As
mulheres que escolheram viver com outras mulheres ao envelhecer
Pat
Dunn chegou aos 70 anos de idade em situação desesperadora.
Seu
marido acabara de morrer repentinamente e sua aposentadoria como enfermeira não
era suficiente para pagar o aluguel na cada vez mais cara província de Ontário,
no Canadá.
"Não
havia onde eu pudesse morar sozinha", conta ela a Datshiane Navanayagm,
apresentadora do programa de rádio The Conversation, do Serviço Mundial da BBC.
"Por isso, precisei começar a considerar a possibilidade de viver
acompanhada."
Inspirada
pela famosa série de TV americana Super Gatas (1985-1992), Dunn começou a
procurar nas redes sociais mulheres que estivessem passando por circunstâncias
similares, dispostas a dividir moradia.
"No
final do primeiro mês após criar meu grupo no Facebook, havia 200
membros", relembra ela.
Esse
grupo na internet cresceu até se transformar em uma ONG com mais de 2 mil
associados no Canadá. A organização se chama Senior Women Living Together
("Mulheres idosas morando juntas", em tradução livre).
Iniciativas
como esta começam também a surgir em outras partes do mundo.
Hanne
Nuutinen se mudou do seu país natal, a Finlândia, para a França. Lá, ela ajudou
a formar La Joie Home Base ("Sede Central Alegria"), um lar onde
mulheres de todo o mundo podem permanecer por diferentes períodos de tempo.
"Chamamos
de 'moradia conectada'", explica ela. "É uma forma mais holística de
morarmos juntas."
"A
coabitação, de forma geral, é um espaço onde você pode ser você mesma, morar e
compartilhar com outras pessoas."
As duas
mulheres explicaram ao Serviço Mundial da BBC os motivos que as levaram a
buscar este novo estilo de vida. Elas relataram suas experiências morando com
mulheres totalmente desconhecidas até então.
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'Super Gatas'
Na
série Super Gatas, quatro mulheres passam a morar juntas, respondendo a um
anúncio classificado. Três delas têm entre 50 e 60 anos de idade e a outra, 80.
Quando
Dunn descreve seu lar atual, parece estar detalhando a sinopse do programa que
a inspirou a compartilhar moradia, adaptada ao Canadá e ao ano de 2026.
"Moro
com duas mulheres que não conhecia até abrir o grupo no Facebook", ela
conta. "Uma delas é um ano mais nova que eu, nunca se casou e nunca teve
filhos."
"A
outra é mais jovem, ainda perto de 65 anos. Ela se casou várias vezes, mas
nunca foi mãe."
Dunn
conta que "se agrupar" levou cerca de quatro meses e tudo se baseou
na sinceridade entre elas.
"Ninguém
quer viver receoso no seu próprio lar", destaca ela. "Por isso, é
importante ser sincera e dizer 'isso pode ser algo pequeno, mas me irrita
infinitamente e é melhor conversarmos'."
Para
Nuutinen, esse compartilhar cotidiano é exatamente o que ela procurava quando
se aventurou a procurar espaços de coabitação, depois de viver por 10 anos como
mãe solteira.
"Era
questão de ter apoio no dia a dia e compartilhar essas experiências,
compartilhar essas vidas que vivemos, seja trabalhando ou como
aposentadas", destaca ela.
"Era
simplesmente difícil fazer tudo sozinha e eu queria compartilhar os altos e
baixos da vida."
Nuutinen
conta que sua decisão chegou quando percebeu que estava entrando no que ela
define como "fase Q3 [o terceiro quarto] da vida".
"Normalmente,
começa a partir dos 50 anos, mas esta etapa pode representar a metade ou um
terço da nossa vida. É muito tempo."
"E,
nesta idade, já vivenciamos e nos formamos a nós mesmas, sabemos o que
queremos, quem nós somos e a vida que, de alguma forma, queremos viver",
explica ela.
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Diferentes tipos de coabitação
Um
ponto importante que Dunn e Nuutinen entenderam rapidamente durante sua
experiência vivendo com outras mulheres é que nem todas as pessoas têm a mesma
tolerância para compartilhar seus espaços pessoais.
Além
disso, cada mulher que recorre a esta solução de moradia o faz por diferentes
motivos e com expectativas diversas, levando ao surgimento de vários estilos de
coabitação.
O lar
de Nuutinen, por exemplo, recebe mulheres com mais de 50 anos, em comunidades
de diferentes países da Europa e no norte da África.
Elas
inauguraram sua primeira base no sul da França e se expandiram para a Itália,
Espanha e Marrocos. E a intenção é continuar essa expansão.
"Fizemos
pesquisa de mercado e percebemos que essas mulheres, de todas as partes do
mundo, desejam ter um pouco de tranquilidade nas suas vidas, além da
comunidade", ela conta.
As
bases criadas por Nuutinen em conjunto com sua sócia também oferecem
flexibilidade. Elas permitem que as mulheres morem nelas de forma temporária,
seja por semanas ou meses.
"O
que oferecemos e o objetivo do nosso serviço é atingir mulheres de classe média
alta, que desejam atenção e flexibilidade", segundo ela.
Já a
proposta de Dunn é diferente. O grupo que ela abriu no Facebook conta hoje com
cerca de 2,8 mil mulheres e nem todas as histórias são encorajadoras.
"Às
vezes, são histórias muito tristes", lamenta ela. "Ouço suas
histórias de morar nos carros, por exemplo, e que não contam aos filhos de
vergonha..."
"Estas
histórias não são agradáveis de se ouvir, mas me convenceram ainda mais de que,
se eu precisasse me dedicar a algo pelo resto da vida, seria ajudar essas
mulheres."
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Dar o salto
Apesar
da penúria que precisaram passar, muitas das mulheres que hoje pertencem ao
grupo de Pat Dunn têm medo de dar o salto e coabitar com outras mulheres.
"Sempre
digo que não é para todos e recomendo: 'Você não precisa fazer isso', 'pense um
pouco mais'", explica ela.
Dunn
garante que o fator incerteza pesa muito para muitas mulheres que planejam a
coabitação.
"Tento
animá-las a começar a conversar com outras mulheres da região de Ontário e
organizamos reuniões", ela conta.
"Não
fazemos nenhum trabalho de convivência no grupo do Facebook, que é apenas para
debater, de forma que tento fazer diversas perguntas que sei que preocupam as
pessoas."
Dunn
sabe que sua plataforma não existe para conectar as mulheres, mas para oferecer
recursos para que elas tomem a decisão entre elas mesmas, se for o caso.
"Fornecemos
apenas a plataforma", destaca ela. "Isso é o que você pode fazer, as
reportagens que você deve ler, as informações de apoio. Mas a decisão é
sua."
Nos
lares de Hanne Nuutinen, existe um processo de "seleção", para
assegurar que as aspirantes "estão prontas para a comunidade, pois nem
todas estão".
"Algumas
entendem que, afinal, não é para elas ou retornam em alguns meses, quando
tiverem os recursos ou estiverem física ou mentalmente prontas."
E
também é preciso explicar que os lares não contam com nenhum tipo de
assistência de enfermagem ou pessoal médico. "Este é outro negócio, não é
o nosso."
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Convivência
O grupo
de Dunn está repleto de dúvidas sobre a vida em coabitação com pessoas
estranhas.
"As
coisas óbvias, cozinhar, limpar, como se faz mercado, como pagar as despesas...
tudo isso", descreve ela.
"Também
falamos de temas relativos à idade. O que acontece se uma de nós fica doente ou
precisa ir ao hospital, ou para um lar geriátrico? O que acontece se observamos
sinais de demência? É preciso considerar todos estes fatores."
Existe
também uma seção importante sobre como manter relações saudáveis, colocar
limites e formas de se comunicar.
Nuutinen
explica que, nos seus lares base, o processo de seleção das mulheres é
fundamental para garantir a convivência tranquila. E existe também a figura da
"anfitriã", que serve de moderadora no caso de atritos.
"No
processo de chegada ao lar, apresentamos as mulheres por chamada de vídeo, para
que todas elas saibam quem está vindo", ela conta, "e meio que as
encaixamos suavemente para que tenham interesses similares ou atividades
parecidas."
"Às
vezes, o mais difícil da vida é compartilhar seu lar com alguém."
Dunn
conta que a maioria dos casos de sucesso que ela presenciou ocorreu em
situações em que as mulheres que iriam morar juntas se encontravam em paridade
de condições.
"São
histórias de sucesso de duas, três ou quatro mulheres que se conhecem no nosso
site, decidem morar juntas e nós as ajudamos a procurar um lugar para
alugar", detalha ela.
Dunn
reitera que o mais difícil ocorre quando uma mulher, dona de um imóvel, recebe
outras para conviver no mesmo espaço.
"Pode
haver um desequilíbrio de poder desde o princípio, dependendo da personalidade
da proprietária", explica ela.
"Nós
as ajudamos a considerar isso mais como uma amizade que elas desejam construir
com as outras mulheres e como conseguir isso, dentro da realidade dos
fatos."
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Outras relações
Como
estas mulheres estão decidindo compartilhar seus lares com estranhas, existem
também limitações sobre quem pode entrar nas casas e quem não pode.
Dunn
afirma que muitas das mulheres do grupo proíbem taxativamente visitas de
namorados ou similares, outras nem tanto.
E
também há os filhos. Dunn e Nuutinen são mães e precisaram compartilhar suas
experiências de moradia coletiva com eles.
"Minha
filha ainda é muito jovem", conta Nuutinen. "Ela é adolescente e teve
o prazer de estar comigo em uma dessas bases — o que é raro, já que não
permitimos que os filhos venham."
"Mas,
no Natal, por exemplo, há mais família e amigos e os filhos, amigos e namorados
podem vir, se quiserem. Ela pôde vivenciar isso e ficou realmente
encantada", segundo ela.
Os
filhos de Dunn são maiores e quem mais a apoia é a mais nova.
"Quando
contei a ela o que estava fazendo, assim que comecei, ela disse: 'Mamãe, você é
o máximo.'"
"Mas
temos membros que falam de alguns dos seus filhos, filhos adultos, que se
preocupam com suas mães que estão tomando esta decisão."
Para
Dunn, em um lugar como Ontário, onde se diz que existem 150 mil idosas vivendo
na pobreza, é fundamental que existam estes espaços de coabitação.
"Estamos
começando a receber o apoio de construtores e donos de imóveis", ela
conta. "E estamos despertando sério interesse dos parlamentares."
Para
Nuutinen, a experiência de conectar as mulheres tem sido imensamente
gratificante e chegou a mudar a sua vida.
"É
um sonho que se tornou realidade morar em lugares diferentes, conforme a
estação ou o negócio", ela conta. "Isso me permite ter a vida que
sempre quis, sem estar presa a um só local."
No caso
de Dunn, a mudança foi igualmente radical.
"Deixei
de ficar desesperadamente isolada e aterrorizada por ficar sem casa para ter um
lar seguro, com mulheres com quem posso conversar, me sentir segura e me
divertir", ela conta. "E ainda fico com dinheiro no banco."
"Passei
de me sentir sozinha 24 horas por dia a nunca mais estar só outra vez",
conclui ela.
Fonte:
BBC News Mundo

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