Semana
de crises indica que 'química' de Trump e Lula acabou?
"Tivemos
ali uma química excelente e isso foi um bom sinal".
Foi
assim que, em setembro de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump,
definiu seu primeiro encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT),
durante uma breve conversa, em Nova York.
O
encontro surpreendeu quem acompanhava a tensão pública entre os dois até então,
serviu para quebrar o gelo e deu início a uma relação que, até recentemente, os
dois classificavam como boa.
Desde
então, os dois trocaram elogios mútuos, três telefonemas e se encontraram
pessoalmente na Malásia.
Nesse
período, os Estados Unidos reduziram parte das tarifas impostas a produtos
brasileiros e retiraram as sanções econômicas impostas ao ministro do Supremo
Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, e sua mulher, Viviane Barci de
Moraes.
A
coroação desse bom momento seria uma visita de Lula a Trump, em Washington, nos
EUA, programada inicialmente para acontecer neste mês.
Lula
chegou a dizer em uma entrevista que a expectativa era de que a reunião
ocorresse neste domingo (16/3), mas a data jamais foi confirmada pelo Palácio
do Planalto ou pela Casa Branca.
Nos
últimos meses, no entanto, divergências entre os dois também se mantiveram
evidentes.
O
governo brasileiro condenou os ataques norte-americanos e israelenses ao Irã.
Além
disso, Lula criticou o Conselho de Paz, órgão criado por Trump para o qual o
Brasil foi convidado e que, segundo especialistas, teria o objetivo de
substituir a Organização das Nações Unidas (ONU).
Nesta
semana, uma série de eventos voltou a levantar dúvidas sobre o atual estágio da
relação entre os líderes das duas maiores democracias do hemisfério ocidental.
A
semana começou com a revelação feita pelo portal UOL de que os Estados Unidos
estariam próximos de designar como terroristas as facções criminosas Primeiro
Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).
O
movimento desagradou o governo brasileiro, que se mobilizou para tentar
convencer os americanos a recuar.
Na
quinta-feira (12/3), o governo norte-americano incluiu o Brasil em uma
investigação sobre supostas práticas comerciais irregulares, juntamente com
outros 59 países e blocos econômicos.
Na
prática, a medida pode resultar em novas tarifas comerciais contra a exportação
de produtos brasileiros.
Na
sexta-feira (14/3), porém, aconteceu o episódio mais emblemático.
O
governo brasileiro revogou o visto de entrada concedido ao conselheiro sobre
Brasil do Departamento de Estado norte-americano, Darren Beattie, cuja visita
ao país estava prevista para a semana que vem.
A
justificativa foi de que Beattie, quando pediu o visto às autoridades
brasileiras, omitiu a informação de que ele pretendia visitar o ex-presidente
Jair Bolsonaro (PL), que cumpre pena em um presídio como parte da sentença de
27 anos de prisão por crimes como tentativa de golpe de Estado.
Para o
Itamaraty, a visita poderia configurar uma ingerência política indevida.
Em meio
a esses episódios, a BBC News Brasil conversou com diplomatas e especialistas
para entender: afinal, o que aconteceu com a "química" entre Lula e
Trump? Será que ela diminuiu ou os episódios mais recentes nada têm a ver com a
relação entre os dois presidentes? E caso a química tenha diminuído, quais as
consequências disso para a relação entre os dois países?
Diplomatas
brasileiros ouvidos pela BBC News Brasil em caráter reservado divergem, em
alguma medida, sobre o que está acontecendo.
Um
deles afirma que o governo ainda diz que é cedo para crer no fim dos bons laços
que teriam sido forjados entre Lula e Trump nos últimos meses.
Outro
diplomata minimiza os os últimos episódios e atribuiu a tentativa de os EUA
classificarem facções criminosas como entidades terroristas e a tentativa de
Beattie de visitar Bolsonaro a grupos dentro do Departamento de Estado
alinhados à direita brasileira que estaria tentando minar a relação entre os
dois países.
Entre
os especialistas, um deles diz apostar que as relações entre Trump e Lula não
se deterioraram, mas que o foco de Trump na guerra em curso no Irã estaria
abrindo espaço para que grupos contrários a uma aproximação com o Brasil atuem
com mais independência.
Outro
avalia que a tal "química" seria apenas um "gracejo"
retórico e que, na prática, Brasil e Estados Unidos têm, hoje, interesses e
agendas políticas distintas e que isso seria difícil de contornar.
Outro
especialista ouvido pela BBC News Brasil também avaliou que não há elementos
para crer que houve uma piora na ligação entre Lula e Trump, mas que, a crise
no Oriente Médio e a proximidade das eleições no Brasil criam um cenário
incerto sobre o futuro dessa relação.
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Controvérsias e surpresas
A
controvérsia em torno da possível designação do PCC e CV como entidades
terroristas trouxe à tona, novamente, uma divergência entre Brasília e
Washington sobre a forma de enquadrar as duas facções.
Se por
um lado os Estados Unidos discutem essa possibilidade, o governo brasileiro
defende que essas facções sejam tratadas apenas como organizações criminosas.
O temor
brasileiro é de que essa designação possa ser usada politicamente contra o
governo em um ano eleitoral, além de abrir brechas para futuras intervenções
militares no Brasil, a exemplo do que os Estados Unidos fazem em outros países
do mundo como no Oriente Médio, África e, mais recentemente, na América Latina.
O tema
já vinha sendo debatido pelo menos desde o ano passado, quando um representante
norte-americano veio ao Brasil discutir o assunto com autoridades brasileiras.
Mas a
BBC News Brasil apurou que até mesmo integrantes da representação diplomática
norte-americana teriam sido pegos de surpresa com o aparente avanço das
discussões. A expectativa seria de que essa designação, se fosse ocorrer,
aconteceria apenas em meados do segundo semestre deste ano.
Os
rumores de que os Estados Unidos estariam prestes a designar as facções como
entidades terroristas levou o governo brasileiro a se mobilizar.
Segundo
relatos ouvidos pela BBC News Brasil, integrantes do Planalto e do Itamaraty
tentaram fazer chegar ao presidente Donald Trump a avaliação de que a
designação não contribuiria, na prática, para enfraquecer as duas facções.
O
ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, teve uma ligação no domingo
(8/3) com o secretário do Departamento de Estado, Marco Rubio.
A
posição defendida por autoridades brasileiras foi a de que uma alternativa mais
eficaz para o combate às duas facções seria aprofundar a cooperação policial e
de inteligência entre os dois países, com foco em rastreamento de recursos,
circulação de armas, rotas internacionais e lavagem de dinheiro.
O
segundo foco de tensão da semana surgiu com a abertura, pelos Estados Unidos,
de uma nova investigação com base na seção 301 da sua legislação comercial.
Esta é o segundo procedimento do tipo aberto pela administração Trump contra o
Brasil na área econômica. A primeira aconteceu em julho de 2025, em meio ao
anúncio do tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros.
O
procedimento inclui o Brasil e outros 59 países e blocos econômicos e busca
apurar se esses parceiros deixaram de adotar ou aplicar de forma efetiva
proibições à importação de bens produzidos com trabalho forçado.
Na
avaliação de um interlocutor do presidente Lula ouvido pela BBC News Brasil, a
medida pode ser lida como uma tentativa do governo norte-americano de retomar
uma política tarifária contra produtos importados após a decisão da Suprema
Corte norte-americana que derrubou a maior parte dos tarifaços impostos por
Trump globalmente, inclusive contra o Brasil.
Outra
fonte do governo brasileiro afirmou à BBC News Brasil, sob reserva, que a
inclusão do Brasil nessa apuração não deveria ser interpretada, por si só, como
um gesto dirigido especificamente ao país, uma vez que a investigação alcançou
dezenas de outras economias ao mesmo tempo.
O
professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Oliver
Stuenkel, avalia da mesma forma.
"Essa
questão comercial não é algo contra o Brasil, especificamente. Isso também foi
usado contra outros países. É o Trump querendo voltar a usar as tarifas como
arma da sua política externa", diz.
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Mudança de foco
Christopher
Garman, diretor-executivo para as Américas do grupo Eurasia, afirmou à BBC News
Brasil que o contexto internacional ajuda a explicar os últimos lances da
relação entre Brasil e Estados Unidos.
"A
crise no Irã deixou Trump focado em outro tema e abriu espaço para que
assessores que não gostaram da aproximação dele com Lula pudessem agir
novamente. Esse é o contexto da nomeação de Beattie como assessor sobre o
Brasil, a sua visita a Bolsonaro e a imposição de condições difíceis para o
Brasil na negociação de uma possível reunião bilateral com Trump", diz
Garman.
Para o
analista, apesar de esses movimentos dificultarem as relações entre Brasil e
Estados Unidos, ele diz não acreditar que a ligação entre Lula e Trump esteja
afetada.
"Não
acho que a relação se deteriorou. Acho que uma ligação telefônica entre os dois
pode colocar as coisas nos trilhos novamente. O que segura é que ainda temos um
presidente Trump com uma boa relação com Lula. Ele vê o Brasil como estratégico
por conta das terras raras. Não creio que vai haver uma escalada de
tensão", diz o analista.
Stuenkel
faz uma avaliação semelhante.
"Não
diria que há uma crise na relação bilateral", diz o professor.
Segundo
ele, no entanto, a atual gestão Trump seria muito centralizada e isso cria
obstáculos para saber quais serão os próximos movimentos da Casa Branca.
Na
avaliação de Garman, a crise no Irã, no entanto, favorece decisões e
iniciativas que complicariam a relação bilateral, especialmente quando ainda
não houve a visita de Lula a Trump.
O caso
envolvendo Darren Beattie ampliou essa percepção. Conselheiro do Departamento
de Estado para assuntos relacionados ao Brasil, ele já havia feito declarações
públicas críticas ao julgamento de Bolsonaro e ao ministro Alexandre de Moraes.
Em uma
dessas manifestações, classificou Moraes como figura central de um suposto
sistema de censura e perseguição ao ex-presidente brasileiro. Para integrantes
do governo brasileiro, esse histórico político aumentou a sensibilidade em
torno da visita planejada para a próxima semana.
A crise
se agravou depois que os advogados de Bolsonaro pediram ao STF autorização para
que Beattie o visitasse na prisão. Em um ofício enviado ao Supremo, o Itamaraty
avaliou que a visita poderia ser entendida como um gesto de ingerência política
em assunto interno brasileiro.
De
acordo com o documento, Beattie havia solicitado visto sob a alegação de que
viria ao Brasil para participar de um fórum sobre minerais críticos e reuniões
com autoridades brasileiras, sem menções ao encontro com Bolsonaro. O Itamaraty
disse, no entanto, que Beattie só teria procurado fazer contato com autoridades
brasileiras depois que sua visita a Bolsonaro foi autorizada.
Na
quinta-feira (12/3), Moraes revogou sua decisão e proibiu a visita de Beattie a
Bolsonaro.
Na
sexta-feira (13/3), Lula comentou publicamente o caso.
"Aquele
cara americano que disse que vinha aqui visitar o Jair Bolsonaro foi proibido
de visitar, e eu o proibi de vir ao Brasil até que eles liberem o visto do meu
ministro da Saúde", disse o presidente em um evento no Rio de Janeiro em
menção ao fato de que o governo norte-americano cancelou os vistos de viagem do
comandante da pasta da Saúde, Alexandre Padilha, e de membros de sua família.
Um
interlocutor do governo brasileiro ouvido pela BBC News Brasil em caráter
reservado afirmou que Brasília ainda tenta entender se os episódios recentes
são resultado de uma mudança mais ampla na orientação da política externa da
Casa Branca feita diretamente por Trump, ou se refletem ações isoladas de
integrantes do Departamento de Estado contrários a uma aproximação com o
governo Lula.
Segundo
essa fonte, esse grupo estaria mais próximo de setores ligados ao ex-deputado
Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vive atualmente nos Estados Unidos.
Essa
fonte afirmou que a tentativa de Beattie de visitar Bolsonaro foi entendida
pelo governo brasileiro como uma provocação. Ele ponderou, no entanto, que
ainda não há elementos para concluir que o alto comando da diplomacia
norte-americana tivesse conhecimento prévio do plano.
Segundo
ele, o Brasil continua trabalhando para viabilizar uma visita de Lula a Trump.
Para o
professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG), Dawisson Belém Lopes, a ideia de "química" entre os dois
presidentes deve ser relativizada.
"Isso
foi um gracejo. A tensão entre os dois países nunca deixou de existir",
diz Lopes à BBC News Brasil.
Para
ele, a aparente aproximação de Trump com Lula se deveu ao suposto fracasso da
tentativa norte-americana de fragilizar o Brasil durante o tarifaço.
"Lula
e Trump chegaram a um bom termo porque a estratégia de Trump de sufocar a
economia brasileira não deu certo. As exportações subiram, Lula se mostrou
forte politicamente. Mas em nenhum momento as engrenagens da política externa
em relação ao Brasil pararam de funcionar. Não é como se estivéssemos no
inferno, ido ao paraíso, e voltássemos ao inferno. Não é assim que as coisas
funcionam".
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Riscos elevados
Os
analistas ouvidos pela BBC News Brasil pontuam que, apesar de não haver
indícios de uma ruptura entre Trump e Lula, o ambiente político doméstico e
internacional cria riscos para o futuro dessa relação.
Garman
avalia que a proximidade das eleições parlamentares de meio de mandato nos
Estados Unidos e as eleições gerais no Brasil elevam os riscos.
Nos
Estados Unidos, Trump vai usar seu capital político para tentar manter sua
maioria no Congresso.
No
Brasil, Lula buscará a reeleição diante de uma provável candidatura do senador
Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho de Jair Bolsonaro.
"Mesmo
não vendo uma crise, o relógio está correndo. Seria importante para o Brasil
que essa reunião acontecesse logo. Quando as eleições no país começarem, o
ambiente será contaminado e essa reunião pode não acontecer", diz.
Stuenkel
diz que o governo brasileiro precisa considerar a possibilidade de uma eventual
ação dos Estados Unidos durante as eleições.
"É
evidente que o governo brasileiro precisa se preocupar com a possibilidade de
interferência eleitoral por parte dos Estados Unidos. Isso virou regra. Ele fez
isso na Argentina e em Honduras. Como as pesquisas apontam um cenário apertado
para Lula, isso eleva o incentivo de Trump de tentar interferir", afirma.
Há
algumas semanas, um interlocutor do presidente Lula tratava a visita a Trump e
o processo de aproximação com o norte-americano como uma espécie de vacina para
minimizar possíveis interferências externas durante as eleições.
"Aumentaram
os riscos. Se Trump levantar o tema das facções criminosas ao vivo, ao lado de
Lula, isso pode ser um problema porque as pessoas imaginam que classificar as
facções como terroristas pode ser uma solução. Já se sabia que essa reunião
seria difícil, mas agora o desafio ficou um pouco maior", diz o professor.
Para
Oliver Stuenkel, o atual cenário vai demandar habilidade para a diplomacia
brasileira e para Lula tanto para realizar a reunião, quanto durante ela.
"Os
eventos desta semana reforçam que Lula vai ter, realmente, que reacender a boa
química que pintou com Trump em Nova York", conclui ele.
Fonte:
BBC News Brasil

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