sexta-feira, 13 de março de 2026

Superar monotonia alimentar não é volta ao passado

É impressionante o volume e a importância das publicações vindas de revistas científicas, de organizações multilaterais (públicas e privadas) ou de movimentos sociais sobre a ameaça representada pela gigantesca concentração da oferta agroalimentar global em alguns poucos produtos. Em dezembro de 2023, o Fórum Econômico Mundial lançou um relatório devastador denunciando não só os prejuízos dos ultraprocessados à saúde humana, mas propondo que as políticas agrícolas modernas devem se pautar menos pelo empenho em aumentar a oferta do que pelo estímulo a práticas produtivas regenerativas. O trabalho mostra que os custos ocultos do sistema agroalimentar (ou seja, os prejuízos que ele traz à saúde humana e aos serviços ecossistêmicos pelos quais as empresas nada pagam) superam tudo o que o mundo gasta para comer.

O tema dos ultraprocessados e do uso em larga escala de antibióticos nas produções animais foi retomado num trabalho de 2025 da Mitsubishi UFG Financial Group, a sétima maior empresa financeira do mundo. O estudo também alerta contra o perigo da concentração da produção agroalimentar global em poucos produtos e em poucas regiões. Anteriormente, em 2020, a McKinsey havia publicado um importante texto sobre o risco global desta concentração, cujos impactos geopolíticos também devem ser levados em consideração. Ismahane Elouafi, liderança fundamental do Grupo Consultivo da Pesquisa Agronômica Internacional (CGIAR, na sigla em inglês), e Shakuntala Thilsted (World Food Prize, 2021) publicaram, em 2024, no jornal britânico The Telegraph, artigo mostrando que 75% da oferta calórica global vem de apenas seis dos mais de sete mil produtos comestíveis que a humanidade conhece. Em 2024, Elouafi publicou, na Science, artigo mostrando o perigo de a biodiversidade desaparecer gradualmente das paisagens agrícolas contemporâneas.

Estes são alguns exemplos (amplamente respaldados em pesquisas científicas publicadas nas melhores revistas internacionais) em que se baseia a ideia de que o sistema agroalimentar global é caracterizado por uma tríplice monotonia: a da oferta agrícola, a da criação animal e a do próprio consumo alimentar. O livro em que esta ideia é apresentada foi objeto de uma excelente análise crítica por parte do professor Antônio Márcio Buainain, aqui, no Jornal da Unicamp. O presente artigo atende ao convite de Buainain para aprofundarmos a conversa em torno dessa ideia.

Com relação à vasta literatura em torno dos riscos gerados pela excessiva concentração (de produtos, de técnicas, de regiões e de poder econômico), nosso livro traz duas contribuições importantes.

A primeira é a corroboração empírica da hipótese básica de que um traço marcante do sistema agroalimentar brasileiro (a exemplo do que ocorre globalmente) é sua monotonia, descrita em capítulos dedicados à agricultura de grãos, à produção animal (monogástricos e ruminantes), à distribuição alimentar e ao consumo. Isso se expressa na concentração da oferta em poucos produtos, no uso de técnicas de cultivo e criação que sacrificam a diversidade e, como corolário, em um crescimento do consumo de ultraprocessados e em uma diminuição do consumo de produtos in natura ou minimamente processados em todas as faixas de renda.

A segunda contribuição talvez seja ainda mais importante e consiste em estabelecer uma ligação orgânica entre as três faces da monotonia do sistema agroalimentar. Esta é a razão pela qual, embora existam, é claro, inúmeras formas de produzir, distribuir e consumir alimentos, a esmagadora maioria dos recursos, das terras, das capacidades produtivas, da ciência aplicada e do próprio consumo respondem aos sinais que derivam da impressionante concentração e da consequente monotonia que marca o sistema agroalimentar. Ou seja, por mais relevantes que sejam as particularidades locais, há um inequívoco predomínio de métodos produtivos que, se por um lado, contribuem decisivamente para o aumento da oferta agropecuária, por outro se baseiam em técnicas que distanciam cada vez mais o sistema agroalimentar dos requisitos daquilo que, no século XXI, é recomendado pela melhor ciência internacional como uma alimentação saudável e uma produção sustentável.

O avanço de áreas cultiváveis onde antes existiam florestas ricas em biodiversidade, o excessivo uso de agrotóxicos e outros insumos químicos representam um impressionante impulso em destruir a vida que não pertence diretamente aos produtos que se quer obter. Neste sentido, não nos parece correta a afirmação de Buainain de que a monotonia é diferente em cada lugar.

Por outro lado, ao que tudo indica, Buainain converge com o diagnóstico de nosso livro, segundo o qual, apesar de sua capacidade de responder à crescente demanda de alimentos das últimas décadas, o sistema agroalimentar global apresenta problemas sérios referentes às emissões de gases de efeito estufa, à poluição e ao próprio consumo alimentar. O que, por si só, já seria razão suficiente para um chamado à revisão das bases em que se assenta esse sistema de produção e consumo.

Porém, Buainain ainda formula outras duas críticas. Uma delas, altamente relevante; a outra, contudo, parece não se apoiar exatamente naquilo que o livro sugere.

A primeira crítica é que haveria um contraste entre o vigor de nosso diagnóstico e a relativa precariedade das soluções propostas. O diagnóstico da tríplice monotonia surgiu no âmbito das pesquisas realizadas na Cátedra Josué de Castro da Universidade de São Paulo. E o livro foi lançado simultaneamente à criação de um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre este tema, reunindo sete organizações de pesquisa, às quais os autores de cada capítulo estão vinculados, e cinco organizações de apoio. Sabemos que as soluções à monotonia não são simples, nem óbvias, e que os custos e os riscos de um processo de transição para superá-la têm que ser rigorosamente estimados. Embora nos seis artigos que compõem o livro soluções sejam apresentadas, é claro que estamos ainda longe de um conjunto robusto de propostas capazes de orientar mudanças disruptivas no atual funcionamento do sistema agroalimentar. O que o livro evidencia com dados bastante consistentes (e isso é reconhecido pelo professor Buainain) é que, subjacente à oferta agroalimentar contemporânea, acumulam-se problemas socioambientais que não serão resolvidos automaticamente por algum tipo de autocorreção.

E aí surge nossa mais importante divergência com o texto do professor Buainain. Segundo ele, nossa abordagem revela-se dicotômica e simplista, como se entre diversidade e monotonia a linha divisória fosse clara e distinta, o que nos levaria a subestimar os custos e os riscos das mudanças que preconizamos. Como consequência, segundo Buainain, flertamos com uma visão romântica, quando não ingênua, das mudanças necessárias para enfrentar a monotonia (que, na visão dele, talvez seja um traço incontornável do atual sistema). O que preconizamos para o sistema agroalimentar, segundo ele, corresponderia ao que é o artesanato para a produção industrial. Nosso olho estaria fixado no espelho do retrovisor.

A raiz desta imputação, que não corresponde ao nosso pensamento, está na assimilação feita por Buainain entre alternativas ao modelo atual e a volta a um passado arcadiano. Mas há dois equívocos nessa crítica. O primeiro é ignorar as mudanças que já estão acontecendo na ciência agronômica do século 21 e que o livro procura retratar: é o caso do significativo avanço das pesquisas e do uso de bioinsumos (tema em que o Brasil, aliás, ocupa a vanguarda), ou da produção de máquinas, técnicas e equipamentos destinados a sistemas agropecuários diversificados, como já vem sendo experimentado na pecuária. Muitos dos esforços mais expressivos da pesquisa hoje não estão mais orientados apenas para produzir cada vez mais, e sim para encontrar na própria interação entre os elementos vivos (e não em seu combate, como durante a Revolução Verde) as bases para um aumento da produtividade que reconcilie o sistema agroalimentar com a natureza e a saúde humana e animal. E não há razão para acreditar que estas conquistas científicas terão como resultado um tipo de produção que não possa se massificar e atender à demanda social. Ou seja, é insustentável a oposição entre a atual oferta massiva (mas comprometedora da saúde humana e dos serviços ecossistêmicos dos quais todos dependemos) e uma produção de nicho, saudável e sustentável, mas que atenderia apenas às camadas de alta renda.

E isso nos leva ao segundo equívoco: não se pode apontar o custo dessa transição como barreira intransponível, sobretudo porque é ainda maior o custo da inação perante os problemas conhecidos do atual modelo, como fica claro no Global Policy Report – The Economics of Food System Transformation, publicado em 2024 por uma comissão de especialistas convocada por Gunhild Stordalen (EAT), Jeremy Oppenheim (Food and Land Use Coalition, FOLU) and Johan Rockström (Potsdam Institute for Climate Impact Research). É justamente nisso que estão trabalhando as organizações multilaterais e os grupos científicos críticos da monotonia do sistema agroalimentar.

Em suma, o fato de as alternativas à tríplice monotonia do sistema agroalimentar global não estarem prontas e acabadas é real e oferece um fascinante desafio. Os problemas que nosso livro apresenta são tão graves que a única hipótese não verossímil é que se mantenha a organização atual do sistema agroalimentar, apesar de todos os seus gigantescos custos.

Quanto ao mapa do caminho que pode levar à desintoxicação do sistema agroalimentar contemporâneo em direção a formas sustentáveis e saudáveis de produção e consumo, é certo que isso não envolve apenas inovações tecnológicas, como procuramos mostrar no primeiro capítulo do livro. Isso envolve mudanças no financiamento, nos incentivos e nas formas de regulação do sistema agroalimentar. Algo que precisará ser traçado por forças sociais das quais a comunidade científica é um componente decisivo. Neste sentido, só temos a agradecer a generosa e elegante crítica que o professor Buainain dirige ao nosso trabalho.

 

Fonte: Por Ricardo Abramovay e Arilson Favareto, em Outras Palavras

 

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