segunda-feira, 16 de março de 2026

'Decisão de encerrar a guerra está em nossas mãos’, diz embaixador do Irã no Brasil

O embaixador da República Islâmica do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam Ghadiri, afirmou que o regime israelense governando pelo premiê Benjamin Netanyahu “está sendo danificado” e que “a escolha do encerramento ou do fim da guerra está nas mãos” de Teerã.

Em entrevista exclusiva a Opera Mundi, o diplomata disse que a “matemática não fecha” ao justificar a recusa iraniana em aceitar um cessar-fogo: “não é lógico a gente aceitar esse pedido, porque pode ser que aconteça mais uma vez. Ou seja, eles atacam, pedem cessar-fogo, eles atacam e pedem cessar-fogo”.

Ghadiri recordou que os ataques contra Israel ocorreram enquanto o Irã estava em meio a negociações com os Estados Unidos — cenário que se repete em relação à chamada “Guerra dos 12 Dias”, em junho de 2025. O embaixador destacou ainda que o país superou o “recorde de 12 dias” de conflito registrado no ano passado, chegando ao décimo terceiro dia de retaliação. Nesse contexto, explicou que o Irã mantém como alvos contínuos as bases militares e de segurança norte-americanas e israelenses na região. “Os Estados Unidos estão buscando ter toda a fonte energética para si mesmo”, disse.

>>>> Leia a entrevista:

•        Comecemos pelo momento político mais crítico e recente. Com o martírio do líder supremo Ali Khamenei, como foi possível uma transição tão rápida com a escolha do novo líder, Mojtaba Khamenei?

Abdollah Nekounam Ghadiri: bem, a escolha do líder supremo no Irã é definida pela Constituição da República Islâmica. E depois que o líder supremo foi martirizado, vocês viram que, de forma muito célere, nós escolhemos esse conselho, que foi composto pelo presidente da República, do Poder Judiciário e representante do Conselho dos Guardiões. Nesse período, a decisão de escolha para o novo líder supremo aconteceu por meio da Assembleia de Peritos ou especialistas. E, felizmente, foi escolhido a sua Eminência Mojtaba Khamenei como o novo líder pela Assembleia dos Peritos Especialistas.

É muito importante saber que a escolha do líder supremo acontece por duas vias ou dois caminhos. O primeiro caminho são representantes ou membros da Assembleia dos Peritos, que foram escolhidos por voto do povo. E outro são as especificações religiosas que um líder supremo deve ter, conforme a visão da Assembleia, para que seja escolhido.

•        Essa coesão política em um momento de adversidade extrema sugere uma base social sólida. Como o senhor descreveria a unidade do povo iraniano diante de 47 anos de pressão externa?

É impossível a gente imaginar que um país enfrenta 47 anos de conflito direto com os Estados Unidos devido à sua busca pela independência e que o seu povo não seja unido. Portanto, isso mostra que o povo é unido. Todo o poder que nós temos vem do povo: o poder militar, político, de tecnologia e todas essas questões vêm do povo. É claro que as outras partes que são contra nós sempre, durante esses 47 anos, tentaram manchar essa união do nosso povo. E as outras partes não deixaram de se esforçar de qualquer maneira para criar uma brecha, para criar, na verdade, uma instabilidade nessa união do nosso povo. Mas a nossa população, o nosso povo, sempre apoiou a soberania e a ordem da República Islâmica.

•        E como essa unidade popular se manifesta no atual contexto geopolítico, especialmente com as recentes investidas militares?

Se vocês têm acompanhado os recentes desdobramentos e, certamente, notícias nesses últimos dez ou 12 dias após os ataques do regime sionista e os Estados Unidos, vão ver a presença do povo nas ruas que grita o que ele busca e também as suas ideologias.

•        Como o senhor descreve a estratégia iraniana, especialmente após o ataque que vitimou o líder Ali Khamenei e em meio a alegações de tentativas de negociação?

O líder mártir Ali Khamenei, antes do seu assassinato e desses ataques, teve um discurso que dizia de uma forma clara: “nós não somos quem busca a guerra, nós não somos quem inicia uma guerra. Mas se vão impor uma guerra sobre nós, essa guerra se tornará como guerra regional”. O motivo é que, em junho do ano passado, nós estávamos no meio das negociações com os Estados Unidos, e os sionistas e os Estados Unidos nos atacaram. Desta vez também, nós estávamos no meio das negociações e era prevista uma reunião em Viena dos especialistas iranianos e dos Estados Unidos para discutir as pautas que foram mencionadas na reunião em Genebra. E nós ficamos diante, pela segunda vez, de que os Estados Unidos bombardearam a mesa da negociação.

Na guerra de 12 dias, devido à poderosa resposta e retaliação do Irã, eles pediram o cessar-fogo. E mais, desta vez não é lógico a gente aceitar esse pedido de cessar-fogo, porque pode ser que aconteça mais uma vez: eles atacam, pedem cessar-fogo, eles atacam e pedem cessar-fogo. Essa matemática não fecha. De forma lógica, nós não devemos atender e seguir esse caminho. Nós tínhamos avisado que, se esta vez acontecesse um conflito ou uma guerra, somos nós que decidimos o fim do conflito. A escolha do encerramento ou do fim da guerra está nas nossas mãos. Os Estados Unidos e o regime sionista pensavam que, após o assassinato do líder supremo e também das outras autoridades, tudo tinha finalizado no Irã. Mas devo dizer que o Irã é um país com bases profundas. E essas bases estão, de certa forma, bem espalhadas nas áreas política, militar, da sociedade e econômica, e são bem profundas.

Nós passamos do recorde de 12 dias. Nós estamos no décimo terceiro dia do conflito e estamos firmes. E o regime sionista está sendo danificado e está sob fogos da parte da nossa retaliação, e está sendo de uma forma ampla danificada. E por isso censurou para que as imagens dessas partes que foram danificadas não pudessem ser transmitidas de forma explícita e clara. Portanto, o regime sionista está fazendo questão de censurar esse cenário. E nós estamos chegando num ponto para tirar todo o tipo de pensamento e previsão dos Estados Unidos e do regime sionista para um novo ataque. Nós colocamos como alvos as bases militares e as bases de segurança dos Estados Unidos e do regime sionista na região. E esse alvo vai ser contínuo.

•        Como o Irã enxerga a conjuntura de uma nova ordem mundial e o papel dos Estados Unidos nessa nova configuração?

Os Estados Unidos buscam ser os mais fortes nessa nova ordem mundial e diminuir o papel e o poder dos seus adversários nesse novo cenário. Com certeza vocês estão cientes sobre análises políticas sobre os recentes acontecimentos. Muitos analistas dizem que os Estados Unidos estão buscando ter toda a fonte energética para si mesmo e buscam e se esforçam para que o poder econômico dos seus adversários diminua.

Naturalmente, os outros poderes mundiais estão cientes dessas iniciativas e desses objetivos dos Estados Unidos. E, com certeza, esses países, esses poderes, buscam a preservação dos seus poderes nessa nova ordem mundial, nesse novo cenário. Como nós, como a República Islâmica do Irã, buscamos preservar a nossa posição nesse novo cenário da nova ordem mundial. E o povo enfatiza a busca pela independência exatamente por conta desse objetivo.

•        Nesse contexto de disputa por poder, qual o papel de potências como a China e a Rússia na visão do Irã? O senhor as vê como aliadas ou competidoras nesta nova ordem?

Citei na minha fala todos os países no geral e países poderosos que buscam a sua independência. Fazem os seus esforços necessários nesse cenário. Não há diferença. Não há diferença entre Rússia, China ou países membros do BRICS.

•        Um dos pontos centrais desse conflito de longa data é a questão nuclear. Como o Irã analisa as acusações de que é alvo, sobre a posse de armamento nuclear?

Conforme o Tratado de Não Proliferação (TNP), os países membros têm o direito de enriquecimento e todos os direitos que têm nesse tratado para os países membros. Como nós sabemos que as instalações foram feitas antes da Revolução Islâmica pelos Estados Unidos, mas atualmente vemos que os Estados Unidos, que são contra o enriquecimento e a tecnologia nuclear. E a coisa surpreendente é que os Estados Unidos, na qualidade de um país que usou uma bomba atômica, juntamente com o regime sionista, com dezenas de ogivas nucleares que nem fazem parte do Tratado de Não Proliferação, atacam um país que é membro do TNP. Isso já justifica esse duplo padrão desigual nesse cenário.

•        E qual é a raiz desse desentendimento? Por que o Irã se tornou um alvo tão constante da política externa dos EUA?

Devido à busca pela independência do Irã. Antes da Revolução Islâmica, os Estados Unidos tinham mais de 60 mil conselheiros militares no território do Irã. Eram eles que ordenavam as decisões. E eram eles que ordenavam ao Irã quais eram as ações militares que o Irã deveria tomar ou não deveria fazer. E naquela época chamavam o Irã como um país que controlava a região por meio dos militares e por meio das decisões dos Estados Unidos.

Com a República Islâmica, o povo tirou essa mão que estava lá. Isso foi um peso grande para os Estados Unidos, que perderam um país muito importante na região, principalmente nas questões geopolíticas e também geoeconômicas. Bom, isso foi o motivo pelo qual os desentendimentos e conflitos aconteceram entre a República Islâmica e os Estados Unidos. Devo mencionar que, depois da vitória da República Islâmica, cada dia, cada minuto, os Estados Unidos criaram projetos contra essa independência, contra essa soberania nacional.

•        Essa busca por soberania também se reflete na política externa iraniana em relação à Palestina. Qual a importância dessa causa para o Irã?

Na República Islâmica, a visão sobre a causa Palestina é uma visão fundamental. Essa mesma Constituição que escolheu o novo líder supremo tem outros princípios em si. Um dos princípios desta Constituição é que o governo deve apoiar e defender os oprimidos. Isso é uma lei: nós devemos defender e apoiar os povos e os países que sofrem pela tirania, pelo imperialismo e pelo sionismo. E por isso que a primeira ação que aconteceu de uma forma mais rápida possível depois da vitória da República Islâmica, e o governo que foi feito por meio dessa Revolução Islâmica, foi fechar a embaixada do regime sionista em Teerã e devolver para as pessoas que lutam pela Palestina.

Num período muito curto depois da Revolução Islâmica, o líder desta Revolução, Imam Khomeini, nomeou a última sexta-feira do mês de Ramadã como o Dia de Al-Quds, o dia para que as pessoas que são contra as ocupações do regime sionista possam se unir e proclamar, na verdade, o seu posicionamento a favor da Palestina. Amanhã é esse dia. Amanhã é Dia de Al-Quds, que todos os países islâmicos vão, de certa forma, apoiar o povo palestino.

•        Analista político afirma que Irã tem resiliência e ‘está mostrando que vai seguir de cabeça erguida’

Enquanto a guerra no Oriente Médio se estende além do previsto por Washington (EUA), o Irã demonstra uma resiliência que surpreendeu os estrategistas estadunidenses. A escolha de Mojtaba Khamenei como novo líder supremo — filho do aiatolá assassinado no primeiro ataque — e a manutenção do controle sobre o Estreito de Ormuz são sinais claros de que Teerã não pretende recuar.

No Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o analista internacional e doutorando em ciência política pela UFMG, Henrique Gomes declara: “A eleição de um novo líder supremo surpreendeu analistas. Eu mesmo achava que não iriam fazer isso a essa altura, pois seria colocar um alvo nas costas. Mas eles estão mostrando que não têm medo e que vão de cabeça erguida enfrentar Estados Unidos e Israel.”

O analista destaca que os EUA subestimaram as capacidades militares iranianas. “Houve um erro estratégico da inteligência estadunidense, que achou que já tinha derrubado todas as bases militares mais importantes. Mas o Irã ainda tinha outras, não captadas pela inteligência dos EUA.”

Sobre a não aparição pública de Mojtaba Khamenei — que teve seu primeiro discurso lido por um apresentador na TV estatal —, Gomes explica que se trata de uma medida estratégica. “Grande parte da família dele foi morta no primeiro ataque: o pai, a mãe, a esposa e um filho. Não aparecer não é covardia, é estratégia. Mas fazer o discurso é importante para mostrar que ele está presente e vai liderar o país.”

O analista alerta para a dificuldade de obter informações confiáveis sobre o conflito. “Está sendo difícil se informar. Tivemos semana passada um caso constrangedor em que confirmaram a morte de uma figura que depois apareceu publicamente. Temos que ter muita parcimônia, checar várias contas diferentes e não fazer análises apressadas.”

O controle do Estreito de Ormuz pelo Irã, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, tem sido usado como ferramenta de pressão. “O Irã tem uma posição muito estratégica e uma forte presença militar, consegue controlar o acesso. Já atacou embarcações que tentaram passar desde o início do conflito”, lembra Gomes.

Ele avalia a promessa de Trump de escoltar embarcações pelo estreito. “O Pentágono admitiu que a região é muito complexa taticamente. O Irã colocou minas marítimas para impedir a passagem. Os EUA podem até ter capacidade, mas será limitada.”

Agora, no entanto, o Irã tem flexibilizado o bloqueio para alguns aliados. “As partes estão cientes de que o conflito vai se estender e tentam mitigar os efeitos econômicos. O Irã está permitindo que certos países passem para não prejudicar tanto as rotas comerciais.”

Em meio à crise energética, os EUA anunciaram a flexibilização de sanções para permitir a compra de petróleo russo refinado no mar. A medida foi criticada por aliados europeus. Gomes contextualiza a decisão. “Apesar da rivalidade histórica entre EUA e Rússia, Trump tem um apreço pessoal pela figura de Putin. Enxerga nele um grande líder. Esse aceno é uma forma de tentar mitigar a questão econômica do conflito.”

O G7 também anunciou o uso de reservas estratégicas para conter a escassez e a alta do preço do barril. “Ambas as partes estão tentando mitigar os efeitos econômicos de uma guerra que se prolonga.”

Gomes analisa o conflito como mais um capítulo na crise da ordem internacional liberal capitaneada pelos EUA. “A década de 2020 do século 21 vai ser lembrada como o momento em que essa ordem mais foi contestada. Os Estados Unidos ainda são a maior potência militar, mas não conseguem mais atuar como polícia do mundo. Têm contestações em todos os níveis — econômico, político, militar.”

Ele destaca que uma das principais questões do conflito é impedir que o Irã desenvolva armas nucleares. “O Irã já é um rival declarado dos EUA. Se desenvolver armas nucleares, isso é uma ameaça ao poderio estadunidense, à existência de Israel e ao equilíbrio de poder no Oriente Médio.”

Sobre a posição europeia, o analista aponta que o continente está mais preocupado com a Ucrânia. “A Europa não quer comprar essa guerra entre EUA e Irã. Está se rearmando, com medo de que a Rússia, derrotando a Ucrânia, avance sobre outros países. Vários conflitos acontecendo ao mesmo tempo reconfiguram a ordem internacional.”

Gomes conclui com uma reflexão sobre a centralidade da geopolítica. “Havia quem acreditasse que não haveria mais guerras clássicas de anexação de território. Esse século está mostrando que território importa, que o controle de certos espaços afeta a política global. O Irã está usando a geoeconomia do Estreito de Ormuz como arma, e a interdependência econômica faz com que isso afete todos os mercados globais.”

Sobre as manifestações no Irã, Gomes pondera que, apesar de contestações internas, o perigo externo tende a unir a população. “Nada faz a população defender seu governo mais do que o perigo externo. Muitas pessoas vão se mobilizar em favor do Irã não porque defendem especificamente o novo aiatolá, mas porque não querem ingerência externa nos assuntos domésticos.”

 

Fonte: Opera Mundi/Brasil de Fato

 

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