Brasil
registra 15 estupros coletivos por dia em quatro anos
Dados
do Ministério da Saúde indicam que 22.800 casos de estupro coletivo foram
cometidos entre 2022 e 2025. Maioria das vítimas são meninas e adolescentes...
Casos
recentes de estupros coletivos contra adolescentes que chocaram o Brasil nos
últimos dias expõem uma realidade que especialistas descrevem como persistente,
mas, na maioria das vezes, invisível.
O
estupro coletivo, ou seja, quando duas ou mais pessoas participam da agressão
sexual, não é um evento isolado no país. Dados do Sistema de Informação de
Agravos de Notificação (Sinan) indicam que, de 2022 a 2025, foram registrados
22.800 casos de estupro coletivo no Brasil, ou seja, mais de 15 casos por dia.
Ainda
segundo os dados, do total dessas agressões, 8,4 mil foram cometidos contra
mulheres adultas e 14,4 mil contra crianças e adolescentes do sexo feminino. Os
números foram fornecidos pelo Ministério da Saúde à DW.
Apesar
de alarmantes, esses números, no entanto, não correspondem à realidade, segundo
especialistas, devido à subnotificação dos casos.
"A
violência sexual, especialmente em sua forma coletiva, permanece cercada por
camadas históricas de silêncio. Em casos de estupro coletivo, esse silêncio
tende a ser ainda maior. A vítima não enfrenta apenas um agressor, mas um
grupo. O medo de represálias, a exposição pública e o trauma psicológico muitas
vezes se tornam barreiras quase intransponíveis para a denúncia", explica
Najara Barreto, gestora executiva do Instituto Justiça de Saia e projeto
Justiceiras, que atuam na defesa dos direitos das mulheres.
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Silêncio e impunidade
Essa
violência sexual normalmente acontece em contextos em que pelo menos um dos
agressores conhece a vítima. Essa proximidade dificulta a denúncia e a coleta
de provas. Além disso, a exposição e o julgamento social ainda fazem muitas
vítimas desistirem de procurar a polícia.
Outro
fator que contribui para o silêncio é a banalização da violência sexual em
determinados ambientes. Quando crimes são cometidos em grupo, pode surgir uma
dinâmica de encorajamento coletivo que dilui a percepção de responsabilidade
individual entre os agressores.
"O
estupro coletivo, diferentemente de outras formas de violência sexual, possui
um componente simbólico adicional: ele funciona como ritual de poder. O crime
deixa de ser apenas um ato de violência sexual e passa a operar como uma
demonstração pública de domínio sobre o corpo feminino", afirma Barreto.
A
especialista acrescenta ainda que esse tipo de violência prospera em contextos
sociais onde se observa a banalização do sofrimento da mulher, a erotização da
violência e, sobretudo, uma percepção difusa de que a responsabilização penal
pode não ocorrer ou não ocorrerá de forma proporcional à gravidade do crime.
Casos
de estupro coletivo que envolvem jovens de famílias com maior poder aquisitivo
costumam gerar grande repercussão, como ocorreu com o registrado em Copacabana.
No entanto, isso não significa que sejam mais comuns nesses grupos e, para cada
caso que ganha repercussão nacional, muitos outros permanecem invisíveis.
"Casos
semelhantes estão acontecendo também todos os dias nas comunidades periféricas,
nas comunidades tradicionais, sobretudo atingindo de forma mais incisiva as
mulheres negras, transexuais, crianças e outros grupos vulneráveis e não vemos
esses casos terem as mesmas visibilidades e resolutividades num curto espaço de
tempo", enfatiza Roseli de Oliveira Barbosa, assistente social e
presidenta da Tamo Juntas, ONG que atua na proteção de mulheres em situação de
violência.
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Crime persistente
A
repetição de casos de estupro coletivo mostra que o problema vai além de
episódios isolados de brutalidade. Trata-se, segundo especialistas, de um
fenômeno que reflete desigualdades de gênero, falhas institucionais e uma
cultura de violência que ainda persiste.
Nos
últimos anos, o Brasil aprovou uma série de medidas para enfrentar a violência
sexual. Entre elas estão leis que ampliaram a definição de estupro e penas mais
duras para crimes cometidos em grupo.
Previsto
no artigo 213 do Código Penal, o crime de estupro foi alterado em 2009. Ele
define estupro como o ato de "constranger alguém, mediante violência ou
grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se
pratique outro ato libidinoso". A pena prevista é de seis a dez anos de
prisão.
Se a
vítima sofrer lesão corporal grave ou se for menor de 18 anos, o acusado pode
pegar de oito a doze anos de prisão. Já se o crime resultar na morte da vítima,
a pena prevista é de 12 a 30 anos de prisão.
A lei
nº 13.718, de 2018, aumentou as penas para os casos em que há estupro coletivo.
Para ser considerado "coletivo", basta ter duas ou mais pessoas
responsáveis pelo crime. Nesses casos, a pena pode ser aumentada entre um terço
e dois terços, assim o tempo máximo de prisão passa de dez anos para 16 anos e
oito meses.
Além da
polícia, o sistema de saúde passou a registrar casos de violência sexual em
bancos de dados nacionais, permitindo acompanhar a evolução do problema e
servir de base para políticas públicas.
Essas
modificações ocorreram após um dos episódios mais chocantes de estupro coletivo
registrado no Brasil. Em 2016, no Rio de Janeiro, uma adolescente foi
violentada por dezenas de homens em uma comunidade da zona oeste da cidade,
após ter sido dopada. Imagens da jovem nua e inconsciente circularam nas redes
sociais.
Na
ocasião, investigadores apontaram que 33 homens teriam participado da agressão,
mas apenas quatro deles foram identificados e investigados pelo crime. O caso
gerou protestos e debates, fazendo com que medidas mais duras contra crimes
sexuais fossem criadas.
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Especialistas apontam lacunas
Apesar
desses avanços, especialistas afirmam que ainda há grandes lacunas. Entre elas
estão a falta de investigação eficaz, a demora nos processos judiciais e a
ausência de políticas de prevenção mais amplas.
Outro
desafio é a educação. Organizações que trabalham com o tema defendem campanhas
permanentes de conscientização sobre consentimento e violência sexual,
principalmente entre os jovens.
"O
estupro coletivo, muitas vezes, envolve dinâmicas de poder e de afirmação de
masculinidade dentro de grupos. Por isso, o enfrentamento a este tipo de crime
exige não apenas punição, mas, também, mudanças culturais profundas, que
reduzam a tolerância social à violência sexual", diz Celeste Leite dos
Santos, promotora de Justiça em Último Grau do Colégio Recursal do Ministério
Público (MP) de São Paulo e presidente do Instituto Brasileiro de Atenção
Integral à Vítima (Pró-Vítima).
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Reflexos nas vítimas
Além
dos danos físicos, vítimas de estupro coletivo geralmente sofrem impacto
emocional após o crime. No caso de Copacabana, a adolescente de 17 anos relatou
à família e às autoridades sentimento de culpa logo após a violência. Essa
reação comum entre quem sofre esse tipo de trauma, segundo a psicanalista Ana
Lisboa.
"A
autoestima vai sendo corroída aos poucos. A mulher aprende a minimizar o que
está acontecendo, a justificar o comportamento do agressor", explica.
A
profissional ainda enfatiza que, quando se trata de crianças e adolescentes, o
impacto causado é ainda mais devastador, uma vez que atinge de maneira profunda
o desenvolvimento psicológico e emocional dessas vítimas.
"Quando
um abuso acontece nessa fase e essa vítima não é acolhida, quando as pessoas
não a compreendem, o impacto emocional é muito forte. Primeiro pelo trauma do
próprio abuso. Depois porque ela ainda precisa lidar com todas as consequências
disso sozinha. Isso gera uma sensação muito intensa de humilhação,
inferioridade, culpa e medo, como se de alguma forma ela fosse responsável por
aquilo que aconteceu", diz.
Fonte:
DW Brasil

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