'Decisão
de encerrar a guerra está em nossas mãos’, diz embaixador do Irã no Brasil
O
embaixador da República Islâmica do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam Ghadiri,
afirmou que o regime israelense governando pelo premiê Benjamin Netanyahu “está
sendo danificado” e que “a escolha do encerramento ou do fim da guerra está nas
mãos” de Teerã.
Em
entrevista exclusiva a Opera Mundi, o diplomata disse que a “matemática não
fecha” ao justificar a recusa iraniana em aceitar um cessar-fogo: “não é lógico
a gente aceitar esse pedido, porque pode ser que aconteça mais uma vez. Ou
seja, eles atacam, pedem cessar-fogo, eles atacam e pedem cessar-fogo”.
Ghadiri
recordou que os ataques contra Israel ocorreram enquanto o Irã estava em meio a
negociações com os Estados Unidos — cenário que se repete em relação à chamada
“Guerra dos 12 Dias”, em junho de 2025. O embaixador destacou ainda que o país
superou o “recorde de 12 dias” de conflito registrado no ano passado, chegando
ao décimo terceiro dia de retaliação. Nesse contexto, explicou que o Irã mantém
como alvos contínuos as bases militares e de segurança norte-americanas e
israelenses na região. “Os Estados Unidos estão buscando ter toda a fonte
energética para si mesmo”, disse.
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Leia a entrevista:
• Comecemos pelo momento político mais
crítico e recente. Com o martírio do líder supremo Ali Khamenei, como foi
possível uma transição tão rápida com a escolha do novo líder, Mojtaba
Khamenei?
Abdollah
Nekounam Ghadiri: bem, a escolha do líder supremo no Irã é definida pela
Constituição da República Islâmica. E depois que o líder supremo foi
martirizado, vocês viram que, de forma muito célere, nós escolhemos esse
conselho, que foi composto pelo presidente da República, do Poder Judiciário e
representante do Conselho dos Guardiões. Nesse período, a decisão de escolha
para o novo líder supremo aconteceu por meio da Assembleia de Peritos ou
especialistas. E, felizmente, foi escolhido a sua Eminência Mojtaba Khamenei
como o novo líder pela Assembleia dos Peritos Especialistas.
É muito
importante saber que a escolha do líder supremo acontece por duas vias ou dois
caminhos. O primeiro caminho são representantes ou membros da Assembleia dos
Peritos, que foram escolhidos por voto do povo. E outro são as especificações
religiosas que um líder supremo deve ter, conforme a visão da Assembleia, para
que seja escolhido.
• Essa coesão política em um momento de
adversidade extrema sugere uma base social sólida. Como o senhor descreveria a
unidade do povo iraniano diante de 47 anos de pressão externa?
É
impossível a gente imaginar que um país enfrenta 47 anos de conflito direto com
os Estados Unidos devido à sua busca pela independência e que o seu povo não
seja unido. Portanto, isso mostra que o povo é unido. Todo o poder que nós
temos vem do povo: o poder militar, político, de tecnologia e todas essas
questões vêm do povo. É claro que as outras partes que são contra nós sempre,
durante esses 47 anos, tentaram manchar essa união do nosso povo. E as outras
partes não deixaram de se esforçar de qualquer maneira para criar uma brecha,
para criar, na verdade, uma instabilidade nessa união do nosso povo. Mas a
nossa população, o nosso povo, sempre apoiou a soberania e a ordem da República
Islâmica.
• E como essa unidade popular se manifesta
no atual contexto geopolítico, especialmente com as recentes investidas
militares?
Se
vocês têm acompanhado os recentes desdobramentos e, certamente, notícias nesses
últimos dez ou 12 dias após os ataques do regime sionista e os Estados Unidos,
vão ver a presença do povo nas ruas que grita o que ele busca e também as suas
ideologias.
• Como o senhor descreve a estratégia
iraniana, especialmente após o ataque que vitimou o líder Ali Khamenei e em
meio a alegações de tentativas de negociação?
O líder
mártir Ali Khamenei, antes do seu assassinato e desses ataques, teve um
discurso que dizia de uma forma clara: “nós não somos quem busca a guerra, nós
não somos quem inicia uma guerra. Mas se vão impor uma guerra sobre nós, essa
guerra se tornará como guerra regional”. O motivo é que, em junho do ano
passado, nós estávamos no meio das negociações com os Estados Unidos, e os
sionistas e os Estados Unidos nos atacaram. Desta vez também, nós estávamos no
meio das negociações e era prevista uma reunião em Viena dos especialistas
iranianos e dos Estados Unidos para discutir as pautas que foram mencionadas na
reunião em Genebra. E nós ficamos diante, pela segunda vez, de que os Estados
Unidos bombardearam a mesa da negociação.
Na
guerra de 12 dias, devido à poderosa resposta e retaliação do Irã, eles pediram
o cessar-fogo. E mais, desta vez não é lógico a gente aceitar esse pedido de
cessar-fogo, porque pode ser que aconteça mais uma vez: eles atacam, pedem
cessar-fogo, eles atacam e pedem cessar-fogo. Essa matemática não fecha. De
forma lógica, nós não devemos atender e seguir esse caminho. Nós tínhamos
avisado que, se esta vez acontecesse um conflito ou uma guerra, somos nós que
decidimos o fim do conflito. A escolha do encerramento ou do fim da guerra está
nas nossas mãos. Os Estados Unidos e o regime sionista pensavam que, após o
assassinato do líder supremo e também das outras autoridades, tudo tinha
finalizado no Irã. Mas devo dizer que o Irã é um país com bases profundas. E
essas bases estão, de certa forma, bem espalhadas nas áreas política, militar,
da sociedade e econômica, e são bem profundas.
Nós
passamos do recorde de 12 dias. Nós estamos no décimo terceiro dia do conflito
e estamos firmes. E o regime sionista está sendo danificado e está sob fogos da
parte da nossa retaliação, e está sendo de uma forma ampla danificada. E por
isso censurou para que as imagens dessas partes que foram danificadas não
pudessem ser transmitidas de forma explícita e clara. Portanto, o regime
sionista está fazendo questão de censurar esse cenário. E nós estamos chegando
num ponto para tirar todo o tipo de pensamento e previsão dos Estados Unidos e
do regime sionista para um novo ataque. Nós colocamos como alvos as bases
militares e as bases de segurança dos Estados Unidos e do regime sionista na
região. E esse alvo vai ser contínuo.
• Como o Irã enxerga a conjuntura de uma
nova ordem mundial e o papel dos Estados Unidos nessa nova configuração?
Os
Estados Unidos buscam ser os mais fortes nessa nova ordem mundial e diminuir o
papel e o poder dos seus adversários nesse novo cenário. Com certeza vocês
estão cientes sobre análises políticas sobre os recentes acontecimentos. Muitos
analistas dizem que os Estados Unidos estão buscando ter toda a fonte
energética para si mesmo e buscam e se esforçam para que o poder econômico dos
seus adversários diminua.
Naturalmente,
os outros poderes mundiais estão cientes dessas iniciativas e desses objetivos
dos Estados Unidos. E, com certeza, esses países, esses poderes, buscam a
preservação dos seus poderes nessa nova ordem mundial, nesse novo cenário. Como
nós, como a República Islâmica do Irã, buscamos preservar a nossa posição nesse
novo cenário da nova ordem mundial. E o povo enfatiza a busca pela
independência exatamente por conta desse objetivo.
• Nesse contexto de disputa por poder,
qual o papel de potências como a China e a Rússia na visão do Irã? O senhor as
vê como aliadas ou competidoras nesta nova ordem?
Citei
na minha fala todos os países no geral e países poderosos que buscam a sua
independência. Fazem os seus esforços necessários nesse cenário. Não há
diferença. Não há diferença entre Rússia, China ou países membros do BRICS.
• Um dos pontos centrais desse conflito de
longa data é a questão nuclear. Como o Irã analisa as acusações de que é alvo,
sobre a posse de armamento nuclear?
Conforme
o Tratado de Não Proliferação (TNP), os países membros têm o direito de
enriquecimento e todos os direitos que têm nesse tratado para os países
membros. Como nós sabemos que as instalações foram feitas antes da Revolução
Islâmica pelos Estados Unidos, mas atualmente vemos que os Estados Unidos, que
são contra o enriquecimento e a tecnologia nuclear. E a coisa surpreendente é
que os Estados Unidos, na qualidade de um país que usou uma bomba atômica,
juntamente com o regime sionista, com dezenas de ogivas nucleares que nem fazem
parte do Tratado de Não Proliferação, atacam um país que é membro do TNP. Isso
já justifica esse duplo padrão desigual nesse cenário.
• E qual é a raiz desse desentendimento?
Por que o Irã se tornou um alvo tão constante da política externa dos EUA?
Devido
à busca pela independência do Irã. Antes da Revolução Islâmica, os Estados
Unidos tinham mais de 60 mil conselheiros militares no território do Irã. Eram
eles que ordenavam as decisões. E eram eles que ordenavam ao Irã quais eram as
ações militares que o Irã deveria tomar ou não deveria fazer. E naquela época
chamavam o Irã como um país que controlava a região por meio dos militares e
por meio das decisões dos Estados Unidos.
Com a
República Islâmica, o povo tirou essa mão que estava lá. Isso foi um peso
grande para os Estados Unidos, que perderam um país muito importante na região,
principalmente nas questões geopolíticas e também geoeconômicas. Bom, isso foi
o motivo pelo qual os desentendimentos e conflitos aconteceram entre a
República Islâmica e os Estados Unidos. Devo mencionar que, depois da vitória
da República Islâmica, cada dia, cada minuto, os Estados Unidos criaram
projetos contra essa independência, contra essa soberania nacional.
• Essa busca por soberania também se
reflete na política externa iraniana em relação à Palestina. Qual a importância
dessa causa para o Irã?
Na
República Islâmica, a visão sobre a causa Palestina é uma visão fundamental.
Essa mesma Constituição que escolheu o novo líder supremo tem outros princípios
em si. Um dos princípios desta Constituição é que o governo deve apoiar e
defender os oprimidos. Isso é uma lei: nós devemos defender e apoiar os povos e
os países que sofrem pela tirania, pelo imperialismo e pelo sionismo. E por
isso que a primeira ação que aconteceu de uma forma mais rápida possível depois
da vitória da República Islâmica, e o governo que foi feito por meio dessa
Revolução Islâmica, foi fechar a embaixada do regime sionista em Teerã e
devolver para as pessoas que lutam pela Palestina.
Num
período muito curto depois da Revolução Islâmica, o líder desta Revolução, Imam
Khomeini, nomeou a última sexta-feira do mês de Ramadã como o Dia de Al-Quds, o
dia para que as pessoas que são contra as ocupações do regime sionista possam
se unir e proclamar, na verdade, o seu posicionamento a favor da Palestina.
Amanhã é esse dia. Amanhã é Dia de Al-Quds, que todos os países islâmicos vão,
de certa forma, apoiar o povo palestino.
• Analista político afirma que Irã tem
resiliência e ‘está mostrando que vai seguir de cabeça erguida’
Enquanto
a guerra no Oriente Médio se estende além do previsto por Washington (EUA), o
Irã demonstra uma resiliência que surpreendeu os estrategistas estadunidenses.
A escolha de Mojtaba Khamenei como novo líder supremo — filho do aiatolá
assassinado no primeiro ataque — e a manutenção do controle sobre o Estreito de
Ormuz são sinais claros de que Teerã não pretende recuar.
No
Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o analista internacional e doutorando em
ciência política pela UFMG, Henrique Gomes declara: “A eleição de um novo líder
supremo surpreendeu analistas. Eu mesmo achava que não iriam fazer isso a essa
altura, pois seria colocar um alvo nas costas. Mas eles estão mostrando que não
têm medo e que vão de cabeça erguida enfrentar Estados Unidos e Israel.”
O
analista destaca que os EUA subestimaram as capacidades militares iranianas.
“Houve um erro estratégico da inteligência estadunidense, que achou que já
tinha derrubado todas as bases militares mais importantes. Mas o Irã ainda
tinha outras, não captadas pela inteligência dos EUA.”
Sobre a
não aparição pública de Mojtaba Khamenei — que teve seu primeiro discurso lido
por um apresentador na TV estatal —, Gomes explica que se trata de uma medida
estratégica. “Grande parte da família dele foi morta no primeiro ataque: o pai,
a mãe, a esposa e um filho. Não aparecer não é covardia, é estratégia. Mas
fazer o discurso é importante para mostrar que ele está presente e vai liderar
o país.”
O
analista alerta para a dificuldade de obter informações confiáveis sobre o
conflito. “Está sendo difícil se informar. Tivemos semana passada um caso
constrangedor em que confirmaram a morte de uma figura que depois apareceu
publicamente. Temos que ter muita parcimônia, checar várias contas diferentes e
não fazer análises apressadas.”
O
controle do Estreito de Ormuz pelo Irã, por onde passa cerca de 20% do petróleo
mundial, tem sido usado como ferramenta de pressão. “O Irã tem uma posição
muito estratégica e uma forte presença militar, consegue controlar o acesso. Já
atacou embarcações que tentaram passar desde o início do conflito”, lembra
Gomes.
Ele
avalia a promessa de Trump de escoltar embarcações pelo estreito. “O Pentágono
admitiu que a região é muito complexa taticamente. O Irã colocou minas
marítimas para impedir a passagem. Os EUA podem até ter capacidade, mas será
limitada.”
Agora,
no entanto, o Irã tem flexibilizado o bloqueio para alguns aliados. “As partes
estão cientes de que o conflito vai se estender e tentam mitigar os efeitos
econômicos. O Irã está permitindo que certos países passem para não prejudicar
tanto as rotas comerciais.”
Em meio
à crise energética, os EUA anunciaram a flexibilização de sanções para permitir
a compra de petróleo russo refinado no mar. A medida foi criticada por aliados
europeus. Gomes contextualiza a decisão. “Apesar da rivalidade histórica entre
EUA e Rússia, Trump tem um apreço pessoal pela figura de Putin. Enxerga nele um
grande líder. Esse aceno é uma forma de tentar mitigar a questão econômica do
conflito.”
O G7
também anunciou o uso de reservas estratégicas para conter a escassez e a alta
do preço do barril. “Ambas as partes estão tentando mitigar os efeitos
econômicos de uma guerra que se prolonga.”
Gomes
analisa o conflito como mais um capítulo na crise da ordem internacional
liberal capitaneada pelos EUA. “A década de 2020 do século 21 vai ser lembrada
como o momento em que essa ordem mais foi contestada. Os Estados Unidos ainda
são a maior potência militar, mas não conseguem mais atuar como polícia do
mundo. Têm contestações em todos os níveis — econômico, político, militar.”
Ele
destaca que uma das principais questões do conflito é impedir que o Irã
desenvolva armas nucleares. “O Irã já é um rival declarado dos EUA. Se
desenvolver armas nucleares, isso é uma ameaça ao poderio estadunidense, à
existência de Israel e ao equilíbrio de poder no Oriente Médio.”
Sobre a
posição europeia, o analista aponta que o continente está mais preocupado com a
Ucrânia. “A Europa não quer comprar essa guerra entre EUA e Irã. Está se
rearmando, com medo de que a Rússia, derrotando a Ucrânia, avance sobre outros
países. Vários conflitos acontecendo ao mesmo tempo reconfiguram a ordem
internacional.”
Gomes
conclui com uma reflexão sobre a centralidade da geopolítica. “Havia quem
acreditasse que não haveria mais guerras clássicas de anexação de território.
Esse século está mostrando que território importa, que o controle de certos
espaços afeta a política global. O Irã está usando a geoeconomia do Estreito de
Ormuz como arma, e a interdependência econômica faz com que isso afete todos os
mercados globais.”
Sobre
as manifestações no Irã, Gomes pondera que, apesar de contestações internas, o
perigo externo tende a unir a população. “Nada faz a população defender seu
governo mais do que o perigo externo. Muitas pessoas vão se mobilizar em favor
do Irã não porque defendem especificamente o novo aiatolá, mas porque não
querem ingerência externa nos assuntos domésticos.”
Fonte:
Opera Mundi/Brasil de Fato

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