Superar
monotonia alimentar não é volta ao passado
É
impressionante o volume e a importância das publicações vindas de revistas
científicas, de organizações multilaterais (públicas e privadas) ou de
movimentos sociais sobre a ameaça representada pela gigantesca concentração da
oferta agroalimentar global em alguns poucos produtos. Em dezembro de 2023, o
Fórum Econômico Mundial lançou um relatório devastador denunciando não só os
prejuízos dos ultraprocessados à saúde humana, mas propondo que as políticas
agrícolas modernas devem se pautar menos pelo empenho em aumentar a oferta do
que pelo estímulo a práticas produtivas regenerativas. O trabalho mostra que os
custos ocultos do sistema agroalimentar (ou seja, os prejuízos que ele traz à
saúde humana e aos serviços ecossistêmicos pelos quais as empresas nada pagam)
superam tudo o que o mundo gasta para comer.
O tema
dos ultraprocessados e do uso em larga escala de antibióticos nas produções
animais foi retomado num trabalho de 2025 da Mitsubishi UFG Financial Group, a
sétima maior empresa financeira do mundo. O estudo também alerta contra o
perigo da concentração da produção agroalimentar global em poucos produtos e em
poucas regiões. Anteriormente, em 2020, a McKinsey havia publicado um
importante texto sobre o risco global desta concentração, cujos impactos
geopolíticos também devem ser levados em consideração. Ismahane Elouafi,
liderança fundamental do Grupo Consultivo da Pesquisa Agronômica Internacional
(CGIAR, na sigla em inglês), e Shakuntala Thilsted (World Food Prize, 2021)
publicaram, em 2024, no jornal britânico The Telegraph, artigo mostrando que 75%
da oferta calórica global vem de apenas seis dos mais de sete mil produtos
comestíveis que a humanidade conhece. Em 2024, Elouafi publicou, na Science,
artigo mostrando o perigo de a biodiversidade desaparecer gradualmente das
paisagens agrícolas contemporâneas.
Estes
são alguns exemplos (amplamente respaldados em pesquisas científicas publicadas
nas melhores revistas internacionais) em que se baseia a ideia de que o sistema
agroalimentar global é caracterizado por uma tríplice monotonia: a da oferta
agrícola, a da criação animal e a do próprio consumo alimentar. O livro em que
esta ideia é apresentada foi objeto de uma excelente análise crítica por parte
do professor Antônio Márcio Buainain, aqui, no Jornal da Unicamp. O presente
artigo atende ao convite de Buainain para aprofundarmos a conversa em torno
dessa ideia.
Com
relação à vasta literatura em torno dos riscos gerados pela excessiva
concentração (de produtos, de técnicas, de regiões e de poder econômico), nosso
livro traz duas contribuições importantes.
A
primeira é a corroboração empírica da hipótese básica de que um traço marcante
do sistema agroalimentar brasileiro (a exemplo do que ocorre globalmente) é sua
monotonia, descrita em capítulos dedicados à agricultura de grãos, à produção
animal (monogástricos e ruminantes), à distribuição alimentar e ao consumo.
Isso se expressa na concentração da oferta em poucos produtos, no uso de
técnicas de cultivo e criação que sacrificam a diversidade e, como corolário,
em um crescimento do consumo de ultraprocessados e em uma diminuição do consumo
de produtos in natura ou minimamente processados em todas as faixas de renda.
A
segunda contribuição talvez seja ainda mais importante e consiste em
estabelecer uma ligação orgânica entre as três faces da monotonia do sistema
agroalimentar. Esta é a razão pela qual, embora existam, é claro, inúmeras
formas de produzir, distribuir e consumir alimentos, a esmagadora maioria dos
recursos, das terras, das capacidades produtivas, da ciência aplicada e do
próprio consumo respondem aos sinais que derivam da impressionante concentração
e da consequente monotonia que marca o sistema agroalimentar. Ou seja, por mais
relevantes que sejam as particularidades locais, há um inequívoco predomínio de
métodos produtivos que, se por um lado, contribuem decisivamente para o aumento
da oferta agropecuária, por outro se baseiam em técnicas que distanciam cada
vez mais o sistema agroalimentar dos requisitos daquilo que, no século XXI, é
recomendado pela melhor ciência internacional como uma alimentação saudável e
uma produção sustentável.
O
avanço de áreas cultiváveis onde antes existiam florestas ricas em
biodiversidade, o excessivo uso de agrotóxicos e outros insumos químicos
representam um impressionante impulso em destruir a vida que não pertence
diretamente aos produtos que se quer obter. Neste sentido, não nos parece
correta a afirmação de Buainain de que a monotonia é diferente em cada lugar.
Por
outro lado, ao que tudo indica, Buainain converge com o diagnóstico de nosso
livro, segundo o qual, apesar de sua capacidade de responder à crescente
demanda de alimentos das últimas décadas, o sistema agroalimentar global
apresenta problemas sérios referentes às emissões de gases de efeito estufa, à
poluição e ao próprio consumo alimentar. O que, por si só, já seria razão
suficiente para um chamado à revisão das bases em que se assenta esse sistema
de produção e consumo.
Porém,
Buainain ainda formula outras duas críticas. Uma delas, altamente relevante; a
outra, contudo, parece não se apoiar exatamente naquilo que o livro sugere.
A
primeira crítica é que haveria um contraste entre o vigor de nosso diagnóstico
e a relativa precariedade das soluções propostas. O diagnóstico da tríplice
monotonia surgiu no âmbito das pesquisas realizadas na Cátedra Josué de Castro
da Universidade de São Paulo. E o livro foi lançado simultaneamente à criação
de um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre este tema, reunindo sete
organizações de pesquisa, às quais os autores de cada capítulo estão
vinculados, e cinco organizações de apoio. Sabemos que as soluções à monotonia
não são simples, nem óbvias, e que os custos e os riscos de um processo de
transição para superá-la têm que ser rigorosamente estimados. Embora nos seis
artigos que compõem o livro soluções sejam apresentadas, é claro que estamos
ainda longe de um conjunto robusto de propostas capazes de orientar mudanças
disruptivas no atual funcionamento do sistema agroalimentar. O que o livro
evidencia com dados bastante consistentes (e isso é reconhecido pelo professor
Buainain) é que, subjacente à oferta agroalimentar contemporânea, acumulam-se
problemas socioambientais que não serão resolvidos automaticamente por algum
tipo de autocorreção.
E aí
surge nossa mais importante divergência com o texto do professor Buainain.
Segundo ele, nossa abordagem revela-se dicotômica e simplista, como se entre
diversidade e monotonia a linha divisória fosse clara e distinta, o que nos
levaria a subestimar os custos e os riscos das mudanças que preconizamos. Como
consequência, segundo Buainain, flertamos com uma visão romântica, quando não
ingênua, das mudanças necessárias para enfrentar a monotonia (que, na visão
dele, talvez seja um traço incontornável do atual sistema). O que preconizamos
para o sistema agroalimentar, segundo ele, corresponderia ao que é o artesanato
para a produção industrial. Nosso olho estaria fixado no espelho do retrovisor.
A raiz
desta imputação, que não corresponde ao nosso pensamento, está na assimilação
feita por Buainain entre alternativas ao modelo atual e a volta a um passado
arcadiano. Mas há dois equívocos nessa crítica. O primeiro é ignorar as
mudanças que já estão acontecendo na ciência agronômica do século 21 e que o
livro procura retratar: é o caso do significativo avanço das pesquisas e do uso
de bioinsumos (tema em que o Brasil, aliás, ocupa a vanguarda), ou da produção
de máquinas, técnicas e equipamentos destinados a sistemas agropecuários
diversificados, como já vem sendo experimentado na pecuária. Muitos dos
esforços mais expressivos da pesquisa hoje não estão mais orientados apenas
para produzir cada vez mais, e sim para encontrar na própria interação entre os
elementos vivos (e não em seu combate, como durante a Revolução Verde) as bases
para um aumento da produtividade que reconcilie o sistema agroalimentar com a
natureza e a saúde humana e animal. E não há razão para acreditar que estas
conquistas científicas terão como resultado um tipo de produção que não possa
se massificar e atender à demanda social. Ou seja, é insustentável a oposição
entre a atual oferta massiva (mas comprometedora da saúde humana e dos serviços
ecossistêmicos dos quais todos dependemos) e uma produção de nicho, saudável e
sustentável, mas que atenderia apenas às camadas de alta renda.
E isso
nos leva ao segundo equívoco: não se pode apontar o custo dessa transição como
barreira intransponível, sobretudo porque é ainda maior o custo da inação
perante os problemas conhecidos do atual modelo, como fica claro no Global
Policy Report – The Economics of Food System Transformation, publicado em 2024
por uma comissão de especialistas convocada por Gunhild Stordalen (EAT), Jeremy
Oppenheim (Food and Land Use Coalition, FOLU) and Johan Rockström (Potsdam
Institute for Climate Impact Research). É justamente nisso que estão
trabalhando as organizações multilaterais e os grupos científicos críticos da
monotonia do sistema agroalimentar.
Em
suma, o fato de as alternativas à tríplice monotonia do sistema agroalimentar
global não estarem prontas e acabadas é real e oferece um fascinante desafio.
Os problemas que nosso livro apresenta são tão graves que a única hipótese não
verossímil é que se mantenha a organização atual do sistema agroalimentar,
apesar de todos os seus gigantescos custos.
Quanto
ao mapa do caminho que pode levar à desintoxicação do sistema agroalimentar
contemporâneo em direção a formas sustentáveis e saudáveis de produção e
consumo, é certo que isso não envolve apenas inovações tecnológicas, como
procuramos mostrar no primeiro capítulo do livro. Isso envolve mudanças no
financiamento, nos incentivos e nas formas de regulação do sistema
agroalimentar. Algo que precisará ser traçado por forças sociais das quais a
comunidade científica é um componente decisivo. Neste sentido, só temos a
agradecer a generosa e elegante crítica que o professor Buainain dirige ao
nosso trabalho.
Fonte:
Por Ricardo Abramovay e Arilson Favareto, em Outras Palavras

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