sexta-feira, 13 de março de 2026

Assassinatos por meio da fome e do frio

No final da década de 1930, Joseph Stalin (ou seus asseclas) chamou o povo russo de “irmão mais velho”. Mais velho em relação aos outros povos da União Soviética. Provavelmente, isso se referia principalmente ao povo ucraniano, o segundo maior em número na URSS.

Isso foi dito na hora certa. Acabava de terminar a fase mais intensa da destruição da população rural do país. Essa guerra civil (no sentido de contra os cidadãos) teve um caráter especialmente genocida nas regiões prósperas da União. Lá, os monstros e canibais, assassinos e violadores colheram os frutos mais ricos (no sentido literal e figurado da palavra). Algumas décadas depois, os ucranianos encontrariam um termo preciso e conciso para definir o seu “caso”, aquela catástrofe provocada pelo homem: “holodomor”. Assassinato por meio da fome.

Quase cem anos após o Holodomor, a morte pela fome, o povo ucraniano enfrentou uma nova iniciativa “fraterna”: o xolodomor. Assassinato por meio do frio.

Sim, é claro que o Holodomor não afetou apenas os ucranianos. Mas foram eles que denunciaram adequadamente a política deliberada de Moscou de exterminar os próprios cidadãos. Foram eles que falaram sem rodeios sobre o que aconteceu com milhões de camponeses naquela região rica em trigo. Não foi a natureza (e seus cataclismos) que lhes trouxe a fome.

Foi o homem que inventou matar seus semelhantes, escondendo-se atrás de uma ideologia falsa e impiedosa. Mas o povo ucraniano de algum modo sobreviveu, de algum modo recuperou-se e decidiu buscar seu futuro fora da “fraternidade” com Moscou.

No entanto, como se tornou claro, Moscou não perdoou o atrevimento ucraniano. “Holodomor”, dizem? Eles não se referem à coletivização da vida rural e do trabalho, condicionada pela necessidade histórica? Qualificar alguns excessos e erros como crime?! E ainda por cima iniciar um romance antinatural com o Ocidente, trair nosso grande passado comum? Não permitiremos!

E o “irmão mais velho” decidiu punir o “mais novo”. A Federação Russa começou (como diziam os próprios ocupantes) a “dar uma surra” nos khokholes”. No final do quarto ano de guerra, eles encontraram uma maneira de resolver definitivamente a questão ucraniana.

Não pela fome, mas pelo frio. O inverno agora é rigoroso, gelado e longo. Isso ajudará a colocar esses rebeldes de joelhos. Em suma, vamos lá. Mais precisamente, vamos voar. É pouco? Podemos repetir!

É como se os “pequenos russos” tivessem perdido a memória. Eles se rebelam. Se tivessem aprendido bem a história, teriam se lembrado. Quantas vezes as tropas fraternas de Rostov e Suzdal vieram a Kiev. Elas os advertiram.

Em 1169 (há apenas 850 anos), as tropas do príncipe André Bogoliubsky, filho de Yuri Dolgorukov, conquistaram Kiev e destruíram a próspera cidade. Em 1240, as hordas tártaras completaram a obra, acabando de vez com a capital da Antiga Rússia.

Não tenho dúvidas de que Stalin, Molotov, Kaganovich e outros führers do Kremlin não se esqueceram da resistência obstinada dos camponeses e da intelectualidade ucranianos durante a Guerra Civil. Daquele despertar nacional que tomou conta do povo ucraniano após a queda da monarquia russa. Da criação da República Popular Ucraniana. Da República Popular Ucraniana não ter aceitado a revolução bolchevique e ter tomado o rumo da independência total dos comissários de Moscou (nas negociações em Brest-Litovsk, em 1918, os representantes da República Popular Ucraniana pediram à Alemanha e à Áustria que os protegessem dos bolcheviques).

É claro que isso também estava relacionado com a total impiedade da coletivização ucraniana. Na região do Volga, no Don, em Stavropol, na região central do tchernoziom/ solo negro e no Cazaquistão, a crueldade bolchevique também não tinha limites. Lá também se faziam contas e reinava o canibalismo (no sentido literal e figurado). Mas os ucranianos reivindicavam a própria soberania e a própria cultura.

E por isso se tornaram um alvo especial do ódio de grande potência do chauvinismo russo (em sua nova versão). Que, observemos, era feito por mãos internacionais: o georgiano Stalin, o grande russo Molotov, o judeu Kaganovich… Internacionalismo! Mas não o proletário – o criminoso. A besta que bebia o sangue do povo soviético multiétnico. E que abria a boca para todas as outras nações e países.

Meio século depois, o Reich comunista entrou em colapso. A “fraternidade dos povos” totalitária chegou ao fim. O fator decisivo para a dissolução da URSS foi a saída da Ucrânia do domínio de Moscou. Mas os novos partidários da “grande potência” não estavam dispostos a aceitar isso:

“Não entregaremos a Crimeia! Não entregaremos Donbass! Não entregaremos Gogol! Não entregaremos Vladimir Krasnoe Solnyshko (assim como Vladimir Svyatogo)! Não entregaremos Dobrynya Nikitich! E Nikolai Shchors! E todas as três frentes ucranianas da Grande Guerra Pátria — não entregaremos!”.

“De qualquer forma, chegou a hora de acabar com esses agitadores. Senão, eles se permitem dizer: “A Ucrânia não é a Rússia”. Estabelecemos uma condição: ou voltam para o nosso “mundo russo” ou os reduzimos a pó. Se agora não dá para fazer um Holodomor (morte pela fome), se os tempos não são mais os mesmos – vamos fazer um Holodomor de gelo”.

Somos testemunhas (e, em sentido moral, devido à nossa passividade e insensibilidade, também cúmplices) de uma tragédia histórica: a tentativa de extermínio do povo ucraniano.

O que Joseph Stalin conseguiu apenas parcialmente, Vladimir Putin decidiu concluir. Ele já demonstrou sua habilidade, causando uma nova “ruína” à Ucrânia. Mais precisamente, uma devastação.

Desde a infância, lembramos: se o inimigo não se rende, escreveu Máximo Gorky, nós o destruímos. Mas como uma lágrima de criança, nas palavras de Dostoievsky, pode impedir a construção do paraíso na Terra? Sim, uma lágrima pode.

Mas a política voltada para o extermínio de todo um povo parece não impedir a harmonia mundial (embora o mundo atual seja antes de tudo uma desarmonia).

A ideia de Vladimir Putin (dos putinistas) é soterrar a Ucrânia no gelo para que ela “não apodreça”. Melhor seria não apenas soterrar no gelo, mas congelar de vez. É mais eficaz. Transformar a pátria deles numa casa de gelo. Lá dentro, a harmonia se estabelecerá entre os que sobreviverem. E ela logo ficará coberta de gelo. Saudações a vocês, rebeldes, da outra Ucrânia, a Ucrânia da Floresta (assim os habitantes da Rus’ da Lituânia, ancestrais dos atuais ucranianos e bielorrussos, chamavam a Rus’ da Horda de Moscou).

Conterrâneos! Contemporâneos! Isso não é política ou geopolítica. É um povo sendo caçado.

Aqui está, o fim da história. Não é a utopia liberal benevolente de Fukuyama, nem o comunismo imaginado de K. Marx e de M. Suslov, mas o frio do bloqueio. Queimando a vida. Uma geladeira feita à mão, construída pelos artesãos da Terceira Roma.

 

Fonte: Por Yuri Pivovarov, em A Terra é Redonda

 

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