Até
40% das pessoas com diabetes podem desenvolver doença renal
Apenas
10% dos brasileiros associam diabetes a problemas nos rins. No entanto, a
doença renal do diabetes afeta entre 20% e 40% de quem convive com a condição.
Na maioria dos casos, ela avança sem nenhum sintoma. O paciente não sente dor,
não percebe inchaço e não recebe nenhum sinal de alerta. Quando o diagnóstico
chega, os rins já podem ter perdido parte significativa da capacidade de
filtrar.
No Dia
Mundial do Rim, comemorado nesta quinta-feira, 12 de março, o Portal Um
Diabético ouviu uma endocrinologista, uma nefrologista e uma nutricionista para
responder as dúvidas mais comuns sobre essa complicação. A conclusão é unânime:
dois exames simples e baratos podem mudar completamente o desfecho, e ainda são
pouco conhecidos entre quem mais precisa.
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Os números que o Brasil precisa conhecer
O
diabetes mellitus é hoje a principal causa de doença renal crônica no mundo.
Além disso, é responsável por cerca de 50% dos novos casos de terapia de
substituição renal nos países desenvolvidos. No Brasil, segundo o Censo da
Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) de 2024, 29% das pessoas em diálise
têm diabetes. São mais de 170 mil brasileiros em diálise atualmente, e a
nefropatia diabética lidera esse cenário.
Com
entre 16 e 22 milhões de brasileiros convivendo com diabetes, estima-se que 20%
a 40% deles desenvolverão algum grau de doença renal ao longo da vida. Nesse
contexto, a doença renal do diabetes (DRD) já é a segunda causa de doença renal
crônica no país, e a primeira nos Estados Unidos.
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Por que a doença renal do diabetes é tão traiçoeira
A Dra.
Bianca Bastos, nefrologista com mais de duas décadas de atuação no atendimento
de pacientes com doença renal crônica, é direta sobre a principal armadilha
dessa complicação.
“A
doença renal do diabetes é assintomática. Completamente assintomática. O
paciente chega ao consultório com a creatinina alta e nunca tinha feito um
exame de urina básico”, completa especialista.
A lesão
renal causada pelo diabetes pode ocorrer por dois mecanismos distintos. O
primeiro é glomerular, com perda de proteína (albumina) pela urina. O segundo é
vascular, com queda silenciosa da taxa de filtração. Por isso, o antigo termo
‘nefropatia diabética’ foi substituído por doença renal do diabetes,
denominação que reconhece a diversidade de manifestações. No diabetes tipo 2,
metade dos pacientes apresenta queda de função renal sem qualquer perda de
albumina detectável.
A Dra.
Denise Franco, endocrinologista, reforça que o cuidado com os rins não é
paralelo ao controle do diabetes. É parte dele.
“Diabetes não é só glicemia. O rim faz parte
do cuidado integral. Quando a gente pensa nas chances de complicação, o rim
está dentro do quadro que precisamos prevenir”, alerta a endocrinologista,
Denise Franco.
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Fatores de risco: quem precisa ter atenção redobrada
Além do
mau controle glicêmico, outros fatores ampliam o risco de doença renal. A
hipertensão arterial é um dos principais, e a combinação com diabetes
potencializa os danos. Dados apontam que a DRD afeta 60% dos hipertensos com
diabetes tipo 2. Além disso, tabagismo, sedentarismo, histórico familiar de
doença renal e obesidade estão entre os fatores que aceleram a progressão.
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Quem tem maior risco de doença renal do diabetes
•
Pessoas com diabetes tipo 2 e hipertensão arterial.
•
Pacientes com controle glicêmico inadequado (HbA1c elevada).
•
Asiáticos — etnia com predisposição aumentada para DRD.
•
Fumantes.
•
Pessoas com histórico familiar de doença renal.
•
Obesos com síndrome metabólica.
•
Pacientes que nunca fizeram rastreamento com albuminúria e creatinina.
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Dois exames simples que podem mudar o diagnóstico
A boa
notícia é que detectar a doença renal do diabetes precocemente é possível e
barato. A Dra. Bianca Bastos e a Dra. Denise Franco foram unânimes: dois exames
são suficientes para o rastreamento inicial. Portanto, devem ser solicitados
desde o diagnóstico do diabetes tipo 2 e repetidos pelo menos uma vez ao ano.
#
Dosagem de creatinina no sangue:
-
avalia a taxa de filtração glomerular e o funcionamento renal.
#
Dosagem de albumina na urina (albuminúria):
-
detecta a perda precoce de proteína pelo rim — marcador de lesão renal e de
risco cardiovascular elevado.
O custo
desses exames é acessível. A creatinina custa em torno de R$ 16 a R$ 20 em
laboratório privado; a albuminúria não passa de R$ 50. No SUS, ambos são
solicitados na rotina. O exame de urina simples pode dar uma pista inicial, mas
a dosagem quantitativa da albumina é mais precisa.
A Dra
Bianca Bastos explica que ” a presença de traços de proteína no exame de urina
simples já pode indicar albuminúria. Esse achado não pode ser negligenciado.
Ele é o alerta mais precoce que temos”, finaliza.
A
albumina na urina se classifica em três graus: leve (até 30 mcg/g), moderado
(30 a 300 mcg/g) e grave (acima de 300 mcg/g). Mesmo no estágio leve, o risco
cardiovascular já está aumentado — de infarto e AVC — e pode superar o risco de
entrada em diálise.
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Alimentação: nem restrição excessiva, nem descuido
Carol
Netto, nutricionista com mestrado em diabetes e doutorado em nefrologia, aponta
o maior obstáculo na orientação alimentar de quem convive com as duas
condições: os tabus. Pacientes que eliminam tudo da dieta com medo e famílias
que acabam desnutrindo quem precisaria de cuidado; não de privação.
“O
paciente que tem diabetes e tem doença renal é um desafio para o nutricionista,
mas não é impossível. A prescrição tem que ser individualizada, por quilo de
peso e por estágio da doença. Não existe uma lista de proibidos que valha para
todos, explica Carol Netto.
A
restrição de proteína só está indicada quando há diminuição significativa da
função renal. Além disso, deve ser calculada de forma precisa, para não gerar
sarcopenia (perda de massa muscular). Quanto ao potássio e ao fósforo, a
restrição alimentar depende do estágio da doença. Nas fases iniciais, eliminar
frutas, verduras e legumes é um equívoco que prejudica a qualidade nutricional
sem benefício clínico.
O
consumo de whey protein e suplementos proteicos, sem doença renal instalada,
não é contraindicado, desde que seja moderado e acompanhado. Para quem já tem
alguma redução de função renal e treina, é possível ajustar a suplementação
dentro da cota proteica diária, ou optar por proteína vegetal, menos agressiva
ao rim.
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Novos tratamentos que protegem os rins
Os
últimos anos trouxeram uma mudança significativa no arsenal terapêutico para
quem tem diabetes tipo 2 com comprometimento renal. Os inibidores de SGLT2
foram inicialmente desenvolvidos para controle glicêmico. No entanto, estudos
com até 19 mil pacientes mostraram que eles são capazes de retardar a
progressão da doença renal em até 15 anos — em relação ao grupo que não os
utilizou.
A Dra.
Bianca Bastos é enfática: para pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal,
esses medicamentos devem ser considerados parte do tratamento, quando não
houver contraindicação. Os antagonistas de GLP-1 também mostraram redução de
albuminúria e proteção renal. Além disso, os antiproteinúricos clássicos —
losartan, enalapril e similares — continuam sendo a base do tratamento, em dose
máxima tolerada.
“Com o arsenal terapêutico que temos hoje, é
possível diminuir a velocidade de progressão da doença renal e manter o
paciente longe da diálise por muito mais tempo. A inércia terapêutica é o que
não podemos aceitar”, completa a nefrologista.
A
metformina, vale reforçar, não causa doença renal e deve ser mantida enquanto a
função renal permitir. A dose é ajustada conforme o percentual de funcionamento
do rim: acima de 45%, dose plena; entre 30% e 45%, dose reduzida à metade;
abaixo de 30%, a medicação é suspensa.
<><> O que você pode fazer hoje
• Se você tem diabetes tipo 2 e ainda não
fez rastreamento renal, peça creatinina e albuminúria na próxima consulta.
• Repita esses exames pelo menos uma vez
ao ano, mesmo sem sintomas.
• Controle glicemia, pressão arterial e
colesterol juntos: os três protegem os rins.
• Não elimine grupos alimentares sem
orientação de nutricionista especializado.
• Converse com seu médico sobre os novos
medicamentos protetores renais disponíveis.
Consulte
sempre seu endocrinologista e/ou nefrologista para ajuste do tratamento.
Fonte:
Um Diabético

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