Quem
é o 'Caranguejo', neto de Raúl Castro que surge como interlocutor de Cuba junto
aos EUA
O
presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, informou na sexta-feira (13/3) que seu
país e os Estados Unidos iniciaram conversas em meio à grave crise econômica
que atravessa a ilha, em um momento de pressão cada vez maior do governo Donald
Trump sobre Havana.
O
anúncio confirma as recentes informações sobre possíveis contatos entre os dois
países, que trouxeram a público uma figura até então pouco conhecida.
Trata-se
de Raúl Guillermo Rodríguez Castro, de 41 anos. Conhecido como
"Raulito" e El Cangrejo ("O Caranguejo", em espanhol), ele
é neto, braço direito e guarda-costas do ex-presidente cubano Raúl Castro, de
94 anos — e sobrinho-neto de Fidel Castro, líder da Revolução Cubana.
"Raulito"
não ocupa nenhum cargo no governo Díaz-Canel, mas alguns órgãos de imprensa
indicam que ele seria o interlocutor de Cuba em reuniões confidenciais
realizadas com assessores do secretário de Estado americano, Marco Rubio.
Havana não desmentiu explicitamente esta informação.
Raúl
Guillermo Rodríguez Castro aparece sentado atrás de Díaz-Canel, entre
funcionários do Partido Comunista, no vídeo do pronunciamento de sexta-feira. O
mandatário declarou que o objetivo das conversas é "buscar soluções pela
via do diálogo para as diferenças bilaterais que temos entre as duas
nações".
Anteriormente,
o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que seu governo está
"conversando" com autoridades cubanas e sugeriu a possibilidade de
uma "tomada amistosa" do controle da ilha, que, segundo ele,
"não tem energia, não tem dinheiro" e enfrenta sérios problemas
humanitários.
Os
órgãos de imprensa que noticiaram supostos contatos antes da confirmação desta
sexta-feira indicaram que um desses encontros teria ocorrido em fevereiro, à
margem de uma reunião de líderes caribenhos em São Cristóvão e Névis, onde
assessores de Marco Rubio teriam se reunido com o neto do histórico dirigente
cubano.
Do lado
americano, o congressista republicano Mario Díaz-Balart declarou que o governo
dos Estados Unidos conversou com "diversas pessoas do entorno de Raúl
Castro", mas que não se tratava de negociações oficiais.
A
menção do nome de Raúl Guillermo como interlocutor pela parte cubana colocou em
evidência o peso do sobrenome Castro em uma opaca elite política, na qual os
equilíbrios internos de poder continuam sendo um mistério.
Mas
quem é Raúl Guillermo Rodríguez Castro? E qual é o seu papel na estrutura do
regime comunista de Cuba?
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O favorito de Raúl Castro
Fidel
Castro (1926-2016) concentrou o poder em Cuba por décadas, como líder absoluto
do sistema político comunista instaurado após a Revolução Cubana de 1959, que
segue em vigor na ilha.
Oito
anos antes de morrer, Fidel passou o poder para seu irmão mais novo, Raúl
Castro.
"Fidel
havia mantido a família bastante afastada", explica à BBC News Mundo,
serviço em espanhol da BBC, o cientista político e historiador cubano Armando
Chaguaceda.
"Fidel
era ele e ponto. A família ficava de fora. Mas, com Raúl, os familiares
adquiriram maior notoriedade."
Raúl
Guillermo Rodríguez Castro, o "Caranguejo", é filho de Déborah Castro
Espín, a mais velha dos quatro filhos de Raúl Castro, e do ex-general de
divisão Luis Alberto Rodríguez López-Calleja (1960-2022), uma das figuras mais
influentes do regime cubano.
Rodríguez
López-Calleja dirigia o conglomerado empresarial militar Gaesa, uma holding que
controla amplos setores da economia da ilha, do turismo e do comércio varejista
até as remessas financeiras e serviços portuários.
Seu
filho Raúl Guillermo foi o primeiro neto de Raúl Castro. O ex-presidente
manteve com ele uma relação especialmente próxima desde a infância, como revela
à BBC seu primo do lado paterno, Carlos Rodríguez Halley, que é três anos mais
novo.
"Por
ser o primogênito dos netos de Raúl Castro, Raulito sempre foi muito apegado ao
avô", ele conta. "Muito novo, quando tinha 11 anos e estava na sexta
série, foi morar com ele."
A
decisão foi importante dentro da família. Afinal, ela fez com que o jovem
crescesse ao lado do então líder cubano e contribuiu para consolidar um vínculo
que, com o tempo, facilitaria sua integração ao círculo de poder.
"Nem
mesmo seu pai esteve muito presente", segundo o primo. "Seu pai
trabalhava muito e, desde que ele era muito jovem, eles apenas se viam."
Raúl
Guillermo seguiu uma formação que combinava educação civil e militar.
Ele
estudou na escola conhecida como Los Camilitos, uma instituição que prepara os
jovens cubanos para carreiras nas forças armadas. Posteriormente, ele cursou
contabilidade e finanças na Universidade de Havana.
"Ele
foi criado em um ambiente muito específico, sempre rodeado de jovens militares
que eram trazidos do campo e doutrinados nas forças armadas", conta
Rodríguez Halley. "Estes homens eram o seu entorno."
Ele
destaca que, da mesma forma que os outros netos de Raúl Castro, Raúl Guillermo
cresceu em entorno privilegiado, com pouco contato com a vida cotidiana de um
país atingido por décadas de escassez e deterioração dos serviços públicos.
Seu
apelido El Cangrejo surgiu quando ele era criança, dentro da própria família,
por ter nascido com polidactilia.
"Ele
nasceu com seis dedos", conta o primo. "Foi operado quando era muito
pequeno e ficou uma cicatriz que, agora, quase não se nota."
Em
termos de personalidade, Rodríguez Halley o descreve como um homem "tímido
no seu ambiente mais fechado, mais familiar, mas que também projeta uma imagem
pública de extroversão em certos ambientes".
Raúl
Alejandro foi casado mais de uma vez e tem duas filhas, segundo fontes
próximas.
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O guarda-costas
Raúl
Castro transferiu a presidência de Cuba para Díaz-Canel em 2018 e se retirou
formalmente da primeira linha da política em 2021. Mas muitos analistas
consideram que ele mantém intacto seu poder de decisão no aparato político e
nas forças armadas.
O
cientista político Chaguaceda destaca que, em um sistema fechado como o cubano,
a proximidade pessoal com a figura que concentra o poder pode ser um fator
decisivo.
"A
elite está concentrada em um pequeno grupo de anciãos envelhecidos, militares
ou civis, que fazem parte do setor político", explica ele. "E há um
componente familiar, que é a família de Raúl Castro."
Por
isso, a influência do "Caranguejo" teria origem, mais que em uma
trajetória política própria, na mencionada proximidade com seu avô, segundo
especialistas e fontes próximas.
Diferentemente
do seu pai, um general que se destacou pela sua notável trajetória acadêmica e
militar, Raúl Alejandro Rodríguez Castro não foi particularmente brilhante nos
estudos nem na sua carreira no exército.
De
qualquer forma, sua única ocupação conhecida é a de guarda-costas do próprio
Raúl Castro.
"Os
militares com quem ele cresceu eram sua referência, a ponto de ele próprio ter
decidido que queria ser guarda pessoal do avô", explica seu primo.
Diversas
fontes posicionam Raúl Guillermo como alto funcionário do Ministério do
Interior de Cuba, com patente de tenente-coronel ou coronel, sempre vinculado à
segurança pessoal de Raúl Castro.
Relatos
mencionados pelo BBC Monitoring (o serviço de monitoramento da BBC) indicam que
seu avô o teria promovido em 2016 a chefe da Direção Geral de Segurança
Pessoal, uma unidade chave do aparato de segurança cubano, encarregada de
proteger os dirigentes do país.
Desde
então, sua presença ao lado do ex-presidente se tornou habitual.
Fotografias
e vídeos difundidos pela imprensa estatal cubana mostram frequentemente Raúl
Alejandro ao lado do avô em atos oficiais, reuniões ou viagens ao exterior. Ele
costuma aparecer vestido com uniforme verde-oliva e óculos escuros.
Em
algumas ocasiões, ele é visto um passo atrás de Raúl Castro ou inclinado na sua
direção, aparentemente transmitindo informações ou orientando o ex-presidente
durante atos públicos.
Este
papel o coloca em uma posição singular dentro do sistema político cubano.
"Raulito" controla o acesso físico ao histórico ex-dirigente e
participa da logística, segurança e organização dos seus deslocamentos.
Da
mesma forma que os outros netos do ex-presidente, Raúl Alejandro também
desperta atenção devido às informações que o vinculam ao privilegiado estilo de
vida da elite governante de Cuba, diferente das dificuldades econômicas
enfrentadas pela maioria da população da ilha.
Sua
vida social nos últimos anos foi marcada, segundo fontes próximas, pela sua
proximidade com a elite esportiva e cultural de Cuba.
"Como
qualquer cubano, ele era fanático por beisebol", recorda seu primo.
"Mas,
claro, ele não ia ao beisebol, como eu e você, para se sentar e assistir a uma
partida. Ele andava com os melhores jogadores."
"No
seu primeiro casamento, estavam todos os artistas da [banda] Charanga Habanera;
também estavam Alexander e o outro músico do [grupo] Gente de Zona", ele
conta, em referência a dois populares grupos musicais cubanos.
A falta
de informação sobre Raúl Guillermo é um fato comum quando se tenta analisar o
funcionamento interno do poder em Cuba.
"Sempre
foi um sistema muito opaco e o que se sabe é pouco mais do que
especulação", afirma Armando Chaguaceda.
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O diálogo com os Estados Unidos
A
aparente participação de Raúl Guillermo Castro nos contatos com Washington
também trouxe de volta uma questão mais ampla: quem realmente toma as decisões
em Cuba?
Fontes
mencionadas pelo jornal americano Miami Herald indicam que os contatos do
governo Donald Trump não se limitaram a um único interlocutor, mas sim a
"diversas pessoas do entorno de Raúl Castro", incluindo familiares e
altos militares.
Neste
sentido, o presidente cubano, Díaz-Canel, afirmou na sexta-feira estar à frente
dos diálogos por parte de Cuba, ao lado de Raúl Castro e de outros altos
funcionários do Partido Comunista e do governo.
Díaz-Canel
não detalhou quem faz parte da delegação americana.
O
congressista americano Mario Díaz-Balart comparou estes diálogos com os
contatos anteriores entre Washington e o governo da Venezuela, antes da captura
do presidente Nicolás Maduro, no dia 3 de janeiro.
Segundo
as mesmas fontes, não se trataria de negociações formais, mas de intercâmbios
sobre possíveis mudanças econômicas e políticas na ilha.
O
governo americano aumentou, nos últimos meses, as pressões sobre Cuba, que já
atravessava a maior crise econômica e energética das últimas três décadas.
Washington
interrompeu o fornecimento de petróleo procedente da Venezuela, um tradicional
parceiro e fornecedor do regime cubano. E ameaçou impor tarifas de importação
aos países que fornecerem combustível para a ilha.
Paralelamente,
setores da diáspora cubana em Miami, no Estado americano da Flórida,
expressaram preocupações com a possibilidade de que Washington permita a
manutenção da família Castro e seu entorno no poder.
Sobre
esta possibilidade, Díaz-Balart afirmou que "o conceito de 'Raúl sem Raúl'
não é aceitável para este governo". Ele faz referência à possibilidade de
que outros membros da família, incluindo o "Caranguejo", continuem
controlando o país após um possível acordo.
Fonte:
BBC News Mundo

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