sábado, 14 de março de 2026


 

A sombra da China no quintal dos EUA: o que significa a aproximação de México e Canadá com Pequim?

O desgaste provocado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com os vizinhos Canadá e México leva as nações a acelerar a diversificação de parceiros. Embora o movimento ainda seja tímido, a procura por uma aproximação com a China é simbólica.

A segunda passagem de Trump pela Casa Branca tem sido marcada, no âmbito da política externa, por uma postura coercitiva em relação a alguns países do globo. Com México e Canadá, países mais próximos e que têm em Washington seu principal parceiro comercial, não tem sido diferente.

Ao longo dos últimos anos, o presidente norte-americano já mandou e desmandou na aplicação de tarifas contra os vizinhos, acusou-os de permitir a entrada de drogas como o fentanil, e ainda sugeriu que o Canadá poderia se tornar o "51º estado" dos EUA.

Os acontecimentos, comentam analistas ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, levam a uma crescente aproximação comercial de México e Canadá com a China. Embora não represente, por enquanto, uma ruptura com os Estados Unidos, o movimento indica uma tentativa de diversificação econômica diante das tensões comerciais e políticas no hemisfério.

Cerca de 70% das exportações desses dois países têm como destino os Estados Unidos. Não se trata, portanto, segundo os especialistas, de um alinhamento com Pequim, mas uma resposta pragmática ao governo de Donald Trump.

Conforme destaca Lívia Milani, pesquisadora do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), os ataques retóricos e as medidas protecionistas do atual presidente dos EUA incentivaram os dois países a buscar novos parceiros econômicos para reduzir riscos de dependência excessiva.

Mesmo assim, essa diversificação não ocorre de forma rápida ou simples. As cadeias produtivas, as relações comerciais e até as estruturas industriais do Canadá e do México foram construídas, ao longo de décadas, em torno da economia norte-americana.

Ou seja, de acordo com a analista, tanto na dimensão estratégica quanto na comercial existe vontade política, mas há constrangimentos que são estruturais.

"Nós temos que pensar na política de defesa do Canadá como um todo. Ao longo de décadas foi construída essa proximidade, essa aliança estratégica com os Estados Unidos, que implica, por exemplo, os equipamentos que o próprio Canadá comprou. São equipamentos que vêm dos Estados Unidos", explica.

Em outras palavras, Milani esclarece que historicamente a política de defesa canadense foi pensada a partir da ideia de uma proteção dos Estados Unidos e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), da qual faz parte.

"Para o Canadá não é simplesmente uma questão de decidir se aproximar da China, por exemplo. Isso não acontece no curto prazo. E a mesma coisa do ponto de vista comercial", acrescenta.

<><> Parcerias com Pequim se fortalecem, mas nem tanto

No caso canadense, um acordo comercial facilitou o acesso da canola — importante produto agrícola do país — ao mercado chinês. A China representa um mercado de aproximadamente US$ 4 bilhões (R$ 20,7 bilhões) para a canola canadense, e a redução de tarifas ampliou a competitividade do produto.

Em troca, o Canadá abriu cotas para até 49 mil veículos elétricos chineses por ano, reduzindo tarifas e permitindo uma maior entrada desses carros no mercado canadense.

Já o México tem ampliado o comércio com Pequim e se tornou o maior importador de automóveis chineses, além de receber investimentos industriais do gigante asiático.

A economia mexicana possui um forte setor de montagem industrial, especialmente no ramo automotivo, consolidado desde o acordo de livre comércio norte-americano firmado em 1994. Esse modelo facilita a integração de cadeias produtivas internacionais.

Segundo João Estevam, professor de relações internacionais da Universidade Anhembi Morumbi, a China busca, nos últimos anos, tornar o México uma ponte para o mercado norte-americano.

"O México tem sido um importante hub de peças, de equipamentos chineses que penetram nos mercados norte-americanos. […] Existe um potencial econômico importante que o México poderia aproveitar, mas no contexto atual, de maior rivalidade entre as grandes potências, sobretudo na área econômica entre Estados Unidos e China, parece-me que isso traz também uma certa vulnerabilidade para o México."

Justamente nesse contexto, a maior aproximação entre Pequim e Cidade do México gerou preocupações no governo Trump, que, segundo o analista, teriam levado Washington a pressionar o México a aplicar tarifas sobre produtos chineses.

"Parte dessas tarifas que foram colocadas sobre os produtos chineses, em dezembro do ano passado, envolve produtos manufaturados chineses que inclusive vão do México para os Estados Unidos", afirma o especialista.

Esse tipo de movimentação, salienta Milani, é unicamente comercial, sobretudo pela própria geografia e pela dependência estrutural dos Estados Unidos tanto do Canadá quanto do México.

Estevam segue a mesma linha de análise, ressaltando que Canadá e México "têm sido acossados constantemente por ameaças da gestão de Trump, [acusados] de serem alvos de ingerência terrestre". Segundo ele, "há fissuras, mas ainda assim existe um atrelamento de Canadá e México a essa estratégia norte-americana. Isso vai demorar a se desintegrar".

<><> Conflito com Irã enfraquece posição dos EUA na região da Ásia-Pacífico, o que beneficia China, diz analista

A realocação de recursos militares dos EUA da região da Ásia-Pacífico para o Oriente Médio é benéfica para Pequim, acredita Li Yihu, chefe do Instituto de Estudos de Taiwan na Universidade de Pequim, cuja opinião foi publicada no jornal chinês South China Morning Post.

O jornal chinês cita as palavras de Li Yihu, que afirmou que, com o desenvolvimento das capacidades da China para restringir o acesso no estreito de Taiwan, Pequim pode se beneficiar se o destacamento de tropas americanas na região for reduzido.

"O envolvimento de Washington em numerosos conflitos, incluindo a guerra em curso no Irã, coloca uma pressão sobre as Forças Armadas [dos EUA] e reduz sua presença militar na Ásia", diz-se na publicação.

Com a redução da presença militar dos Estados Unidos na região da Ásia-Pacífico, Pequim aumenta suas possibilidades de ganhar vantagem estratégica no estreito de Taiwan.

Anteriormente, o canal de televisão sul-coreano SBS informou que os Estados Unidos poderiam ter retirado da Coreia do Sul a única bateria do sistema de defesa antimísseis THAAD implantada nas Forças Armadas dos EUA na Coreia do Sul (USFK, na sigla em inglês), no contexto da situação no Oriente Médio.

Ao mesmo tempo, o chefe da Defesa de Taiwan, Gu Lixiong, citado pelo jornal Taipei Times, disse que Washington ainda não havia pedido a Taiwan que redistribuísse armas da ilha para o Oriente Médio.

Gu Lixiong observou que os Estados Unidos são o principal fornecedor de armas para a ilha, que, em particular, atualmente tem mísseis Patriot norte-americanos em seu arsenal.

Vale destacar que, anteriormente, em um relatório apresentado à 4ª sessão do Congresso Nacional do Povo (Parlamento da República Popular da China) da 14ª convocação, observou-se que, em 2026, a China vai promover a causa da reunificação com Taiwan, dará golpes decisivos às forças independentistas que defendem a independência da ilha e resistirá à interferência de forças externas na questão de Taiwan.

<><> Dependência dos EUA de minerais chineses reduz vantagem estratégica de Washington em conflitos

A forte dependência dos EUA em relação aos minerais chineses para seus sistemas de armas pode dar a Pequim uma margem de manobra considerável para ditar a duração dos ataques de Washington à nação persa, escreveu a mídia asiática.

De acordo com fontes anônimas consultadas pelo South China Morning Post, Washington possui reservas de terras raras suficientes para cerca de dois meses, portanto, a questão do fornecimento dominará a cúpula entre Trump e Xi Jinping em Pequim, agendada para o final de março e início de abril.

Por que os minerais de terras raras são importantes?

Segundo Marina Zhang, professora associada do Instituto de Relações Austrália-China da Universidade de Tecnologia de Sydney, a dependência dos EUA em relação às terras raras chinesas confere a Pequim "uma influência indireta significativa sobre a duração e o custo de potenciais conflitos".

Em particular, elementos de terras raras pesados, como disprósio e térbio, são usados na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, sistemas de radar, componentes de orientação de mísseis e sistemas de propulsão essenciais em armas avançadas dos EUA, explicou a especialista em entrevista à mídia.

Essa dependência, portanto, remodelaria o equilíbrio estratégico entre os EUA e a China, introduzindo uma "vulnerabilidade assimétrica para Washington", enquanto o controle de Pequim sobre os elementos de terras raras ofereceria "influência tangível nas negociações e na competição geopolítica mais ampla com os EUA".

Em um relatório deste mês, o Serviço Geológico dos EUA (USGS, na sigla em inglês) afirmou que a China foi responsável por 71% das importações norte-americanas de elementos de terras raras entre 2021 e 2024.

De fato, Pequim foi o único fornecedor de Washington de elementos críticos de terras raras pesadas, como o térbio, entre 2021 e 2024, sem nenhuma fonte alternativa imediata.

Portanto, Zhang observou que os EUA enfrentariam "escassez aguda de componentes críticos para armamentos" se a China endurecesse suas restrições às exportações de terras raras, sugerindo que as forças norte-americanas só poderiam atender às suas "necessidades de combate de curto prazo" com seus estoques estratégicos desses elementos.

"Essa dependência obriga os Estados Unidos a reduzir a produção de armas, aceitar custos mais elevados por alternativas de pequena escala desenvolvidas às pressas ou esgotar os estoques estratégicos limitados", concluiu Zhang.

¨      As agressões externas de Donald Trump. Por Roberto Vital Anav

É preciso torcer por um mundo onde a soberania dos países seja respeitada e não violada por quem tem mais força. Onde os agressores não sejam vistos como “heróis da liberdade”. Onde os problemas internos de cada país sejam resolvidos por seu povo e não usados como pretextos para potências econômicas e militares imporem seus interesses ao mundo inteiro.

Onde as pessoas não percam a memória, como no caso do xá Reza Pahlevi, entronizado após um golpe patrocinado pelos EUA contra o civil Mohammed Mossadegh, que desejava, com todo o direito, nacionalizar as reservas petrolíferas do seu país. O xá, apoiado sempre pelos EUA, implantou um regime tirânico e corrupto derrubado depois de 25 anos por uma autêntica revolução popular. Quem lembra isso hoje?

A imprensa internacional e o oligopólio brasileiro de mídia das “grandes famílias” são unânimes em omitir tais fatos. Ao contrário, agora o filho do xá exilado é visto por “analistas” na mídia como opção “democrática”, mas todos sabem (e alguns admitem) que não tem apoio nenhum no Irã.

Na atualidade, jornalistas e analistas políticos, bem como cidadãos que se proclamam progressistas, celebram o assassinato ou sequestro de governantes antipáticos pela maior potência militar do planeta, que só deseja roubar e violar todos os países, da Groenlândia ao Irã.

Esse aplauso remete-nos de volta aos anos 1930, quando muitos comemoravam nas ruas a queda da República Espanhola pelo nazifascismo, com crimes como Guernica. “Ah, mas lá era o nazifascismo derrubando a esquerda!” Certamente, o governo do Irã não é de esquerda. Mas quem o atacou não é a versão atual mais abjeta e icônica da extrema direita versão.3M (terceiro milênio)? Isto é, o que importa é quem foi derrubado e não quem derruba?

Então, detenhamo-nos nos antecedentes: em 1931 e com maior ímpeto em 1937, o Japão imperialista invadiu a China governada pelo marechal Chang Kai-shek, assassino em massa de operários e perseguidor do Partido Comunista chinês, obrigando-o empreender a Longa Marcha para o interior do país para se preservar. Caso os japoneses tivessem matado Chang Kai-shek e se apoderado da China, deveriam os socialistas, comunistas e progressistas em geral comemorar, na época?

Ao contrário, Mao Tsé-tung e Chang Kai-shek acabaram realizando (obviamente a contragosto) uma frente única contra os japoneses. Ao final da guerra, o PC chinês, fortalecido em sua guerra camponesa contra o Império Japonês, entrou com seu Exército Popular de Libertação nas cidades, aclamado pelos operários, e expulsou Chang, seu partido e a burguesia que o apoiava para Taiwan. Assim nasceu a República Popular da China (1949), na segunda revolução popular vitoriosa após 32 anos da Revolução de Outubro na Rússia.

Retomando na atualidade o fio argumentativo e ético: quando consideramos detestável certo governante, devemos aplaudir a violência de uma agressão internacional ilegal, ilegítima e imperialista que o sequestra ou assassina?

Devemos ignorar as finalidades imperialistas da potência agressora, como impor seu domínio mundial em declínio, acuar possíveis competidores ascendentes como a China, ampliar seu controle sobre matérias-primas estratégicas como o petróleo e terras-raras, bem como sobre rotas estratégicas, e ainda apoiar seu principal aliado no Oriente Médio – o Estado sionista de Israel, colonialista e persistente no extermínio do povo palestino –, eliminando todos os focos de resistência a ele? Separar os “aspectos ruins” do “aspecto positivo” – a eliminação pela violência imperialista de governantes indesejados e indóceis?

Algumas pessoas aplaudiram o sequestro de Nicolás Maduro e o assassinato de Ali Khamenei. Quando tais manifestações provêm de pessoas da direita, resta apenas lamentar. Em escassas ocasiões, um debate argumentativo como este pode, quiçá, levar à reflexão os (poucos) ainda não envenenados pelas campanhas de ódio do neofascismo contemporâneo.

O problema maior, porém, é quando pessoas que se supõem e afirmam de esquerda – de qualquer matiz – escorregam nesse lamaçal político e ético. Cada endosso adicional às agressões imperialistas abertas de Donald Trump enfraquece o combate pela soberania nacional e pela autodeterminação dos povos e nações, indissociável da luta por direitos e conquistas sociais.

O mesmo se pode dizer da luta pelo direito às migrações e pelos direitos dos imigrantes em cada país. Aplaudir violações do direito internacional e da soberania das nações, valendo-se da força militar superior dos Estados Unidos, fragiliza a defesa dos imigrantes nos próprios EUA, bem como em escala mundial. Afinal, Donald Trump justifica sua violência externa alegando combater regimes opressores e terroristas, ao mesmo tempo que justifica sua política criminosa no próprio país, por meio da milícia ICE, pretextando expulsar bandidos e terroristas.

A hediondez desse imperialismo de crise possui, em todo caso, mais coerência (por óbvio, cínica) do que a dos pretensos progressistas que aplaudem as suas ações externas, “com ressalvas”, culpabilizando os governantes atingidos.

Não há qualquer necessidade de alinhar-se acriticamente com líderes políticos questionáveis, sob diversos aspectos, para assumir uma posição clara e direta contra a política brutal e criminosa do governo estadunidense. Pode-se – e, sob certos aspectos, deve-se – expressar críticas a governantes que não representam alternativas democráticas nem progressistas, ou pendem ao autoritarismo antidemocrático, teocrático ou de qualquer matiz. Mas não é admissível fazer dessa crítica um motivo para relaxar ou atenuar uma oposição firme e uma denúncia explícita às agressões criminosas dos EUA ao Irã, à Venezuela, a Cuba e a qualquer outra nação soberana.

É da natureza do imperialismo capitalista pôr em questão a soberania das nações. Ontem, o argumento era a “globalização”. Hoje, é a chantagem e a agressão pura e simples, como já fora no passado.

Torço também por um mundo onde informações do Crescente Vermelho (por exemplo, sobre a destruição de uma escola para meninas no Irã) recebam tanta credibilidade quanto as da Cruz Vermelha Internacional, quando ambos fazem parte do mesmo movimento internacional. Lemos em redes sociais que a informação procedeu apenas do governo iraniano, o que sugeriria dúvidas sobre sua veracidade. Quando a denúncia é da Cruz Vermelha, tais dúvidas se mantêm? Ora, o Crescente Vermelho é parceiro da Cruz Vermelha nas ações humanitárias, atuando junto aos povos islâmicos.

Por que, então duvidar dessa fonte e dar o benefício da dúvida aos agressores? Por que depender do aval dos grandes órgãos de comunicação, claramente enviesados para a sustentação dos argumentos dos perpetradores do ataque?

 

Fonte: Sputnik Brasil/A Terra é Redonda

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