Entre
a escalada imperialista e a crise política do regime brasileiro
A
política externa dos Estados Unidos sob Trump aponta para um endurecimento
crescente em relação à América Latina e ao Caribe. O sequestro de Nicolás
Maduro teve impacto direto sobre a Venezuela, mas também serviu como recado
para toda a região. A mensagem era clara. A ingerência norte-americana iria
crescer, em uma atualização da Doutrina Monroe para o século XXI.
Nesse
contexto, a tentativa de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações
terroristas se apresenta demagogicamente como política de segurança, mas serve
para legitimar intervenções políticas e militares dos Estados Unidos na região.
A proposta do chamado escudo das Américas aponta na mesma direção, criando um
mecanismo permanente de pressão sobre governos não alinhados.
Ninguém
menos do que Darren Beattie, conselheiro de Trump, solicitou uma visita a
Bolsonaro na prisão, o que foi inicialmente aceito por Moraes. Agora ele voltou
atrás, após o Itamaraty entrar em cena e se opor à visita por ela indicar
possibilidade de influência externa nas eleições. São sinais da retomada de
confrontos mais abertos. Vale lembrar que foi Beattie que chamou Moraes de
’principal arquiteto’ da ’perseguição’ contra o ex-presidente, e o governo
Trump decidiu enviar esse emissário para um encontro anunciado. É um recado
político de que pretendem manter relações e ajudar a extrema-direita nacional.
A
criminosa escalada militar contra o Irã expressa a tentativa de reafirmar uma
hegemonia que já não possui a mesma estabilidade de décadas anteriores. O
comportamento do próprio Trump diante da disparada do preço do petróleo ilustra
esse dilema. Quando o barril ultrapassou a marca de 120 dólares, o presidente
norte-americano rapidamente afirmou que a guerra estaria próxima do fim. O
objetivo era conter os efeitos inflacionários internacionais e evitar pressões
internas que poderiam atingir sua própria base política. Agora, retirou até
mesmo os embargos às petrolíferas russas, um sinal de que Teerã vêm conseguindo
impor enormes problemas para Trump. A inflação mundial que gerada pela escassez
de petróleo inclusive fez Lula adotar medidas emergências, exonerado o diesel e
impondo taxações sobre a exportação de petróleo brasileiro, para evitar que
isso também possa ter efeitos eleitorais no Brasil.
Diante
desse quadro, é cada vez mais urgente a necessidade de construir uma força
política e social capaz de enfrentar verdadeiramente a política imperialista e
o interesse das grandes maiorias sociais. Iniciativas como a campanha do
Sindipetro do Rio de Janeiro exigindo petróleo brasileiro e da Petrobrás para
Cuba já expressam a importância de articular uma série de iniciativas concretas
para preparar a classe trabalhadora para atuar em uma perspectiva
anti-imperialista.
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Caso Master escancara a podridão do regime
No
plano interno, o escândalo do banco Master e de Daniel Vorcaro revelou uma teia
de relações entre o sistema financeiro, o Judiciário e diversos setores do
regime político. As investigações apontam conexões com o STF, colocando
Alexandre de Moraes no centro da crise, e também com o Banco Central, onde dois
ex-homens de Vorcaro chegaram ao alto escalão na gestão Campos Neto. A rede se
estende ainda a Ibaneis Rocha, ao BRB, ao grupo de ACM Neto, a fundos de pensão
ligados ao governo Cláudio Castro e ao cunhado de Vorcaro, preso e maior doador
privado das campanhas de Bolsonaro e Tarcísio.
Apesar
dessas conexões múltiplas, a crise tende a atingir com mais força o governo
Lula porque o Supremo Tribunal Federal é percebido por grande parte da
população como aliado do governo após ter conduzido o processo que levou à
prisão de Bolsonaro. O fato de Alexandre de Moraes aparecer no centro das
revelações aprofunda essa percepção.
O
episódio revela de forma quase literal a velha formulação de Marx segundo a
qual o Estado é um balcão de negócios da burguesia. O mais impressionante é que
Vorcaro é considerado um banqueiro relativamente pequeno diante da estrutura do
sistema financeiro brasileiro. Se um ator desse porte conseguiu construir
relações tão amplas dentro do Estado é inevitável imaginar o que fazem os
grandes grupos financeiros do país. Basta lembrar que existem cerca de setenta
bilionários brasileiros na lista da Forbes com influência econômica gigantesca.
Figuras como Jorge Paulo Lemann ou André Esteves acumulam fortunas que crescem
de forma vertiginosa enquanto mantêm relações constantes com o poder político.
O
desdobramento da crise é incerto e pode escalar, sobretudo se houver a delação
de Vorcaro. A condução dos vazamentos pela Polícia Federal também levanta
dúvidas sobre os interesses em jogo. Não se pode descartar nem a interferência
de interesses imperialistas, dadas as relações históricas da PF com agências
norte-americanas, nem a ação de grandes grupos financeiros interessados em
conter bancos menores e fintechs. Diante de muitas dúvidas, o fato é que os
superpoderes atribuídos ao judiciário estão mostrando seu verdadeiro caráter de
classe, sendo um dos pilares de sustentação do capitalismo brasileiro.
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As bases do bolsonarismo são alimentadas pela Frente Ampla
Considerando
as perspectivas eleitorais, o Brasil vive uma situação política profundamente
polarizada que tem razões estruturais. Pesquisas recentes indicam um eventual
segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro com uma diferença muito pequena nas
intenções de voto. A eleição de 2022 já havia mostrado como disputas desse tipo
podem ser decididas por margens extremamente estreitas, quando o segundo turno
se decidiu por uma diferença mínima de 1,8%.
Flávio
Bolsonaro procura se apresentar como uma versão mais moderada do bolsonarismo.
Trata-se, claro, de pura demagogia eleitoral vindo do representante do
reacionário clã Bolsonaro. Mas é muito importante analisar os discursos desses
setores para identificarmos quais são seus objetivos e pretensões políticas.
Flávio fica tentando se apresentar com posições próprias e destaca “diferenças”
pontuais com o pai, como o fato de ter tomado vacina durante a pandemia. O que
ele quer é buscar ampliar sua influência sobre setores do eleitorado mais
moderado ao mesmo tempo em que mantém o apoio da base bolsonarista mais
ideológica.
A
questão central, porém, é entender por que o bolsonarismo conserva sua força
eleitoral mesmo após a derrota em 2022 e com sua principal figura presa.
A
resposta passa pela forma como o país foi governado nos últimos anos. Muitos
acreditaram que a prisão de Bolsonaro resolveria automaticamente o problema da
extrema direita no Brasil e essa ideia foi defendida e propagada pelo PT. No
entanto, a realidade está mostrando algo diferente. O bolsonarismo possui
raízes estruturais profundas na sociedade brasileira e faz parte de um fenômeno
internacional mais amplo. E o que fez o governo de Frente Ampla foi não apenas
manter, mas fortalecer os pilares do bolsonarismo, que se mostra também nos
escandalosos casos de feminicídios, além das chacinas e violência policial -
como fica evidente com seu governo no estado da Bahia, o estado com maior
letalidade policial.
O peso
político do agronegócio é um exemplo disso. Estamos falando de uma força
econômica, política e ideológica com enorme capacidade de influência. Nas
regiões onde esse setor é mais forte, como o interior de São Paulo, o
Centro-Oeste e o Sul, candidaturas ligadas ao bolsonarismo mantêm grande
presença política. Ao mesmo tempo, o governo Lula aprovou o maior Plano Safra
da história com cerca de 516 bilhões de reais destinados ao setor. Para efeito
de comparação, todo o orçamento federal da saúde gira em torno de 245 bilhões
de reais.
Outro
exemplo está na política de financiamento público. O BNDES liberou bilhões para
projetos do governo Tarcísio que incluíram privatizações, apoio que o próprio
governador agradeceu publicamente. Ao mesmo tempo, partidos como Republicanos,
MDB, PP, União Brasil e PSD, todos com forte presença bolsonarista, controlam
ministérios e recursos no interior do governo Lula.
Poderíamos
ainda citar também a relação com grandes conglomerados dos empresários da fé, o
papel dos militares, do judiciário e a macro-política neoliberal que garantem
os interesses de grandes grupos capitalistas, a começar pelo religioso
pagamento da dívida pública. Tudo isso garantido pelo governo de Lula e da
Frente Ampla.
Como
diz um dos ditados mais populares, todo mundo colhe o que planta. Fortalecendo
sistematicamente todos os pilares do bolsonarismo, e seu enraizamento no regime
político, o desaparecimento da extrema-direita estaria mais em função de obra
divina do que da realidade concreta. E como a realidade da política não faz
milagres…
Há
ainda as medidas econômicas, que produzem efeitos de inúmeras ordens. As
reformas aprovadas nos governos anteriores de Temer e Bolsonaro foram todas
mantidas e a política econômica, essencialmente neoliberal, continuou orientada
pela busca do sagrado “equilíbrio fiscal” e pelo atendimento dos interesses do
mercado financeiro, sendo o Arcabouço Fiscal seu poderoso guardião.
Não é
por acaso que grande parte da população não percebe melhora significativa em
sua vida cotidiana. O governo quer se vangloriar que os índices de desemprego
estão apresentando índices baixos históricos, mas o que não dizem é que esses
empregos são marcados por baixos salários e alta precarização. A
superexploração do trabalho permanece como uma característica central marcante
da sociedade brasileira, com tendência a aumentar. Com a precarização crescente
do trabalho, não surpreende que aumente o número de pessoas que dizem ter
piorado de vida. O alto endividamento das famílias confirma isso. Em São Paulo,
cerca de 70% estão endividadas.
Esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que o cenário eleitoral se torna
cada vez mais disputado. As bases sociais que sustentam o bolsonarismo
permanecem presentes e em muitos casos continuam fortalecidas. E por outro
lado, o grande ativo de Lula na eleição passada, que com ele as pessoas iriam
melhorar sua condição de vida, não está sendo sentido por amplos setores
sociais.
Ao
mesmo tempo, o país também é atravessado por lutas importantes. A mobilização
dos povos indígenas do baixo e médio Tapajós contra a privatização dos rios
mostrou essa força. Depois de mais de um mês de protestos e ações diretas, o
governo revogou o decreto, numa derrota importante para Lula e também para
Boulos e Sônia Guajajara, duramente questionados pelos próprios indígenas.
Greves
em universidades e institutos federais dos trabalhadores
técnico-administrativos, paralisações de trabalhadores da educação e outras
mobilizações indicam que o terreno social permanece em movimento. Além dos
mais, o enorme fenômeno favorável ao fim da escala 6x1 é um termômetro social
que mostra disposição e maiores ambições por setores amplos da classe
trabalhadora, e inclusive é por isso que Lula dialoga tanto com essa pauta.
Muitas
dessas lutas no entanto enfrentam limites impostos pela atuação das burocracias
sindicais e pela falta de articulação política mais ampla, promovida pelas
burocracias sindicais que blindam o governo. Essa força social, livre dessas
amarras, poderia operar uma grande força social à esquerda na sociedade,
criando maiores problemas e dificuldades inclusive para a extrema-direita e sua
demagogia eleitoral. No entanto, o PT e sua administração do decadente
capitalismo brasileiro, atua para conter e neutralizar qualquer processo de
luta que possa ter um impacto nacional maior.
É
preciso considerar ainda que as tensões geopolíticas, a crise econômica e as
contradições sociais podem produzir abalos importantes, inclusive por meio da
irrupção da luta de classes. Nos Estados Unidos, a mobilização de trabalhadores
e imigrantes em Mineápolis já impôs dificuldades a Trump e o obrigou a retirar
o ICE do estado. Ao mesmo tempo, o fechamento do Estreito de Hormuz e a alta do
petróleo ampliam os riscos de inflação e tensão social nos EUA, abrindo
fissuras inclusive na base do MAGA.
Diante
desse quadro, a conclusão que se impõe é que é necessário a construção de uma
saída política dos trabalhadores e das grandes massas populares em
enfrentamento com o imperialismo. O escândalo do banco Master expõe de maneira
brutal o grau de decomposição do regime político brasileiro. As relações entre
banqueiros, setores do Judiciário, do sistema financeiro e da política
institucional revelam um funcionamento do Estado profundamente subordinado aos
interesses do capital.
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Por uma esquerda que enfrente o sistema político e aposte numa saída
independente e dos trabalhadores
Diante
dessa crise do regime político brasileiro, o que menos se necessita é de uma
esquerda integrada a esse mesmo regime e que se apresente como parte de sua
engrenagem. O desafio colocado é exatamente o contrário. É preciso uma esquerda
disposta a enfrentar esse sistema político marcado pela influência do capital
financeiro e pela decomposição institucional.
Nesse
contexto ganhou importância o recente debate sobre a proposta de federação
entre o PSOL e o PT. Encabeçado por figuras importantes com Guilherme Boulos à
frente, ao lado de figuras como Erika Hilton e Sônia Guajajara, estiveram na
linha de frente da campanha para que o PSOL aderisse a essa federação. No
entanto, na reunião do Diretório Nacional realizada no último final de semana
essa posição foi derrotada por ampla maioria. Caso tivesse sido aprovada, a
federação teria representado na prática uma quase fusão entre os partidos
durante quatro anos, com a obrigação de manter candidaturas comuns para cargos
executivos. Isso significaria, por exemplo, o PSOL fazendo campanha para
figuras como Eduardo Paes no Rio de Janeiro ou para oligarquias regionais como
a família Barbalho no Pará. Em diversas cidades o PT já chegou a se coligar
inclusive com o PL nas eleições municipais, o que demonstra até que ponto esse
tipo de arranjo poderia levar o PSOL a apoiar ou compor governos com setores
profundamente conservadores.
O que
permanece em aberto agora é se o processo de integração do PSOL ao regime
político, que vem se aprofundando ao longo dos últimos anos, sofrerá algum tipo
de inflexão. A legenda ocupa hoje dois ministérios no governo federal, o que
representou um salto qualitativo na transformação do PSOL em partido integrante
do governo. E foi justamente a ala ligada aos ministros que defendeu a
federação e que agora ameaça discutir novos caminhos após a derrota no
Diretório Nacional. A nota pública divulgada por esse setor indica inclusive a
possibilidade que rompam com o PSOL. Ao mesmo tempo, o voto majoritário contra
a federação foi visto como uma forma de resistência dentro do PSOL à completa
submissão à Frente Ampla. No entanto, vale dizer, entre setores que se opuseram
à federação também estão aqueles que têm uma política muito parecida com a ala
de Guilherme Boulos mas que se opõem à federação por motivos mais pragmáticos e
eleitorais do que por querer uma política mais independente do PT.
Ao
contrário de uma maior submissão ao regime é necessário construir uma força de
independência de classe que aponte uma verdadeira saída política para o país. É
necessário colocar na ordem do dia a convocação de uma verdadeira Assembleia
Constituinte Livre e Soberana. Não uma reforma controlada pelo próprio regime
que produziu essa crise, mas uma constituinte imposta pela mobilização social,
com representantes eleitos por sufrágio universal e com liberdade para discutir
os fundamentos do país. Para que isso se torne possível é fundamental que a
classe trabalhadora e os setores oprimidos se afirmem como sujeito político
nacional. Isso exige fortalecer as lutas existentes, cercá-las de solidariedade
e transformá-las em causas nacionais, como ocorreu na mobilização dos povos
indígenas do Tapajós, usando este ponto de apoio para exigir e impor para as
direções burocráticas sindicais, que não organizam nenhuma luta, a ruptura com
essa política de subordinação ao governo e paralisia. É através da construção
concreta de uma correlação de forças favorável às grandes lutas sociais que
poderemos impor uma saída política de fundo. Do contrário, é abrir espaço para
a extrema-direita se aproveitar de maneira demagógica das crises do regime
político para seus interesses próprios.
Isso
deve estar articulado com um plano de luta que inclua a revogação de todas as
reformas neoliberais, de todas as privatizações, o fim do arcabouço fiscal e o
não pagamento da dívida pública. Articulado a isso o controle de todas as
riquezas naturais, do petróleo aos minerais raros, que estão na mira do
imperialismo. Medidas desse tipo colocariam diante das grandes massas um debate
real sobre os limites da democracia burguesa e do regime político atual. A
experiência demonstraria que propostas capazes de enfrentar as desigualdades
estruturais do país não seriam aceitas pela burguesia, pelos grandes grupos
empresariais e pelo imperialismo. É justamente nesse terreno de confronto
político e social que pode se abrir espaço para uma alternativa mais profunda.
Uma saída que aponte para a construção de um governo dos trabalhadores em
ruptura com o capitalismo, baseado em amplos organismos de auto-organização e
autodeterminação das massas.
Fonte:
Por Danilo Paris, em Esquerda Diário

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