Moisés
Mendes: As pesquisas precárias que desmoralizam os institutos
Duas
pesquisas sobre as principais preocupações dos brasileiros foram publicadas
essa semana, uma na segunda e outra na quarta-feira.
Imaginem
as reações de Lula e de seus ministros diante das pesquisas de institutos com
marcas fortes no mercado. Qual delas eles levariam a sério, já que uma diz isso
e a outra diz aquilo?
Leiam
esses dois textos. Primeiro, sobre a pesquisa do Datafolha, com um resumo do
que foi publicado:
1.
Pesquisa Datafolha divulgada pela Folha de S. Paulo nessa terça-feira (10)
aponta que saúde e segurança pública são os principais problemas do país. É o
que diz a Folha.
De
acordo com o levantamento, 21% dos entrevistados citaram a saúde como o maior
desafio nacional. Em seguida, aparece a violência, mencionada por 19% dos
participantes.
O
jornal continua. A economia ocupa o terceiro lugar, com 11% das respostas,
considerando preocupações relacionadas à inflação e ao aumento do preço da
cesta básica. Educação e corrupção aparecem empatadas na sequência, com 9%
cada.
Agora
leiam esse texto sobre a outra pesquisa, da Quaest, divulgada na quarta-feira:
2. A
pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (11) mostra que 27% dos
entrevistados apontam a violência como a maior preocupação.
A
corrupção aparece em seguida, com 20% das menções. Outros temas citados incluem
problemas sociais, saúde, economia e educação, informa o G1.
Depois
aparecem a saúde, com 13%, e a economia, com 10%. A educação aparece com 6%.
Lula e
seus ministros vão conseguir entender? O Datafolha ouviu as pessoas antes, e o
Quaest logo depois, e nesse pouco tempo os brasileiros mudaram de opinião?
A Folha
chegou a publicar essa manchete:
“Datafolha:
9% veem corrupção como principal problema do país em meio a casos Master e
INSS”.
Como a
corrupção aparece na manchete com 9%, se antes, na pesquisa do próprio
DataFolha, com índices muito mais altos, aparecem saúde, segurança pública,
inflação e finalmente educação e corrupção.
A
corrupção, citada entre as menores preocupações, ao lado da educação, foi
puxada para a manchete, para que seja reforçado o novo lavajatismo?
O nome
disso não é erro, é manipulação. E os desencontros nos índices entre os dois
institutos são provas de falhas graves e da precariedade das metodologias de um
deles ou dos dois.
As
pesquisas são desleixadas e desmoralizadoras dos próprios institutos. Algumas
preocupações reveladas em uma pesquisa estão em posições quase invertidas em
relação às do outro instituto.
Parece
apenas falha de métodos porque, entre outras diferenças, um prefere as
perguntas presenciais e o outro faz entrevistas por telefone. Não pode ser só
isso. As discrepâncias, que tiram o sentido desse tipo de consulta, sugerem a
combinação de desleixo com oportunismo.
São
pesquisas feitas de qualquer jeito? Sempre foi assim, é o que dizem, mas o
momento é grave – com o fascismo com as unhas de fora outra vez – e não permite
esse tipo de desculpa.
Qual é
a contribuição desse tipo de pesquisa para que se compreendam os desvios de
percepção da realidade? Contribuem apenas para a confusão da nova onda
lavajatista.
• De como uma pesquisa se preocupa com o
Banco Master na eleição
Qual o
motivo de se realizar uma pesquisa sobre o "escândalo do Banco
Master"? A resposta é uma só: eleitoral. Neste ano, o de 2026, qualquer
passo que se dê, para um lado ou para o outro todos os envolvidos irão apontar
razões eleitorais para essas ou aquelas atitudes. É do jogo.
O que
não é do jogo é montar uma pesquisa de dois em dois dias, com perguntas
direcionadas, forçando a sociedade a se posicionar sobre tudo e mais alguma
coisa, a fim de pautar a mídia e fornecer munição a ela para discorrer sobre o
tema da vez, eleito nas reuniões de pauta, de modo a trazer para o debate o
falso debate.
Imaginem
perguntar para alguém na rua se já ouviu falar do Banco Master? Claro. Num país
em que as pessoas simples ainda param na hora do jantar para ver o noticiário
da TV, não é de se espantar que 65% dos 2.004 entrevistados pela Genial+Quest,
digam que sim, já ouviram falar dessa história e sabem que o Vorcaro foi preso.
O surpreendente é que haja, ainda, 33% que não tenham conhecimento sobre o
fato, e 2% não estão nem aí para o que está acontecendo.
Mas as
próximas perguntas começam a afunilar e colocar o coitado do entrevistado
contra a parede, forçando a que ele preste atenção a que alguém está perdendo
nessa história e não é só ele, o coitado que arcará com o rombo, já que o
dinheiro para ressarcir os lesados sairá dos cofres públicos. Não. O que a
pesquisa quer é que ele se dê conta de que alguém deverá ser responsabilizado
pelo escândalo e afetado por ele. O mais honesto seria perguntar: — No colo de
quem deve cair esse escândalo? —, mas aí ficaria "bandeiroso" demais.
Então a pergunta vem edulcorada, com aquele tom "acadêmico": — Quem
foi mais afetado negativamente pelo escândalo do Banco Master? — pelo
entrevistador, ele responderia de pronto: — O governo Lula! — mas como há que
manter um certo decoro, no questionário e nas respostas a ele, (só um tanto),
40% dizem que todos os poderes perderam. E, para surpresa, já que estamos em
tempos de "empate", 11% dizem que foi o "governo
anterior/Bolsonaro" e 10% "o governo Lula". Ok para esse ponto.
Afinal, o governo anterior já acabou e quem segura o rojão no momento é o
"governo Lula". Detalhe importante: nesse quesito, 17% não querem nem
saber. Deram de ombros e saíram andando. Apenas 1% aliviou geral e respondeu: —
Nenhum deles.
Mas
ainda não está bom. O papo não foi direcionado o suficiente. Então vamos
afunilar mais um pouco. A pesquisa só falta advertir: — Presta atenção às
perguntas, pô! — e aí vem o desdobramento: — Quem foi mais afetado
negativamente pelo escândalo do Banco Master? Posicionamento político.
Não
basta apontar. Tem que ser dentro da ideologia. E de novo os entrevistados não
cooperam e distribuem o prejuízo. A esquerda lulista aproveita a oportunidade e
31% apontam todo mundo com o prejuízo. É isso mesmo. Bota na conta de geral. A
esquerda cirandeira, não lulista, vai além e 51% alargam essa margem. "É
isso mermo! É de geral!", confirmam.
Os
lulistas vão fundo e 30% debitam para Bolsonaro o "preju". Quem foi
afetado é porque tem a ver com o problema, certo? Convenhamos, não estão
errados não. A julgar pelas notícias veiculadas sobre o assunto, não há
prejuízo que cole nele. Já na esquerda rosinha, só 22% arriscam apontar para
Bozo, na hora do prejuízo.
Para
15% da direita bolsonarista, sim, Bolsonaro, coitado, já está sentindo o golpe.
Mesmo lá de dentro dos seus 64 m² de Papudinha. Já os 26% bolsonaristas raiz
parecem gritar: — Tão botando tudo na conta dele, mas o maior prejudicado deve
ser o Lula, que não se posiciona, que não tá nem aí!
Daqui
por diante a pesquisa descamba para o que se poderia chamar de
"tendenciosa". Querem saber se lá em outubro, sete meses depois, na
hora de votar, o entrevistado vai pensar: — Esse safado foi citado no escândalo
do Banco Master! Não voto nele de jeito nenhum. Por isso a pergunta é: — Para
definir o seu voto você: evitaria votar em qualquer candidato envolvido no
escândalo do Banco Master; levaria o tema em consideração, assim como outras
questões, ou não levaria?
Amigos,
agora, no calor da hora, quando você liga qualquer aparelho e não se fala de
outra coisa, que resultado você acha que deu??? Claro que 38% (e até foi
pouco), responderam que, evidente que não votariam em candidato citado no
escândalo ou que estivesse a pelo menos alguns metros dele. Para 29%, lá em
outubro isso poderia pesar, medir, colocar na balança outras questões e
votaria. E 20% é só rancor, envenenados que estão com esse bombardeio que
esquece o Roberto Campos Neto, Ibaneis e outros tantos, mas faz um esforço
imenso para puxar para perto o Palácio do Planalto. Não se surpreendam se
aquele senador do Nordeste aparecer entre os mais bem votados... Alguém está
lembrando dele no escândalo? Então... Bem fazem os 13% que não sabem de nada.
Vão chegar levinhos na urna. Se bem que vão votar em branco, porque não
acreditam mais em nada. Só na própria alienação. Teve desdobramento ideológico
nessa pergunta também, mas nem vamos comentar. É chover no molhado.
Importante
é o próximo questionamento: — Você confia no STF? Acreditem, deu quase empate
técnico: 49% confiam e 43% não confiam. E, por região, zero surpresa. No
Nordeste, são 52% a dar votos de confiança ao STF, enquanto 38% (os nordestinos
já foram mais crédulos), não confiam.
No
Sudeste, 51% não confiam (aposto que a maioria dos entrevistados foi de
mineiros, que têm fama de desconfiados) e 42% confiam. No Sul, o não confia
empatou com o Sudeste, nos 51%, contra 33% que confiam. O Centro-Oeste não
ficou atrás: 50% não confia e 38% confiam.
Por
renda familiar, pobres se juntaram aos ricos na desconfiança, sendo que os de
até dois salários 46% confiam e 42% não confiam. Os de até cinco salários 52%
não confiam e 41% confiam. Estão nesta faixa a maioria dos que frequentam
igrejas neopentecostais, onde os pastores pregam contra as instituições. Entre
os mais de cinco salários 55% não confiam e 42% confiam. Tudo muito parecido,
nas respostas.
O
requinte da manipulação e direcionamento vem agora, na seguinte pergunta: —
Você concorda ou discorda que o STF tem poder demais; é importante votar em um
senador comprometido com o impeachment dos ministros do STF; o STF é aliado do
governo Lula; o STF foi importante para manter a democracia no Brasil.
Para
72% sim, o STF tem poder demais, mas 2% nem concorda nem discorda dessa
opinião. São 18% os que discordam (pouquinhos os que não foram contaminados por
essa ideia). Para 8% tanto faz, não devem saber para o que servem aqueles
ministros, ou não se importam com eles.
Para a
pergunta mais indutiva da pesquisa, se acham importante votar num senador que
quisesse o impeachment dos ministros (do time dos que torcem: desmantela que a
gente concorda!), 66% concordam, 2% não estão preocupados com isso, 22%
discordam e 10% não querem falar sobre isso. Nem aí.
Mas
agora vem a pergunta mais venenosa ainda: — O STF é aliado do Lula? São 59%, os
que concordam. Outros 3% não concordam nem discordam, 26% discordam e 12%
mandaram o entrevistador ver se estão na esquina.
Os
pesquisados foram pinçados em um universo de 53% de mulheres, 47% de homens,
com idade entre 16 e 34 anos, 31%; de 35 a 59 anos 46% e de 60 ou mais, 23%.
Desses,
42% têm o ensino fundamental, 39% o ensino médio e 19% com ensino superior.
Foram 48% de católicos, os entrevistados, 28% de evangélicos, 8% de outras
religiões e 16% não têm religião. Agora, caros leitores, vocês me dão licença
que eu vou ali me empanturrar de manipulações, na TV, e depois eu volto. E não
me falem de pesquisa tão cedo.
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Entre a ética e o preço: a lição incômoda do caso Vorcaro. Por Florestan
Fernandes Jr
As
investigações do Banco Master no STF entram no quarto mês, arrastando
insegurança jurídica, ameaças a jornalistas, prisões e muitos vazamentos com
objetivos políticos. As manchetes dos sites de quarta para quinta-feira (12/03)
dão conta de que Dias Toffoli, agora se diz suspeito para apreciar no Colegiado
que integra, decisão monocrática de André Mendonça que levou à prisão de
Vorcaro. Julgamento este que preocupa bastante a turma do Centrão, que nos
bastidores da segunda turma do STF, tem pressionado os ministros a votarem pela
libertação de Daniel Vorcaro. O objetivo é claro, impedir a qualquer custo a
possibilidade de Vorcaro fazer uma delação premiada. O julgamento começa amanhã
(13/3) e, independente da decisão, já podemos prever que no Congresso os
interessados são muitos.
Se
existe uma lição deixada nas relações de Daniel Vorcaro com figuras do chamado
engravatados, ela está na linha tênue que separa a ética da imoralidade. Mais
do que um episódio isolado, o caso expõe um padrão recorrente nas elites
políticas, jurídicas, midiáticas e financeiras do país: a facilidade com que
princípios podem ser relativizados quando entram em cena interesses pessoais e
promessas de ganhos fáceis.
Todos,
em maior ou menor grau, devem explicações à justiça e à sociedade. Tiveram
relações pouco republicanas com Vorcaro e, se não cometeram necessariamente
ilegalidade, levantam questionamentos profundos sobre limites éticos e
conflitos de interesse. Esse ambiente não surgiu por acaso. Ele ganhou força
especialmente a partir da chegada ao poder dos governos de Michel Temer e Jair
Bolsonaro, período em que se ampliaram as zonas de contato entre interesses
públicos e privados e se naturalizou, em vários níveis, a promiscuidade entre o
mundo da política, do sistema financeiro e das estruturas de poder do Estado.
No caso
específico de Vorcaro, as conexões reveladas ajudam a ilustrar esse quadro. O
banqueiro manteve ao menos 40 encontros com Roberto Campos Neto, então
presidente do Banco Central do Brasil. Embora reuniões entre agentes do sistema
financeiro e autoridades monetárias façam parte da rotina institucional, a
frequência desses encontros inevitavelmente levanta questionamentos sobre o
grau de proximidade entre interesses privados e decisões que afetam todo o
sistema financeiro do país.
E as
zonas cinzentas entre interesses públicos e privados não se restringem ao
sistema financeiro ou aos governos. Nos últimos anos, episódios envolvendo
integrantes do próprio Judiciário também suscitaram debates públicos sobre
limites éticos. Entre eles, a venda de um imóvel ligado ao resort Tayayá pelo
ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli, operação que gerou
questionamentos sobre relações com o banco Master.
Outro
caso que gerou debate foi o contrato milionário firmado pelo banco de Daniel
Vorcaro com o escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de
Moraes, levantando discussões sobre possíveis conflitos de interesse entre
atividades privadas e a posição institucional ocupada no mais alto tribunal do
país.
A
democracia depende de instituições que funcionem com autonomia, integridade e
transparência. Quando esses pilares se fragilizam, abre-se espaço para a
contaminação corrosiva das próprias instituições.
A
apuração dos fatos que levaram à liquidação do Banco Master vai seguir seu
curso, com base em provas e dentro do devido processo legal. Mas,
independentemente dos desfechos judiciais, fica a pergunta incômoda: quantos,
diante das mesmas oportunidades, resistiriam à tentação de transformar
reputação e influência em moeda de troca?
Fonte:
Brasil 247

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