o patrimônio da instituição. Embora esse mecanismo proteja o
investidor comum, o crime organizado o utiliza para ocultar o beneficiário
final, depositar recursos em nome de terceiros ou empresas de fachada e
realizar a triangulação de capitais.
No caso
Master, recursos do narcotráfico foram injetados em fundos administrados por
DTVMs — como a Sefer/Foco — que os repassaram como capital para instituições
financeiras maiores, com cada intermediário podendo alegar desconhecimento da
origem.
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7. Conclusão: Uma Herança Regulatória
O caso
Banco Master não é um episódio isolado. É o sintoma de uma arquitetura
regulatória que priorizou a agilidade do mercado em detrimento de controles
efetivos de rastreabilidade. A combinação de contas fiduciárias, FIDCs,
securitizações e plataformas digitais criou um sistema de crédito paralelo em
que a opacidade é funcional — e explorada.
A
flexibilização promovida durante a gestão Guedes-Campos Neto abriu uma janela
que substituiu os controles sobre o mercado de trust por um instrumento com
menor transparência e menor responsabilização. O crime organizado não precisou
forçar a entrada: encontrou a porta aberta.
O
mercado financeiro ‘fecha uma porta e abre uma janela’. A conta fiduciária foi
a janela aberta em substituição ao trust — com menos controles e mais
opacidade. No caso Master, com um agravante: Roberto Campos Neto autorizou a
compra do Banco Máxima para uma pessoa, Daniel Vorcaro, que já tinha sido
denunciada pela Polícia Federal.
• Com a Lava Jato 2, a volta do criador
das “pedaladas”
É
batata! A banda lavajatista da Polícia Federal deu o tiro de partida,
municiando jornalistas bolsonaristas contra Ministros do Supremo Tribunal
Federal. De repente, o foco do escândalo deixa de ser o Banco Master, com sua
plêiade de governadores e políticos do Centrão, com a gestão Roberto Campos
Neto, e passam a ser os contratos dos Ministros.
Agora,
volta à cena política o procurador de contas Júlio Marcelo de Oliveira,
figura-chave no impeachment de Dilma Rousseff, conduzido pelas penas de Miriam
Leitão, que demorou um pouco para abandonar sua postura moderada, mas não
resistiu aos velhos novos ventos. Segundo a matéria, “Procurador pede
afastamento de Pochmann do IBGE e cita risco à credibilidade dos dados do PIB”.
Pochmann
enfrentou conflitos internos no IBGE, por pretender transferir parte dos
técnicos de um prédio alugado para um imóvel próprio, mas em região de
transporte mais difícil. E também por pretender remodelar e modernizar o campo
de pesquisas do órgão, algo que sempre incomoda técnicos acostumados por
décadas com as mesmas tarefas.
Segundo
Míriam, “o procurador também salienta a importância dos dados do PIB no período
eleitoral e a necessidade de evitar fraudes”. E continua: “Em um contexto de
fragilidade institucional e volatilidade financeira, qualquer dúvida sobre a
lisura dos principais indicadores nacionais pode desencadear efeitos sistêmicos
graves, agravando a crise e ampliando os danos ao Tesouro Nacional”.
Depois
disso, o dilúvio. Pochmann não foi ouvido, nem pelo procurador, menos ainda por
Miriam. Não analisaram as estruturas do
órgão, a impossibilidade de qualquer manipulação e o que representa as
tentativas de modernizar as estatísticas. Tudo virou suspeita de manipulação –
campo em que Miriam deitou e rolou no período da Lava Jato, mas que parecia ter
superado.
Júlio é
um funcionário intrinsecamente político. No auge da campanha das “pedaladas” eu
mesmo testemunhei um almoço dele com Marcos Lisboa, principal teórico do
chamado “arco para o futuro”.
As tais
“pedaladas” consistiam em empréstimos que governos centrais faziam de bancos
públicos no decorrer do ano. E eram liquidados no final. Recorreram a essa
prática Fernando Henrique Cardoso e Lula. Eram tratados como meros atrasos de
pagamento entre Tesouro e bancos públicos, não configurando operação de crédito
formal.
Júlio
passou a interpretar as operações como operações de crédito do banco para o
governo, o que seria proibido pela Lei de Responsabilidade Fiscal.
Em
parceria com a mídia, “pedaladas fiscais” foram transformadas em algo
tenebroso, quase uma loira no banheiro das questões fiscais. E foi essencial
para o impeachment de Dilma Rousseff.
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As mudanças no IBGE
Agora,
volta a loira do banheiro.
Segundo
Júlio, um dos crimes de Pochamnn seria
substituições de servidores de carreira em áreas técnicas estratégicas, como
Contas Nacionais, “com a nomeação de servidores recém-ingressados e ainda em
estágio probatório para funções de alta complexidade”.
Não é a
primeira vez que Miriam Leitão acusa Pochmann de suspeita de provável futura
manipulação de estatísticas, mostrando uma capacidade invejável de desenhar o
futuro. Não foi capaz de entender a natureza das mudanças. Apegou-se ao
discurso de um dos grupos da instituição, e o resto virou bandido. Simples
assim.
Vamos
tentar sofisticar minimamente a análise,
Há três
grupos de atuação no IBGE.
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1. Corpo técnico tradicional
É a
corrente que dominou o instituto por décadas. São funcionários de carreira, com
forte vínculo com redes internacionais de estatísticas, e defesa rígida da
autonomia técnica das estatísticas nacionais. Tem forte presença nas áreas:
Contas Nacionais, IPCA, PNAD e estatísticas estruturais. E incomodam-se,
naturalmente, com mudanças, que tendem a mudar as relações hierárquicas do
órgão.
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2. Corrente ligada à presidência do IBGE
São
técnicos com trajetória acadêmica ou administrativa externa, que defendem novos
produtos estatísticos, maior diálogo com políticas públicas e criação da
Fundação IBGE+, para permitir a intermediação de projetos de pesquisa, hoje
soltos nas mãos de técnicos do instituto.
São
técnicos da Unicamp, IPEA e centros de economia em desenvolvimento, quase todos
funcionários de carreira do IBGE.
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3. Corrente geotecnologia e de dados
São
especialistas em: georreferenciamento,
big data, satélites e registros
administrativos
Essa
corrente defende que o IBGE migre para modelos híbridos de estatística (survey
+ dados digital.
Com
apoio de Pochmann, esse grupo pretende a
construção de um grande hub para análises preditivas, próprias para orientar
políticas públicas. Análises preditivas são métodos estatísticos e
computacionais usados para estimar o que provavelmente acontecerá no futuro, a
partir de dados históricos e padrões observados.
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O currículo dos técnicos
O que
tem, como se observa, é uma tentativa de renovar os métodos do IBGE, que acaba
tirando a tranquilidade dos técnicos mais antigos. Qualquer mudança passa,
então, a ser tratada como tentativa de manipulação, dentro do processo de
criminalização típico dos que Miriam Leitão praticou no período da Lava Jato e
do impeachment.
Todos
os técnicos que assumiram cargos no modelo tem carreira acadêmica respeitada e
são funcionários de carreira do IBGE. E são especialistas em áreas até agora
não tratadas pelo órgão.
O
debate não é apenas sobre nomes — é sobre o modelo de estatística pública para
as próximas décadas.
Fonte:
Jornal GGN

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