segunda-feira, 16 de março de 2026

Lula e a estratégia da soberania contra a falsa pacificação da extrema-direita

Quando Washington atacou o Brasil com tarifas, pressões diplomáticas e retórica contra instituições, o país reagiu com unidade e o governo Lula atingiu seu auge de popularidade. Agora, a extrema-direita tenta deslocar o eixo do debate com uma falsa conciliação institucional destinada a tornar Flávio Bolsonaro um candidato aceitável e recolocar o Brasil na órbita da dependência. A resposta estratégica passa por recolocar no centro da disputa aquilo que realmente mobiliza o povo brasileiro: soberania, autodeterminação e liberdade para se desenvolver.

<><> Soberania como eixo da disputa política brasileira

Quando os Estados Unidos passaram a pressionar o Brasil com tarifas, ameaças diplomáticas e ataques retóricos a instituições brasileiras, o país reagiu com algo raro na política contemporânea. Surgiu um sentimento amplo de defesa da soberania nacional. Foi nesse contexto que o governo Lula atingiu seu auge de popularidade no terceiro mandato. Washington criticava o Brasil, setores da extrema-direita reproduziam internamente essa pressão e o conflito se tornava claro para a sociedade. De um lado estava a defesa da autonomia nacional. Do outro, um campo político disposto a alinhar o país aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. Agora, diante da reorganização eleitoral da extrema-direita, surge uma nova narrativa. A chamada pacificação institucional. Apresentada como conciliação, ela cumpre uma função muito mais concreta. Reabilitar o bolsonarismo, tornar Flávio Bolsonaro um candidato aceitável e deslocar o eixo do debate para longe do que realmente mobiliza o povo brasileiro. Soberania, autodeterminação e liberdade para se desenvolver.

Esse quadro ajuda a compreender por que a narrativa atual de pacificação não pode ser analisada fora do contexto histórico recente. Durante o governo Jair Bolsonaro, o alinhamento político e diplomático com Washington tornou-se um dos traços mais marcantes da política externa brasileira. Em 2019, o Brasil anunciou a isenção unilateral de vistos para cidadãos dos Estados Unidos, Canadá, Japão e Austrália, abrindo mão de exigir reciprocidade imediata. No mesmo período, o governo brasileiro apoiou a estratégia norte-americana de isolamento da Venezuela e acompanhou iniciativas diplomáticas lideradas pela Casa Branca na região. Em março daquele ano, Bolsonaro foi recebido por Donald Trump em Washington e o encontro resultou em uma série de compromissos que incluíam cooperação militar ampliada, apoio dos Estados Unidos à entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico e o reconhecimento do país como aliado preferencial extra-OTAN. Esses movimentos foram apresentados como avanços diplomáticos, mas também indicaram uma mudança significativa de orientação. Pela primeira vez em décadas, setores importantes da política externa brasileira passaram a operar sob a lógica de alinhamento automático a Washington, rompendo com a tradição histórica de autonomia relativa que havia marcado a atuação internacional do país desde a redemocratização.

Esse histórico ajuda a entender por que os acontecimentos recentes devem ser analisados com atenção. A relação entre Brasil e Estados Unidos voltou a entrar em uma fase de tensão aberta nos últimos anos. Tarifas comerciais, pressões diplomáticas e declarações públicas de autoridades norte-americanas voltaram a colocar o Brasil no centro de disputas geopolíticas que ultrapassam a política interna. Ao mesmo tempo em que Washington busca preservar sua influência estratégica na América Latina, o Brasil passou a afirmar com mais clareza uma política externa voltada para a multipolaridade, ampliando relações com países do Sul Global, fortalecendo os BRICS e defendendo maior autonomia nas decisões econômicas e tecnológicas. Esse movimento inevitavelmente produz fricções. Grandes potências operam a partir de interesses concretos e raramente aceitam sem resistência a expansão da autonomia de países com o peso econômico e político do Brasil. Nesse cenário, cada disputa comercial, cada pressão diplomática e cada tentativa de influenciar o debate político interno revelam algo mais profundo. Revelam que a soberania brasileira continua sendo um tema central na disputa internacional.

Foi justamente nesse ambiente de tensão que um fenômeno político importante começou a se tornar visível. À medida que os Estados Unidos intensificavam pressões comerciais, declarações críticas e movimentos diplomáticos dirigidos ao Brasil, a reação interna não foi de isolamento do governo brasileiro, mas de fortalecimento do sentimento nacional. A defesa das instituições e da autonomia do país passou a ocupar o centro do debate público. Nesse contexto, o governo Lula registrou seu momento de maior popularidade no terceiro mandato. A razão não é difícil de compreender. Quando um país percebe que sua autonomia está sendo questionada por pressões externas, a política deixa de ser apenas uma disputa entre partidos e passa a ser interpretada como uma questão de dignidade nacional. Foi nesse momento que o eixo soberania voltou a organizar o debate político brasileiro. E foi também nesse momento que se tornou evidente algo que parte da extrema-direita prefere ignorar. Donald Trump atacou instituições brasileiras, criticou decisões do Estado brasileiro e aplicou medidas econômicas contra o país, mas evitou dirigir ataques pessoais a Lula. A razão é simples. Trump conhece o peso político internacional de Lula e compreende que transformá-lo em alvo direto poderia fortalecer ainda mais a percepção de que o Brasil estava sendo pressionado externamente. O resultado foi claro. Em vez de enfraquecer o governo brasileiro, a escalada de tensões acabou reforçando o sentimento de defesa nacional dentro do país.

É justamente nesse ponto que a narrativa da chamada pacificação começa a ganhar espaço. Diante das dificuldades políticas acumuladas após os episódios de ruptura institucional e das investigações que atingiram o núcleo do bolsonarismo, setores da extrema-direita passaram a defender uma nova linguagem pública. Em vez do confronto permanente que marcou os anos anteriores, surge agora o discurso da conciliação institucional, da moderação e da necessidade de superar divisões políticas. À primeira vista, essa mudança pode parecer um sinal de amadurecimento democrático. Mas uma análise mais atenta revela outra dinâmica. A pacificação proposta nesse momento não nasce de uma revisão crítica do passado recente nem de um compromisso efetivo com a reconstrução institucional do país. Ela surge como instrumento de reorganização política. Seu objetivo é deslocar o eixo do debate público, reduzir o peso das responsabilidades históricas associadas ao bolsonarismo e reconstruir as condições para que esse campo político volte a disputar o poder sob uma nova aparência.

É nesse contexto que a figura de Flávio Bolsonaro passa a ocupar um lugar central na reorganização da extrema-direita. Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e senador da República, Flávio aparece como a peça capaz de preservar o núcleo político do bolsonarismo ao mesmo tempo em que oferece uma imagem pública menos associada ao confronto permanente que marcou os anos anteriores. A estratégia é clara. Manter o capital político construído pelo bolsonarismo, mas apresentá-lo sob uma linguagem de moderação institucional e de suposta responsabilidade política. A chamada pacificação cumpre exatamente essa função. Ela permite reconstruir pontes com setores do sistema político, reduzir a resistência de parte da opinião pública e preparar o terreno para que o bolsonarismo retorne à disputa eleitoral com uma aparência renovada. Nesse processo, a candidatura de Flávio Bolsonaro surge como instrumento de normalização de um projeto político que, na prática, continua profundamente vinculado à lógica de alinhamento externo e de enfraquecimento da autonomia estratégica do Brasil.

O problema central dessa operação política não está apenas na tentativa de reorganização eleitoral da extrema-direita. Ele está no deslocamento do eixo do debate público que essa narrativa produz. Quando a política brasileira passa a ser apresentada como uma disputa que precisa ser pacificada a qualquer custo, o conflito real tende a desaparecer do centro da discussão. E esse conflito é claro. De um lado está a defesa da soberania nacional, da autonomia política e da capacidade do país de definir seus próprios caminhos de desenvolvimento. Do outro está um campo político que, ao longo dos últimos anos, demonstrou disposição para alinhar o Brasil a interesses estratégicos externos, mesmo quando isso implicava tensionar instituições democráticas internas. Ao transformar essa disputa em um problema de polarização que precisaria ser superado por meio de uma conciliação institucional, a narrativa da pacificação acaba produzindo um efeito político concreto. Ela dilui o debate sobre soberania e enfraquece justamente o elemento que mais mobilizou a sociedade brasileira diante das pressões externas recentes.

Diante desse cenário, a estratégia para o campo democrático e soberanista precisa ser clara. O Brasil não enfrenta apenas uma disputa eleitoral convencional. O que está em jogo é o lugar do país em um sistema internacional cada vez mais marcado por disputas de poder e influência. A tentativa de deslocar o debate para uma falsa pacificação institucional não resolve esse problema. Pelo contrário, tende a obscurecer a questão central que hoje organiza a política brasileira. Sempre que a soberania nacional esteve no centro do debate, o país demonstrou capacidade de se unir em torno da defesa de sua autonomia, de suas instituições e de seu direito de decidir os próprios caminhos de desenvolvimento. Esse continua sendo o eixo estratégico capaz de mobilizar a sociedade brasileira. A verdadeira resposta à falsa pacificação não é o silêncio diante das tensões políticas do presente. É recolocar no centro da vida pública aquilo que realmente define o futuro do país. Soberania, autodeterminação e liberdade para que o Brasil cresça e se desenvolva de acordo com os interesses do seu próprio povo.

¨      Jeferson Miola: Grande mídia, Três Poderes e elites contra Lula - a história está se repetindo

O escândalo é Master-bolsonarista, mas a mídia, a oposição e os tentáculos de Daniel Vorcaro no Congresso, na Polícia Federal (PF) e no judiciário desviam o foco para Lula, o verdadeiro alvo a ser atingido e destruído.

O esquema mafioso de Daniel Vorcaro se sedimentou e se expandiu de modo exponencial com Bolsonaro, Paulo Guedes e Roberto Campos Neto.

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Esse tipo de máfia financeira é um produto genuinamente bolsonarista; é resultado do afrouxamento das regras do sistema financeiro na gestão Guedes-Campos Neto que abriu espaço para máfias, esquemas fraudulentos e o crime organizado no mercado financeiro.

Em fevereiro de 2019 o Departamento de Organização do Sistema Financeiro do Banco Central (BC) negou a transferência do controle do Banco Máxima para Daniel Vorcaro depois de dois anos de análises técnicas e exigências não atendidas, inclusive de natureza criminal.

Entretanto, em outubro de 2019, após Roberto Campos Neto assumir a presidência do BC por designação de Bolsonaro, Vorcaro conseguiu reverter a negativa anterior, mesmo sem resolver as pendências levantadas por técnicos do BC durante dois anos. A gestão de Campos Neto tomou a decisão em menos de 6 meses de análise do processo, autorizando a transferência do Máxima para Vorcaro.

Já em julho de 2021, com autorização do BC, o Banco Máxima foi rebatizado como Banco Master, para se reposicionar no mercado “como um banco múltiplo e digital, focado em crédito consignado e estruturado.”

O Banco Central não poderia ter autorizado a operação por inúmeros motivos, um dos quais a existência de mandado de prisão de abril de 2020 contra Daniel Vorcaro por fraudes e desvios em institutos de previdência de municípios investigados na Operação Fundo Fake, da PF.

Conforme a jornalista Mariana Barbosa, do UOL, Vorcaro “ficou foragido, entrou com habeas corpus – até que em 2021 uma decisão da desembargadora Maria do Carmo Cardoso, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, impediu que ele fosse denunciado criminalmente”.

Mariana entende que “a prisão de Daniel Vorcaro nesta quarta-feira [4/3] chega com pelo menos seis anos de atraso. Se a Operação Fundo Fake tivesse ido às últimas consequências, não teria havido Banco Master” e o desfalque que pode alcançar mais de 100 bilhões de reais.

Na eleição de 2022, Vorcaro apostou suas fichas na reeleição de Bolsonaro. Contribuiu com milhões para as campanhas dele, do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e de candidatos da direita e extrema-direita ao Congresso.

O cunhado Fabiano Zettel e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), da igreja Lagoinha, usaram avião de Vorcaro para agendas de campanha sem prestação de contas à justiça eleitoral.

Com a derrota do Bolsonaro e o fim da rede de proteção e blindagem institucional propiciada a ele por Guedes e Campos Neto, Vorcaro precisou ampliar a “sociabilidade política” até então restrita ao bolsonarismo.

A partir de 2023, portanto, ele começou a expandir seus tentáculos nos moldes de Jeffrey Epstein para além do espectro da direita e ultradireita, como estratégia de ampliação da rede de influência na mídia, no Congresso, no Executivo, no Judiciário e no mundo jurídico.

Em paralelo, Vorcaro continuou contando com a ajuda providencial de prefeitos e governadores bolsonaristas e lavajatistas do PP, PL, MDB, União Brasil, Republicanos, etc., que causaram rombos de bilhões de reais nos fundos de aposentadorias e pensões de servidores públicos para comprar títulos podres do Master. O caso do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB) com o BRB é o mais notório.

Apesar dessa realidade que vincula o mafioso ao coração do bolsonarismo, a mídia abriu uma guerra narrativa para arrastar Lula e o governo para o centro do escândalo.

A Globo, por exemplo, entrou em modo Deltan com um powerpoint infame que coloca Lula encabeçando o organograma de “Acessos e Conexões de Daniel Vorcaro”.

Estão tentando alvejar Lula com as falsificações sobre seu filho Fábio Luís, e, também, nos ataques ao STF.

Apostam em debilitar a já frágil governabilidade institucional e democrática do país, e, assim, abrir caminho para um projeto de poder extremista, fundamentalista e autoritário.

Lula é o fator vital que as forças democráticas e civilizadas do país ainda podem contar para deter o avanço do fascismo e da barbárie no país, por isso ele é o alvo central a ser destruído.

A ingenuidade diante desses sinais e sintomas típicos da cultura lavajatista poderá ser fatal.

A história está se repetindo mais uma vez como farsa e tragédia neste escândalo que envolve centralmente políticos, governantes, rentistas, empresários e outros mafiosos vinculados ao bolsonarismo, mas cujo alvo da mídia, da PF e de certos juízes é, outra vez, o Lula!

 

Fonte: Brasil 247/Diálogos do Sul Global

 

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