sábado, 14 de março de 2026

Moisés Mendes: As pesquisas precárias que desmoralizam os institutos

Duas pesquisas sobre as principais preocupações dos brasileiros foram publicadas essa semana, uma na segunda e outra na quarta-feira.

Imaginem as reações de Lula e de seus ministros diante das pesquisas de institutos com marcas fortes no mercado. Qual delas eles levariam a sério, já que uma diz isso e a outra diz aquilo?

Leiam esses dois textos. Primeiro, sobre a pesquisa do Datafolha, com um resumo do que foi publicado:

1. Pesquisa Datafolha divulgada pela Folha de S. Paulo nessa terça-feira (10) aponta que saúde e segurança pública são os principais problemas do país. É o que diz a Folha.

De acordo com o levantamento, 21% dos entrevistados citaram a saúde como o maior desafio nacional. Em seguida, aparece a violência, mencionada por 19% dos participantes.

O jornal continua. A economia ocupa o terceiro lugar, com 11% das respostas, considerando preocupações relacionadas à inflação e ao aumento do preço da cesta básica. Educação e corrupção aparecem empatadas na sequência, com 9% cada.

Agora leiam esse texto sobre a outra pesquisa, da Quaest, divulgada na quarta-feira:

2. A pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (11) mostra que 27% dos entrevistados apontam a violência como a maior preocupação.

A corrupção aparece em seguida, com 20% das menções. Outros temas citados incluem problemas sociais, saúde, economia e educação, informa o G1.

Depois aparecem a saúde, com 13%, e a economia, com 10%. A educação aparece com 6%.

Lula e seus ministros vão conseguir entender? O Datafolha ouviu as pessoas antes, e o Quaest logo depois, e nesse pouco tempo os brasileiros mudaram de opinião?

A Folha chegou a publicar essa manchete:

“Datafolha: 9% veem corrupção como principal problema do país em meio a casos Master e INSS”.

Como a corrupção aparece na manchete com 9%, se antes, na pesquisa do próprio DataFolha, com índices muito mais altos, aparecem saúde, segurança pública, inflação e finalmente educação e corrupção.

A corrupção, citada entre as menores preocupações, ao lado da educação, foi puxada para a manchete, para que seja reforçado o novo lavajatismo?

O nome disso não é erro, é manipulação. E os desencontros nos índices entre os dois institutos são provas de falhas graves e da precariedade das metodologias de um deles ou dos dois.

As pesquisas são desleixadas e desmoralizadoras dos próprios institutos. Algumas preocupações reveladas em uma pesquisa estão em posições quase invertidas em relação às do outro instituto.

Parece apenas falha de métodos porque, entre outras diferenças, um prefere as perguntas presenciais e o outro faz entrevistas por telefone. Não pode ser só isso. As discrepâncias, que tiram o sentido desse tipo de consulta, sugerem a combinação de desleixo com oportunismo.

São pesquisas feitas de qualquer jeito? Sempre foi assim, é o que dizem, mas o momento é grave – com o fascismo com as unhas de fora outra vez – e não permite esse tipo de desculpa.

Qual é a contribuição desse tipo de pesquisa para que se compreendam os desvios de percepção da realidade? Contribuem apenas para a confusão da nova onda lavajatista.

•        De como uma pesquisa se preocupa com o Banco Master na eleição

Qual o motivo de se realizar uma pesquisa sobre o "escândalo do Banco Master"? A resposta é uma só: eleitoral. Neste ano, o de 2026, qualquer passo que se dê, para um lado ou para o outro todos os envolvidos irão apontar razões eleitorais para essas ou aquelas atitudes. É do jogo.

O que não é do jogo é montar uma pesquisa de dois em dois dias, com perguntas direcionadas, forçando a sociedade a se posicionar sobre tudo e mais alguma coisa, a fim de pautar a mídia e fornecer munição a ela para discorrer sobre o tema da vez, eleito nas reuniões de pauta, de modo a trazer para o debate o falso debate.

Imaginem perguntar para alguém na rua se já ouviu falar do Banco Master? Claro. Num país em que as pessoas simples ainda param na hora do jantar para ver o noticiário da TV, não é de se espantar que 65% dos 2.004 entrevistados pela Genial+Quest, digam que sim, já ouviram falar dessa história e sabem que o Vorcaro foi preso. O surpreendente é que haja, ainda, 33% que não tenham conhecimento sobre o fato, e 2% não estão nem aí para o que está acontecendo.

Mas as próximas perguntas começam a afunilar e colocar o coitado do entrevistado contra a parede, forçando a que ele preste atenção a que alguém está perdendo nessa história e não é só ele, o coitado que arcará com o rombo, já que o dinheiro para ressarcir os lesados sairá dos cofres públicos. Não. O que a pesquisa quer é que ele se dê conta de que alguém deverá ser responsabilizado pelo escândalo e afetado por ele. O mais honesto seria perguntar: — No colo de quem deve cair esse escândalo? —, mas aí ficaria "bandeiroso" demais. Então a pergunta vem edulcorada, com aquele tom "acadêmico": — Quem foi mais afetado negativamente pelo escândalo do Banco Master? — pelo entrevistador, ele responderia de pronto: — O governo Lula! — mas como há que manter um certo decoro, no questionário e nas respostas a ele, (só um tanto), 40% dizem que todos os poderes perderam. E, para surpresa, já que estamos em tempos de "empate", 11% dizem que foi o "governo anterior/Bolsonaro" e 10% "o governo Lula". Ok para esse ponto. Afinal, o governo anterior já acabou e quem segura o rojão no momento é o "governo Lula". Detalhe importante: nesse quesito, 17% não querem nem saber. Deram de ombros e saíram andando. Apenas 1% aliviou geral e respondeu: — Nenhum deles.

Mas ainda não está bom. O papo não foi direcionado o suficiente. Então vamos afunilar mais um pouco. A pesquisa só falta advertir: — Presta atenção às perguntas, pô! — e aí vem o desdobramento: — Quem foi mais afetado negativamente pelo escândalo do Banco Master? Posicionamento político.

Não basta apontar. Tem que ser dentro da ideologia. E de novo os entrevistados não cooperam e distribuem o prejuízo. A esquerda lulista aproveita a oportunidade e 31% apontam todo mundo com o prejuízo. É isso mesmo. Bota na conta de geral. A esquerda cirandeira, não lulista, vai além e 51% alargam essa margem. "É isso mermo! É de geral!", confirmam.

Os lulistas vão fundo e 30% debitam para Bolsonaro o "preju". Quem foi afetado é porque tem a ver com o problema, certo? Convenhamos, não estão errados não. A julgar pelas notícias veiculadas sobre o assunto, não há prejuízo que cole nele. Já na esquerda rosinha, só 22% arriscam apontar para Bozo, na hora do prejuízo.

Para 15% da direita bolsonarista, sim, Bolsonaro, coitado, já está sentindo o golpe. Mesmo lá de dentro dos seus 64 m² de Papudinha. Já os 26% bolsonaristas raiz parecem gritar: — Tão botando tudo na conta dele, mas o maior prejudicado deve ser o Lula, que não se posiciona, que não tá nem aí!

Daqui por diante a pesquisa descamba para o que se poderia chamar de "tendenciosa". Querem saber se lá em outubro, sete meses depois, na hora de votar, o entrevistado vai pensar: — Esse safado foi citado no escândalo do Banco Master! Não voto nele de jeito nenhum. Por isso a pergunta é: — Para definir o seu voto você: evitaria votar em qualquer candidato envolvido no escândalo do Banco Master; levaria o tema em consideração, assim como outras questões, ou não levaria?

Amigos, agora, no calor da hora, quando você liga qualquer aparelho e não se fala de outra coisa, que resultado você acha que deu??? Claro que 38% (e até foi pouco), responderam que, evidente que não votariam em candidato citado no escândalo ou que estivesse a pelo menos alguns metros dele. Para 29%, lá em outubro isso poderia pesar, medir, colocar na balança outras questões e votaria. E 20% é só rancor, envenenados que estão com esse bombardeio que esquece o Roberto Campos Neto, Ibaneis e outros tantos, mas faz um esforço imenso para puxar para perto o Palácio do Planalto. Não se surpreendam se aquele senador do Nordeste aparecer entre os mais bem votados... Alguém está lembrando dele no escândalo? Então... Bem fazem os 13% que não sabem de nada. Vão chegar levinhos na urna. Se bem que vão votar em branco, porque não acreditam mais em nada. Só na própria alienação. Teve desdobramento ideológico nessa pergunta também, mas nem vamos comentar. É chover no molhado.

Importante é o próximo questionamento: — Você confia no STF? Acreditem, deu quase empate técnico: 49% confiam e 43% não confiam. E, por região, zero surpresa. No Nordeste, são 52% a dar votos de confiança ao STF, enquanto 38% (os nordestinos já foram mais crédulos), não confiam.

No Sudeste, 51% não confiam (aposto que a maioria dos entrevistados foi de mineiros, que têm fama de desconfiados) e 42% confiam. No Sul, o não confia empatou com o Sudeste, nos 51%, contra 33% que confiam. O Centro-Oeste não ficou atrás: 50% não confia e 38% confiam.

Por renda familiar, pobres se juntaram aos ricos na desconfiança, sendo que os de até dois salários 46% confiam e 42% não confiam. Os de até cinco salários 52% não confiam e 41% confiam. Estão nesta faixa a maioria dos que frequentam igrejas neopentecostais, onde os pastores pregam contra as instituições. Entre os mais de cinco salários 55% não confiam e 42% confiam. Tudo muito parecido, nas respostas.

O requinte da manipulação e direcionamento vem agora, na seguinte pergunta: — Você concorda ou discorda que o STF tem poder demais; é importante votar em um senador comprometido com o impeachment dos ministros do STF; o STF é aliado do governo Lula; o STF foi importante para manter a democracia no Brasil.

Para 72% sim, o STF tem poder demais, mas 2% nem concorda nem discorda dessa opinião. São 18% os que discordam (pouquinhos os que não foram contaminados por essa ideia). Para 8% tanto faz, não devem saber para o que servem aqueles ministros, ou não se importam com eles.

Para a pergunta mais indutiva da pesquisa, se acham importante votar num senador que quisesse o impeachment dos ministros (do time dos que torcem: desmantela que a gente concorda!), 66% concordam, 2% não estão preocupados com isso, 22% discordam e 10% não querem falar sobre isso. Nem aí.

Mas agora vem a pergunta mais venenosa ainda: — O STF é aliado do Lula? São 59%, os que concordam. Outros 3% não concordam nem discordam, 26% discordam e 12% mandaram o entrevistador ver se estão na esquina.

Os pesquisados foram pinçados em um universo de 53% de mulheres, 47% de homens, com idade entre 16 e 34 anos, 31%; de 35 a 59 anos 46% e de 60 ou mais, 23%.

Desses, 42% têm o ensino fundamental, 39% o ensino médio e 19% com ensino superior. Foram 48% de católicos, os entrevistados, 28% de evangélicos, 8% de outras religiões e 16% não têm religião. Agora, caros leitores, vocês me dão licença que eu vou ali me empanturrar de manipulações, na TV, e depois eu volto. E não me falem de pesquisa tão cedo.

<><> Entre a ética e o preço: a lição incômoda do caso Vorcaro. Por Florestan Fernandes Jr

As investigações do Banco Master no STF entram no quarto mês, arrastando insegurança jurídica, ameaças a jornalistas, prisões e muitos vazamentos com objetivos políticos. As manchetes dos sites de quarta para quinta-feira (12/03) dão conta de que Dias Toffoli, agora se diz suspeito para apreciar no Colegiado que integra, decisão monocrática de André Mendonça que levou à prisão de Vorcaro. Julgamento este que preocupa bastante a turma do Centrão, que nos bastidores da segunda turma do STF, tem pressionado os ministros a votarem pela libertação de Daniel Vorcaro. O objetivo é claro, impedir a qualquer custo a possibilidade de Vorcaro fazer uma delação premiada. O julgamento começa amanhã (13/3) e, independente da decisão, já podemos prever que no Congresso os interessados são muitos. 

Se existe uma lição deixada nas relações de Daniel Vorcaro com figuras do chamado engravatados, ela está na linha tênue que separa a ética da imoralidade. Mais do que um episódio isolado, o caso expõe um padrão recorrente nas elites políticas, jurídicas, midiáticas e financeiras do país: a facilidade com que princípios podem ser relativizados quando entram em cena interesses pessoais e promessas de ganhos fáceis.

Todos, em maior ou menor grau, devem explicações à justiça e à sociedade. Tiveram relações pouco republicanas com Vorcaro e, se não cometeram necessariamente ilegalidade, levantam questionamentos profundos sobre limites éticos e conflitos de interesse. Esse ambiente não surgiu por acaso. Ele ganhou força especialmente a partir da chegada ao poder dos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, período em que se ampliaram as zonas de contato entre interesses públicos e privados e se naturalizou, em vários níveis, a promiscuidade entre o mundo da política, do sistema financeiro e das estruturas de poder do Estado.

No caso específico de Vorcaro, as conexões reveladas ajudam a ilustrar esse quadro. O banqueiro manteve ao menos 40 encontros com Roberto Campos Neto, então presidente do Banco Central do Brasil. Embora reuniões entre agentes do sistema financeiro e autoridades monetárias façam parte da rotina institucional, a frequência desses encontros inevitavelmente levanta questionamentos sobre o grau de proximidade entre interesses privados e decisões que afetam todo o sistema financeiro do país.

E as zonas cinzentas entre interesses públicos e privados não se restringem ao sistema financeiro ou aos governos. Nos últimos anos, episódios envolvendo integrantes do próprio Judiciário também suscitaram debates públicos sobre limites éticos. Entre eles, a venda de um imóvel ligado ao resort Tayayá pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli, operação que gerou questionamentos sobre relações com o banco Master.

Outro caso que gerou debate foi o contrato milionário firmado pelo banco de Daniel Vorcaro com o escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes, levantando discussões sobre possíveis conflitos de interesse entre atividades privadas e a posição institucional ocupada no mais alto tribunal do país.

A democracia depende de instituições que funcionem com autonomia, integridade e transparência. Quando esses pilares se fragilizam, abre-se espaço para a contaminação corrosiva das próprias instituições. 

A apuração dos fatos que levaram à liquidação do Banco Master vai seguir seu curso, com base em provas e dentro do devido processo legal. Mas, independentemente dos desfechos judiciais, fica a pergunta incômoda: quantos, diante das mesmas oportunidades, resistiriam à tentação de transformar reputação e influência em moeda de troca?

 

Fonte: Brasil 247

 

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