Guerra:
os EUA tragados pela Era Palantir
“Adoro
a ideia de usar um drone para borrifar urina levemente misturada com fentanil
nos analistas que tentaram nos prejudicar”, disse Alex Karp,
executivo-chefe da Palantir, a empresa emergente de tecnologia militar. Longe
de ser um desabafo casual, sua declaração reflete uma mentalidade mais ampla
que vem se consolidando no setor militarizado do Vale do Silício. Ela trata a
coerção como inovação, a crueldade como franqueza e a aplicação irrestrita do
poder tecnológico como inevitável e desejável.
Karp
gosta tanto de debates acalorados quanto de administrar uma empresa que fabrica
armamentos de alta tecnologia. Sua empresa ajudou Israel a intensificar os bombardeios e massacres contra
palestinos em Gaza, e sua tecnologia auxiliou a polícia antiimigrante dos EUA,
a ICE, a acelerar as deportações, além
de ajudar a localizar e identificar manifestantes em
Minneapolis. Karp não apenas não demonstra nenhum remorso pelos danos causados
pelos produtos de sua empresa, como também se deleita abertamente com eles.
Em
fevereiro deste ano, ele disse a um entrevistador da
CNBC: “se você critica o ICE, deveria estar protestando por mais Palantir.
Nosso produto, em sua essência, exige que as pessoas se conformem à Quarta
Emenda à Constituição dos Estados Unidos (que protege os cidadãos de “buscas e
apreensões ilegais”). No entanto, a provocação de Karp não o levou a pedir ao
ICE que parasse de usar seu software na guerra contra a dissidência pacífica,
nem o dissuadiu de aceitar um contrato de US$ 1 bilhão, sem prazo
definido, com
a agência matriz dessa polícia, o Departamento de Segurança Interna (DHS).
Em
consonância com seu apoio incondicional à repressão interna e externa, no auge
da guerra em Gaza, Karp realizou uma reunião do
conselho da Palantir em Tel Aviv, Proclamou que “nosso trabalho na região nunca
foi tão vital. E continuará”.
Em entrevista a Maureen Dowd,
do New York Times, ele resumiu sua filosofia da seguinte forma: “Na
verdade, sou progressista. Quero menos guerras. Só se acaba com uma guerra
tendo a melhor tecnologia e apavorando ao máximo — estou tentando ser gentil
aqui — nossos adversários. Se eles não estiverem com medo, se não acordarem com
medo, não forem dormir com medo, se não temerem que a ira dos Estados Unidos
caia sobre eles, eles nos atacarão. Eles nos atacarão em todos os lugares.”
A
realidade está longe de ser tão simples. A tecnologia da Palantir foi usada
para matar dezenas de milhares de pessoas em Gaza e em outros lugares,
incluindo muitas que não tinham nenhuma ligação com o Hamas, não tinham
controle sobre suas ações e, em muitos casos, nem sequer haviam nascido quando
o grupo venceu as eleições locais em 2006 e começou a administrar Gaza.
Não
deve haver dúvidas de que o ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de
2023 foi inconcebível. Ainda assim, a reação de Israel, que resultou na morte
de mais de 70 mil palestinos em
Gaza — um número relativamente conservador, como até mesmo o governo israelense
agora reconhece — , constitui uma
resposta inteiramente desproporcional, que a maioria dos especialistas
independentes define como genocídio. A ideia de que tal massacre em massa possa
ser justificado como uma forma de intimidar os inimigos e reduzir a violência é
intelectualmente insustentável e moralmente obscena.
Sejam
bem-vindos ao mundo de Alex Karp, um dos líderes da nova onda de
tecnomilitaristas do Vale do Silício.
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Militarização da IA ou tecno-otimismo descontrolado
Não
estamos falando do complexo militar-industrial (CMI) do sécculo XX. Os atuais
gestores do CMI — executivos que comandam gigantes industriais como Lockheed
Martin, RTX (antiga Raytheon), Boeing, General Dynamics e Northrop Grumman —
são muito mais cautelosos em suas declarações do que Karp. Seus líderes podem
ocasionalmente fazer alguma declaração sobre como o aumento
das tensões no Oriente Médio ou na Ásia poderia gerar demanda por seus produtos
entre os aliados dos EUA nessas regiões. Mas jamais se envolveriam no tipo de
retórica abertamente orwelliana na qual Karp parece se especializar.
Ainda
assim, o complexo militar-industrial do futuro prenuncia não apenas uma mudança
na tecnologia ou nas práticas comerciais, mas — como sugere Karp — uma mudança
cultural. Na nova etapa, o militarismo é abertamente celebrado, sem a
necessidade de qualquer discurso disfarçado sobre a promoção da estabilidade
global ou a defesa de uma “ordem internacional baseada em regras”. Pense no
novo complexo militar-industrial como uma versão individualista e tecnológica
da “guerra de todos contra todos” do filósofo Thomas
Hobbes. Aqueles que o comandam querem que acreditemos que a única maneira de
“vencer” uma guerra futura é entregando as chaves do mundo político a uma
camarilha de seres autoproclamados superiores, liderada por figuras como Alex
Karp, o fundador da Palantir, Peter Thiel, o chefe da Anduril, Palmer Luckey, e
o inimitável Elon Musk.
Alex
Karp é coautor do livro The Technological
Republic: Hard Power, Soft Belief, and the Future of the West, no qual articula sua
visão do que supostamente seria necessário para tornar os Estados Unidos
novamente dominantes. O livro é um longo lamento sobre como a maioria dos
norte-americanos supostamente perdeu seu senso de propósito e patriotismo,
desperdiçando seu tempo em atividades triviais como reality shows e videogames.
Ele e o coautor Nicholas W. Zamiska defendem uma nova missão nacional
unificadora para endireitar uma nação de preguiçosos e restaurar os Estados
Unidos em seu devido lugar como potência política e militar inigualável do
mundo.
A
resposta de Karp sobre o que é necessário: um novo Projeto Manhattan (que produziu a bomba atômica,na II Guerra Mundial). Desta
vez, o foco não seria o desenvolvimento de armas nucleares, mas a aceleração
das aplicações militares da inteligência artificial (IA) e a obtenção de uma
vantagem tecnológica permanente para os Estados Unidos sobre a China. É difícil
imaginar uma visão mais empobrecida ou equivocada do futuro norte-americano, ou
mais desprovida de senso básico de humanidade.
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A Tecnoguerra protegerá alguém? E será mais barata?
Deixando
a ideologia de lado, há a questão mais específica de saber se as empresas de
tecnologia emergentes podem realmente produzir sistemas de guerra melhores por
menos dinheiro. Palmer Luckey, da Anduril — um protegido do fundador da
Palantir, Peter Thiel — foi notícia recentemente ao declarar em entrevista à CNBC
que os EUA poderiam gastar talvez metade do atual orçamento de US$ 1 trilhão do
Pentágono e ainda assim ter um sistema de defesa mais eficaz se simplesmente
parassem de comprar as “coisas erradas”.
A ideia
de que um fornecedor de armamentos se ofereça para fazer mais por menos parece
quase revolucionária, em uma era onde a ganância e a corrupção no complexo
militar-industrial continuam desenfreadas. A filosofia por trás da declaração
de Luckey à CNBC está, na verdade, sintetizada em um notável documento da
Anduril intitulado “Renovando o Arsenal da
Democracia“,
uma crítica mordaz às práticas comerciais atuais do Pentágono e de gigantescas
empresas contratadas pelo setor militar, como a Lockheed Martin.
O
manifesto de Luckey deve ser considerado um ataque aos cinco maiores
conglomerados de armamentos — liderados pela Lockheed Martin e pela RTX (antiga
Raytheon) — que agora recebem um terço de cada dólar dos contratos assinados
pelo Pentágono. Essas gigantescas empresas já tiveram seu tempo, sugere o ensaio, realizando
trabalhos necessários e úteis nos anos da Guerra Fria, no século XX. “Por que
as empresas de defesa existentes simplesmente não conseguem fazer melhor?”,
questiona o texto. E tenta responder: “Essas empresas trabalham devagar,
enquanto os melhores engenheiros apreciam trabalhar com rapidez… Essas empresas
construíram as ferramentas que nos mantiveram seguros no passado, mas elas não
são o futuro da nossa defesa.”
O
documento praticamente sugere que empresas como a Lockheed Martin deveriam
receber um prêmio por realizações ao longo da vida e, em seguida, serem
descartadas para que figuras como Thiel, Karp, Luckey e Musk possam assumir o
comando da indústria armamentista.
Mas
gastar menos em armamentos — por mais útil que isso seja, considerando outras
prioridades nacionais urgentes — não pode ser o único objetivo da política de
defesa. A questão mais importante é se os sistemas supostamente mais baratos,
mais ágeis e mais precisos, baseados em inteligência artificial, podem, de
fato, ser implantados de forma a promover a paz e a estabilidade, em vez de
mais guerras. Na realidade, existe o perigo de que, se os Estados Unidos
acreditarem que puderem usar tais sistemas para intervir militarmente de forma
rotineira, sofrendo menos baixas, a tentação de entrar em guerra acabe, na
verdade, aumentando.
Mesmo
considerando tudo isso, a ideia de romper com o domínio das grandes
empreiteiras no desenvolvimento e produção do arsenal americano é atraente. Mas
as alegações do novo setor tecnológico, de que pode fazer o trabalho melhor e
por menos, precisariam ser comprovadas. Um drone é certamente mais barato que
um caça F-35. Mas, e quanto aos enxames de drones usados em ondas e
reabastecidos rapidamente em meio a uma guerra, ou aos navios não tripulados e
veículos blindados que operam com softwares complexos e não testados, que podem
falhar em momentos cruciais? E se, como o velho setor tecnológico e seu
crescente grupo de lobistas preferem, os militaristas da nova era forem
autorizados a operar com pouca ou nenhuma fiscalização, com o enfraquecimento
de salvaguardas — como testes independentes e restrições à especulação de
preços – que já são insuficientes para cumprir plenamente a missão?
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O lobby da tecnologia militar: disruptores turbinados
Antes
da atual onda de desenvolvimento de armas no setor tecnológico, houve um tempo
em que algumas empresas do Vale do Silício agiam como se seus produtos fossem
tão superiores e acessíveis que não precisassem se envolver com o lobby
tradicional. Por mais irrealista que isso pudesse ser, o Vale do Silício agora
se entregou completamente à corrupção legalizada — desde contribuições de
campanha cuidadosamente direcionadas até a contratação de ex-funcionários do
governo para fazer o que eles mandam. O primeiro exemplo é, claro, o
vice-presidente JD Vance, que foi empregado, mentorado e
financiado por
Peter Thiel, fundador da Palantir, durante sua ascensão ao Senado e,
posteriormente, à vice-presidência. Quando foi escolhido para compor a chapa de
Donald Trump em 2024, uma enxurrada de dinheiro novo entrou na campanha,
vinda do setor de tecnologia militar — incluindo dezenas de bilhões de dólares
de Elon Musk. Uma vez na chapa, uma das principais funções de Vance passou a
ser a de extrair ainda mais doações dos militaristas do Vale do Silício.
Em
seguida, veio o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) de Musk, a
organização que deu à “eficiência” a péssima reputação ao cortar programas e
pessoal federais de forma aparentemente aleatória e desmantelar ferramentas como a USAID,
enquanto deixava o Pentágono praticamente intacto. Embora a USAID tivesse seus
problemas, ela também financiava iniciativas
essenciais de desenvolvimento e saúde pública em todo o mundo. Uma verdadeira
iniciativa de eficiência teria analisado o que funcionava e o que não
funcionava naquela agência. Em vez disso, os seguidores de Musk, que não
entendiam nada de assistência econômica, simplesmente a desmantelaram.
Atualmente,
há um número significativo de executivos do Vale do Silício em posições-chave
no governo Trump, liderados por Vance, mas incluindo dezenas de outros em cargos importantes
nas forças armadas, na cúpula do Pentágono e em diversas agências de política
interna e externa.
Peter
Thiel e Alex Karp claramente acreditam que o que é bom para a Palantir é bom
para os Estados Unidos, mas a visão de país que eles estão promovendo é
perigosa e desumanizadora.
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Voltando à realidade (e controlando os tecnófilos)
O
problema com os novos tecnomilitaristas não é que estejam enganados sobre o
poder da tecnologia, mas sim que estejam perigosamente equivocados sobre quem
deve utilizá-la, para quais fins e sob quais restrições. Poder sem restrições
não é inovação. É imprudência disfarçada de inevitabilidade. Uma parcela
crescente das ferramentas que moldam a política externa e de segurança interna
dos Estados Unidos está sendo concebida, implementada e promovida por um
pequeno grupo de atores privados cujos incentivos são agressivamente
financeiros, cujas visões de mundo são profundamente militarizadas e cuja
responsabilidade perante o público é, na melhor das hipóteses, mínima.
O mundo
precisa de tudo, menos de um novo sacerdócio de engenheiros bilionários para
dizer que a guerra é inevitável, que o medo é o único caminho para a paz e que
a democracia deve se curvar à sabedoria superior daqueles que programam
algoritmos e constroem armamentos. Na realidade, já ouvimos essa história antes
— dos estrategistas nucleares da Guerra
Fria , dos entusiastas da contagem de corpos
da era do Vietnã e dos arquitetos da doutrina de “choque e pavor“, que ajudou a
destruir o Iraque. A cada geração é prometido que essa tecnologia
(seja ela qual for) finalmente tornará a guerra, ao estilo norte-americano,
limpa, precisa e decisiva. A cada vez, os corpos se acumulam da mesma forma.
O que
torna o momento atual especialmente perigoso é a velocidade e a
opacidade com que esses sistemas estão sendo desenvolvidos e implementados.
Ferramentas de direcionamento baseadas em IA, plataformas de vigilância
preditiva, armamentos autônomos e sistemas de fusão de dados estão sendo
integrados às estruturas militares e policiais internas com debate público
mínimo, supervisão frágil e praticamente nenhum consentimento significativo das
pessoas que suportarão as consequêncis — e morrerão por causa delas. A retórica
da disrupção impulsionada pela IA tornou-se uma desculpa conveniente para
atropelar completamente os processos democráticos.
A
premissa fundamental dos tecnomilitaristas é que a guerra permanente é o estado
natural do nosso mundo e que a nossa única escolha é a eficiência com que se
decide travá-la. Na realidade, a segurança nunca é alcançada aterrorizando o
resto do planeta até a submissão. Ela é alcançada por meio da diplomacia, da
contenção, do respeito ao direito internacional e à justiça econômica, e do
trabalho lento e pouco glamouroso de construir instituições que tornem a
violência em massa menos provável, em vez de mais automatizada.
Alex
Karp e seus pares podem se ver como realistas, que dizem corajosamente o que
outros não ousam. Na verdade, a visão de mundo deles é frágil e niilista,
confundindo dominação com força e inovação com sabedoria. A humanidade merece
mais do que uma corrida armamentista sem fim, conduzida por homens (e são quase todos
homens!) que acreditam ser os únicos aptos a decidir quais vidas são
descartáveis. A nova máquina de guerra, construída para algo como o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, deveria nos assustar
a todos.
Se a
tecnologia moldar o futuro da guerra, então a sociedade deve moldar as regras
que a regem. Do contrário, o que resta é entregar nossa responsabilidade moral
a um punhado de profetas da distopia e esperar que eles acertem. A história
sugere que esse é um risco que não podemos nos dar ao luxo de correr.
Fonte: Por
Janet Abou-Elias e William D. Hartung, no Tom Dispatch | Tradução: Antonio
Martins, para Outras Palavras

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