Como
as Big Techs pararam de se preocupar e começaram a amar as bombas
Em
qualquer lista de “questões em aberto” que o mundo enfrentará em 2026, a
inteligência artificial certamente estará entre as principais. As previsões de
adoção generalizada da IA, que substituirá centenas de milhões de
trabalhadores, estão prestes a se concretizar? A bolha da IA vai estourar? Os
Estados Unidos ou a China vencerão a corrida pela “inteligência artificial
geral”?
O livro
de Nick Srnicek, Silicon Empires, não responde diretamente a nenhuma dessas
perguntas, mas, como o autor afirma, “oferece um mapa do terreno em que devemos
lutar”. Ao mapear cuidadosamente o desenvolvimento da IA dentro de seu contexto
econômico e geopolítico adequado, e abrangendo análises tanto dos EUA quanto da
China, o guia de IA de Srnicek pode nos ajudar a manter uma perspectiva
realista e de longo prazo sobre a provável trajetória da tecnologia.
<><>
Além das bolhas e dos chatbots
Já não
é algo estranho dizer que existe uma bolha na IA, visto que isso foi
reconhecido até mesmo por figuras importantes do setor, como Jeff Bezos e Bill
Gates. O CEO da OpenAI, Sam Altman, parece já estar preparando sua empresa para
um resgate estatal. Uma das estimativas da bolha da IA aponta que ela é
dezessete vezes maior que a bolha das empresas ponto-com e quatro vezes maior
que a bolha imobiliária subprime que desencadeou a crise financeira de 2008.
Uma crise está claramente se formando.
A
análise sóbria de Srnicek nos encoraja a olhar além da bolha. O fato de a IA
passar por um período inicial difícil não é novidade e nem surpreendente: a
história dos avanços tecnológicos é marcada por lutas e dificuldades antes do
sucesso. Além disso, é altamente improvável que qualquer crise derrube as
grandes empresas de tecnologia, que são as principais responsáveis pelo
desenvolvimento da IA, devido à força de sua posição no mercado e à sua
importância intrínseca para a infraestrutura digital global.
Como
Srnicek afirma: “Se um inverno da IA se instalar, é improvável que seja
duradouro. O potencial da tecnologia continua muito alto, e a importância das
vantagens de pioneirismo é muito grande, para que as grandes empresas de
tecnologia abram mão voluntariamente do controle sobre a direção do
desenvolvimento da IA […] pensar em termos de bolhas limita demais a visão do
impacto da IA.”
Questionamentos
renovados surgiram sobre o verdadeiro potencial da IA, com céticos apontando
para a desaceleração do progresso na versão mais recente do ChatGPT da OpenAI
como um estudo de caso das limitações do modelo de “escala” que trouxe a IA
generativa até este ponto. Para Srnicek, focar em chatbots como o ChatGPT é
olhar na direção errada. Os investidores depositam suas esperanças no potencial
de “agentes” de IA específicos para cada setor, que podem ir muito além de
simplesmente responder a uma pergunta e, de fato, executar ações para atingir
um objetivo — automatizar fluxos de trabalho em toda a economia. “Chatbots são
um guia inadequado para onde a IA está caminhando, e tanto críticos quanto
oponentes devem garantir que tenham o alvo certo em mente”, argumenta ele.
O que
talvez falte na análise de Srnicek é um aprofundamento no tema das condições
macroeconômicas em que agentes de IA poderiam ser adotados em toda a economia.
O economista Michael Roberts argumentou de forma convincente que uma montanha
de empresas capitalistas “zumbis”, mantidas à tona por crédito barato desde
2008, não é capaz de investir pesadamente em IA. A economia global teria que
passar por um processo sísmico de “destruição criativa” para forjar o espaço no
qual novos atores dispostos a adotar plenamente agentes de IA possam surgir. O
desenvolvimento da IA está, em última análise, condicionado pela dinâmica da
economia política capitalista.
<><>
As estratégias de IA das Big Techs
Olivro
de Srnicek de 2016, Platform Capitalism [Capitalismo de Plataforma],
destacou-se ao conceituar a amplitude dos modelos de negócios de plataformas
digitais que começaram a dominar quase todos os setores, desde plataformas
“enxutas” que terceirizam tudo, exceto o software principal, como a Uber, até
plataformas “industriais” como a Siemens, uma empresa que constrói
infraestrutura de hardware e software digital na indústria. Da mesma forma, um
grande ponto forte de Silicon Empires é a clareza com que explica as diferentes
estratégias que as Big Techs estão adotando no campo da IA. As diferenças de
abordagem são significativas e podem, em última análise, determinar quais
empresas vencerão a corrida para dominar a IA.
A
inteligência artificial (IA), assim como a máquina a vapor e a eletricidade, é
uma tecnologia de uso geral (TUG). Todas as TUGs são caracterizadas por sua
aplicabilidade em toda a economia, exigindo ampla disseminação para se
desenvolverem. Normalmente, o valor dos avanços tecnológicos é capturado
posteriormente, quando são transformados em produtos específicos para cada
setor.
É por
isso que os Estados têm sido historicamente fundamentais para a P&D, já que
podem se dar ao luxo de investir em avanços em tecnologias globais sem visar o
lucro. Foi o caso da internet e dos semicondutores. No caso da IA, as grandes
empresas de tecnologia lideram a inovação, mas precisam operar com modelos de
negócios que visam o lucro.
A
tentativa de conciliar esses dois aspectos levou ao surgimento de quatro
estratégias. Primeiro, a estratégia de infraestrutura busca dominar os
alicerces da economia da IA, sobre os quais outras empresas podem construir.
Amazon e Microsoft são atores-chave nesse cenário, consolidando suas posições
oligopolistas nos mercados de computação em nuvem. Para essas empresas, os
enormes investimentos em data centers representam um investimento no
crescimento futuro da IA, à medida que se preparam para receber aluguéis da
nuvem provenientes dos produtos específicos do setor que dependerão de sua
infraestrutura para operar.
Para
aqueles que se beneficiam da estratégia de infraestrutura, quanto mais
disseminada for a IA, melhor. O CEO da Microsoft, Satya Nadella, elogiou o
chatbot da empresa chinesa DeepSeek, que possui capacidades semelhantes às do
ChatGPT, mas a um custo muito menor, como um grande passo rumo à IA “ubíqua”. A
Microsoft firmou uma parceria com uma organização sem fins lucrativos da área
da educação nos Estados Unidos, oferecendo o uso gratuito do chatbot para
professores “com o objetivo de integrar o sistema educacional estadunidense aos
servidores da Microsoft”.
A
segunda estratégia é liderar nas fronteiras da inovação em IA. OpenAI,
Anthropic e DeepSeek são desenvolvedoras de modelos de IA de ponta. Para quem
adota uma estratégia de vanguarda, manter-se um passo à frente da concorrência
é essencial para capturar valor, pois essa vantagem em inovação é a única coisa
que pode colocar a propriedade intelectual da empresa no centro de um
ecossistema de desenvolvimento mais amplo.
<><>
Tudo e qualquer coisa
Odesafio
enfrentado pelas empresas de ponta é que os custos da inovação são enormes
devido à quantidade de poder computacional necessário para impulsionar a
inovação em IA. Enquanto isso, a tarefa de comercializar esses avanços
tecnológicos é repleta de dificuldades e, quando se dá maior ênfase à
implementação comercial, a pesquisa pode ser prejudicada.
As
empresas de ponta estão apostando na inteligência artificial geral (IAG), o
Santo Graal da IA que a repórter Karen Hao descobriu ser uma desculpa
esfarrapada para o CEO da OpenAI, Sam Altman, descartar todas as críticas às
práticas comerciais de sua empresa. Para Srnicek, devemos simplesmente entender
a IAG como um modelo de IA que pode ser “aplicado em todos os setores”. Isso
eliminaria de uma só vez as dificuldades que as empresas de IA de ponta
enfrentam para capturar valor de suas inovações devido à necessidade de
ferramentas específicas para cada setor. Srnicek descreve o potencial da IAG
como “imenso”, mas é importante que permaneçamos céticos quanto à sua
viabilidade.
A
estratégia de conglomerado, a terceira do gênero, representa uma tentativa de
construir produtos de IA específicos para diversos setores, visando dominar o
mercado da mesma forma que os conglomerados do passado: por meio de propriedade
e aquisições. O Google está na vanguarda dessa estratégia, tendo desenvolvido
tantos modelos fundamentais de IA quanto seus três maiores concorrentes
seguintes (OpenAI, Microsoft e Meta) juntos.
A busca
do Google pelo domínio da IA exige que a empresa possua capacidades em toda a
cadeia de valor da IA: posicionada na vanguarda da pesquisa, com uma base
sólida em infraestrutura e capaz de construir produtos de alta qualidade para
diversos setores. O lançamento, pela empresa, de uma série de ferramentas de IA
para a área da saúde nos últimos anos, desde saúde pessoal até o
desenvolvimento de medicamentos, exemplifica como essa estratégia está sendo
aplicada na prática. Na China, a Huawei está na vanguarda de um grupo de
grandes empresas de tecnologia que estão adotando essa abordagem abrangente
para o desenvolvimento de IA.
Por
fim, há a estratégia aberta, com a Meta nos Estados Unidos e a Alibaba e a
DeepSeek na China como as principais implementadoras. Como o nome sugere, a
estratégia aberta envolve disponibilizar os modelos de IA para que outros
desenvolvedores possam aprimorá-los. No caso dos modelos “Llama” da Meta, isso
não atende ao padrão de código aberto, pois ainda há uma significativa falta de
transparência nos dados de treinamento e nos algoritmos por trás dos modelos.
Mesmo assim, os pesos usados na modelagem estão disponíveis publicamente, o que
facilita o acesso e a modificação dos modelos por outras pessoas.
Que
vantagem a Meta obtém com a estratégia aberta? Outras grandes empresas de
tecnologia estão construindo muros de proteção em torno de sua propriedade
intelectual, criando uma zona exclusiva de interação com parceiros
selecionados. A Meta, por outro lado, consegue construir um amplo ecossistema
em torno de sua propriedade intelectual, que atrai naturalmente pesquisadores e
desenvolvedores. Estes, por sua vez, farão seus próprios aprimoramentos e
descobertas, que “podem então ser facilmente incorporadas aos sistemas internos
da Meta”. Essa é uma estratégia que pode reduzir significativamente os custos
da empresa de Mark Zuckerberg a longo prazo.
<><>
A ascensão do “complexo tecnológico-industrial”
Em seu
discurso de despedida em janeiro de 2025, Joe Biden alertou para os riscos de
um crescente “complexo tecnológico-industrial” nos Estados Unidos. Isso ecoou
conscientemente as palavras de Dwight Eisenhower ao deixar a Casa Branca em
1961, quando expressou, de forma memorável, seus temores sobre um “complexo
militar-industrial” que poderia dominar a democracia estadunidense.
Assim
como o complexo militar-industrial, o complexo tecnológico-industrial combina
poderosos interesses estabelecidos dentro do Estado, principalmente o
Departamento de Guerra, com os maiores atores do mercado privado, que hoje são
as grandes empresas de tecnologia. Essa é uma aliança de classes que se
consolidou muito recentemente. Como Srnicek destaca, Google, Meta, OpenAI e
Anthropic se opunham ao uso de ferramentas de IA para fins militares no início
de 2024. Todas essas empresas mudaram de posição em menos de um ano, e algumas
rapidamente fecharam parcerias com empresas do setor de defesa.
A
mudança drástica de postura deve-se em parte à necessidade econômica. O
desenvolvimento de IA é caro, e as forças armadas oferecem a perspectiva de
financiamento substancial e de longo prazo. Mas a virada geopolítica tem raízes
mais profundas. Houve uma notável mudança ideológica entre as elites
tecnológicas nos EUA, afastando-se do que Srnicek chama de “Consenso do Vale do
Silício” em direção ao “tecnonacionalismo”.
O
Consenso do Vale do Silício era essencialmente um compromisso entre as elites
tecnológicas com a globalização neoliberal liderada pelos EUA. Políticos e CEOs
de empresas de tecnologia compartilhavam a crença na capacidade da tecnologia
de criar um mundo de comércio e dados sem fronteiras, liderado pelos Estados
Unidos. A regulamentação branda do setor tecnológico significava que o Vale do
Silício tinha poucos motivos para se preocupar com a interferência estatal. No
exterior, Washington ajudava a manter as economias estrangeiras abertas à
tecnologia estadunidense e limitava a imposição de impostos e regulamentações
estrangeiras às grandes empresas de tecnologia dos EUA, enquanto as cadeias de
valor entre todas as principais empresas de tecnologia se estendiam da China
aos Estados Unidos, mantendo os custos baixos.
O que
acabou com o Consenso do Vale do Silício foi a ascensão da China, que abriu uma
nova constelação de conflitos de classe e interesses. As gigantes chinesas da
tecnologia começaram a se tornar concorrentes reais para suas rivais
estadunidenses, mudando os cálculos do Vale do Silício. Enquanto isso, desde
pelo menos o primeiro mandato de Donald Trump, o Estado priorizou a dominação
tecnológica estadunidense em detrimento da interconectividade global. Isso
continuou durante a presidência de Biden, com o endurecimento das sanções a
tecnologias críticas como semicondutores, e sob o segundo mandato de Trump,
floresceu no que Srnicek chama de “visão tecnonacionalista da supremacia
estadunidense e da inovação irrestrita”.
O nível
de integração entre as grandes empresas de tecnologia e o Estado é agora
inegável. Um contrato de US$ 9 bilhões do Pentágono para uma “capacidade
conjunta de computação em nuvem para fins militares” inclui todos os grandes
players de nuvem dos EUA: Amazon, Google, Microsoft e Oracle. Os laços entre
empresas de tecnologia e os militares aumentaram rapidamente. Srnicek constata
que não é coincidência que o surgimento do complexo tecnológico-industrial
tenha coincidido com a “guerra travada pelas grandes empresas de tecnologia
contra seus trabalhadores”, muitos dos quais têm buscado resistir à
militarização.
A
ascensão do tecnonacionalismo nos Estados Unidos encontrou paralelo na China.
Assim como nos EUA, as elites do Partido Comunista Chinês começaram adotando
uma postura de não intervenção em relação ao surgimento de grandes e poderosas
plataformas digitais na China, buscando incentivar o crescimento do setor.
Contudo, com o aumento das tensões com os Estados Unidos, o presidente chinês
Xi Jinping passou a direcionar as empresas de tecnologia de acordo com as
prioridades do Estado. Isso envolveu a repressão a muitas empresas focadas em
facilitar o consumo, como as plataformas da economia compartilhada Meituan e
DiDi, ao mesmo tempo em que pressionou as empresas de tecnologia a contribuírem
para o desenvolvimento industrial, já que essa é a razão de ser do governo do
Partido Comunista Chinês.
Assim,
tanto nos EUA quanto na China, observamos o surgimento de uma potencial nova
ordem hegemônica “devido ao desmantelamento das coalizões de classe entre os
interesses econômicos do Estado, os interesses de segurança estatais e os
interesses do capitalismo de plataforma”. Srnicek se mostra cauteloso quanto às
perspectivas de consolidação dessa nova ordem, destacando as tendências
contrárias que se afastam do tecnonacionalismo militarizado e da relativa
independência das grandes empresas de tecnologia em relação ao Estado. Mas a
era da globalização neoliberal claramente chegou ao fim, e a consequente fusão
entre Estado e grandes empresas de tecnologia em torno de uma visão
nacionalista para a IA acarreta perigos extremos para todos.
<><>
Qual o próximo passo?
Em uma
disputa entre os Estados Unidos e a China pela supremacia na inteligência
artificial, qual país tem maior probabilidade de sair vitorioso? A análise de
Srnicek inclina-se para a ideia de que a China, apesar de apresentar muitas
fragilidades em relação aos EUA, pode muito bem vencer a corrida tecnológica.
O
raciocínio é surpreendentemente simples: enquanto a indústria tecnológica dos
EUA se concentra na inovação, a prioridade da China é a adoção, e é provável
que a adoção seja decisiva a longo prazo devido à necessidade de uma tecnologia
de uso geral como a IA se difundir por toda a economia para atingir seu
potencial máximo:
Nas
revoluções industriais anteriores, as grandes transições de poder levaram a
essas transições não porque um país monopolizou os lucros, mas sim porque um
país se destacou na adoção de uma nova tecnologia e a utilizou para transformar
drasticamente toda a sua economia em termos de produtividade e crescimento.
Essa transformação generalizada de toda a economia — e não de um único setor
líder — é o que permite que as grandes potências emergentes ultrapassem e
superem as hegemonias estabelecidas.
Independentemente
do resultado dessa disputa, é improvável que a tecnologia se divida
decisivamente em dois hemisférios, leste e oeste, devido à complexa interação
das cadeias de valor internacionais. Em vez disso, haverá uma “sobreposição de
diferentes camadas geopolíticas [tecnológicas]”, sendo a busca por um
equilíbrio entre o poder estadunidense e o chinês uma estratégia viável para
muitos países, embora desafiadora de se concretizar.
Diferentemente
do livro de Srnicek de 2015 (escrito em coautoria com Alex Williams), Inventing
the Future [Inventando o Futuro], que incentivava a esquerda a abraçar a
automação como parte de uma visão pós-capitalista, Silicon Empire evita propor
políticas radicais para a IA. Srnicek se restringe a apenas duas exigências:
contra uma guerra entre os Estados Unidos e a China, e de que as grandes
empresas de tecnologia não devem ter permissão para dominar o desenvolvimento
da IA.
Esses
são pontos de partida úteis para orientar a esquerda em relação à IA, mas, em
última análise, será necessária uma agenda mais ambiciosa. Qualquer programa
socialista contemporâneo que se preze deve ser capaz de explicar qual o papel
que a IA deve desempenhar na economia e na sociedade, como deve ser regulada e
qual deve ser sua relação com o Estado e entre os Estados. Independentemente do
que aconteça em 2026 com a bolha da IA, os desafios políticos impostos por essa
poderosa tecnologia só aumentarão com o tempo.
Fonte:
Por Ben Wray - Tradução Pedro Silva para Jacobin Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário