segunda-feira, 16 de março de 2026

Gerson Almeida: O simulacro do discurso antissistema

“Se acham que vão me calar, estão muito enganados. Eu vou continuar incomodando o sistema de… Balneário Camboriú.” Com esta frase, o vereador Jair Renan Bolsonaro (PL) finalizou seu discurso. Nele, rebateu as críticas contra a sua atuação parlamentar e manifestou apoio à decisão do seu irmão, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), de abandonar o mandato e montar residência nos Estados Unidos, de onde ele conspira junto ao governo americano contra seu próprio país.

O uso inusitado do termo “sistema” para definir as disputas paroquiais de um município é revelador do esforço da extrema-direita em caracterizar todos os seus adversários como “elite” ou “sistema”, termos que usa indistintamente. O objetivo disso é apropriar-se da retórica antissistema, com o objetivo de ocupar, no imaginário social, o lugar de liderança dos interesses do “povo” contra as “elites” e catalisar todo o tipo de descontentamento e frustração social.

Para sustentar essa retórica, é preciso que a compreensão de “sistema” seja removida de qualquer posição das classes sociais na estrutura econômica da sociedade, do controle dos meios de produção e das transações financeiras; assim como deixe de designar a “elite” como os “melhores”.

Ao esvaziar o entendimento de “sistema” e “elite” de qualquer vínculo com a estrutura da sociedade, o discurso da extrema direita deliberadamente transporta essas categorias para uma nebulosa “guerra cultural”, na qual a discussão dos costumes e da moral passa a ganhar centralidade para alcançar o objetivo de unificar distintos interesses e setores sociais sob o mesmo guarda-chuva.

Segundo o Brasil Paralelo, centro de produção de conteúdo da extrema direita, as causas que unificaram as diferentes insatisfações com a situação do país são: lutar contra a corrupção, contra o comunismo e a defesa das pautas morais favoráveis à família.

A falta de precisão sobre o que significa cada uma dessas causas é um artifício que Ernesto Laclau definiu como “um significante que não possui um significado fixo porque está a serviço de representar uma totalidade ausente” (Emancipação e diferença), que viabiliza a construção de um discurso amplamente flexível, no qual os próprios adversários passam a ser igualmente imprecisos e mudam de acordo com as conveniências políticas de cada momento: professores, o STF, as urnas eletrônicas, a burocracia estatal, o globalismo, o Balneário Camboriú, etc.

Os alvos permanentes são apenas a esquerda (notadamente o PT), as causas progressistas e o “politicamente correto”, que obstinadamente são apontados como a representação do “sistema”. Ao desviar a noção de “sistema” das questões que estruturam a sociedade, o discurso da direita propositadamente limita o seu alcance às questões culturais, morais e de costumes.

<><> Quem controla e estrutura o sistema

Apesar de vender a ilusão de liderar um levante contra o “sistema” e as elites que o defendem, a direita age como a guarda pretoriana de todo tipo de interesse do capitalismo e atua para proteger e reproduzir a hegemonia do capital financeiro e a sua lógica de acumulação sem limites. No atual estágio do capitalismo, os grupos financeiros capturaram o Estado e lutam para transformar direitos sociais, patrimônio público e meio ambiente em ativos para os rentistas.

Para Ladislau Dowbor, há uma mudança profunda no conteúdo dos processos produtivos e, apesar de “continuarmos a produzir trigo e arroz, aço e automóveis”, o “elemento básico de formação do valor, o fator principal de produção, é constituído por um conjunto de atividades intangíveis” que estão deslocando o “eixo central de definição do modo de produção, a forma de extração do excedente e de exploração das populações”, que passa a ser a “rentabilidade dos papéis” (O capitalismo se desloca).

Esse deslocamento do capitalismo acelerou a extração da riqueza e a sua apropriação nas mãos de não mais do que 1% da população. É esta lógica que explica a pressa de Michel Temer – que assumiu a presidência da República após o golpe em Dilma Rousseff (2016) – em viabilizar a mais profunda mudança feita na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) e ampliar a precarização das condições de trabalho, eufemisticamente chamada de flexibilização para reduzir o “custo Brasil”.

O domínio da extração de riqueza por meio do sistema financeiro não substitui as formas anteriores, como o arrocho dos salários e a diminuição do acesso aos bens e serviços públicos de qualidade, mas as suplantou como a principal forma de acumulação e concentração de riqueza.

Portanto, o sistema é o regime de acumulação, no qual o poder financeiro subordina a produção de riqueza e molda o trabalho, o consumo e o modo de vida da sociedade para atender aos interesses daqueles que detêm e concentram capital; o que David Harvey chama de “acumulação por espoliação” (privatizações e transferência de renda para o topo).  O que torna o discurso da direita um simulacro feito para esconder a sua função de escolta política do poder econômico, confirmando que “não há rebeldia real em um movimento que é aplaudido pelo mercado financeiro a cada nova medida de austeridade” (David Harvey, O novo imperialismo).

Basta acompanhar o cotidiano da vida pública para perceber que a direita autodefinida como “antissistema” atua em favor dos interesses do grande capital ao defender a autonomia absoluta do Banco Central, a desregulação radical do mercado financeiro, a precarização do trabalho; ou quando atua para impedir a taxação das grandes fortunas, a mudança na escala de trabalho 6×1 e qualquer tipo de ação contra as desigualdades.

Em todas as disputas concretas no debate político real, invariavelmente a direita toma partido dos interesses do “povo do mercado”, conforme definiu Wolfgang Streeck (Tempo comprado). Ao lutar contra qualquer medida que possa alterar a relação de forças em disputa na sociedade, seu discurso pode ser barulhento, mas é estéril.

<><> A blindagem à corrupção estrutural

Há um esforço hercúleo dos setores hegemônicos para tratar os sucessivos atos de corrupção como desvio individual (“uma maçã podre”) e não como uma característica sistêmica do próprio capitalismo financeiro. A crítica tende a ficar restrita à “moralidade individual” do empresário, do agente público ou de lacunas no sistema de controle, evitando qualquer discussão sobre a própria lógica da financeirização, que permite ao capital financeiro operar de forma fraudulenta – eufemisticamente tratada como “engenharia financeira criativa”.

Isso é possível graças a uma devotada rede de apoio (parlamentares, agentes públicos, imprensa, especialistas etc.) que age para manter a corrupção financeira invisível aos olhos da sociedade e longe do alcance do Estado. O escândalo do Banco Master nos permite observar isso de forma pedagógica.

A Operação Carbono Oculto já havia revelado o uso de fintechs e fundos de investimentos para lavagem de dinheiro (R$ 46 bilhões) para o crime organizado e escancarado a infiltração do PCC na Faria Lima, a meca do sistema financeiro nacional. Essa promiscuidade foi possível pelo uso de mecanismos que permitem a movimentação financeira sem identificar individualmente sua origem, o que dificulta o rastreamento pelo Banco Central.

Ficou claro que, se há dinheiro precisando ganhar respeitabilidade, a estrutura do mercado financeiro está à disposição para lavá-lo. É para isso que as brechas nos mecanismos de controle são meticulosamente preservadas.

Foi o que aconteceu quando uma instrução normativa da Receita Federal passou a obrigar os bancos digitais e fintechs a enviarem informações a respeito de operações acima de R$ 5 mil no Pix. Não demorou para que o deputado Nicolas Ferreira (PL-MG) colocasse em movimento uma poderosa máquina de propaganda para denunciar que o governo queria fiscalizar e tributar todas as operações pelo sistema de pagamento. Era uma mentira, mas o importante é que o objetivo de deixar essas operações fora do alcance da fiscalização foi alcançado.

A ação do deputado foi amplamente homenageada. Exemplos deste tipo são muitos, como a ação do senador Ciro Nogueira (PP/PI), ex-ministro de Jair Bolsonaro, em tentar aumentar em quatro vezes a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para beneficiar a continuidade das operações do Banco Master, em sintonia com a decisão do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), de comprar ativos podres para dar sobrevida à pirâmide financeira do Banco.

A guarda pretoriana dos muito-ricos contou igualmente com o luxuoso auxílio do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que sabia da insolvência do Banco Master desde o início de 2024, mas permitiu que a instituição continuasse captando recursos.

Quando o governo enviou uma proposta para a segurança pública ao Congresso, com o objetivo de corrigir as brechas que impedem a ação do estado contra o crime sistêmico do andar de cima, mais uma vez a rede de apoio foi acionada e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, destacou o seu secretário de segurança, Guilherme Derrite, para coordenar a ação da direita. O resultado foi impedir que houvesse o perdimento dos bens – a apreensão imediata de patrimônio e recursos – do crime organizado e a supressão de dispositivos de combate aos crimes de corrupção como o desvio dinheiro público.

A cereja do bolo foi excluir as empresas de bets do pagamento de tributos que seriam utilizados no combate ao crime organizado. Aliás, esses e outros atores já haviam atuado para que as sucessivas falcatruas das Lojas Americanas, que acarretaram prejuízo de R$ 50 bilhões, ficassem restritas a “erros de gestão” e não afetassem os seus proprietários, incensados ícones do capitalismo nacional.

<><> As suas ideias não correspondem aos fatos

Não é surpresa, portanto, que os debates sobre as falcatruas reveladas pela investigação do Banco Master estejam sendo focados nas instituições responsáveis pela investigação e nas possíveis relações de ministros do STF e/ou de seus familiares com alguma das empresas de Daniel Vorcaro (que, evidentemente, devem ser escrutinadas), e não nas relações orgânicas que permitiram a um pequeno banco crescer rapidamente durante o governo de Jair Bolsonaro e de Roberto Campos Neto.

Não é controverso que Fabiano Zettel, sócio e cunhado de Daniel Vorcaro, foi um dos maiores doadores individuais das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, e que seus aviões e estrutura serviam para dinamizar a campanha de importantes próceres da direita.

Um provérbio antigo e popular em várias culturas ao longo dos séculos, ensina que “atos dizem mais do que palavras”. As ações mostram que a rebeldia da direita contra a corrupção é funcional ao sistema e teatralizada para manipular a indignação e manter ligada a máquina de gerar desigualdades e destruir as políticas de proteção social. Para que o indivíduo permaneça à mercê do capital financeiro e de sua obsessão destrutiva.

O que chama a atenção é a dificuldade que a esquerda tem tido em assumir o seu lugar de verdadeira força disruptiva e debater de peito aberto as razões pelas quais defende que serviços essenciais, por exemplo, não devem ser operados apenas pela lógica do mercado, por serem imprescindíveis ao bem-estar de todos.

É só enfrentando esse debate que poderemos esclarecer que não é o “povo do mercado” que construirá uma sociedade justa, segura, desenvolvida econômica, social, cultural e ambientalmente. Prova disso é a reação contrária da guarda pretoriana da Faria Lima espalhada pelo país. A realidade construída pelo neoliberalismo mostra que o discurso da direita se afasta cada vez mais da verdade, dos fatos.

Nossa tarefa é convencer a opinião pública de que, como disse Michiko Kakutani, em A morte da verdade: “todo mundo tem o direito de ter suas próprias opiniões, mas não seus próprios fatos”.

•        A “tia” e o fascismo da elite. Por Guilherme Scalzilli

Na ressaca da vitória de Jair Bolsonaro, usaram muito a figura da “sua tia” para simbolizar pessoas razoáveis no trato cotidiano que manifestavam ideias espúrias nas redes digitais. Era uma metonímia do bolsonarismo leigo e despolitizado que merecia a compreensão democrata.

O viés machista do termo agregava um componente de suposta fragilidade. As “tias” do país teriam sido vítimas de uma corja maldosa que explorou sua hipossuficiência intelectual. A escalada do fascismo representaria um equívoco pueril de cidadãos desiludidos.

O álibi da ignorância sempre foi ruim. Não ameniza nada, jurídica ou moralmente, pois não serve a diagnósticos fáceis. Para todos os efeitos, não define a “tia”, cujo estereótipo já subentende uma personagem com mais discernimento do que às vezes parece cultivar.

Como sempre, a metáfora revela menos sobre indivíduos reais do que sobre a tarefa discursiva que desempenha. Se a função da “tia” era suavizar a autoimagem das classes média e alta que apoiaram o genocida, podemos supor que ela de alguma forma as representa.

Ora, membros desses grupos têm certa escolaridade, acesso à cultura, conhecimentos gerais. Em privado, manifestam um conservadorismo legível, racionalizado, que sugere influência de fontes noticiosas. Até seu ódio à política sinaliza predisposição a separar verdades e mentiras.

É implausível que a “tia” acreditasse na “mamadeira de piroca”, por exemplo, quando ajudava a divulgá-la. Achou engraçado, merecido, oportuno, mas decerto sabia que se tratava de uma falsidade. No mínimo julgou que o teor factual da denúncia era irrelevante.

Embora testemunhos e pesquisas apontem muitos eleitores que dizem ter confiado nas besteiras digitais, da “tia” não caberia esperar outra resposta. Desmascarado o logro, soa-lhe menos embaraçoso assumir uma ingenuidade do que uma hipocrisia ou mesmo um delito.

Ainda há quem veja as “tias” de outrora no ataque de oito de janeiro de 2023. Mas poucas foram a Brasília. A maioria tem ojeriza a marmita, excursão, torcida organizada. Não que elas discordassem dos vândalos. Apenas evitaram o ridículo de também simular insanidade.

Só que ficaram conectadas com o movimento, abastecendo-o de combustível golpista. A rigor, cometendo incitação a crime. Fingindo que acreditavam que fingir acreditar é atitude militante como qualquer outra. Que exerciam sua liberdade de expressão.

O cinismo pós-mentiroso que uniu a Lava Jato a seus cúmplices qualificados embalou o desagravo à “tia”. Os panos que lustraram a perseguição a Lula e a agenda bolsonarista procuram reduzir o fascismo brasileiro a uma loucura fugaz, genericamente inimputável.

Naturalizar o uso premeditado e sistemático da falácia é o desvio moral que singulariza o fascismo das classes privilegiadas. O sintoma se espalha das “tias” que estimulam os imbecis aos analistas midiáticos que as tratam com parcimônia e aos magistrados que as absolvem.

Quem não sabe definir fascismo nem é consciente de praticá-lo ou disseminá-lo está sujeito à penalização dos crimes conexos, que dispensa motivos programáticos. A ideologia fascista, por sua vez, dissemina-se a partir dos círculos que não podem alegar quaisquer atenuantes.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Jornal GGN

 

 

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