Sabrina
Fernandes: Criminosos de guerra de Israel estão circulando livremente entre
nós?
Assim
que se espalharam notícias de que os Estados Unidos haviam bombardeado o Irã,
assassinando o aiatolá Ali Khamenei, grupos de jovens turistas israelenses na
Bahia fizeram suas malas e mudaram seus planos logísticos para retornar o
quanto antes a Tel Aviv. Essas imagens circularam entre contas brasileiras nas
redes sociais, onde vários comentários elogiavam os jovens pelo seu
“compromisso” e “patriotismo verdadeiro”. Imagine só, estar no paraíso em Morro
de São Paulo ou Itacaré e, da noite para o dia, ter que abandoná-lo para
defender seu país? Essa narrativa facilmente aceita pelo senso comum demonstra
não apenas o desconhecimento e a desinformação que reinam em temas geopolíticos
– especialmente referentes a Israel, Irã, Palestina, imperialismo e
colonialismo – mas também uma ambiguidade conveniente que tem facilitado a vida
de turistas israelenses, especialmente em países do Sul Global: ora, são apenas
jovens civis tentando se divertir e relaxar um pouco, buscando um respiro da
“vida dura e tensa” em Israel; ora, são reservistas das Forças de Defesa de
Israel – IDF, na sigla em inglês – que estavam em serviço ativo há pouco,
destruindo casas, assassinando crianças, e perseguindo palestinos em Gaza e na
Cisjordânia.
Esses
jovens, que andam pelo Brasil com suas dog tags militares
penduradas pelo pescoço, não precisam de visto para entrar no nosso país e,
portanto, não precisam informar às autoridades brasileiras sobre sua
participação em genocídios. Nem mesmo o fato que seus superiores e líderes, o
primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e o ex-ministro da Defesa Yoav
Gallant são investigados por crimes de guerra, com mandados de
prisão ativos pelo Tribunal Penal Internacional, o TPI, em Haia desde 2024, mobilizou o governo
brasileiro – ou qualquer outro governo latino-americano que reconhece a
Palestina – a cogitar a necessidade de escrutinar um pouco mais os israelenses
que chegam a nosso país e que passeiam por nosso território colando adesivos
com imagens de “soldados israelenses caídos” em muros e árvores.
O
primeiro-ministro de Israel é, provavelmente, um dos maiores criminosos de guerra na história
recente, mas não interessa ao governo brasileiro garantir que reservistas e
soldados que recém-concluíram seu serviço militar durante o genocídio e a
limpeza étnica de palestinos tenham seu histórico e motivações analisados
cuidadosamente antes de pisarem em nossas terras. Caso Netanyahu pise em solo
brasileiro, nosso estado é obrigado a cumprir o mandado de prisão emitido pelo
TPI.
Como os
crimes dos quais o líder israelense é acusado não poderiam ser cometidos sem a
participação ativa de forças armadas tão violentas que os palestinos chamam de
“forças de ocupação” e não de defesa, vale indagarmos por que não preocupa as
autoridades brasileiras a mera hipótese de que soldados que cometeram crimes de
guerra e contra a humanidade estejam circulando entre nós.
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A normalização diplomática de Israel
Apesar
de movimentações diplomáticas e comerciais que resultaram em algumas medidas de
cautela ou reprovação a Israel diante do genocídio, a normalização do estado
segue conforme planejado por autoridades e estrategistas sionistas. Países que
se juntaram às denúncias formais ao TPI e à Corte Internacional de Justiça, a
CIJ, não necessariamente romperam relações diplomáticas com os israelenses. Até
mesmo a África do Sul, notável liderança nas acusações de genocídio e apartheid
por Israel, apenas removeu o encarregado de negócios (chargé d’affaires)
da embaixada de Israel em Pretoria em janeiro de 2026, por “violação de normas diplomáticas”. O diplomata
israelense andava atacando o presidente Cyril Ramaphosa nas redes sociais e
convidando oficiais israelenses à África do Sul sem permissão prévia. Antes
disso, em 2018, o país africano já havia expulsado o embaixador israelense, mas
alguma relação diplomática permanecia mesmo diante dos trâmites na CIJ.
No caso
do estado espanhol, o primeiro-ministro Pedro Sánchez tem subido o tom contra
Israel e Netanyahu nos últimos anos. Além do reconhecimento
formal do
estado da Palestina por Espanha, Noruega e Irlanda em 2024, o governo
espanhol convocou de volta a embaixadora
do país em Israel em março de 2026. A retirada ou chamada de embaixadores “para
consultas” sinaliza relações estremecidas e pode levar ou não a rompimentos. No
caso brasileiro, a chamada do embaixador brasileiro em 2024 deixou um limbo diplomático e até hoje a
representação do Brasil em Tel Aviv está nas mãos de um encarregado de negócios
(como era o caso da África do Sul). Um forte recado diplomático foi dado
pelo presidente da Colômbia, Gustavo Petro, há poucos meses. O país já havia
rompido relações com Israel em 2024 e expulsou o que
restava de delegação diplomática israelense em Bogotá em 2025, quando Israel
interceptou ilegalmente uma das edições da flotilha internacional de
solidariedade. Na ocasião, Petro também suspendeu acordos comerciais, ampliando
a lenta onda de desnormalização militar, comercial e diplomática de Israel na
América Latina.
Apesar
do estado da Palestina contar com governos aliados em nossa região e de algum
progresso no sentido da denúncia do genocídio, ou da suspensão ou cancelamento
de contratos com Israel e suas empresas – como o veto do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva à aquisição de
blindados israelenses da
Elbit Systems e o cancelamento feito
em 2024 pelo então presidente do Chile, Gabriel Boric, da presença de Israel
na Feira do Ar e do Espaço organizada pela Força Aérea Chilena –, um dos
maiores trunfos da estratégia de normalização israelense segue intocado: a
separação artificial entre os líderes de governo israelense e sua base de
cidadãos israelenses sionistas.
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Muitos israelenses participaram ativamente da opressão a palestinos
Embora
muito se fale do serviço militar obrigatório em Israel, há pouca discussão
sobre as consequências disso para o status civil da sua população geral. Muitos
países impõem políticas de
alistamento obrigatório: Brasil, Coreia do Sul, México, Rússia, Angola, Ucrânia,
Suécia, Israel, entre outros. As regras variam bastante. No México, um sistema
de loteria seleciona homens cisgênero, que após um ano de serviço se tornam
reservistas até os 40 anos. Na Coreia do Sul, o serviço é exigido de homens
cisgênero e varia entre 18 e 21 meses.O sistema israelense é mais complexo:
serviço militar obrigatório para israelenses judeus (independentemente do
gênero) e para homens cisgênero israelenses drusose circassianos. O serviço
militar varia entre 24
e 32 meses inicialmente, podendo chegar a vários anos em caso de especialização.
Após o período, os soldados que não optam por carreira militar permanecem na
reserva obrigatória até os 40 anos. A participação de mulheres cisgênero na
reserva é menor, por questões de treinamento, idade e outras exceções – como
maternidade – mas hoje chega a 20%. Recentemente, o IDF também aumentou o
recrutamento ativo
de ativamente para a carreira militar, abrindo cerca de 90% dos postos a
todos os gêneros, elevando a participação de mulheres nas forças de combate a
20,9%.
Cerca
de um terço dos reservistas gerais são considerados reservistas ativos e podem
ser chamados com mais frequência – podendo chegar a quase meio milhão de
reservistas em momentos de alta demanda militar. Ainda assim,
reservistas podem ser chamados para serviço militar de
rotina,
cumprindo 55 dias de serviço nesses casos. A exceção previamente dada aos
judeus haredim foi eliminada em 2024, mas há também a objeção de consciência,
onde candidatos ao serviço militar se recusam a fazê-lo por razões políticas ou
religiosas, além de outras razões e brechas de exceção. Isso quer dizer que
caso algum judeu israelense realmente discorde de seu governo e suas ações
contra palestinos, ele tem a opção de não participar ativamente nas forças de
ocupação. De fato, a organização Mesarvot estima que, no fim das contas, apenas 50% dos
cidadãos israelenses realmente se alistam – lembrando que entre os 10% da
população de haredim ainda é possível evitar servir com outras justificativas e
que 20% da população isralense é composta de palestinos, isentos do
alistamento, que tiveram a cidadania imposta uma vez que o estado de Israel foi
criado em seu território em 1948. Esses números interessam para mostrar
que participar do IDF também é uma escolha e que a narrativa de que
judeus-israelenses que servem no exército só o fazem porque são obrigados não
confere com a realidade. É claro que existem casos onde a recusa por motivos
ideológicos levou a detenções, mas são tantas as
brechas para não servir que percebemos como o serviço militar ainda é
extremamente naturalizado entre os judeus-israelenses que seguem o caminho do
alistamento. Usar as brechas é importante para que um israelense não perca
acesso total a benefícios econômicos e uma rede de conexões valiosas associadas
ao serviço militar.
Diferentemente
do serviço militar brasileiro, onde há treinamento em condições hipotéticas de
guerra, o serviço militar obrigatório do jovem israelense é feito em situações
bastante reais; ou seja, aqueles que escolhem servir sabem que poderão matar
palestinos nesse período, assim como sabem que podem acabar arriscando a vida
caso seu batalhão entre em combate. De certo modo, uma comparação mais
viável seria com soldados russos chamados a servir recentemente e que
participaram de ações de guerra classificadas também como criminosas pelo TPI,
resultando em um mandado de prisão para o presidente da Rússia, Vladimir Putin.
Porém, ainda assim é preciso compreender a extensão da militarização sobre a
vida “civil” israelense. Afinal, há uma porcentagem maior da população
israelense envolvida ativamente no exército e uma ainda maior passou pelo
exército em algum momento de sua vida – um exército ativado não apenas em
momentos de “guerra” (que são vários na história de Israel), mas também todos
os dias como exército de ocupação colonial. Embora os soldados russos devam ser
responsabilizados junto ao seu comandante, no caso de Israel, a
responsabilização é ainda mais ampla.
Considerando
as décadas de apartheid e ocupação militar ilegal por Israel na Palestina, é
seguro afirmar que virtualmente todo cidadão judeu-israelense que cumpriu
serviço militar participou direta ou indiretamente de algum mecanismo de
opressão e violência contra palestinos em Gaza, na Cisjordânia, em Jerusalém e
no território reconhecido desde 1948 como Israel. Considerando também a
anexação ilegal das Colinas do Golã e as operações no Líbano, é possível também
que um jovem israelense de 25 anos ou um engenheiro israelense de 35 anos que
vem ao Brasil passear como turista tenha participado, em algum momento, de
ações concretas de opressão a povos de várias nacionalidades. Reservista ou
não, em algum momento, um jovem judeu-israelense que se alistou foi peça ativa
de uma engrenagem de opressão colonial, denunciada nas instituições
multilaterais globais por violação grave de direitos humanos (inclusive de
crianças), apartheid e ocupação ilegal. Esse entendimento é chave para evitar
argumentos rasos de que judeus-israelenses não deveriam ser cobrados pelas
atitudes de seu governo. Li algumas versões da seguinte frase
recentemente, sobre o desconforto de brasileiros com jovens israelenses que
serviram no IDF e que andam de férias por aqui: “Imagina se todo brasileiro
fosse achincalhado no exterior durante uma viagem de férias simplesmente porque
Jair Bolsonaro era presidente!”.
Às
vezes, as comparações feitas demonstram grande ignorância sobre o sistema de
educação sionista, a realidade militar de israelenses e o apoio da população
israelense geral não somente a Netanyahu, mas à existência do estado de Israel
como força colonial de ocupação. Diferentemente do caso brasileiro, a estrutura
de opressão em Israel não pode ser reduzida a um governo específico, pois
está na origem e razão de
ser do estado.
E diferentemente da oposição ao governo de Bolsonaro no Brasil, por mais que
exista alguma disputa política em Israel, a oposição geral a Netanyahu não se
baseia em solidariedade aos palestinos ou a um desejo de descolonização. O
descontentamento é por corrupção, performance econômica e outras diferenças
ideológicas, já que pesquisa atrás de
pesquisa tem demonstrado, ao longo dos anos, como parcelas significativas da
população de Israel, especialmente de judeus-israelenses, apoiam a expulsão de
palestinos de todo o território e a atuação do IDF.
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A busca por mais soldados
Ao
mesmo tempo, Israel enfrenta uma crise com seus reservistas e o recrutamento ao
IDF. Se, por um lado, há orgulho e naturalização do papel dos soldados e da
estrutura de opressão do estado, por outro, riscos e custos pessoais têm
tornado o IDF menos atrativo com o tempo. Já em 2022 argumentava-se sobre o fim
das exceções ao alistamento por temores de que a soma entre militares ativos e
na reserva não daria conta das “necessidades de segurança” de Israel. Grandes
protestos nas ruas israelenses no ano passado – que chegaram a ser retratados
equivocadamente pela imprensa progressista como protestos de israelenses contra
o genocídio em Gaza – foram motivados pelas frustrações de israelenses com os
gastos de guerra e o frequente chamado de reservistas
para retornar ao serviço ativo em Gaza. Reservistas simplesmente não estão
aparecendo quando chamados e há mais casos de “recusas
ideológicas”,
o que não significa necessariamente apoio aos palestinos, mas desacordo com a
lógica militar e os custos pessoais e sociais de guerra. Por conta disso, o IDF
investiu bastante no último período para recrutar reservistas, inclusive em
redes sociais, em tom similar ao recrutamento via propagandas no Spotify de israelenses
para trabalhar no sistema prisional. Estima-se que 70% das forças
militares israelenses
são compostas por reservistas, o que significa que as chances de participar de
combate ativo são altas e múltiplas para muitos deles.
A
realidade do reservista israelense não é como a de um reservista sul-coreano.
Além de começar guerras e conflitos armados constantes em sua expansão colonial
e imperialista (com o apoio e participação ativa dos Estados Unidos), ao
retornar à ativa, sua atuação militar também envolve diversas tarefas como
forças de ocupação, desde patrulhas e postos de controle até funções
administrativas. Reservistas ativos também recebem benefícios especiais,
como descontos na
aquisição de terras para
a construção de casa residencial e benefícios fiscais individuais,
além de benefícios oferecidos por outras entidades. O Banco de Jerusalém, por
exemplo, oferece taxas especiais para
reservistas do IDF e a empresa aérea El Al Israel
Airlines oferece promoções
ocasionais de milhas aéreas adicionais e passagens gratuitas, além de bagagem
inclusa, assentos preferenciais e opções de reembolso total para soldados
ativos e reservistas. A facilidade de viajar com a El Al é complementada com o
benefício estatal da carteira digital que foi aprovada em um novo pacote de
benefícios para
reservistas em 2026. Além de subsídios, inclusive para estudos, os reservistas
ganham 5 mil novos shekels israelenses (cerca de 1.600 dólares) na carteira que
podem ser usados para lazer, além de apoio ampliado de férias. Tantos
benefícios visam compensar reservistas por interrupções à sua vida “normal”
sempre que são chamados de volta, assim como lidar com a crise enfrentada pelo
IDF, especialmente após a ofensiva desde Gaza em 2023, com baixas, reclamações
e cada vez mais recusas ao alistamento.
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De férias com o batalhão
Não é
incomum encontrar grupos de israelenses viajando o mundo, fazendo atividades
turistas comuns, poucas semanas depois de encerrar períodos de serviço militar
– convencional e como reservistas – em que participaram ativamente da opressão
de palestinos. Recentemente, parece ter aumentado a preferência de alguns
desses grupos por terras brasileiras e são vistos por destinos como Morro de
São Paulo, Itacaré, Ilha Grande, Rio de Janeiro, entre outros. Os grupos chamam
a atenção por várias razões. Uma delas é a prática de colar adesivos em inglês e
hebraico com fotos de soldados israelenses mortos em atividades militares
de ocupação e ataque a palestinos. Sua presença tem chamado a atenção
negativamente também por relatos de comportamento
coletivo problemático:
recusa em pagar couvert e 10% de atendentes; barulho, bagunça e lixo; além de
histórias envolvendo consumo de drogas ilegais, conflitos com moradores e falta
de integração com a cultura local. É também comum que andem com
bandeiras de Israel econfrontem e intimidem brasileiros com bandeiras da
Palestina. Há, ainda, casos postados em rede social pelos próprios
israelenses ou reportados na
imprensa em
que são racistas com cidadãos brasileiros.
Destinos
brasileiros como Morro de São Paulo se popularizaram entre jovens israelenses
após a série Malabi Express, de 2012, que conta precisamente a história de
israelenses que viajam para o Brasil após cumprir o serviço militar. Outros
chegam ao Brasil por conta de festas eletrônicas, como o Universo Paralello
Festival ou Suntribe, com participação de DJs israelenses. Há também
instituições como o Movimento
Chabad-Lubavitch que
tem se estabelecido nesses locais. Em alguns casos, os turistas se hospedam em
acomodações de israelenses residentes no Brasil. De acordo com reportagem
de Malu Vieira do G1, no período
pós-carnaval de 2024 – em pleno genocídio em Gaza – 54% dos turistas
estrangeiros em Morro de São Paulo eram israelenses. Esses dados apontam que
nossa chance de conviver e nos deparar com soldados que participaram
diretamente ou indiretamente de atrocidades contra palestinos não se restringe
aos brasileiros com cidadania israelense, recrutados para
combate pelo IDF;
nem mesmo aos brasileiros que se voluntariam para experiências de atuação como
civis dentro das bases militares do exército de Israel. Nossas fronteiras estão
abertas, aparentemente sem critério algum, a estrangeiros recentemente ativos
em um exército que, por nossa atuação em direito internacional, deveríamos
estar escrutinando e examinando cuidadosamente.
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Visto livre para israelenses
Israelenses
podem visitar 165 países sem necessidade de visto prévio. Em alguns casos, a
visita de israelenses é proibida, como à Argélia, Iêmen, Paquistão e Arábia
Saudita. Recentemente, as Maldivas também passaram a banir a entrada de
pessoas com passaportes
israelenses,
especificamente por conta do genocídio em Gaza. Em contraste, mesmo
países que encerraram algum tipo de relação com Israel continuam permitindo a
entrada de israelenses sem qualquer questionamento sobre atividades recentes e
envolvimento nas forças militares. Os israelenses não precisam de visto para o
México, Brasil ou Chile. No caso da Colômbia, basta preencher um
formulário de e-visa online, que passou a ser exigido em
reciprocidade, já que Israel impôs a exigência de um visto B-2 para visitantes
colombianos meses antes.
A
partir disso, podemos concluir ao menos duas coisas:
- Os governos
supostamente solidários à Palestina continuam ignorando que há uma forte
ligação entre as décadas de ação estatal colonial de Israel e a
consciência e apoio da maioria dos judeus-israelenses. Em 2025, nem as
fortes evidências de que Israel estava orquestrando fome extrema em Gaza
foram suficientes para mobilizar a população israelense. Cerca de 79% dos israelenses não
estavam incomodados com os relatos de fome, segundo pesquisa divulgada em
agosto de 2025.
- Mesmo os países
signatários do Estatuto de Roma não parecem preocupados em verificar se
soldados que participaram em crimes de guerra e contra a humanidade
recentemente estão circulando livremente em seus países, de férias, em
festas, shows, praias, trilhas e restaurantes.
A mera
imposição de um visto de turista poderia acrescentar um filtro adicional para
verificação de israelenses diretamente ligados ao IDF, bem como poderia afastar
visitantes de comportamento problemático. Nos últimos anos, moradores da região
patagônica do Chile e da Argentina têm denunciado soldados israelenses de
férias por provocarem incêndios, em situação que piorou
recentemente,
com o surgimento de vídeos que mostram israelenses acendendo fogo em locais
proibidos, justamente quando o presidente argentino, Javier Milei, anunciou que
iria eliminar limites de compra de terras por estrangeiros e rever a Lei de
Manejo do Fogo que restringe certas atividades econômicas após incêndios. No
Chile, a proposta da Lei de Incêndios tramita lentamente no Congresso. No
passado, autoridades chegaram a deter
israelenses por atividades
criminosas e/ou negligentes com fogo na Patagônia e um dos suspeitos, no
caso dos incêndios de 2012, foi defendido pelo avô por ser “uma
pessoa responsável, que serviu em uma unidade de combate no exército”
israelense.
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Soldados denunciados e procurados
Enquanto
há quem pense que uma passagem pelo exército israelense comunica honra e
responsabilidade, palestinos, aliados e organizações internacionais sabem não
ser o caso. Buscando combater a impunidade com que esses soldados têm circulado
pelo mundo, a Fundação Hind Rajab, a HRF, na sigla em inglês, apresenta
denúncias criminais referentes a soldados específicos quando em países com
jurisdição internacional, como a Argentina, Bélgica, Brasil, Chile, Alemanha,
Espanha, Suécia, Tailândia e outros. Até 2025, a HRF já havia iniciado cerca
de 100 casos contra
soldados israelenses em
vários países, usando evidências como os vídeos que esses mesmos soldados
postaram nas redes sociais durante o assalto a Gaza. No caso de turistas, é
possível que eles deixem o país visitado no momento ou logo após a denúncia,
mas pode haver consequências maiores no caso de soldados com cidadania dupla,
além de impactos na percepção de impunidade. Após um caso específico em que o
Judiciário brasileiro acatou a denúncia feita pela HRF e determinou uma
investigação no começo de 2025, a embaixada de Israel
no Brasil agiu diretamente para facilitar a saída do soldado Yuval Vagdani do país – ação que foi classificada pela advogada Maira Pinheiro como uma
afronta à soberania brasileira.
O
exército israelense então anunciou medidas de “segurança” para
proteger a
identidade de seus soldados na mídia – claramente preocupado que mais soldados
poderiam ser identificados em ações classificáveis como crime de guerra e
demonstrando que não há nada de normal na forma de operação do IDF. Um artigo no The Jerusalem Post argumentou que
o caso indica que os israelenses deveriam evitar viajar para países signatários
do Estatuto de Roma, o que certamente complicaria a vida desses soldados, já
que se trata de 125 países no total. Outros veículos israelenses também
alertaram que o Brasil não seria um destino seguro para seus soldados,
inclusive pela atuação política do presidente Lula em solidariedade à
Palestina, mas isso ainda não foi suficiente para dissuadir os israelenses, que
seguem visitando o país em peso. No começo de março de 2026, a HRF anunciou
a denúncia de mais um
soldado que
esteve no Brasil, Omri Turgeman, integrante do batalhão Shaked da brigada
Givati. Seu batalhão está envolvido na destruição sistemática de infraestrutura
civil na Cidade de Gaza, no ataque à mesquita Al-Taqwa, e no ataque ao hospital
Al-Shifa, onde o IDF foi responsável pela morte e prisão de pacientes e
médicos, pelo corte de eletricidade da unidade e pela destruição generalizada
da infraestrutura. Também há posts de Turgeman em redes sociais que celebravam
a atuação do exército. A organização pede que o país não seja um abrigo seguro
para esses soldados, porém, sem uma arquitetura cuidadosa que avalie melhor os
israelenses que entram no país, o Judiciário brasileiro até poderá agir, mas
será burlado pelo corpo diplomático israelense e pelos planos de fuga que
executam para os seus soldados.
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Como proteger espaços e demonstrar solidariedade aos palestinos?
Iniciativas
da sociedade civil buscam algum nível de proteção, seja para blindar-nos da
presença de soldados que possivelmente cometeram alguma atrocidade recente,
seja simplesmente em solidariedade aos palestinos.
O
movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções está ciente do problema ao
redor do mundo, e propõe a construção de “espaços livres de apartheid”, também
chamados de ELA. Há também voluntários, como donos de acomodações, que têm
exigido que hóspedes assinem declarações de que não participaram de crimes de
guerra, como o caso do japonês Ace Kishi, que eventualmente
foi banido das plataformas de AirBnB e Booking – que não possuem problema algum
com anfitriões israelenses anunciando acomodações em terra palestina e síria
roubada. Nessa linha, o BDS também lançou o “No room for genocide”, ou“Não há
espaço/quarto para o genocídio”, em português. A campanha traz orientações para
a sociedade civil, mas sem abrir mão das demandas aos estados, que devem findar
a cumplicidade que permite o trânsito livre dos criminosos de guerra, como
encerrar os acordos de isenção de visto com Israel e realizar a checagem
adequada de israelenses em fronteiras imigratórias para investigar possível
envolvimento em crimes de guerra.
Além
das campanhas, pessoas podem se voluntariar diretamente com uso de bandeiras
palestinas dentro de estabelecimentos e adesivos colados em vitrines e janelas,
sinalizando sua preocupação. O envolvimento da população geral com o BDS ainda
é uma ferramenta pacífica poderosa, que incomoda autoridades israelenses e
governos aliados, porque revela quão conectados os fluxos de colaboração
capitalista e política são na cumplicidade com a opressão colonial aos
palestinos, sírios, libaneses, e demais povos na região que ousam existir no
caminho de Israel. Além disso, mostra que quando governos falham, é possível
agir como povo organizado, ora marchando pela Palestina nas ruas da sua cidade,
ora assegurando que seu pedaço favorito da praia não será ocupado por quem tem
as mãos manchadas de sangue.
Fonte:
The Intercept

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