O
necessário retorno da classe operária no Brasil
Reconfigurações
do capitalismo global, desde os anos 70, golpearam a indústria nacional.
Precarização e dependência se ampliaram. Reconstruir a organização do
trabalhadores fabris, a partir do Estado indutor, é crucial para novo ciclo de
desenvolvimento inclusivo...
• De volta para o futuro: o necessário
ressurgimento da classe operária
Desde o
final dos anos 70, assistimos a uma operação bem-sucedida, concebida e
executada pelas classes dominantes capitalistas, para reduzir o protagonismo do
movimento operário, cujo início de sua construção progressiva tem data na
segunda metade do século XIX — e ganhou grande impulso a partir da Revolução
Russa de outubro de 1917.
Essa
operação urdida pelas classes dominantes foi decorrente de uma nova etapa do
capitalismo, com a política de globalização, de predomínio progressivo do
capital financeiro, do avanço das empresas de tecnologias de informação, da
redução do papel do estado, inclusive de seu papel regulador, constituindo
assim a argamassa para um novo ciclo de acumulação de capital, mais
centralizado e excludente, cuja síntese foi expressa no que se denominou de
Consenso de Washington.
Para
seu sucesso, era preciso reduzir a resistência e o protagonismo dos
trabalhadores, sobretudo da classe operária, que contavam com conquistas
progressivas, embora com variação entre os países, desde o final do século XIX
(redução da jornada de trabalho, proibição do trabalho de menores, aumento de
salários, direito à aposentadoria, seguro desemprego). Fizeram parte da
estratégia a reestruturação produtiva, as transformações nas fábricas — com a
segmentação produtiva da grande empresa, sua reestruturação em geografias
diferentes, com plantas menores, somadas às contribuições do impacto gerado
pela automação e pela informática. Neste processo e por razões também
geopolíticas, vários países do Ocidente, EUA à frente, tiveram suas plantas
industriais reduzidas ou eliminadas com sua transferência para outros países,
em busca de mão de obra mais barata e de mercados consumidores emergentes.
Essa
política, em decorrência, levou ao enfraquecimento do movimento operário e de
sua capacidade de articulação hegemônica para todo o mundo do trabalho, incluso
o do amplo e crescente setor de serviços. Em decorrência da perda de força,
seguiu-se a perda de direitos para todos os trabalhadores — queda dos salários,
de direitos trabalhistas, redução da aposentadoria e piora dos serviços
públicos, como os de saúde e educação. Mas a redução do protagonismo da classe
operária nos países capitalistas do Ocidente, embora decorrente da mudança
industrial, também levou ao enfraquecimento da própria indústria, que assistiu
ao emergir, com pompa e circunstância, dos setores financeiro e de serviços de
informação e de comunicação (big techs), num grau de monopolização e
concentração de renda numa velocidade e ferocidade nunca vistas.
Este
processo, envolvendo fortemente o setor privado, do qual o Brasil é digno
representante, foi acompanhado também pelo esvaziamento dos trabalhadores no
setor público, com as privatizações de empresas e as transferências de serviços
públicos para o setor privado, através das diversas e criativas formas —
terceirizações em todas as áreas da administração pública, parcerias
público-privadas, concessões e o que fosse necessário para o enfraquecimento do
Estado e com ele o movimento dos trabalhadores do setor público. E, em anos
mais recentes, o emergir do chamado empreendedorismo, sinônimo de cada um por
si, o mais precarizado e espoliado processo de trabalho em tempos atuais.
Aqui,
como no mundo afora, foi o movimento operário o núcleo central constitutivo que
protagonizou e foi o alicerce, organizado em movimento, que produziu
transformações e conquistas para todos os trabalhadores e o povo — legislação
do trabalho, previdência social, 13º salário, direito a férias remuneradas,
luta contra a ditadura, recuperação e ampliação da democracia.
No
Brasil, não é desnecessário relembrar o papel do movimento operário, desde a
memorável greve geral de 1917; aos movimentos operários que cresceram com a
industrialização após 1930; movimentos como os que protagonizaram a greve dos
300 mil em São Paulo, em 1953; as greves gerais no início dos anos 1980 contra
os decretos-leis de arrocho salarial da ditadura; e as grandes greves no ABCD
paulista, a partir de 1978, que estimularam, Brasil afora, o movimento dos
trabalhadores na quase totalidade das categorias profissionais. Movimento que
deu origem ao Partido dos Trabalhadores, sendo, no Brasil, a primeira
experiência autônoma da classe operária para a fundação de um partido político
— que, pela sua força, aglutinou a maioria dos grupos e organizações de esquerda
e a maioria das personalidades, intelectuais e movimentos progressistas do
Brasil, a partir de 1980.
A
operação de transformação capitalista no mundo ocidental, iniciada nos anos
1970, ganha maior força global com a extinção do bloco socialista, em
particular da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1992. No Brasil,
surge com força no governo Collor, que protagoniza o start do neoliberalismo
tupiniquim, aprofundado nos governos do ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso, não revertido nos governos Lula e Dilma, sendo retomado e acelerado
nos governos Temer e Bolsonaro. Isso levou à perda de capacidade de ação do
Estado, à destruição da legislação trabalhista e à drástica redução do
protagonismo e capacidade de mobilização dos sindicatos. Neste processo, aliado
a políticas de Estado sob forte e crescente influência do capital financeiro,
assistimos à redução progressiva do peso da indústria na produção nacional. Sua
participação no PIB cai de cerca de 35% em 1980 para 25% em 2024. E, com a
queda da indústria, seguiu-se a redução de trabalhadores fabris, onde a Região
Metropolitana de São Paulo viu reduzir drasticamente, em mais de 60%, a
presença dos trabalhadores fabris, de 1980 para os dias atuais.
Na
complexa situação geopolítica global, a agressividade sem precedentes dos EUA,
Israel e seus aliados, com imposições de seus interesses pela força, chegando
ao sequestro e assassinatos de dirigentes e líderes de vários países, coloca em
cheque a autonomia, a autodeterminação dos povos e a soberania dos países. Esse
processo ganha força na América Latina com a recente operação dos EUA, que
reuniu governantes submissos de 12 países, em recente evento (Cúpula Escudo das
Américas) em sua casa, na Flórida. É mais do que necessária uma outra política
econômica e uma nova política de defesa nacional que nos permita melhor
enfrentar as turbulências que vimos assistindo neste primeiro quarto de século.
E isto
passa, embora não apenas, pela capacidade de conquistarmos uma autonomia
produtiva nacional que nos garanta soberania e capacidade de relações
construtivas internacionais. É preciso um perene, inovador e forte programa de
industrialização, de produção científica e tecnológica e de fortalecimento da
capacidade do Estado brasileiro para ser o principal indutor e organizador
desse programa.
O
Estado brasileiro necessita manter, criar e transformar empresas estatais cujos
objetivos sejam contribuir para dotar o Brasil de políticas voltadas para o
bem-estar dos brasileiros, da imensa maioria da população. Cessar o processo de
privatização, reestatizar e criar novas empresas em áreas estratégicas como o
setor elétrico, o do fornecimento de bens fundamentais como água e o
saneamento, e a indústria da saúde. Pôr fim à política de venda de ações de
empresas públicas como Petrobrás, Banco do Brasil, constrangidas que ficam pelo
atendimento à distribuição de lucros e dividendos a seus acionistas, em
detrimento do investimento em políticas de interesses coletivos.
É
preciso pôr fim à ineficiência do Estado brasileiro, à sua falta de agilidade e
de capacidade resolutiva impostas pelo esvaziamento progressivo de suas funções
e estruturas iniciadas no governo Collor de Melo, em 1989. É possível e
necessário termos normativas legais modernizadas para a administração do
Estado, condição hoje reservada e só admitida como possível ao setor privado.
Junto à
decisão sobre o fortalecimento do setor público e do programa de
industrialização do setor privado, é indispensável afirmar uma legislação
protetiva para o mundo do trabalho, que garanta direitos, salários e condições
de trabalho dignos. Que atue de forma urgente e perene para a qualificação dos
trabalhadores para novos processos de trabalho, que valorize a organização dos
trabalhadores como indispensável para o fortalecimento e o avançar da
democracia nos planos político, econômico e social.
Determinadas
políticas na direção antes apontada e para terem perenidade devem ser decididas
em plebiscitos e referendos nacionais.
O
fortalecimento da capacidade do Estado, o revigorar da indústria, o ressurgir
de uma renovada classe operária e o fortalecimento dos movimentos dos
trabalhadores em geral são condições indispensáveis para abrir um novo ciclo de
desenvolvimento inclusivo no Brasil. A disputa de interesses das classes no
interior da indústria deve ser entendida como um processo natural, inerente ao
capitalismo, e que, sem uma classe de trabalhadores da indústria forte, perde
força a própria indústria, até pelo efeito corporativo. A saída da indústria
nacional da “porta do matadouro” (empresto a denominação de um renomado
jornalista) por endividamento, ou sucumbindo enquanto tal pela simbiose com
subordinação ao rentismo, impõe a compreensão por parte do empresário brasileiro
de que deve se desfazer dos dogmas importados do neoliberalismo formulado,
difundido e imposto pelos países do norte ocidental, como já há mais de uma
década eles já o fizeram.
Fonte:
Por Ubiratan de Paula Santos, em Outras Palavras

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