Assassinatos
por meio da fome e do frio
No
final da década de 1930, Joseph Stalin (ou seus asseclas) chamou o povo russo
de “irmão mais velho”. Mais velho em relação aos outros povos da União
Soviética. Provavelmente, isso se referia principalmente ao povo ucraniano, o
segundo maior em número na URSS.
Isso
foi dito na hora certa. Acabava de terminar a fase mais intensa da destruição
da população rural do país. Essa guerra civil (no sentido de contra os
cidadãos) teve um caráter especialmente genocida nas regiões prósperas da
União. Lá, os monstros e canibais, assassinos e violadores colheram os frutos
mais ricos (no sentido literal e figurado da palavra). Algumas décadas depois,
os ucranianos encontrariam um termo preciso e conciso para definir o seu
“caso”, aquela catástrofe provocada pelo homem: “holodomor”. Assassinato por
meio da fome.
Quase
cem anos após o Holodomor, a morte pela fome, o povo ucraniano enfrentou uma
nova iniciativa “fraterna”: o xolodomor. Assassinato por meio do frio.
Sim, é
claro que o Holodomor não afetou apenas os ucranianos. Mas foram eles que
denunciaram adequadamente a política deliberada de Moscou de exterminar os
próprios cidadãos. Foram eles que falaram sem rodeios sobre o que aconteceu com
milhões de camponeses naquela região rica em trigo. Não foi a natureza (e seus
cataclismos) que lhes trouxe a fome.
Foi o
homem que inventou matar seus semelhantes, escondendo-se atrás de uma ideologia
falsa e impiedosa. Mas o povo ucraniano de algum modo sobreviveu, de algum modo
recuperou-se e decidiu buscar seu futuro fora da “fraternidade” com Moscou.
No
entanto, como se tornou claro, Moscou não perdoou o atrevimento ucraniano.
“Holodomor”, dizem? Eles não se referem à coletivização da vida rural e do
trabalho, condicionada pela necessidade histórica? Qualificar alguns excessos e
erros como crime?! E ainda por cima iniciar um romance antinatural com o
Ocidente, trair nosso grande passado comum? Não permitiremos!
E o
“irmão mais velho” decidiu punir o “mais novo”. A Federação Russa começou (como
diziam os próprios ocupantes) a “dar uma surra” nos khokholes”. No final do
quarto ano de guerra, eles encontraram uma maneira de resolver definitivamente
a questão ucraniana.
Não
pela fome, mas pelo frio. O inverno agora é rigoroso, gelado e longo. Isso
ajudará a colocar esses rebeldes de joelhos. Em suma, vamos lá. Mais
precisamente, vamos voar. É pouco? Podemos repetir!
É como
se os “pequenos russos” tivessem perdido a memória. Eles se rebelam. Se
tivessem aprendido bem a história, teriam se lembrado. Quantas vezes as tropas
fraternas de Rostov e Suzdal vieram a Kiev. Elas os advertiram.
Em 1169
(há apenas 850 anos), as tropas do príncipe André Bogoliubsky, filho de Yuri
Dolgorukov, conquistaram Kiev e destruíram a próspera cidade. Em 1240, as
hordas tártaras completaram a obra, acabando de vez com a capital da Antiga
Rússia.
Não
tenho dúvidas de que Stalin, Molotov, Kaganovich e outros führers do Kremlin
não se esqueceram da resistência obstinada dos camponeses e da intelectualidade
ucranianos durante a Guerra Civil. Daquele despertar nacional que tomou conta
do povo ucraniano após a queda da monarquia russa. Da criação da República
Popular Ucraniana. Da República Popular Ucraniana não ter aceitado a revolução
bolchevique e ter tomado o rumo da independência total dos comissários de
Moscou (nas negociações em Brest-Litovsk, em 1918, os representantes da
República Popular Ucraniana pediram à Alemanha e à Áustria que os protegessem
dos bolcheviques).
É claro
que isso também estava relacionado com a total impiedade da coletivização
ucraniana. Na região do Volga, no Don, em Stavropol, na região central do
tchernoziom/ solo negro e no Cazaquistão, a crueldade bolchevique também não
tinha limites. Lá também se faziam contas e reinava o canibalismo (no sentido
literal e figurado). Mas os ucranianos reivindicavam a própria soberania e a
própria cultura.
E por
isso se tornaram um alvo especial do ódio de grande potência do chauvinismo
russo (em sua nova versão). Que, observemos, era feito por mãos internacionais:
o georgiano Stalin, o grande russo Molotov, o judeu Kaganovich…
Internacionalismo! Mas não o proletário – o criminoso. A besta que bebia o
sangue do povo soviético multiétnico. E que abria a boca para todas as outras
nações e países.
Meio
século depois, o Reich comunista entrou em colapso. A “fraternidade dos povos”
totalitária chegou ao fim. O fator decisivo para a dissolução da URSS foi a
saída da Ucrânia do domínio de Moscou. Mas os novos partidários da “grande
potência” não estavam dispostos a aceitar isso:
“Não
entregaremos a Crimeia! Não entregaremos Donbass! Não entregaremos Gogol! Não
entregaremos Vladimir Krasnoe Solnyshko (assim como Vladimir Svyatogo)! Não
entregaremos Dobrynya Nikitich! E Nikolai Shchors! E todas as três frentes
ucranianas da Grande Guerra Pátria — não entregaremos!”.
“De
qualquer forma, chegou a hora de acabar com esses agitadores. Senão, eles se
permitem dizer: “A Ucrânia não é a Rússia”. Estabelecemos uma condição: ou
voltam para o nosso “mundo russo” ou os reduzimos a pó. Se agora não dá para
fazer um Holodomor (morte pela fome), se os tempos não são mais os mesmos –
vamos fazer um Holodomor de gelo”.
Somos
testemunhas (e, em sentido moral, devido à nossa passividade e insensibilidade,
também cúmplices) de uma tragédia histórica: a tentativa de extermínio do povo
ucraniano.
O que
Joseph Stalin conseguiu apenas parcialmente, Vladimir Putin decidiu concluir.
Ele já demonstrou sua habilidade, causando uma nova “ruína” à Ucrânia. Mais
precisamente, uma devastação.
Desde a
infância, lembramos: se o inimigo não se rende, escreveu Máximo Gorky, nós o
destruímos. Mas como uma lágrima de criança, nas palavras de Dostoievsky, pode
impedir a construção do paraíso na Terra? Sim, uma lágrima pode.
Mas a
política voltada para o extermínio de todo um povo parece não impedir a
harmonia mundial (embora o mundo atual seja antes de tudo uma desarmonia).
A ideia
de Vladimir Putin (dos putinistas) é soterrar a Ucrânia no gelo para que ela
“não apodreça”. Melhor seria não apenas soterrar no gelo, mas congelar de vez.
É mais eficaz. Transformar a pátria deles numa casa de gelo. Lá dentro, a
harmonia se estabelecerá entre os que sobreviverem. E ela logo ficará coberta
de gelo. Saudações a vocês, rebeldes, da outra Ucrânia, a Ucrânia da Floresta
(assim os habitantes da Rus’ da Lituânia, ancestrais dos atuais ucranianos e
bielorrussos, chamavam a Rus’ da Horda de Moscou).
Conterrâneos!
Contemporâneos! Isso não é política ou geopolítica. É um povo sendo caçado.
Aqui
está, o fim da história. Não é a utopia liberal benevolente de Fukuyama, nem o
comunismo imaginado de K. Marx e de M. Suslov, mas o frio do bloqueio.
Queimando a vida. Uma geladeira feita à mão, construída pelos artesãos da
Terceira Roma.
Fonte:
Por Yuri Pivovarov, em A Terra é Redonda

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