sábado, 14 de março de 2026

3 efeitos econômicos da guerra no Irã além do aumento do preço do petróleo

Pouco mais de uma semana após o início da guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã, o conflito já causa impacto na economia global.

Na segunda-feira (9/3), o preço do petróleo bruto Brent e WTI, referências do mercado internacional, ultrapassou a marca de US$ 100 (R$ 520) pela primeira vez desde 2022, embora tenha caído para menos de US$ 95 (R$ 494) no mesmo dia.

Em comparação, em 27 de fevereiro, um dia antes do início das hostilidades, o preço do petróleo bruto Brent e WTI rondava os US$ 70 (R$ 364) por barril.

Este aumento nos preços dos combustíveis ocorreu principalmente devido ao virtual fechamento do tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz, após o governo iraniano ameaçar navios que tentassem atravessar essa hidrovia, por onde passa aproximadamente 20% do petróleo e gás do mundo.

Mas, embora o aumento dos preços do petróleo — e da gasolina — fosse claramente esperado, visto que o conflito envolve o Irã e o Estreito de Ormuz, especialistas preveem que suas repercussões serão sentidas em outras áreas da economia e em diferentes partes do mundo.

A BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC, fala sobre três desses efeitos.

<><> 1. Produção de alimentos sob risco

O conflito atual está afetando os principais exportadores de fertilizantes.

Omã, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos são quatro dos maiores exportadores globais de fertilizantes nitrogenados, segundo dados do Observatório de Complexidade Econômica.

Esse tipo de fertilizante é produzido a partir de gás natural e é utilizado em plantações que produzem cerca de metade do suprimento mundial de alimentos.

Embora a maioria dos produtores de fertilizantes da região tenha continuado operando apesar da guerra, a Qatar Energy, uma das principais produtoras de ureia, teve que suspender suas operações após o fornecimento de gás ter sido interrompido na semana passada devido a ataques de drones e mísseis iranianos.

Além disso, os benefícios da continuidade das operações dessas empresas são limitados pelo fato de que elas não conseguem exportar seus fertilizantes devido ao fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa um terço do suprimento mundial de fertilizantes, de acordo com a Bloomberg.

A isso se soma o fato de o Irã também ser exportador de fertilizantes e a decisão da China, adotada no final de 2025, de suspender as exportações de fertilizantes fosfatados e restringir severamente as exportações de ureia até agosto de 2026, com o objetivo de garantir o abastecimento aos agricultores locais.

Ainda segundo o Observatório da Complexidade Econômica, a China é a maior exportadora mundial de fertilizantes nitrogenados.

Como consequência disso, os preços dos fertilizantes já começaram a subir significativamente. No Porto de Nova Orleans, principal ponto de entrada desses produtos nos EUA, o preço dos fertilizantes saltou de US$ 516 (R$ 2.684) por tonelada métrica para US$ 683 (R$ 3.552) durante a primeira semana da guerra de preços.

E essa situação ocorre justamente na época do ano em que os agricultores do Hemisfério Norte se preparam para o plantio, o que complica ainda mais o cenário.

De acordo com dados da Federação Americana de Escritórios Agrícolas (FAR, na sigla em inglês), 25% das importações de fertilizantes do país ocorrem entre março e abril de cada ano.

"Isso não poderia ter acontecido em pior hora", disse à BBC o agricultor Harry Ott, que cultiva algodão, milho e soja na Carolina do Sul, nos EUA.

Analistas preveem que, caso o conflito continue, os consumidores começarão a sentir o impacto nos preços dos alimentos dentro de um a três meses, enfrentando custos mais altos e escassez, já que as colheitas serão menores sem a quantidade necessária de fertilizantes.

Essa situação pode se traduzir em fome para os países e pessoas mais pobres.

"O aumento repentino dos preços dos alimentos e combustíveis, impulsionado pela escalada do conflito no Oriente Médio, pode ter um efeito dominó que agravará a fome para as populações vulneráveis ​​na região e em outras partes do mundo", alertou o Programa Mundial de Alimentos da ONU em um comunicado.

<><> 2. Restrição da distribuição global de medicamentos

A guerra em curso no Oriente Médio também está impactando a cadeia de suprimentos global de medicamentos e produtos farmacêuticos.

Isso se deve principalmente aos ataques sofridos por Dubai, um importante centro logístico no setor farmacêutico global.

A cidade mais populosa dos Emirados Árabes Unidos abriga o aeroporto internacional mais movimentado do mundo, que recebeu aproximadamente 95 milhões de passageiros em 2025.

Este aeroporto também é um importante centro de distribuição de cargas para medicamentos e outros produtos farmacêuticos, especialmente aqueles que exigem manutenção da cadeia de frio.

A indústria farmacêutica da Índia, a maior fornecedora mundial de medicamentos genéricos e que produz 60% das vacinas do mundo, de acordo com dados do Departamento de Comércio da Índia, tem como o aeroporto de Dubai um ponto estratégico de distribuição.

A companhia aérea Emirates possui um terminal de cargas chamado Emirates SkyPharma, construído especificamente para lidar com remessas farmacêuticas sensíveis à temperatura. Dubai também possui o Porto de Jebel Ali, considerado o nono porto de cargas mais movimentado do mundo e o maior do Oriente Médio.

Segundo a Autoridade Portuária de Jebel Ali (JAFZA), cerca de 400 empresas farmacêuticas e de saúde de 60 países operam no porto. A JAFZA destaca que, em 2020, 50% dos produtos farmacêuticos e de saúde de Dubai, avaliados em US$ 21,8 bilhões (R$ 113,4 bilhões), passaram por este porto.

As exportações farmacêuticas indianas também transitam por este porto, de onde os produtos são enviados para outros países do Golfo Pérsico, África, Europa e outros destinos.

Os ataques militares iranianos causaram danos tanto ao porto quanto ao aeroporto de Dubai, interrompendo as operações normais devido ao conflito. O transporte aéreo de carga é crucial para a indústria farmacêutica, especialmente para remessas de alto valor ou que exigem entrega urgente ou controle de temperatura.

Embora existam algumas rotas alternativas para Dubai, muitas têm menor capacidade para lidar com esses volumes de carga, exigem dias adicionais de viagem e incorrem em custos mais elevados, o que pode, em última análise, aumentar o preço e a disponibilidade desses produtos. De acordo com o Departamento de Comércio da Índia, a indústria farmacêutica do país exportou produtos para 200 países em todo o mundo, sendo os EUA, o Reino Unido, o Brasil, a França e a África do Sul os principais destinos.

O aeroporto e as instalações portuárias de Dubai funcionam simultaneamente como centros de armazenamento e reexportação desses medicamentos, desempenhando, assim, um papel central no setor farmacêutico global.

<><> 3. Produção de metais, substâncias químicas e eletrônicos

A distribuição de elementos químicos como enxofre e de matérias-primas como alumínio, que desempenham um papel fundamental na produção industrial, também está sendo impactada pela guerra.

Países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait e Irã estão entre os principais exportadores de enxofre, um subproduto do refino de petróleo e gás.

De acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos, 24% da produção mundial de enxofre tem origem no Oriente Médio.

Grande parte dessa produção é utilizada para fertilizantes, mas também tem usos importantes na extração de minerais e metais como cobre e níquel, essenciais para a produção de eletrodomésticos, veículos, redes elétricas, semicondutores, baterias e materiais como aço inoxidável, entre muitas outras aplicações.

Nesse setor, os efeitos da guerra já são sentidos. Durante a primeira semana do conflito, companhias mineradoras de níquel na Indonésia — país responsável por mais de 50% do níquel mundial — anunciaram cortes na produção devido a interrupções no fornecimento dos países do Golfo, que fornecem 75% do enxofre utilizado por essas empresas.

Como alertou a Reuters, alguns produtores de cobre na África provavelmente enfrentam uma situação semelhante.

"Uma disputa pela oferta colocaria refinarias de níquel indonésias contra mineradoras de cobre africanas, e ambas contra fabricantes de fertilizantes em todo o mundo, que também buscam substitutos para o enxofre do Oriente Médio", observou a Reuters.

Como o ácido sulfúrico — que é produzido com enxofre — é um dos componentes mais importantes para a fabricação de semicondutores e chips, interrupções no fornecimento desse produto químico podem impactar a produção de inúmeros produtos considerados essenciais na vida moderna, como smartphones, computadores, cartões de memória, veículos e inúmeros dispositivos eletrônicos usados ​​em residências, empresas e fábricas.

Esta não é a primeira vez que o mundo enfrenta uma situação como essa. Durante a pandemia de covid-19, a escassez de chips impactou tanto os volumes de produção desses dispositivos quanto o preço final que os consumidores tiveram que pagar.

Desta vez, há um fator adicional: a alta demanda por chips por parte de empresas que desenvolvem e implementam modelos de inteligência artificial.

¨      Novo líder supremo do Irã promete seguir bloqueio no Estreito de Ormuz e 'vingar o sangue' dos iranianos mortos

O novo líder supremo do Irã, o aiatolá Mojtaba Khamenei, disse nesta quinta-feira (12/3) que o Irã ainda deve usar o "bloqueio do Estreito de Ormuz como instrumento de pressão".

Uma mensagem de Khamenei foi lida por um apresentador da TV estatal iraniana.

Khamenei disse que o Irã tem uma política de "amizade" com os países vizinhos, mas os aconselhou a fechar as bases americanas, que, segundo ele, o Irã continuará a atacar.

Mojtaba Khamenei ainda não foi visto publicamente desde que assumiu o lugar de seu pai no começo desta semana.

Ele disse que o Irã não hesitará em "vingar o sangue dos iranianos" que foram mortos, destacando o caso de Minab, onde um ataque dos EUA perto de uma escola matou 168 pessoas, incluindo cerca de 110 crianças.

O Irã afirma que a escola foi atingida por um míssil americano. O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, disse à BBC na semana passada que as autoridades americanas estão investigando o caso.

Quase ao mesmo tempo em que a declaração do líder supremo era lida na televisão no Irã, o presidente americano, Donald Trump, publicou nas suas redes sociais que os EUA vão lucrar com a alta dos preços globais da energia.

"Os EUA são, de longe, o maior produtor de petróleo do mundo, então, quando os preços do petróleo sobem, ganhamos muito dinheiro", disse Trump, no Truth Social.

"Mas, de interesse e importância muito maiores para mim, como presidente, é impedir que um império maligno, o Irã, tenha armas nucleares e destrua o Oriente Médio e, de fato, o mundo. Eu jamais permitirei que isso aconteça!"

Os preços do petróleo voltaram a subir nesta quinta-feira, chegando a atingir US$ 100 por barril, após mais três navios cargueiros serem atacados no Golfo Pérsico, em meio à guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel.

Dois petroleiros foram atingidos por um "projétil desconhecido" perto do Iraque e um navio porta-contêineres foi atacado perto dos Emirados Árabes.

A alta dos preços do petróleo ocorre mesmo depois que os 32 países concordaram em liberar 400 milhões de barris de reservas emergenciais, em um esforço para acalmar os mercados.

Na quarta-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, havia dito que o preço do petróleo cairia: "Vai cair mais do que nós, do que qualquer um, imagina".

No Líbano, novos ataques israelenses mataram várias pessoas, incluindo pelo menos oito na orla de Beirute.

Novos ataques iranianos foram relatados em toda a região, incluindo no Bahrein e em Omã. Em Dubai, um arranha-céu foi atingido por um aparente ataque de drone.

<><> Ataques a navios

Mais três navios comerciais foram atacados durante a noite, de acordo com a UK Maritime Trade Operation (UKMTO), a autoridade britânica de navegação marítima, que continua aconselhando os navios a "navegarem com cautela" pela região.

Treze navios já haviam sido atacados no Golfo Pérsico, no Estreito de Ormuz e no Golfo de Omã, entre 28 de fevereiro e 11 de março, informou UKMTO antes dos novos incidentes de quinta.

Dois navios foram atacados no litoral do Iraque. Por volta da 1h30 do horário local, dois petroleiros foram "atingidos por um projétil desconhecido" a 9 quilômetros da costa do Iraque, no norte do Golfo Pérsico.

Ambos os navios relataram incêndios a bordo após serem atingidos, segundo a UKMTO, que acrescentou que todos os tripulantes foram evacuados. Já a Agência de Notícias Iraquiana (INA) informou que 38 tripulantes foram resgatados e uma pessoa morreu, citando um oficial militar.

O diretor-geral da Companhia Geral de Portos do Iraque (GCPI) informou que as operações nos terminais de petróleo foram suspensas, mas os portos comerciais seguem funcionando.

Um navio foi atacado no litoral dos Emirados Árabes. Às 6h19 no horário local, a UKMTO disse ter recebido um relato de um navio porta-contêineres "atingido por um projétil desconhecido, causando um pequeno incêndio a bordo", a 64 quilômetros do litoral dos Emirados Árabes, próximo ao Estreito de Ormuz. Todos os tripulantes foram salvos.

A causa de ambos os ataques ainda está sendo investigada.

<><> Petróleo

Os preços da energia vêm tendo forte oscilação desde o início da guerra, com uma grande disparada que fez o barril atingir US$ 120 na segunda-feira (9/3), mas recuar no dia seguinte.

Na quarta-feira, todos os 32 membros da Agência Internacional de Energia (AIE) anunciaram a liberação de 400 milhões de barris — aproximadamente o consumo mundial de quatro dias — em resposta às preocupações com o abastecimento.

A intervenção da AIE foi significativa, mas a entidade não tem capacidade de fazer isso com frequência. Operadores do mercado seguem preocupados com a indefinição sobre por quanto tempo o Estreito de Ormuz permanecerá uma zona de perigo para petroleiros.

Martin Ma, do Instituto de Tecnologia de Singapura, diz que os investidores esperam que esse conflito seja "prolongado" — o que explica por que a liberação das reservas de petróleo proporcionou pouco alívio nos mercados e serve apenas como uma "amortecimento temporário".

A Guarda Revolucionária do Irã emitiu um alerta dizendo que os inimigos do Irã "não conseguirão baixar artificialmente o preço do petróleo" e que em breve ele deverá chegar a "US$ 200 por barril".

Falando a seus apoiadores no Kentucky na quarta-feira, o presidente dos EUA disse que a decisão de 32 países de liberar reservas emergenciais "reduziria substancialmente os preços do petróleo".

"O preço do petróleo vai cair. Isso é uma questão de guerra. É quase possível prever. Eu diria que subiu um pouco menos do que pensávamos. Vai cair mais do que nós, do que qualquer um, imagina", disse Trump.

Ele disse que os EUA "analisariam com muita atenção" o Estreito de Ormuz, acrescentando: "O estreito está em ótimas condições. Destruímos todos os barcos deles. Eles têm alguns mísseis, mas não muitos."

<><> Conflito continua

Várias pessoas morreram em ataques aéreos israelenses no Líbano nesta quinta-feira, incluindo pelo menos oito na orla marítima de Beirute, longe do reduto do Hezbollah, que era o principal alvo dos bombardeios israelenses.

O Hezbollah disparou dezenas de foguetes através da fronteira com Israel em um ataque aparentemente coordenado com seus aliados iranianos. A noite passada foi de intensos bombardeios por toda a cidade, com fortes explosões sendo ouvidas na área de Dahia, no sul de Beirute, um reduto do Hezbollah de onde milhares de pessoas já fugiram devido aos intensos ataques, afirma o repórter da BBC Wyre Davis.

Alguns ataques aéreos também atingiram outras partes de Beirute, incluindo a orla marítima da Corniche, em Ramlet al-Baida.

O Hezbollah afirmou ter lançado mais de 100 foguetes contra Haifa e outras partes do norte de Israel.

O Irã também segue atacando alvos em diversos países.

No Bahrein, um grande incêndio atingiu tanques de petróleo e combustível perto do aeroporto internacional do país. A fumaça era tão forte que as autoridades pediram à população que fechasse as janelas de suas casas.

Em Omã, bombeiros tentavam conter um incêndio em tanques de armazenamento de combustível nesta quinta-feira, resultante do ataque de ontem ao porto de Salalah. Omã também ordenou a evacuação de embarcações em seu terminal de exportação de petróleo como medida de precaução.

A Guarda Revolucionária também alertou que instituições financeiras ocidentais agora são alvos legítimos, após um ataque a um banco iraniano.

Bancos internacionais têm fechado seus escritórios no Golfo — o HSBC no Catar, e o Citi e o Standard Chartered em Dubai — orientando os funcionários a ficarem em casa.

Um arranha-céu em Dubai foi fotografado com um grande buraco na manhã de quinta-feira, depois que o governo local informou que um drone "caiu no prédio". Não está clara a origem do drone.

 

Fonte: BBC News Mundo

 

 

Nenhum comentário: